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O que foi, amigo, engoliu um amplificador?

Postado em 5 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Vamos ver: nós temos britadeiras de obras, engarrafamentos com buzinas de motoboy, e aquele barulho legal que faz o freio dos ônibus. Tudo isso e mais o seu chefe histérico, sua cunhada histérica e o seu priminho de 6 anos - que parece ter saído de um filme sobre a infância de um serial killer - também histérico.

Existe o telefone tocando, o celular que canta Sweet Child O' Mine e a creche da esquina com 50 vozes esganiçadas que jamais se calam. Tem a campainha da porta, a sirene da polícia, o barulho dos bombeiros e a gritaria da ambulância.

O latido do cachorro, o miado do gato, os grunhidos dos políticos e, claro, o caminhão de som do sindicato. Por falar em caminhão, tem o trio elétrico, tem os cantores de trio elétrico, as bandas de trio elétrico e os fãs de trio elétrico, todos fazendo barulho à vontade. E por falar em trio elétrico, tem outro caminhão, o do lixo, também adora fazer um barulho, de preferência na magrugada.


Tem o grupo de pagode, equipes de som que tocam funk, a bateria da escola de samba e a batucada do Olodum. E já que falei de músicos (ou algo bem parecido), tem também o tenor da ópera, os graves do Ed Motta e os agudos das duplas sertanejas. Jamais esquecendo os berros dessas cantoras americanas tipo a Beyonce.

Os coros das torcidas de futebol, o seu vizinho gritando na janela quando o time dele faz um gol, os técnicos na beira do gramado e o Galvão Bueno com seus "Rrrrrrrrubinho", "Rrrrrrrronaldo" ou "Anderrrrrrson Silva".

O casal de vizinhos que grita diálogos de filme pornô toda noite depois do Programa do Jô e as paredes finas do seu prédio, que te fazem sentir medo deles a atravessarem com a cama um dia e você se ver no meio de uma mulher vestida de Princesa Leya e de um cara fantasiado de Adolf Hitler.

Os gritos dos vendedores de biscoito nos sinais, de mate e sorvete na praia e, claro, o "Seu Juca", que todo dia passa embaixo da sua janela anunciando " "Ó o vassoureeeeiroooo".

Junte isso tudo e adicione festas rave, festas infantis e festivais de rock. Igrejas evangélicas e pastores de praça, batuqueiros de mesa de bar e jogos de truco. Sem contar aquele seu professor com voz de gralha, as músicas e gritinhos da aula de aeróbica da academia e os botequins lotados.

Sei que poderia continuar essa lista até cansar, mas acho que já deu pra você perceber como você não está sozinho nesse verdadeiro esporte nacional que é se comunicar gritando.

Por isso eu te pergunto: com um mercado tão amplo para você explorar todo o potencial das suas cordas vocais, precisa vir falar alto logo perto de mim? Vira essa boca amplificada pra lá.

Eu tive um sonho...

Postado em 13 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Acordei num dia em que os tablóides de 0,50 centavos não traziam nenhum escândalo ou frase de duplo sentido estampados, a Luciana Gimenez resolveu fazer medicina na Universidade Estácio de Sá e abandonou seu programa de variedades, a turma do Pânico cansou de fazer sempre a mesma coisa e foi apresentar um programa sobre hermenêutica na TV Cultura e a novelinha Malhação saiu do ar, depois que um dos atores de sua primeira temporada teve o primeiro neto.

Era um Brasil diferente, o Magazine Luiza vendia estantes para livros e as crianças não entendiam como alguém um dia realmente pôde gostar de "Ai, se eu te pego", sem falar em micaretas, que hoje só podiam ser vistas no Museu do Mau Gosto, junto com uma reconstrução cenográfica da Gaiola das Popozudas.

Curiosamente, o brasileiro não ficou menos brasileiro por isso, continuava com essa tendência genética a falar alto e trazer sempre uma gargalhada histérica pronta para ser disparada a qualquer momento, mas pelo menos parou de consumir toneladas de entulho no café, almoço e jantar, o que já era grande coisa.

Tiriricas ainda passeavam pelo Congresso, afinal, velhos hábitos não morrem facilmente, mas o cidadão médio cansou de ver sempre a mesma coisa, num loop de "É o Tchan", "Rebolation", "Bonde do Vinho", "Brasil Urgente" e "A Fazenda".


Das novelas, sobrou só a das oito, mesmo assim a título de preservação do patrimônio, já que apenas senhorinhas que já passaram dos 70 anos ainda assistiam aquilo.

Diziam que foi algo que os americanos colocaram na água, alguns suspeitaram de vazamento na usina de Angra, mas o fato é que eu achei bem legal o que vi.

Mas o mais pitoresco, o que mais chamou minha atenção, foi a velha casa do BBB. Algumas pessoas moravam ali, paredes de vidro e pequenas passarelas guiavam os visitantes sobre aquele zoológico humano.

Alguns atiravam um contrato para a capa da Playboy para uma moça, que em troca fazia gracinhas dentro de uma piscina, tal qual uma foca ou um golfinho em troca de um peixe.

O impacto foi tanto, que tive que perguntar a uma daquelas pessoas que observavam o porque daquilo tudo, e a explicação mostrou que eu estava realmente sonhando:

- Sabe o que é, moço, é que a audiência do BBB caiu, ninguém mais votava em paredões, ninguém comprava o pay-per-view, então resolveram tirar o programa do ar, só que esqueceram os BBBs presos aí dentro da casa.

- Que isso, e ninguém soltou?

- Nada, o Eike Batista comprou a casa de porteira fechada, com os participantes dentro e tudo, cercou e começou a cobrar ingresso, dizem até que foi por isso que passou o Carlos Slim como o homem mais rico do mundo.

Ah, os velhos carnavais!

Postado em 23 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Quem nunca ouviu da avó ou de um tio essa frase "ah, os velhos carnavais é que eram bons!"? E dá-lhe a falar de pierrôs, colombinas, melindrosas, batalhas de confete e escolas de samba "de verdade". Só que eu tenho uma teoria: aquela época não era melhor, eles pensam assim porque eram mais novos e ainda não tinham visto tudo.

Falo isso porque cada vez que assisto a TV na época do Reinado de Momo - termo que, aliás, acaba com o glamour de qualquer monarquia - fico com a impressão de que já vi aquilo antes.

Reportagens sobre a Bahia, sobre o frevo em Pernambuco, a correria das escolas de samba para aprontar alegorias, o que comer e beber para se manter alimentado e hidratado durante a "folia", os blocos de rua, as fantasias criativas (quantas versões de um Darth Vader serão necessárias para que essa fantasia deixe de ser criativa, aliás?), tudo é rigorosamente igual ao que passou no ano anterior e no outro e no outro.

As bebedeiras, o movimento nas estradas, os engarrafamentos, os supermercados lotados (eventos que, diga-se de passagem, se unidos à varrição da casa de praia poderiam virar um enredo chamado "A Peregrinação Anual da Classe Média Praiana" ou algo assim).


Por falar em enredo, adoraria ver o que aconteceria com as escolas de samba se proibissem de falar sobre Bahia, Amazônia, África e Jorge Amado. Porque as únicas coisas que são menos surpreendentes do que esses enredos são os carros alegóricos que sempre quebram e as rainhas de bateria que passam a impressão de, juntas, possuírem um QI de 0,5.

Tenho quase certeza de que se as emissoras resolverem passar um VT de qualquer carnaval passado ao invés de transmitir ao vivo o desse ano, ninguém vai notar a diferença (exceção às escolas de samba de São Paulo, que sempre inovam falando de temas tão interessantes quanto óculos escuros, guaraná Dolly e nuggets).

O resto do Brasil não foge muito à regra. Quem não sabe que em Salvador o carnaval dura mais de uma semana, que em Olinda todo mundo passa quatro dias fingindo que adora frevo e que no final da festa o "bloco dos garis entra na avenida"?

Mais clichê mesmo só comentaristas de desfile de fantasias e entrevistadores tarados nos bailes (que sempre passam a impressão de estarem acontecendo sem cessar numa espécie de universo paralelo desde os anos 70).

E o amedrontador é saber que ano que vem vamos assistir a tudo isso outra vez, com um monte de gente se espantando como se estivesse diante de uma novidade de cair o queixo.

