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O dia que recriarem o mamute

Postado em 15 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Cientistas russos e coreanos resolveram unir forças para recriar o mamute. Esqueça qualquer outra necessidade do mundo atual, o importante mesmo é conseguirmos tirar o Jurassic Park das telas e, quem sabe, até ser devorados por algum T-Rex um dia.

Só que por mais que tal experiência soe bizarra, ela nos fornece material para muita imaginação, afinal, não faltam coisas que poderiam ser revividas num labotarório e que tornariam o mundo bem mais interessante do que a volta no Mamute, ou "mamofante", como os cientistas resolveram chamar o bicho (ainda que isso pareça mais o nome do último sucesso do carnaval baiano).

Pra começar, podiam trazer de volta a vergonha na cara. Porque nem as ombreiras, nem a pochete e nem o mullet (aquele cabelinho que o Chitãozinho e o Xororó usavam quando a Sandy ainda nem pensava em fazer comercial da Devassa e dos benefícios do sexo anal), ficaram tão fora de moda quanto a vergonha na cara.

Digamos que vergonha na cara seja o mamute dos costumes, junto com o senso do ridículo, que é o mico leão dourado dos costumes.

Uma outra coisa que poderia ser ressucitada é a infância. Sim, porque esses mini-adultos cheios de opiniões, vontades e iPhones de hoje em dia são chatos pra cacete. Meninas de 7 anos se preocupando com o peso e moleques de 8 dizendo que querem "comer a Sabrina Sato" não são engraçacinhos, são apenas um sintoma de que a humanidade - que já não é algo que tenha dado muito certo - conseguiu piorar.


E depois do surgimento de Elvis, dos Beatles, do flower power, psicodélico, punk, pós-punk, gótico, metal, britpop e afins, alguma boa alma científica poderia reviver o rock'n'roll, porque do jeito que vai não haverá material para produzir nenhum revival nas próximas décadas, provavelmente fazendo surgir coisas como o neo-neo-neo-grunge.

Outra coisa legal seria alguém libertar expressões como "licença", "por favor" e "obrigado", entre outras, de algum fóssil e trazê-las de volta à vida.

Porque imagina que legal seria aquela mulher com 237 sacolas de compras e um poodle dentro da bolsa passar correndo por você na calçada, esbarrar, quase te derrubar no chão e ao invés de dizer algo como "porra, sai da frente, seu cara de cu", falar simplesmente "desculpa".

Finalmente os cientistas podiam dar uma forcinha e trazer de volta algumas coisas que você encontrava em qualquer esquina antigamente e que já não existem mais, como os fliperamas, aquele cheiro de álcool quando imprimíamos algo num mimeógrafo e o chocolate Surpresa, que era tão legal que teve até uma série de figurinhas sobre os dinossauros.

Pronto, poderiam lançar um Surpresa-Mamofante, assim todo mundo ficaria feliz.

Um amigo, um convite, um pagode, um cachorro-quente e um nunca mais

Postado em 31 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Chega o final de semana e começa o perigo. Pior do que não ter o que fazer e ficar sozinho em casa vendo TV, são aqueles programas furados que sempre te chamam e você acaba indo.

Nunca se sabe quando algum convite pra um casamento de semi-conhecidos, um videokê ou uma reunião da Herbalife podem aparecer. Mas nesses casos, bem, ninguém aceita um convite assim e espera de diversão, né? Você já sabe que se fudeu logo ao aceitar, afinal de contas, qual é a chance de chegar num batizado e descobrir que o moleque é neto do Hugh Hefner e tudo será animado por garçonetes do Hooters?

Pior mesmo são aqueles convites que têm tudo para ser uma boa, mas na verdade não são. E esse tipo de programa furado fica à espreita, que nem emboscada de índio em filme de cowboy.

O telefone toca e é aquele seu amigo dos tempos da escola te chamando pra um programa "super maneiro". Você termina aceitando, ainda que a expressão "super maneiro" te lembre um desses comerciais de sucrilhos.

Aceita mas já entra no carro dele meio desconfiado de que vai ser uma noite daquelas (não num sentido legal) e quando vê na filipeta da festa as palavras "alternativo", "de raiz" e "hype", tem certeza que perder aquele especial sobre os suricatos no National Geographic não foi um bom negócio.

