Meu Deus! Isto fala!

Postado em 11 de abr de 2011 / Por Marcus Vinicius

A exclamação que intitula este texto foi feita em 1876 por ninguém menos que o Imperador Dom Pedro II, ao testar a novíssima invenção de Graham Bell: o telefone.

Mais de 100 anos depois, não seria nenhuma surpresa se ouvíssemos alguém dizer a mesma coisa ao completar sua primeira ligação com um iPhone, afinal de contas, o telefonezinho de Steve Jobs faz quase - espera-se um chafariz de marshmallow para a próxima versão - tudo, até ligações.

A verdade é que desde o momento em que surgiu, o telefone passou a fazer parte da vida humana, tal qual a mentira, a hipocrisia e os carboidratos.

Se algum Debret alienígena chegasse à Terra para pintar os costumes dos nativos, provavelmente desenharia o homem com uma das mãos eternamente junto à cabeça, segurando aquela caixinha que emite sons e vozes.

Sons e vozes que, aliás, diferem o usuário de telefone do mala telefônico. O usuário tem seu celular, seu toque e utiliza aquilo ali dentro dos parâmetros de privacidade que a Constituição Federal lhe garante.

Já o mala telefônico utiliza o celular para ouvir música alta em locais públicos (cinemas têm preferência especial), chegando a ser incrível como ter péssimo gosto musical parece estar diretamente associado ao hábito de ouvir música berrando.

Depois vêm os toques. O simples "trimmm" de antigamente evoluiu (?) para funks, sons estridentes e vozes falando grosserias ou piadas sem graça. Não sei porque, mas tem gente que acha uma boa idéia sair por aí com um aparelho no bolso que a qualquer momento pode berrar algo como "atende logo isso, seu corno!".


E pode esperar: quanto mais chato, escroto ou irritante for o toque, mais a pessoa vai demorar para atender. Às vezes de propósito, às vezes porque não consegue achar o telefone na bolsa, o que nesse caso é algum tipo de castigo divino.

A moça lá numa reunião no trabalho e de repente ouve:

- Piranhaaaaa, piranhaaaaa, atende essa porra!

Pena que o sofrimento não termina quando o mala telefônico atende a ligação, porque eles geralmente gostam de falar alto, como se todo mundo em volta estivesse interessado em discutir relação junto com ele, em saber onde será a próxima micareta ou em conhecer novas desculpas para despistar os atendentes SPC.

Por falar em atendentes, como não lembrar da turma do telemarketing? Andróides de filmes são repetitivos, mas compensam isso sendo inteligentes. Pois o telemarketing conseguiu a proeza de criar andróides burros.

São eles que te ligam num sábado de manhã para oferecer uma imperdível promoção de assinatura de revista, que de R$ 200, 00 agora só custa R$195,00 e ainda dá um boneco do Galvão Bueno de brinde.

Mas o pior é fazer a assinatura e tentar cancelar depois. São eles que "vão estar te transferindo" para outro, e mais outro, e mais outro até que terminem garantindo que se você cancelar mesmo o serviço, alguma criança na China será escravizada por 10 anos.

E a esquisitice que é ouvir o telefone tocar e berrar "já vai!" ou então "o telefone tá tocando!"? O toque do telefone faz isso com a gente.

Pois mais que não estejamos esperando uma ligação, sempre que ele toca já imaginamos logo que é algo urgente, importante. Não dá pra deixar pra outra hora, porque infelizmente telefonema não é igual e-mail que vem com assunto.

Pode ser alguém da família passando mal, você pode ter ganhado algum sorteio - mesmo nunca participando de nenhum - e vai perder uma visita à Mansão Playboy com direito a jacuzzi e tudo ou então é apenas o futuro amor da sua vida que está ligando pro número errado e você vai deixar de conhecer porque está muito ocupado jogando Playstation.

Não tem jeito, um telefonema tem que ser atendido. Na hora. O telefone exige atenção, dedicação. É preciso parar seja o que for que estivermos fazendo para ouvir tudo o que a pessoa do outro lado tem a dizer. Você não pode tomar banho ou ler jornal falando ao telefone e também existe uma impossibilidade física de falar em dois telefones ao mesmo tempo, com um em cada orelha.

Como você pode ver, é quase uma relação amorosa, igual a tantas que começam e terminam por esse mesmo telefone.

Desde o "me dá o telefone do cachorrinho", passando pelo "me liga depois pra gente sair", chegando ao "desliga você primeiro...", terminando com um "nunca mais me ligue, seu filho da puta!".

5 Comentários:

Tuka Siqueira postou 11 de abril de 2011 10:47

Ainda estou no aguardo do chafariz de marshmallow pra comprar meu iphone...
Mas a espécie de malas telefônicos é a que mais aumenta no mundo, junto com adoradores de funk e pagode e gente que ignora noções básicas de português.
Eu não desgrudo do meu celular, ele é minha garantia de segurança já que possuo problemas de saúde e posso precisar de ajuda. Mas quando saio, quase sempre levo ele na mão ou em algum bolso externo da bolsa onde possa ser facilmente atendido.
Adoro seus textos, já disse isso muitas vezes né? Também tenho meus momentos mala...

Abraços

Anônimo postou 11 de abril de 2011 12:00

Falando em telefone.... Bem que vc podia deixar o seu de lado de vez em quando, né? :)

Isabel

Gustavo Ca postou 11 de abril de 2011 14:18

Quanto mais as pessoas tiverem recursos para serem mal-educadas ou ridículas, mais elas serão, aproveitando todas as oportunidades possíveis.

Maysa postou 12 de abril de 2011 11:54

meu Deus, como odeio e preciso do telefone: carrega pra lá e pra cá, como se não atender fosse matar meus filhos (hoje só eles são importantes).
Ser mãe pirada, sempre presente, embora eu more em outra cidade.
Com o fixo já não sou mais assim: desligo, e se ligado, deixo tocar e depois olho no bina. Ainda consigo isto com o danado do celular.
Excelente crônica!
Bjs Angela

Claudia postou 12 de abril de 2011 15:23

o quão incrível é descobrir através de um blog que existe alguém a 1.500Km de distância cujos pensamentos estão em perfeita sintonia com os seus!

 
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