Não é a toa que até hoje verdadeiros exércitos de soldados do "pavê ou pacomê" repetem sem cansar a piada da Mangueira entrando.

O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)

Postado em 2 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Mais do que um tsunami, do que os juros do cartão, muito mais do que o Jason para um casal que foi transar no meio do mato num local deserto (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?), o que eu tenho medo mesmo é de mudança.

Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.

E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.

Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".

Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.


Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).

Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.

E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:

- Esse é o apartamento reformado?

- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?

- Embaixo do monte de entulho?

- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.

- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?

- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.

- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?

- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?

- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.

- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.

- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.

- Só que pelo que você pode pagar, dois quartos real mesmo só se for no subúrbio ou numa comunidade, aliás, tem uma casa alugando do lado da casa da moça pendurando roupa no varal, quer dar uma olhada?

E pra completar, bem, digamos que você encontre algo que possa pagar e morar sem passar as noites dormindo como um bebê:  acordando de duas em duas horas e chorando enquanto se pergunta "porque eu?".

Ainda vai precisar arrumar os fiadores, o seguro, todas as cópias de seus documentos incluindo a certidão de batismo e a carteira do Clube do Mickey, além de um testemunho de idoneidade prestado por um tabelião, um delegado, um fiscal da receita, um sósia do Elvis e um rabino.

Pensando bem, acho que agora sei porque todas aquelas pessoas nos filmes vão parar no meio do mato.

O Brasil é assim, muito legal, sabe? Menos nas férias

Postado em 12 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Nunca entendi essa turma muito bem definida pelo Antônio Prata como "meio intelectual, meio de esquerda". Sério, porque até desculpo o gosto deles por botequins imundos, afinal é uma opção pessoal, mas o que me deixa meio intrigado é a preferência deles por transformar o mundo num botequim ruim.

Pode notar: sempre que alguma prefeitura de qualquer lugar do Brasil resolve ordenar alguma área, eles aparecem. Se é uma operação para coibir camelôs, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer destruir o "comércio popular".

Se é uma ação para transformar algum pedaço de chão chamado de "Cracolândia" num conjunto de praças e prédios, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer fazer uma gentrificação da área.

Quando a polêmica gira em torno da remoção de alguma favela, bem, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer promover higienismo. Se for retirada de população de rua, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer atentar contra o sagrado direito de morar e defecar na calçada.

Se é para coibir a prostituição em algum rua, claro! Será o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques querendo sequestrar nossas prostitutas para trabalhar como missionárias mórmon nos EUA.

É curiosa essa fixação deles pela manutenção do lixo, ratos, depententes químicos, barracos, valas negras, prostituição, como se fossem bens antropologicamente intocáveis. Afinal, se isso é que faz o Brasil ser Brasil,  essa "mistura" que deu certo (???), a terra da "tolerância", porque não deixar como está?


Gente boa, esclarecida, assim "meio intelectual, meio de esquerda", curte é pobreza, mas não o pobre que trabalha na portaria do seu prédio ou o que lava o seu carro importado em troca de 5 reais, tem que ser aquela pobreza alegórica, de pés no chão, casa de sapê, aquela coisa vanguardista, social, engajada.
 

Um lixão jamais pode deixar de existir, favelas então nem pensar, afinal, rendem umas fotos maneiras, uns curta-metragens legais para apresentar por aí em algum festival. Gera debate e, acima de tudo, proporciona uma forma deles se mostrarem moralmente superiores aos outros (esses insensíveis que não curtem lixo na calçada, vala negra, essas coisas tão brasileiras).

Imagina só: sem uma favela para comer uma feijoada e bater palmas num "samba de raiz", como essa gente ia se mostrar assim...de raiz? Como iriam esfregar na cara da sociedade elitista que eles são tão bons que até se misturam com o populacho? Claro que na hora de fazer um mestrado eles preferem a Europa, afinal, virar advogado com diploma de uma faculdade de fundo de quintal financiado pelo crédito educativo é coisa de pobre metido a besta e eles não são nem uma coisa nem outra.

Mas quando voltam da Europa eles chegam cheios de saudade. Correm logo pro botequim pra se empanturrar com caipirinha e farofa, botam o CD de forró pra tocar sem parar no Citröen, se envolvem com alguma ONG que luta contra a construção de um shopping center onde antes existia um cortiço e se dedicam sem pausa à manutenção de todas essas coisas tão legais que fazem o Brasil ser Brasil, como trocar o Halloween pelo Dia do Saci.

Porque o Brasil é assim, muito legal, sabe? Menos nas férias, porque aí eles vão visitar os velhos amigos que fizeram durante o mestrado na Europa.

Viaje sem sair de casa

Postado em 27 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

De vez em quando eu cismo com isso e ainda que procure não pensar no assunto ele sempre volta à minha cabeça: brasileiro que viaja para o exterior e vai comer em restaurante de comida brasileira merecia ser deportado no ato.

Lógico que se você estiver curtindo uma temporada de 10 anos prospectando petróleo na Sibéria, é normal que sinta saudades de uma farofa, um bife acebolado, um biscoito Torcida. Mas viajar 5, 10, 15, 20 dias que seja e ficar ansioso porque está sem o seu "feijãozinho" é caso de polícia. Polícia mesmo, sério.

Uma vez durante uma viagem passei no avião por uma mulher vestida com a camisa da Seleção, agasalho do Comitê Olímpico Brasileiro, boné com a bandeira e desconfio que se os avisos não mandassem desligar os celulares o dela tocaria "Todos juntos vamos, pra frente, Brasil!". 

Nada contra a pessoa gostar do próprio país (ainda que em se tratando do Brasil eu não entenda a maioria das coisas que as pessoas gostam), mas precisa sair pelo mundo fantasiado de bonecão do posto em época de Copa do Mundo?

Não adianta, tem gente que é xarope mesmo, pode ir para Roma, que não faria diferença alguma se fosse para São Gonçalo ou Arraial D'Ajuda. O cara viaja, mas vai ouvindo funk. Sai pra comer e procura uma feijoada. Vai beber e pede caipirinha. Entra no Louvre, mas diz que espetáculo mesmo é o desfile na Sapucaí.

Mas como esse pessoal têm todo o direito de viajar ao exterior e continuar se comportando como se estivesse em Banânia, nada melhor do que criar alguns serviços para eles, não é? Imagina só: o cara viaja 4 dias para Buenos Aires mas chora como um bebê com saudades de ouvir um vizinho tocando um funk nas alturas, sente falta de olhar um morro e não ver lixo e nem barracos, quase se mata porque não acha um flanelinha sequer pedindo dinheiro.




Mole, basta construir uma rede de parques temáticos chamada "Favelaland", com tudo o que tem direito: churrasquinho de gato, cerveja Schin e um grupo de pagode fazendo show na beira de uma vala negra. E para honrar a prestação de serviços da terra natal, os brasileiros ali pagariam caro para ser mal atendidos.

Até os gringos poderiam aproveitar a experiência, conhecendo de perto como é a sensação de viver no país do samba, futebol e Carnaval. Gigantescos aquecedores manteriam a temperatura dentro do parque oscilando entre 40 e 45 graus, naquela temperatura de cloaca bem ao gosto do "país tropical".

Um corredor de barraquinhas de camelô recepcionaria os visitantes, todas vendendo tênis Mike, camisas Abidas, agasalhos Pumma e bermudas da Holimpikus. Logo em seguida cachorros-quentes "podrão", suco Hula Hula, pipocas com toucinho e peles de porco. Uma vez por dia (logo após o desfile diário das escolas de samba) haveria uma chuva artificial que causaria uma enchente totalmente planejada e o visitante ainda ganharia uma leptospirose de brinde.

Para completar a experiência todos teriam acesso à prestação de contas da construção do parque, que obviamente teve obras atrasadas e superfaturadas. Na saída, todos pagariam entrada novamente, afinal, carga tributária escorchante também é "coisa nossa".

No final todo mundo sairia feliz: os gringos porque tudo não passaria de um programa de índio de um dia, a brasileirada porque não precisaria sentir saudades de casa e pessoas como eu, que não precisariam esbarrar com esses tipos quando estão viajando por aí.

Não é uma boa idéia? 