Mas como todo bom amigo, ele tem um arsenal de palavras de incentivo pra te deixar no clima: "a vida é uma só, cara, vai estar cheio de mulher lá", "a gente não é bonito, nem rico, nem nada demais, mas só vai ter mané ali, vamos nos dar bem" ou por último "deixa de viadagem, porra, você ia ficar em casa vendo National Geographic por acaso?".

Chegando no local você descobre que aquilo é um pagode organizado pela ex-promoter de uma boate alternativa que agora é namorada de um jogador de futebol, daí o "de raiz", "hype" e "alternativo".
O público é dividido entre bombados com cordões de prata e estudantes de ciências humanas com chinelos de couro. No meio disso tudo, você e seu amigo (que ainda por cima saiu usando uma sandálic Croc).

Toda movimentação desde que entram se resume a um batuque infernal, um bêbado de camiseta regata do Exaltasamba falando celular e chorando por causa da ex-namorada (e abraçando vocês com o suvaco suado jurando que "se ela voltar, ele casa"), três garotas que seu amigo chegou em cima e curiosamente "só vieram pra dançar" e aquelas doses de whisky falsificado que custam quase o preço de uma garrafa de Blue Label.

Com o avançar da noite, vocês resolvem abandonar alguns critérios e começam a caçar as gordinhas e as bêbadas. Mas descobrem que as gordinhas ainda não entraram em desespero a ponto de ficar com vocês e que as bêbadas já estão desmaiadas pelos cantos, o que provavelmente os enquadraria em algum artigo do código penal.

Finalmente depois das 4 da manhã a idéia de assistir "No Mundo dos Suricatos" não parece tão ruim assim nem para o seu amigo (e não teria custado aquele roubo em entrada e consumação).

Quando percebe já é quase de manhã e você está com um cachorro-quente em uma das mãos, ao lado de uma Kombi, ouvindo uma discussão entre dois torcedores de Vasco e Flamengo e jurando nunca mais cair numa dessas.

Até a próxima vez, é claro, porque sabe como é, seus amigos sempre têm uns programas "super maneiros" pra te chamar.

Histórias impossíveis (tomara)

Postado em 3 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

- Pô, desculpa aí, Cisper...

- Não tem desculpa, não, mano.

E o sujeito seguia implorando por desculpas. Cisper era um sujeito famoso pela sua violência. Enforcava gatos, espancava fracotes, pendurava  vira-latas nos fios de alta-tensão e era pichador. Quer dizer, não era bom negócio se meter com aquele Chuck Norris do Tremembé.

No final, depois de muito implorar, finalmente ouviu a sentença:

- É o seguinte, mano: "tu" vai lá e escreve assim no muro "Desculpa aí, Cisper".

Falou assim mesmo, sílaba a sílaba "des-cul-pa a-í Cis-perrrrr", com forte sotaque paulistano. O pecado? O cara tinha pichado o apelido dele no mesmo muro que Cisper já tinha grafitado.

Sabe o que essa história tem que eu jamais esqueci? Simples: nesse mundo de absurdos inacreditáveis, nunca descobri se era ou não verdade. Me foi contada pelo primo de um amigo que era tão valentão que se fosse num bairro mais pobre, tirava o tênis e saltava do carro descalço por medo de ser roubado.
Mas foi um desses casos que a gente ouve e fica pra sempre na memória, que vai acrescentando detalhes. Hoje, pra mim, o Cisper já é um cara meio mulato, que usa boné, nem forte e nem fraco, mas com um bigodinho de meter medo. O cara que fazia o pedido falava fazendo biquinho quando pronunciava o "Cis" de "Cisper" e a conversa se deu numa rua cheia de concreto e vazia de árvores, meio escura, no meio da fumaça da noite de um subúrbio de São Paulo.

É incrível como nossa mente consegue imaginar o inimaginável e tornar real.

Outra história quem me contava era um colega de escola. Dizia que conheceu um garoto de 3 anos chamado João Gabriel. O que teria de especial o pentelho de 3 anos? Simples: já nasceu falando.

Aliás, falando só não. Já nasceu chamando o médico que deu-lhe a palmada de filho da puta, a enfermeira de gostosa e o resto da molecada do bercário de "bando de filhos da puta". Com 1 ano já tinha cabelo no peito e no suvaco, com 2 já tinha voz grossa e aos 3, idade que o meu amigo o conheceu, ele disse assim para uma professora tentava fazer com que ele cantasse "atirei o pau no gato":

- Vou cantar essas babaquices não,  vai à merda.

Foi inevitável a minha mente imaginá-lo tal qual fez com o Cisper.

