Meu irmão não é um serial killer (e nem dançarino de axé)

Postado em 31 de ago de 2011 / Por Marcus Vinicius

Uma das frases que eu mais ouvi na vida é que existem amigos que são irmãos. Concordo com isso, muitos amigos tornam-se mesmo quase irmãos, quase.

Porque tem diferença. Amigos são convergências quase totais, são pessoas que se aproximam por afinidade, por gostos em comum, antipatias em comum, enfim, não existe aquela imposição genética que é o irmão de verdade.

Quem não é filho único sabe bem do que eu digo. As brigas pelo controle da TV, dividir o mesmo quarto, ir no banco de trás do carro implicando um com o outro até levar uns cascudos ou um esporro dos pais, fazer castelos de areia, jogar futebol na garagem de casa usando o portão como gol, dedurar o outro, sentir raiva um do outro e se juntar nas horas em que dá merda pra um deles.

Falo isso porque tenho um irmão que é diferente de mim em quase tudo, quase.

Enquanto eu prefiro andar pela Praia de Copacabana, ele prefere caminhar entre os prédios da Avenida Nossa Senhora. Enquanto eu fumo uma cigarrilha por dia, ele fuma meio maço de cigarros (meio porque tem mania de jogar o cigarro fora na metade, o que é ótimo, mas não tão bom quanto se ele parasse de vez).

Eu gosto de Smiths, daquela guitarra dedilhada e discreta do Johnny Marr, ele não detesta Smiths, mas também não é louco por eles como eu sou. Meu irmão prefere guitarristas virtuosos, como Steve Vai e Yngwie Malmsteen, com aqueles solos que me deixam atordoado e quase surdo. Eu não sou louco por esses guitarristas, na verdade detesto. Acho que prefiro ficar trancado num quarto com uma serra elétrica ou um CD da Cláudia Leite. Pensando bem, só a serra elétrica mesmo.

Sempre gostei de festas juninas, feiras de ciência, festinhas americanas e de ficar com as meninas (as que, sabe-se lá porque, me queriam, é claro). Meu irmão gostava de ficar no quarto conversando com os amigos, ouvindo música e tinha pavor das mesmas festas que eu não perdia de jeito nenhum. Correu atrás de meninas, é claro, mas namorou quase todas elas.

Todo mundo tem fases na vida, eu já tive, você já teve. Mas as do meu irmão eram fases incríveis. Quase virou russo, quase virou chinês, torceu pelos quatro grandes clubes do Rio de Janeiro e desconfio que pensou seriamente em tentar torcer pelo Bangu, mas desistiu a tempo.


Não entrava na água do mar, ainda que passássemos férias em Cabo Frio todo ano e, quando raramente fazia, ia de roupa e tudo, igual um iraniano. Andávamos na mesma turma, mas nossos amigos tinham um papo diferente para cada um de nós.

Comigo, sacanagens, saídas e garotas. Com ele, sacanagens, saídas, garotas e guitarras.

Sou de humanas, gosto de ler, escrever e observar pessoas. Ele é de exatas, chegou a começar a cursar Matemática, mas não teve muita paciência para observar números.

Conseguimos discordar em quase cada ponto de vista, gosto ou opinião. E nas únicas vezes em que concordamos totalmente, geralmente fizemos merda, como votar no Lula em 2002.

Quem vê de fora (e às vezes até nós mesmos, vendo de dentro) pensa que a gente se detesta. Não estão de todo errados, muitas vezes nos detestamos mesmo, afinal, o cara tem a ousadia de querer dividir a mesma mãe e o mesmo pai comigo, sabe como é, partilha de progenitores gera uns problemas, mas tudo passa.

Porque diferente de amigos, que se unem e viram irmãos por convergências, irmãos brigam e até viram inimigos por um tempo, mas a convergência os puxa de volta pelas orelhas, afinal, genética é que nem esporro de avó: coloca tudo no seu devido lugar.

Na verdade, como não amar alguém que dividiu a mesma barriga contigo, a mesma infância contigo, a mesma casa, o mesmo quintal, a mesma escola, as mesmas alegrias? Quer mais convergência do que isso?

É até bom que se discorde do resto todo, senão haja saco. Claro que se eu ou ele fossemos, sei lá,  serial killers ou dançarinos do "É o Tchan", talvez precisássemos rever a situação, mas felizmente não é o caso.

Existem amigos que se tornam irmãos e assim o são. Mas irmão é irmão, nem precisa "virar" amigo pra ser, porque já nasce feito. Na hora do "vamos ver", está ali, porque a amizade em si, é fraternal.

É a força do DNA, meu chapa, jamais a subestime (principalmente se o seu irmão for mesmo um serial killer, mas aí já é problema seu).

3 Comentários:

Celene postou 31 de agosto de 2011 07:41

Gostei muito do texto! Eu em minha irmã também somos extremamente diferentes. Tanto fisicamente quanto nos gostos. Eu tenho olhos e boca pequenos. Ela tem olhão e bocão. Eu sempre fui a CDF. Ela sempre gostou de movimento.Brigávamos muito quando criança e discordamos muto agora adultas.Fui fazer Medicina e ela de Educação Física (E meu irmão de Engenharia). Mas sempre fomos complementares. Quando fazíamos balé eu eram melhor coreógrafa e ela melhor dançarina. Mas num momento que tive de grande dificuldade foi ela quem deu maior apoio. Meu irmão tremeu nas bases.)
O mais importante eé entende e respeitar as diferenças!

Lucianna Cabral postou 31 de agosto de 2011 07:42

Como sempre, post perfeito!

Isabel postou 31 de agosto de 2011 11:05

Hummm.... Tá mesmo com saudade do maninho, né? rss

 
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