O revolucionário de shopping center e o mendigo da praça

Postado em 1 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Os jovens do mundo estão possessos. Ocuparam praças e exigem: que caia o sistema! E um dos companheiros já estava acampado ao lado daquele chafariz há três semanas. Deu sorte, já que não ficou perto do exaustor da pizzaria. Todo mundo que montou a barraca ali acabou ficando com cheiro de fetuccini.

Ele estava indignado. Muito.

Sabe como é, a fome na África, os magnatas cada vez mais ricos, os impostos sobrecarregando o preço do iPad, o fato de terem colocado maçã como acompanhamento do Mc Lanche Feliz, a fome na África, a fome...bem, muita coisa pra ficar indignado e ainda por cima tinha a Daniela, aquela riponga do terceiro período da faculdade que prometeu que ia dar uma indignada com ele na barraca caso ele a ajudasse no Occupy a Praça.

A única coisa ruim era essa tenda apertada. Pediu dinheiro pro pai para comprar uma com ar-condicionado e frigobar mas quando o burguês progenitor soube o motivo, o mandou ir ocupar a putaquepariu.

Se ainda fosse um resort em Maresias ou Búzios, mas acampar? Numa praça?

Pegou emprestado a cabaninha da Turma da Mônica da irmã mesmo.

Chegou cedo, montou tudo ao lado do tal chafariz (o pessoal da "acampada" brincava dizendo que ali era a Ipanema da praça, a Vieira Souto dos indignados). E repetiram tanto a brincadeira que a turma do Chafariz resolveu parar de andar com a do exaustor, sabe como é, não iam se misturar com aquela ralé fedendo a queijo ralado.

A turma do exaustor por sua vez até pensou em fazer uma ocupação dentro da ocupação e invadir o chafariz, mas deixaram pra lá, afinal Vieira Souto é coisa de burguês.

Nesse dia ele já estava meio de saco cheio da barraca da Turma da Mônica e pensou seriamente em protestar contra aquela situação, recorreria a uma ameaça: enquanto não ganhasse uma barraca nova em formato de iglu não sairia mais do acampamento todo dia para ir em casa tomar banho e comer sucrilhos no café da manhã e nem passaria mais fio dental.

Ia se banhar no chafariz junto com o populacho e tomaria a revolucionária decisão de negligenciar sua higiene bucal. Mas a revolta tinha que ficar para o dia seguinte, já que a riponga deu um toque nele que essa noite ia passar lá na barraca para eles descabelarem o Che Guevara.


Participou o dia inteiro de reuniões importantíssimas onde votaram uma moção de repudio ao Kadafi (que devido à falta de consenso só pode ser aprovada depois que o povo líbio já tinha liquidado o ex-coronel com um balaço) e deixaram bem encaminhada (depois de 11 horas de importantes deliberações) uma declaração de apoio à Trotski contra os stalinistas.

Saiu dali cansado de tanto trabalho, mas ainda conseguiu correr para comprar um vinho e uns pedaços de queijo de Minas (preferia camembert, mas a riponga poderia achar isso coisa de almofadinha).

Estava tudo preparado quando alguém o chamou do lado de fora da barraca. Era um companheiro de acampamento, trazendo pela mão um morador de rua.

- Beleza, companheiro, tudo bem? Será que você pode acolher o companheiro mendigo aqui na sua barraca?

- Pô, cara, essa barraca é minha e já está apertada...

- Mas companheiro, é justamente contra isso que nos indignamos! O sistema é apertado!

E por aí foram, um defendendo seu direito à propriedade da tenda da Turma da Mônica e o outro querendo fazer a reforma social naquele metro e meio quadrado de pano.

Depois uns 20 minutos de deliberação sem a "construção de um consenso",  o cara resolveu se abrir:

- Sabe o que é? Ele ia dormir na minha barraca, mas é que a Daniela, sabe quem é? Uma hippiezinha? Então, ela vai dar uma passada lá hoje e o mendigo vai atrapalhar...

- Pera aí, mas a Daniela disse que ia na minha barraca hoje!

- Nessa pobreza de Turma da Mônica aí?

- Pelo menos é no Chafariz...

- Melhor uma barraca espaçosa perto do exaustor da pizzaria do que um cubículo nessa Vieira Souto de araque, seu burguês!

E começaram a sair na porrada ali mesmo. Enquanto isso, o mendigo foi embora procurar um abrigo da prefeitura.

Lá é menos animado, mas pelo menos ele ganha uma sopa.

A hipótese Mega-Sena

Postado em 7 de nov. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Se a Rainha Elizabeth tivesse quatro rodas e um volante, não seria a Rainha Elizabeth, seria um Rolls Royce. Ainda assim, pouca gente consegue resistir às conjecturas. Gostamos de imaginar os "ses" e os "como seria" o tempo todo.

É quase uma daquelas brincadeiras de criança onde fingimos ser o Batman, o imperador de Roma, um jogador de futebol, um piloto de Fórmula 1, bailarina, princesa, esposa de magnata russo. Depois de um tempo a gente desiste de voar usando capas, de pilotar em corridas ou de viajar para o espaço e nos concentramos em coisas mais mundanas, tipo iates, mulheres, carros de luxo, mulheres, dinheiro, mulheres.

E assim surge a hipótese Mega-Sena.

Todo mundo sabe que na realidade a Mega-Sena é um jogo de azar que nunca é ganho pelo seu colega de trabalho, pelo seu vizinho e muito menos por você, mas ainda assim cada vez que acumula um prêmio, filas de gente que acreditam que dinheiro não traz felicidade se formam na frente das casas lotéricas.


E todos fazem o mesmo exercício de masturbação mental que até os mais pessimistas, como você e eu, também já fizeram um dia: e se eu ganhasse esse prêmio? Porque tanto dinheiro assim te possibilita fazer um monte de coisas que você gosta, mas principalmente te possibilita não fazer coisas que detesta, o que, convenhamos, é muito mais legal.

Não ir a festas de fim de ano da firma, não participar de amigos ocultos, não precisar puxar papo com ninguém na hora do cafezinho, não andar de metrô, não ter vizinho de cima e nem do lado, só presenciar um engarrafamento de cima do seu helicóptero, viver preocupado com jet-lag, com os efeitos do consumo excessivo de Blue Label e caviar de beluga, coisas assim.

Mas o que eu faria mesmo é patrocinar certas invenções, como uma tecla mute pra gente chata, uma nave para transportar todos os ecochatos pro Planeta Pandora, uma máquina do tempo pra despejar todos os esquerdistas de butique num Gulag do Stalin

Agora, nem se anime muito com a hipótese Mega-Sena, porque a menos que você more no interior Piaui, do Maranhão, de Mato Grosso ou de Goiás (que é de onde sempre saem os ganhadores desse negócio), estatisticamente suas chances de ganhar alguma coisa são nulas.

A estatização do Canecão foi um show...de incompetência.

Postado em 5 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

No Brasil falar em privatização pega mais mal do que dizer que o Maradona foi melhor do que o Pelé.

Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".

Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.

Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.

Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".

Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.


Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".

Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".

Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.

No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.

Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".

O Canecão assim foi tomado das mãos dos "porcos capitalistas" para ser transformado nisso nisso aí: mais um exemplo do porque o poder público não existe para controlar telefonia, TV a cabo, lanchonetes, aeroportos, carrocinhas de pipoca e nem casas de show.

As ratazanas que hoje moram no que foi o velho Canecão também devem detestar privatizações.

Programação do dia: chegada à Paris e almoço no Empório Brasil

Postado em 5 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Tem coisa que é muita sacanagem, tipo, finalmente (e sabe-se lá porque) você vai ser entrevistado no programa do Jô Soares (tem quem ache isso uma merda, mas sob certa forma é um parâmetro de "chegar lá" no Brasil).

Só que justo no seu dia de glória, quando você vai avisar para toda a sua família ficar a postos com gravadores na frente da TV para registrar o momento, e o dia que seus inimigos dirão coisas como "ah, se ainda fosse no David Letterman", você acessa o site do programa para ter o gostinho de ver seu nome ali e lê o seguinte:

- Hoje no Programa do Jô entrevista com Fulano de Tal ("Fulano de Tal" é você), com Krong, o mágico das galinhas e com o novo projeto do funkeiro MC Leopardo juto com o grupo de pagode Exaltalhança.

Um lineup de convidados assim vai te fazer sentir como se estivesse num circo de variedades. Se ainda chamassem, sei lá, o grupo de lutadoras no gel da Playboy, tudo bem, mas Krong? O mágico das Galinhas?! Galinhas? E um projeto de funkogode fusion?

