Carioca way of life

Postado em 12 de ago de 2011 / Por Marcus Vinicius

Nasci na cidade errada. Muito antes das pessoas que me conhecem pronunciarem esta sentença, eu já sabia lá no fundo que, ainda que goste de muitas coisas do Rio de Janeiro (talvez nem tantas, talvez muitas por hábito), eu não possuo no "âmago do meu ser" o carioca way of life.

Acho que descobri isso mais ou menos na época em que admiti preferir sentir frio e me agasalhar do que cultuar uma estação onde você sua e passa calor 24 horas por dia, como é o escaldante (e adorado) verão da "Cidade Maravilhosa".

Esse negócio de Cidade Maravilhosa também ajuda a denunciar minha dissidência carioquesca. Não concordo absolutamente com este título, muito menos com o tal de "cidade mais linda do mundo". Porque? Quem decidiu isso? A pessoa que diz isso já conheceu o mundo inteiro, cidade por cidade, para saber?

Claro que a visão do Redentor sobre a montanha, da Enseada de Botafogo coalhada de barcos e do litoral deslumbrante com uma cidade apertada entre o mar e os morros é bonita, mas o problema é que se você desviar o olhar em meio grau verá que o resto dos morros é tomado por barracos, se chegar perto sentirá o cheiro de podre da água da Enseada e se resolver pegar sol numa das belas praias, pode terminar sem a bolsa ou a carteira.

E aí entra outra diferença minha com o carioca way of life, que é o fato de todo carioca legítimo, o tal "da gema" saber que a cidade é suja, caótica, cheia de mendigos, flanelinhas, favelas, camelôs, tudo que é tipo de praga urbana, mas se tomarem de dores quando alguém resolve falar disso.

"Pera aí! Toda cidade grande tem problemas!" é o bordão preferido. Concordo, toda cidade tem problemas, mas o Rio de Janeiro parece querer resumir todos os problemas numa cidade só.


Tirando isso, outra coisa que me afasta de ser um carioca legítimo é não curtir aquela coisa do "mermão", do "bora pro ensaio do bloco?" ou "eu curto um samba no pé". Não sou Flamengo, acho a Mangueira um porre, blocos de Carnaval pra mim são ajuntamentos de desodorante vencido, não curto essa coisa de bancar malandro ou de achar que o resto da população do Brasil se resume a otários, caipiras e viados que morrem de inveja das minhas praias.

O que é irrita também é a "vida cultural" que o Rio de Janeiro possui. Dizem que é a capital cultural do Brasil, tudo bem, pode ser, mas a diversidade não é o forte. A noite carioca é feita literalmente para inglês ver.

Botequins com sambinha, feijoadas com sambinha, bares com sambinha e sambinhas com sambinha. Quem não curte essa coisa de Lapa-Havaiana-no-pé-calcanhar-sujo sofre para encontrar o que fazer.

Claro que existem exceções (senão a não daria pra habitar aqui nem mesmo sabendo que minha família inteira está na cidade), mas para a grande maioria dos cariocas a idéia de cultura, moda e diversão se resume a sambinha na Lapa, feijoadas musicais, hippies vendendo pulseirinhas, funk-favela, coisas feitas com garrafas PET, pessoas batendo em latas, coisas feitas com coisas recicladas, artesanato ameríndio-africano-colorido-mu​derno, capoeira e, claro, jongo em Santa Teresa.

Essa coisa de adoração por favela aliás é um parêntese dos grandes. Filmes sobre favela, músicas de favela, instalações em centros culturais mostrando barracos (como se fosse possível viver aqui sem ver montes deles), excursões de turistas para favelas, etc, etc, etc. Não dá pra engolir.

É complicado aderir, mesmo pra alguém que nasceu na cidade.

Aí quando resolvo dizer estas coisas, me chamam de baba-ovo de paulista, de reclamão, dizem que isso é porque eu não como ninguém ou porque eu quero é que me comam (dependa da imaginação do interlocutor), xingam e não conseguem entender como alguém pode falar mal de coisas assim, tão, como diria, "maravilhosas".

Nessa hora me solidarizo com baianos que não gostam de axé, pernambucanos que não gostam de frevo, russos que não gostam de vodka e até americanos que resolvem se alistar no Talibã.

6 Comentários:

Pk Ninguém postou 12 de agosto de 2011 10:55

Excelente texto, camarada. Também sou carioca e também penso da mesma forma, acrescentaria algumas coisas, poucas, mas conseguiu descrever muito bem aquilo que sei que outros, como nó, também sentem.

Luiz Junior postou 12 de agosto de 2011 11:25

Muitos cariocas xingando o post, outros adorando. Faço parte do segundo grupo, principalmente no réveillon e no carnaval.

Gustavo Ca postou 12 de agosto de 2011 19:01

Isso não é nada. E se sentir nascido no país errado?.. ou no planeta errado.. =/

Marcelo Pereira postou 13 de agosto de 2011 11:53

Brilhante texto. Concordo com tudo o que disse e assino embaixo.

HJ postou 15 de agosto de 2011 16:22

Cara vo te falar uma coisa: eu moro em SP mas não gosto nem do RJ e muita coisa me desagrada aqui, acho que perdi um pouco aquele espírito metropolitano de "sobreviver" em cidades caósticas. Na altura do campeonato eu sinceramente arriscaria mudar de país.
Obs: Também odeio calor e não consigo imaginar como tu consegue conviver com ele, rs.
Abs

Anônimo postou 17 de agosto de 2011 03:39

Excelente texto... não sou carioca, não vivo sua realidade e, sinceramente, não tenho vontade de conhecer o Rio (ou São Paulo). Não por preconceito com nenhuma das duas, mas pq caos por caos, fico em BH mesmo, que também já tá difícil de viver. O fato é que detesto rótulos colocados por alguns e aceitos pela grande maioria. Isso tira nossa opinião própria. Ou como vc mesmo disse: quem falou isso? será que ele conhece o contrário pra dizer? enfim, muito bom o texto. primeira vez que entro no site e o cartão de visitas foi excelente!

 
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