Você já imagina seus inimigos rindo "Hehehehe, bem de acordo com aquele bosta...".

Não contei isso tudo só pra você pensar que eu tomei ácido ou qualquer coisa do tipo, é porque me chama atenção como certas coisas podem estragar momentos que eram pra ser mágicos para nós.

É aquela foto do seu casamento onde justo na hora de jogar o buquê aparece sua tia de calça saruel mostrando o cofre, é o sorriso com alface no dente, é o sorteio de um carro zero que você ganha mas que pelo regulamento do sorteio (que você aceitou sem saber) precisa passar um ano com o carro pintado de rosa e laranja e a inscrição "Ganhei no sorteio do Shopping das Calcinhas".

É o "mas" que sempre aparece para ferrar com a sua paciência. Como aqueles elogios cretinos que sempre vêm com um "mas" depois. Tipo "você está linda hoje, mas...essa maquiagem te deixa meio com cara de puta".


Muitas vezes essas situações são compulsórias, não tem jeito, você precisa sorrir (nem que seja um sorriso amarelo) e andar por aí fazendo propaganda do Shopping das Calcinhas durante um ano, mas o que dizer de quem procura isso?

Viajar, por exemplo. Você junta grana, compra dólares ou euros, tanto faz, marca a passagem, tira o passaporte, paga 300 taxas, enfrenta a fila do check-in, frango borrachudo e barrinha de cereal da classe econômica, fila da imigração, jet-lag, fuso horário, aí finalmente chega no seu destino e vai almoçar no...Empório Brasil?

Juro, na minha opinião quem viaja pro exterior e vai comer em restaurante brasileiro deveria ser proibido de deixar o país. É como você participar de uma promoção, ganhar um automóvel e na hora de receber o prêmio dizer "dá pra vir pintado de laranja e rosa com o nome do Shopping das Calcinhas escrito?".

Nada contra curtir seu país, nada contra quem mora (veja bem, mora) no exterior sentir saudade de um feijãozinho, uma caipirinha, um sambinha (ainda que detestasse samba enquanto morasse aqui), mas ninguém morre porque ficou 15 dias sem comer uma orelha de porco ou escutar o Exaltasamba. Sério.

E quem faz isso, na boa, se a Constituição não permitir que seja proibido de deixar o país, pelo menos merecia voltar pra cá num vôo sentado na poltrona do meio, com o mágico Krong de um lado e o MC Leopardo do outro.

O assunto mais mala do mundo (ou não)

Postado em 3 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Rolou a maior confusão no Twitter, ainda que frente ao aspecto "feira de peixe" do microblog isso pareça redundante. E se o site como um todo é local de habituais confusões, o nicho brasileiro dele é uma verdadeira penteadeira de puta.

Todos os joguinhos, correntes, piadas toscas e cacoetes da geração O.L.H. (Orkut e Lan House) estão presentes ali. Tudo isso e, claro, as polêmicas (mamilos!).

Tenho certeza que se fizessem a menor idéia de onde tudo isso ia parar, os ancestrais da raça humana jamais teríam saído das cavernas. Mas vamos lá.

O novo novo motivo para a mamilização (polêmica!) do Twitter é o tal "Orgulho Hétero", xiiii!, confusão na certa. Pouca coisa é tão militante quanto gays e simpatizantes. Nem uma zonal do PT concentra tantos xiitas quanto na tal militância gay. Se você acha exagero, experimente discutir com militantes da tal "causa gay", defensores de cotas, associações de favelas, antropólogos e lésbicas vegetarianas e você conhecerá o que é terror e pânico ideológico.

Mas tudo bem, como ainda não vivemos na democracia "deles", "eles" ainda podem se manifestar. Caso o mundo ideal "deles" já fosse o real, bem, você teria que ser cotista-quilombola-antropólogo-defensor-duzoprimido-lésbico-vegetariano para poder falar alguma coisa.

Brancos, héteros, de classe média são meio que a Geni. Só prestam para tacar pedra, bosta e dar dinheiro para sustentar a profusão de ONGs e parasitas que só a esquerda pode nos proporcionar. É aquela velha história, "são reacionários, retrógrados, insensíveis e malditos, mas os quatro meses de trabalho por ano que pagam em impostos são muito bem vindos".


E no meio da tal polêmica sobre o "Orgulho Hétero" no Twitter, uma coisa me chamou a atenção: defensores da "causa gay" (o dia que conseguir levar a sério tiro as aspas) atacavam a idéia com argumentos como "são enrustidos", "orgulho hétero não dura três tequilas", "isso é gente que queria dar", "é coisa de crente da bunda quente".

Imagine você, que conseguiu me ler até aqui sem despertar o Che Guevara adormecido dentro de você e começar a me xingar, se presenciasse o seguinte diálogo:

- Boa tarde, você quer ajudar a nossa causa assinando essa petição pela lei da homofobia?

- Não, não quero.

- Você então é a favor do espancamento e discriminação de homossexuais?

- Não, não sou.

- E porque não assina?

- Porque você não é gay nada, cara, você só diz isso porque não bebeu uma sangria, não está doidão na noitada com uma loira siliconada boazuda no colo, na boa, pára com essa merda de gayzice que isso não existe.

- Existe sim, meu amigo, saiba que sou gay assumido e orgulhoso.

- Orgulhoso de quê? De não sair do armário? Corta essa, eu sei que isso tudo aí é fachada, teu negócio é uma mulherzinha pelada na cama...

Aposto que ia rolar uma certa confusão, afinal de contas, seria um "a-b-s-u-r-d-o" considerar um cara gay como apenas um "hétero até que se prove o contrário", mas o "versa" desse vice-versa vira argumento engraçadinho em discussão.

Pra mim esse papo de "Orgulho Hétero" x "Orgulho Gay" é o novo "100% Negro" x "100% Branco", ou seja, um verdadeiro duelo de titãs pelo título de assunto mais mala do mundo.

Só perde mesmo pra um debate entre lésbicas vegetarianas e antropólogos carnívoros, se é que isso existe.

É proibido proibir, mas em certos casos, não deveria ser

Postado em 1 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Recentemente uma companhia aérea anunciou que iria permitir o uso de celulares em seus vôos, obviamente cobrando o preço de um aparelho de celular por minuto. Outro dia também li que iriam permitir o uso da internet a bordo.

Eu sinceramente preferiria que eles estivessem discutindo a proibição das poltronas do meio e das barrinhas de cereal, por isso pensei num monte de coisas que ainda que não sejam proibidas, deveriam ser.

O Brasil é problemático para esse tipo de situação, porque é um país onde uma lei pode ou não "pegar". Urinar na calçada, estacionar o carro em fila dupla, atirar lixo pela janela, meter o pé na jaca nos cofres públicos, tudo isso é proibido, mas ninguém respeita muito.

Mas supondo que algum acidente com radiação tenha feito o brasileiro passar a respeitar leis e não extrapolar sua individualidade - ouvindo música (ruim) aos berros em celulares ou fazendo churrasco na calçada, por exemplo - algumas leis bastante úteis poderiam ser propostas.


Não proibiram o fumo em lugares públicos? Então, poderiam proibir também os malas de puxar papo em fila de banco ou em elevadores reclamando sobre o tempo. Nada de "que friaca, hein?" ou "está um calorão!".

E aproveitando a deixa, o papo de bêbado e as opiniões desenfreadas de taxistas poderiam entrar no bolo também. Sabe como é, taxistas são Caetanos Velosos, sempre prontos a emitir opiniões desconexas e descovernadas sobre qualquer assunto. Certas horas eu penso que bastaria colocar um taxista na Presidência da República que viraríamos a Suécia em seis meses.

O brasileiro aliás tem esse problema. Não é um povo, é uma opinião aleatória. Tanto faz se o assunto é a seleção de futebol, física quântica ou as orelhas do Dr. Spock, sempre haverá uma teoria mirabolante e uma opinião pronta sobre o assunto.

Outra coisa é esse negócio de tudo que diz respeito ao Brasil precisar ter um axé ou um batuque no meio. Quem decidiu isso? Também tivemos Villa Lobos, Tom Jobim, tem um monte de descendente de alemão, italiano, judeu, etc, etc, por aqui, mas seja na abertura do Pan Americano, no Sorteio das Eliminatórias da Copa ou qualquer outro evento do tipo, sempre colocam a Ivete Sangalo. Porque? Taí uma boa coisa pra se discutir.

E a tal reforma ortográfica que desfigurou o "vôo", perseguiu o o hífen e bateu a carteira da lingüiça, afanando a trema? Ainda "estou aguardando" que "estejam realizando" uma reforma que "esteja reformando" o idioma e "esteja pretentendo estar suprimindo" o gerúndio do telemarketing, que tal?

Deixo até o tauba, largato e Framengo pra uma oportunidade.

Num tempo onde se debate intensamente a permissão da união civil de gays, liberação da maconha e libertinagem sexual, seria muito mais saudável começar a discutir algumas proibições.

E se você me acha muito radical, tente discordar de mim quando estiver no metrô, ouvindo compulsoriamente aquele funk no celular do cara do lado.

Macacos me mordam!

Postado em 27 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Dia desses saiu no jornal que alguns cientistas andam preocupados com a excessiva humanização das cobaias. A causa são algumas pesquisas que introduzem genes humanos em animais de latoratório (como camundongos e macacos) para realizar estudos sobre doenças que afetam o homem.

Chegam a lembrar de casos da ficção científica, como o filme "Planeta dos Macacos", onde uma experiência para curar o mal de Alzheimer acabou gerando uma nova raça de macacos-humanos, de certa forma inteligentes, que passaram a dominar o mundo.

Tamanha introdução não foi certamente para discorrer sobre os perigos das pesquisas científicas, para o tratamento desumano dado às cobaias e nem para falar sobre ficção científica, ou talvez, desse último item, até seja um pouco.

O fato é que certas horas me pergunto se alguma experiência desconhecida (ou o calor dos trópicos que parece derreter os miolos) já não criou uma população de macacos amestrados com aparência de homens e mulheres.

Mas antes que me chamem de racista por causa do uso dos símios como exemplo, deixe-me esclarecer que só falarei aqui de macacos albinos, tudo bem? Todos, sem exceção, albinos.

O maior exemplo da macaquização, pra mim, é o trânsito. Sempre achei que uma escolaridade mínima e testes de QI deveriam ser obrigatórios para alguém obter licença para dirigir. Porque o brasileiro no trânsito se comporta, em sua esmagadora maioria, como um chimpanzé que foi ensinado a guiar um carro para frente.

É um trânsito violento, agressivo e caótico. Fechadas, cortadas pela direita, carros subindo nas calçadas, andando na contramão, pessoas se comportando como se fossem donos da rua, sei lá, talvez os chimpanzés não chegassem a tanto.


Por isso acho que testes de QI talvez evitassem esses motoristas de ônibus que andam aos solavancos e freadas, e parecem não saber que é fisicamente impossível parar rapidamente um veículo de 11 toneladas a mais de 80km/h em caso de emergência, ou taxistas que desconhecem o fato de dois corpos não caberem no mesmo espaço, tornando impossível o trânsito fluir enquanto ele espera a madame com o poodle entrar no seu carro com as compras do shopping.

Assim como alguém que canta uma música em inglês usando o famoso "enrolation" e não faz a menor idéia do que diz, o brasileiro anda por aí (a internet é o lugar preferido) repetindo piadas, correntes e bordões de novela às vezes sem fazer a menor idéia do porquê fazem isso. Só porque é "gozado", tipo macacos atiram fezes no zoológico.

Não duvido também que bonobos (albinos, sempre albinos, por favor, tá?) ensinados a operar um iPod ou um celular também não andassem de metrô na Bonobolândia ouvindo música alta e incomodando a macacada toda em volta.

Parece que certos comportamentos são instintivos e fazem parte do princípio de que se todo mundo faz igual, deixa de ser vergonhoso.

O Brasil tem bolsões de imbecilidade tão extensos que parece que a intenção é extirpar totalmente qualquer tipo de inteligência e raciocínio humano do seu meio. Tudo repetido mecanicamente, todo mundo feliz enquanto não faltarem as bananas.

Eu, se cientista fosse, me preocuparia muito pouco com a humanização das cobaias. A macaquização humana me causa muito mais medo.

Rock in Rio (ou não)

Postado em 11 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Recorrer já no título a algo supostamente dito pelo Caetano Veloso é apelação, mas fazer o que? O assunto merece.

Não sou crítico musical, então não possuo aquela isenção (cof-cof), conhecimento (cof-cof) ou bom gosto (cof-cof-cof) para pretender que o que vou dizer aqui é uma verdade absoluta, mas fazer o que? Eu tenho esse péssimo hábito (pelo menos no Brasil) de ter opinião, então vamos lá.

Sempre achei estranho o "Rock in Rio" acontecer em Lisboa durante muitos anos. Nada contra a pátria-ancestral, nada disso, mas porque não Rock in Lisboa? Tudo bem, os gênios do marketing me explicaram que se tratava do uso de uma marca conhecida e por isso o nome.

Aguardo ainda, é claro, o Glastonbury-Itu, o Parintins-São Paulo e a São Silvestre-Copacabana (sei que isso pode ser contestado, mas não iria perder a piada).

O fato é que finalmente o festival com o nome do Rio de Janeiro voltou ao Rio de Janeiro, o único problema é que quando resolve fazer isso, só traz o "in Rio", porque parece que o "Rock" ficou esquecido em Lisboa.

Porque vamos lá, quando vi no lineup do festival nomes como Maria Gadú, Rihanna, Cláudia Leitte, Ivete Sangalo, Monobloco, Martinho da Vila, etc, etc, juro que pensei que era o Domingão do Faustão.

Outros nomes como Guns'n'Roses, Lenny Kravitz, Frejat e Mike Patton também me passaram a impressão de que estes artistas dependem mais do Rock in Rio para viver do que a cantora Simone depende do Natal.

Nem o Metallica, o Motörhead ou o Coldplay servem para limpar muito a barra, porque estão entremeados por coisas que até são rock, mas não são, tipo NX Zero e Móveis Coloniais de Acaju.

Não sei o que houve com aqueles festivais de rock que tinham um único palco e sua principal atração era mesmo o bom e velho rock'n'roll.

Esse Rock in Rio de agora parece mais algo voltado para "world music", para pessoas "ecléticas", para quem "quer ver e ser visto", um clima meio Fashion Rio. Só falta colocarem alguma coisa de sustentabilidade no meio.

Desculpe quem gostou da programação e quem já comprou ingresso pra ir, sei que algumas coisas que estarão ali tem valor e sei que tudo evolui com o tempo, mas rock pra mim é moto soltando fumaça, lama, cabeludos de casaco de couro, groupies, cerveja, gente louca vomitando no final da madrugada, etc, etc, etc.

Podem me chamar de purista, mas rock é atitude. Sou do tempo em que as mães escondiam as filhas quando algum roqueiro chegava perto delas. Hoje em dia elas as vêem com esses rapazes estilo Restart e só ficam preocupadas se eles vão pedir o vestido das moças emprestado.

Por isso mesmo eu resolvi aderir ao slogan do festival "Eu Vou" e resolvi que vou é ficar em casa (mesmo porque acho que todo mundo que curte uma micareta já comprou os ingressos, dada a velocidade com que se esgotaram).

Gosto é que nem bunda, eu sei, mas a minha não vai passar nem perto daquela cidade "do rock".

Churrasco de gato no Lago dos Cisnes

Postado em 17 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Pode reparar: você nunca vê carro rebaixado, tunado, com o porta-malas aberto tocando Mozart aos berros. É sempre funk, axé ou pagode. Mas experimente falar isso na frente desse pessoal liberal meio de esquerda que hoje em dia parece ser o modelo do brasileiro consciente e engajado.

Talvez te chamem até de nazista, afinal de contas, sabe como é, ter bom gosto e não extrair nenhum prazer de batuques e frases de duplo sentido só pode ser coisa de gente que curte um campo de concentração.

Mas o fato é que certos gostos contribuem para os estereótipos que os cercam.

- Bora fazer um quarteto de cordas de fundo de quintal amanhã?

- Quero ver, quero ver, as bailarinas fazendo plié até o chão!

- Pega a Brasília lá e liga o som pra gente ouvir um Beethoven na calçada enquanto lava os carros.

- Viu a nova dos Rolling Stones? "Ah Moo Lee Kee"?

- Passa lá em casa amanhã que a gente vai assar um salmãozinho na laje.


Essas e muitas outras são frases que dificilmente você vai ouvir por aí, simplesmente porque ainda que o pessoal gente boa, liberal e meio de esquerda diga o contrário, certas coisas não se misturam.

Carro rebaixado, com vidro fumê, porta-malas aberto e com música aos berros, tem muito mais chance de tocar Exalta Samba, Latino, Tati Quebra-Barraco ou Ivete do que tocar João Gilberto, Cole Porter, Chopin ou Muse.

E esse assunto traz à tona outro dado curioso: só música ruim toca alto, só perfume barato é forte a ponto de empestiar um vagão inteiro de metrô, só carro escrotamente tunado pertence a motoristas que dirigem como babuínos amestrados, só manifestações populares incômodas são feitas no meio da rua, caviar não frequenta laje, champanhe tem alergia à boteco e uma bailarina pode até descer até o chão, mas jamais fará isso rebolando e se comportando como se fosse um espeto de maminha servido num rodízio.

Pronto. Pode me chamar de preconceituoso agora.

Mas na minha opinião, se você acha elitista gostar de música clássica, se acha coisa de gente metida preferir ambientes silenciosos, se pensa que perfume francês é pra frescos e carros originais de fábrica não tem tanta graça quanto carros transformados em caminhões do Corpo de Bombeiros, quem tem preconceito é você. Contra o bom gosto.

Acho que você precisa pensar seriamente em deixar essa bomgostofobia de lado.

Mensagem na garrafa, mensagem na garrafa...

Postado em 10 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Você já parou para pensar em como seria estranho cantar isso por aí? Mais ainda, em como é bizarro alguém gravar um álbum, fazer sucesso e ficar mundialmente conhecido cantando isso? Pois o The Police conseguiu, bastou ficar repetindo "mensagem na garrafa, mensagem na garrafa".

Aqui no Brasil isso seria, no máximo, alguma propaganda de cerveja estrelada pelo Zeca Pagodinho.

O Kiss é outra banda que tem como grande sucesso "Love Gun", a "Arma do Amor", uma ode de Paul Stanley ao seu próprio pênis. Convenhamos: em português vira letra do Wando, se tanto.

Me desculpe pela possível visualização do pênis de um membro do Kiss (com trocadilho, por favor), OK? Apesar de você merecer dormir sem essa, o exemplo é imperdível.

Foi cantando "como uma virgem, tocada pela primeira vez" que a Madonna virou Madonna, a diferença é que ela fez isso em inglês, o que explica muita coisa.

Me pergunto se para os nativos do idioma anglo-saxão essas letras soam tão estranhas quanto soam para nós, faladores da maltratada flor do lácio.

Porque até certos nomes em inglês são estranhos, ou você acharia normal conhecer pessoas chamadas Abril, Maçã ou Cadência? Mas existem Aprils, Apples e Cadences por aquelas bandas.

Sempre curti rock'n'roll, e faço parte do time que acha difícil digerir rock em outro idioma que não o inglês, e ainda que curta um monte de coisas em português e espanhol, não adianta, as pedras não rolam com a mesma desenvoltura.


Lúcia num Céu com Diamantes e a Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta poderia até fazer sucesso assim mesmo, em português, mas não sei se os Besouros iriam muito além do Domingão do Faustão com essas letras.

Do mesmo jeito que fica estranho pagode em japonês - ainda que para o meu gosto pagode é estranho em qualquer idioma - e, apesar de todas as tentativas, fazer fusion de rock com baião e caranguejo não é muito a minha praia (com trocadilho, de novo), fazer rock em outros idiomas requer cuidado de neurocirurgião: qualquer deslize, por menor que seja, vira desastre.

Você não namora a Adriana, sua vizinha loirona que usa calça da Gang e frequenta bailes funk todo final de semana só porque ela não te dá mole, você não a namora porque ela já tem um bruta-montes com 50 cm de braço e um cordão de prata mais grosso do que correia de bicicleta no pescoço e também porque, ainda que ela quisesse alguma coisa contigo, você não aturaria quatro finais de semana seguidos ouvindo proibidões, nem mesmo por uma bunda daquelas. Não combina.

Assim são os estilos musicais e certos idiomas. Não dá pra fazer música baiana em russo só porque em Moscou não tem Carnaval, mas porque não combina e o máximo resultado que você consegue é ser exótico, talvez bizarro.

Letras de rock em português não chegam a tanto, mas letras em inglês traduzidas para o português, sim.

Ah, só pra esclarecer: sua vizinha gostosa não vai te dar mole, foi só um exemplo.

Che Guevara da Radio Shack

Postado em 28 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

A última causa dos revolucionários do monitor LCD é a briga por um "preço justo" das coisas.

O manifesto do tal movimento diz que "se a geração Coca-Cola esperava uma oportunidade para começar a se unir, ela chegou agora". Eles talvez esqueçam que estão um pouco atrasados, pois o que o Renato Russo chamava de Geração Coca-Cola viveu lá pelos anos 80 e hoje é composta por senhores de meia idade.

Mas até aí tudo bem, quem nunca quis fazer parte dos Anos Dourados, dos Anos Rebeldes ou dos Anos 80?

O que importa é o objetivo da ação, e o foco do movimento pelo "preço justo" são os impostos leoninos que o governo cobra (verdade), os serviços de nível paquistanês que oferece (outra verdade), o gigantesco grau de corrupção do país (mais uma verdade), os salários baixos do brasileiro (e tome verdades) e os preços exorbitantes do iPad (pera aí, como é que é?).

Sim, o preço do iPad, iPhone, iPod, etc, etc. Antes que você me pergunte, não, não acho que isso seja patrocinado pela Apple, mas vamos em frente.

O escolhido para ser "garoto-propaganda" da iniciativa foi o vlogueiro Felipe Neto, que é uma espécie de babaca de estimação da turma do Twitter. Se você der uma pesquisada será fácil descobrir quem é a figura, mas se quiser um resumo aí vai: ele é mais ou menos como aquele garoto do seu prédio-escola-academia que acha que sabe mais do que realmente sabe e que tem como grande talento um penteado diferente e saber falar "Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose" arrotando.

Só que ao invés de arrotar no playground ele fez isso na internet, uma agência caça-talentos (tipo essas que fazem vestibular pra Big Brother) o caçou, ele teve milhões de visitas no YouTube falando mal do Restart, do Fiuk, da saga Crepúsculo, de modinhas e finalmente conseguiu um programa numa TV a cabo onde aparece vestido de frango.

Mas deixando de lado minha simpatia pelo Felipe Neto, eu acho que os impostos no Brasil são realmente enormes, que a corrupção é insuportável, que os serviços públicos são dignos de um navio negreiro (posso dizer isso sem me chamarem de racista?), que os salários são uma vergonha e que o preço de tudo é exorbitantemente alto.

Basta ver que os de bens de consumo e alimentos quase no mundo inteiro são mais baratos do que no Brasil, com exceção do Guaraná Jesus, da jaboticaba e do berimbau. Um automóvel que nos EUA custa 27 mil reais aqui sai por 62 mil. Tudo por conta de impostos. Cobrados por esse poder público que nós temos.

Ora, se eu mesmo concordo com isso tudo porque então estou ensaiando uma crítica ao movimento? Só porque tenho inveja do sucesso e do par de óculos escuros do Felipe Neto? Porque desejo o lugar dele? Ou porque adoraria ter meu belo rosto estampado em pontos de ônibus anunciando cursinhos de inglês?


Bem, daqui do meu grotão da internet, falando pra meia dúzia de três ou quatro, isso é irrelevante, pra usar a palavra que a meritocracia internética adora. O que eu digo pouco importa para alguém além de mim mesmo e mais um ou outro que me acompanhe. Por isso, sério, esqueça essa suposição.

Mas o que seria então? Teria me convertido num esquerdista de boutique, desses que usam camiseta da Cavalera com a foice e o martelo e quero criticar as ambições pequeno-burguesas de quem deseja possuir um tablet ao invés de se preocupar com o preço da chã de dentro?

Não. Acho que cinema, DVD, aparelhos eletrônicos e toda a futilidade do mundo é muito mais salutar do que comer feijão com farinha e ir pra fila do posto de saúde curar a barriga d'água dos filhos. Sou capitalista, liberal, consumista assumido (pena que minha conta bancária não me acompanhe nessa) e acho que a burguesia fede, mas usa perfume francês e fica tudo certo.

A melhor coisa que poderia acontecer ao "povão" seria deixar de ser povão. Por isso, sim, iPads para todos!

Só que (eu não ia escrever isso tudo só pra concordar no final, né?) já existem iniciativas no sentido de cobrar uma diminuição da carga tributária por aí.

Tem o Impostômetro (até citado no manifesto do Preço Justo) , o Dia sem Imposto e até mesmo essa turma mais "nerd" já faz algo parecido, que é o Jogo Justo. Enfim, o que não falta é gente falando do assunto.

Porque então não se unir a algo que já existe, não engrossar fileiras do que já está em campo? Simples: promoção.

Até mesmo um observador desatento vai perceber que o site do Preço Justo está hospedado num portal maior, o Brasil 247, que lançou uma revista para...iPad! Você sabia o que era o Brasil 247 até agora? Nem eu. Descobri por causa do Preço Justo. Faça as contas.

Para o Felipe Neto também não foi nada mal, pois ele andava meio sem assunto, afinal de contas iria falar mal do que agora para gerar buzz? Das ararinhas do Rio? E é claro que é muito melhor para a imagem estar associado à luta contra os impostos do que à alergia que o Robert Pattinson, ídolo das adolescentes que adoram aquele vampiro fashion week do Crepúsculo, tem das partes íntimas femininas.

Revolucionário de internet quer é usar uma tag no Twitter, colocar uma mensagem na foto do perfil e ir fazer suas compras na Apple Store em paz. Ninguém está muito interessado em fazer nada de verdade, o que vale é a falação que isso origina.

Portanto, nada contra uma luta por menos impostos no Brasil, mas tudo contra essa discussão séria virar objeto de promoção de A, B ou C. Que os Che Guevaras da Radio Shack queiram entrar na conversa é muito bom, é excelente, mas que tal fazerem isso seriamente? Essa é uma causa justa, não precisa de ninguém pendurado nela só querendo aparecer.

Tag no Twitter, petição online e um media whore como garoto propaganda, bem, isso é que não faz o menor sentido.

Cale-se! É para o seu bem.

Postado em 13 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

"De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida para o bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob barões ladrões do que sob moralistas onipotentes. A crueldade do barão ladrão pode às vezes adormecer, sua cupidez pode em algum ponto ser saciada; mas aqueles que nos atormentam para nosso próprio bem nos atormentarão sem cessar, pois eles o fazem com a aprovação de sua própria consciência." (C.S.Lewis)

Vivemos em tempos muito estranhos. A idéia de um mundo globalizado e sem fronteiras terminou por produzir uma sociedade com fixação em homogeneidade.

É feio pensar diferente, é feio achar qualquer coisa que o "resto" das pessoas não ache. Isso já seria um problema caso a coação ao antagônico fosse apenas a boa e velha pressão social difusa, só que o buraco é mais embaixo, porque em países com menos tradição democrática como o Brasil, corre-se logo para criminalizar tudo o que destoar do que é considerado "bom".

Nossa sociedade vem sendo bombardeada ultimamente com dois dos assuntos mais caros à tropa do "bem" - essa gente boazinha que procura livrar a sociedade de uma perigosa liberdade que seja muito incômoda - que são a luta pelo desarmamento e contra a tal "homofobia".

Essas duas bandeiras são muito boas para demonstrar como o monopólio do "bem" e da "diversidade" pode ser tão perigoso quanto tanques, fuzis, coturnos e censores, afinal, se eles são "bons" e só querem o "bem", aquele que pensa diferente só pode ser, por associação, o "ruim", que quer o "mal".

Dessa forma, retira-se do outro até mesmo o direito de contra-argumentar.

Ninguém normal acha que todo mundo deva andar armado por aí dando tiros em quem bem entender. Ninguém com a mente equilibrada pensa que um homossexual deva levar uma surra só porque gosta de se relacionar com outro homem. 

Mas muita gente boa (e normal) acha que um cidadão que cumpra certas exigências e seja objeto de fiscalização por parte do governo pode possuir armas, e também que homossexualismo não é algo que esteja de acordo com a sua idéia de "viver bem".

Tudo isso seria muito normal num ambiente democrático, mas o Brasil padronizado pelo esquerdopatismo não funciona assim. Você precisa pensar igual ou pelo menos repetir que pensa igual (ainda que, internamente, não concorde), caso contrário será alvo de perseguição e, quem sabe, até de projetos de lei.

Pergunte a qualquer pessoa que conviva num ambiente universitário o que acontece se alguém defender ali idéias conservadoras, que o pessoal do "bem" chama de reacionárias. Será alvo de deboche, escárnio, indiferença e, finalmente, de ofensas. O sujeito pode até pensar aquilo, desde que não diga nada.

Criamos uma nova espécie de "armário", o ideológico. E ai de quem sair desse armário.

Se alguém acha que gays têm direitos como todo cidadão, mas não acha "bonito" ser gay, é homofóbico.

Se alguém acha que um eventual desarmamento só desarmaria gente que normalmente não comete crimes, deixando armada apenas a bandidagem - que é abastecida com armas que passam pela fronteira negligenciada pela Polícia Federal e pelas Forças Armadas - com certeza é um maníaco a favor do "assassinato de inocentes".


Qualquer um pode discordar da opinião dos outros, pode considerá-la perversa, degradante, errada, equivocada, mas ninguém tem o direito de cercear a liberdade desta pessoa emiti-la apenas em nome de um conforto social, de um higienismo intelectual.

Se alguém diz que não gosta de gays, que não gosta de negros, que é a favor do porte legal de armas ou que apóia uma missão terrestre de invasão à Marte, sua idéia será filtrada naturalmente no campo do que é plausível, aceitável e digno de atenção e, se for o caso, o ostracismo será seu destino.

É uma seleção natural de idéias, onde tudo aquilo que for tosco, será relegado a um gueto minoritário, que nem por isso deixará de ter o direito de existir e dizer o que pensa. Isto é o que se chama liberdade e não o direito de um grupo (majoritário ou não) de só ouvir o que gosta.

Se um sujeito destes agredir um homossexual, injuriar um negro, atirar em alguém ou se amarrar num foguete para tentar chegar à Marte, as leis irão ao seu encontro, levando-o a pagar multas, ser preso ou então a se esborrachar no chão, já que a gravidade também é uma lei.

Em 2005 o Brasil realizou uma votação onde mais de 60% dos votantes achou que não era uma boa idéia proibir o comércio de armas no país. Hoje, menos de 10 anos depois, tenta-se realizar nova votação.

A idéia parece ser perguntar ao povo a mesma coisa até que ele finalmente diga o que eles querem ouvir. Hugo Chávez tem experiência nisso, os petralhas e a turma do "bem" parecem ter aprendido com ele.

O que não entendo é que, já que a população é tão sábia, porque não submeter à ela opções sobre a reforma política, reforma tributária, novo Código Penal, maioridade penal, descriminalização do aborto, entre outros temas?

Porque não criamos um plebiscito revogatório no meio de todos os mandatos, onde os eleitores poderiam decidir se o indivídio encastelado no poder teria direito à outra metade do mandato ou se seria mandado sumariamente para casa?

Simples: porque essa gente só gosta de ouvir o que quer e só aprecia a democracia e a liberdade enquanto podem controlá-las. Por isso a ânsia por leis que criminalizem a opinião está tão na moda no Brasil.

Um sujeitinho que representa bem esta linha de pensamento é o presidente da UBES (Uma associação de estudantes secundaristas), Yann Evanovick, que disse a seguinte pérola:

- "Não dá pra se falar o que quer, algumas opiniões são crimes".

Isto mesmo, segundo esta mente brilhante - e que não está sozinha nesse pântano que é o campo das idéias no Brasil - a opinião deve ser rebaixada ao mesmo nível de um assassinato, de um estupro, de um estelionato, de corrupção (tipo a dos mensaleiros do PT, que a mesma UBES ignora a existência). Já não lhes basta aparelhar o estado, querem agora a nossa mente.

Uma opinião é incômoda? Proíba-se a opinião! Um louco sai por aí atirando nas pessoas? Proíba-se as armas!

Nessa levada, qualquer dia a sua liberdade se restringirá a decidir qual sabor de sorvete você prefere (desde que não tenha gordura trans, é claro) e facas, chaves de fenda, martelos, alcool e fósforos, tesouras e até bicicletas terão sua comercialização proibida, já que a rigor qualquer coisa pode ser usada para ferir e matar outra pessoa.

No final disso tudo, só quem morre mesmo é a liberdade.

Seu direito também termina onde começa a minha liberdade

Postado em 30 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 15 Comentários

O maior problema do sujeito ignorante não é pensar um monte de idiotices, mas acreditar que aquelas iditices são verdades incontestáveis.

E o Brasil é um verdadeiro produtor em série de ignorantes, idiotices e platitudes.

Aqui se confunde notoriedade com notório saber, o que faz com que a população pare para ouvir tudo o que o Caetano Veloso, o Chico Buarque ou a Preta Gil têm a dizer.

Não afirmo que esses três notórios brasileiros só digam bobagens (na verdade dizem bobagens na mesma proporção da maioria), apenas que muita gente vai pedir opinião a eles sobre assuntos sobre os quais eles não fazem a menor idéia do que vão dizer.

Você não vai pedir informações sobre neurocirurgia para o seu padeiro, assim como ninguém em sã consciência vai se importar sobre o que o Ronaldinho Gaúcho pensa sobre o conflito na Chechênia (se é que ele saiba que Chechênia não é o que as mulheres mostram na Playboy).

Da mesma forma, não entendo como alguém pode pedir que a Preta Gil vá procurar o deputado Jair Bolsonaro para perguntar o que ele acha sobre negros, gays ou direitos civis.

Primeiro porque qualquer um com mais de dois neurônios e que acompanhe a política brasileira sabe perfeitamente o que o Jair Bolsonaro pensa sobre gays.

Depois porque não vejo nenhuma qualificação na Preta Gil - se é que ela tem alguma além de ser filha do ex-ministro - para ir a um programa de humor interpelar um deputado sobre um assunto em que sua opinião é notória, e depois se sinta ofendida com a resposta.

Para quem estava imune à polêmica até aqui, ela perguntou o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma negra (ele entendeu que a pergunta era sobre um gay) e escutou o deputado dizer que "não tinha filhos promíscuos".

A filha do Gilberto se ofendeu e declarou no Twitter que iria processrar o deputado "não só por mim, mas por todos os negros e gays do país". Infelizmente esqueceu de dizer que a promoção pessoal que recebeu com isso também seria muito bem vinda.

Ainda que falasse de negros, não vejo crime na declaração do deputado. Você não deve proibir a entrada de negros em lugar algum só pelo fato de serem negros. Nem tratá-los diferenciadamente, negar-lhes direitos e impor-lhes sanções só por causa da cor da sua pele.

Mas nada no mundo obriga alguém a gostar de negros. Se isso é uma degeneração moral, uma deficiência educacional ou mesmo um problema que torna a pessoa abjeta aos olhos dos outros, ainda assim é um direito da pessoa e ela deve poder declarar isso sem que haja um xilique coletivo.

O Brasil virou este estado neurótico e cerceador justamente por proibir liberdades para garantir direitos. É como fazer sexo para preservar a virgindade.


Volto a dizer: ninguém tem permissão para cercear direitos dos negros, mas ninguém deve ser obrigado a gostar de negros e muito menos a manter essa opinião (ridícula, na minha concepção) em segredo.

O problema é que no Brasil todo indivíduo é livre desde que utilize a sua liberdade para abanar a cabeça bovinamente, babando e concordando com a manada. E o mais grave é que este espírito bovino começa a se infiltrar nas leis e instituições do país.

O Conselho de Ética vai se reunir para tentar punir o deputado Bolsonaro, mas a turma do Mensalão está lá, incólume.

Agora a nova batalha é para criminalizar quem não gosta de gays. Ora, gays são cidadãos como qualquer outro e tem seus direitos garantidos na Constituição. Para qualquer violação destes direitos, existem as leis que punem o agresssor, que igualmente valem para todos.

Leis específicas para gays, como querem os "movimentos sociais", criam uma espécie de classe especial de cidadão.

E o que vale para negros, vale para gays, para brancos, japoneses e torcedores do Palmeiras: ninguém é obrigado a gostar deles e nem deve ser impedido de dizer isso. O que não pode - e aí o Estado deve intervir com toda sua força - é que essas pessoas sejam vilipendiadas em seus direitos por conta da antipatia de outro.

E direito constitucional não é a "sua garantia sagrada a não ouvir o que não gosta", como a brasileirada pensa. Direito é a vida, a propriedade, as oportunidades iguais, a liberdade.

Não existe meia liberdade, e se é verdade que ela termina onde começa o direito dos outros, também é verdade que estes direitos terminam onde começa a liberdade alheia.

Para todas as deformações nesta relação, existem os Códigos Civil e Penal. 

Finalizando, ainda que não ache que seja obrigado a esclarecer isso, não tenho nada contra negros ou gays, mas tenho tudo contra essa institucionalização oportunista que transformou a cor da pele e o "cu" em sindicato.

A grande obra de Dilma

Postado em 18 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Mais de dois meses após a posse da presidente Dilma Rousseff, observamos que vários veículos de comunicação (incluindo aqueles que o PT e seus aliados chamam de "mídia golpista") fazem diversos elogios ao seu estilo de administrar e também ao seu comportamento pouco midiático.

A surpresa foi geral.

Pessoas que esperavam uma presidente (por favor, não me peçam para usar o tal "presidenta") iracunda, aparecendo para o país em explosões de ira e autoritarismo assistiram uma pessoa discreta, conciliadora até certo ponto e afável em alguns momentos (suas participações em programas de TV mostraram isso) iniciar seus primeiros passos no governo.

Suas reuniões de trabalho, sua rotina puxada, sua preocupação com prazos e metas, tudo isso foi bastante exaltado, tanto que alguns petistas começaram a dizer, em sua eterna paranóia, que a "mídia" queria jogar a presidente Dilma (criatura) contra o ex-presidente Lula (criador), elogiando um para depreciar o outro.

O fato porém é que se pensarmos com calma, veremos que nem tudo são flores nesse início de governo e no futuro que se prenuncia.

Sarney continua lá, aliado. Assim como Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Fernando Collor, entre outros.

Lentamente, o PT procura reabilitar ex-poderosos do partido e aliados que se envolveram em escândalos como José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palocci, João Paulo Cunha e, pasmem, até Delúbio Soares.


Apesar da presidente dizer que não pretende fazer nenhum tipo de controle da mídia, a "militância" e os blogueiros oficiais continuam clamando por esta pedra da salvação para sua própria irrelevância e contra quem pense diferente do Comissariado.

Nossa política externa se afastou um pouco da fase megalonanica de Celso Amorim, pero no mucho, já que assistimos mais uma vez o Brasil se abster de apoiar sanções a um ditador na ONU, como aconteceu na votação do bloqueio aéreo contra Muammar Khadafi.

O estado continua se imiscuindo mais e mais em vários setores da sociedade, com sua regulamentação excessiva, seu intervencionismo e o uso de seu poderio econômico, inibindo a livre iniciativa e tutelando o cidadão em vários aspectos de sua vida cotidiana.

O melhor exemplo foi a tentativa da Anvisa de banir remédios para emagrecimento, passando por cima de decisões que são estritamente médico-paciente e devolvendo o obeso ao antigo rótulo de glutão-preguiçoso.

Quase todos os fundamentos que eram criticados no governo do ex-presidente Lula, estão presentes no governo Dilma, com raras nuances e a significativa mudança de estilo.

A partir do início de 2011, voltamos a ter na presidência alguém que respeita a liturgia do cargo, alguém que, pelo menos por enquanto, procurou descer do palanque e subir a rampa do Planalto.

Ligamos a TV e não vemos mais o presidente do Brasil falando sobre futebol, fome, guerras no Oriente Médio, casas populares, violência, eleições em Honduras ou sobre o corte de cabelo de Evo Morales, e isto é um alívio.

Concluo então que a melhor obra da presidente Dilma Rousseff até o momento foi simplesmente uma: o silêncio do Lula.
 
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