Meio gorducho, cara de mau-humorado (com pinta de membro da família daquele ditador norte-coreano, só que sem os olhos puxados), cabelo no suvaco (claro) e jeito de que poderia me dar um chute nas canelas a qualquer momento.

Torci sinceramente para que nenhum vazamento nuclear não noticiado tenha realmente produzido tal figura, afinal, era impossível existir uma criança assim.

Mas caso eu estivesse errado, de uma coisa eu tinha certeza: João Gabriel é filho do Cisper. Nem precisa fazer exame de DNA.

O "bom dia" do tenor

Postado em 25 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Certas pessoas são um mix de parada militar com show de fogos de artifício. Valem como uma bateria de escola de samba, uma fanfarra de colégio no interior, uma orquestra de arrotos. Elas são grandiloqüentes, contundentes, intensas e geralmente altas, no volume, que fique bem claro.

Jamais acham nada, sempre têm certeza. E são como um aparelho de som com o volume quebrado no máximo. Um simples "oi" que eles dão traz em si mais convicção do que um discurso do Fidel.

São incapazes de dizer o sabor do sorvete preferido sem que aquilo pareça um decreto ou um axioma:

- Menta é o melhor sorvete do mundo! Tenho pena de quem não prefere sorvete de menta. Aliás, pena não, tenho nojo. E aí? Vai pedir de que sabor?

- Errrr...menta?

Se têm dor de cabeça, parece que a dor foi produzida por instrumentos de tortura medieval. Sua fome é a de uns 10 somalis perdidos no deserto. Suas demonstrações de carinho fariam um filhote de cachorro desejar ser um tubarão.


Lógico que a pessoa precisa colocar alguma paixão em qualquer coisa que faça. Coisas como "eu te amo, eu acho" ou "desculpa, mas se vocês não pagarem o resgate eu mato o refém...se vocês estiverem de acordo" são igualmente estranhas. Gente que pede desculpas por tudo, que nunca sabe o que quer, que não reage mesmo quando xingam sua mãe, avó e bisavó ao mesmo tempo enchem o saco do mesmo jeito.

Mas pessoas categóricas demais parecem viver num filme.

Tipo uma dessas comédias românticas em que o cara contrata um quarteto de violinos para o café da manhã, leva a mulher para almoçar no alto do Empire State, à tarde se declara pelo sistema de som de uma ginásio de basquete e já de noite a convida para repetir tudo no dia seguinte durante um salto de pára-quedas.

Tenho uma amiga que namorou um sujeito desses. De vez em quando ele colocava um "n" no final das frases, acho que para dar mais dramaticidade:

- Tudo bem, garotoN? Como você vai? BelezaN?

Aos berros, claro. Isso quando não parava no meio da rua para se declarar:

- Já te disse que te amo muito minha namoradaN?

Acabou muito acertadamente apelidado de Pavarotti.

E pense bem: é curioso assistir um cara assim cantando ópera vestido com roupas bufantes, mas imagine ser acordado todas as manhãs por um "bom dia" daqueles.

Porque o revival de uma década geralmente dura mais do que a década em si?

Postado em 21 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Já teve horas em que eu pensei que o revival dos anos 1980 fosse durar até mais ou menos 2980.  E o pior é que pra quem não viveu aquela época, fica a impressão que só curtíamos Bozo, pirocóptero, ursinho blau-blau e "Como uma Deusa" da Rosana.

Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?

Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".


Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.

É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.

Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.

As oportunidades perdidas riem da nossa cara depois

Postado em 16 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Parece que o ser humano foi feito para jamais perder uma boa oportunidade de perder uma boa oportunidade.

A maior delas geralmente é a de ficar calado, mas não é a única.

Digo isso porque quase todo mundo já achou um dia que seria valorizado quando num ataque de honestidade neuro-incapacitante, resolveu confessar para o professor que copiou um trabalho na internet ou para a namorada que deu uns beijos na prima dela naquele final de festa, e no final acabou lembrando porque o ditado diz que em "boca fechada não entra mosca" e não "boca fechada não ganha um beijo de língua da Scarlett Johanson".

E oportunidades perdidas nos perseguem para o resto da vida. Você consegue esquecer o seu aniversário de casamento (supondo, é claro, que você não tenha se arrependido de não ter entrado num avião para a China ao invés de entrar na Igreja naquele dia), mas não esquece aquela garota que te deu mole na 6ª Série e você preferiu ir jogar War com seus amigos ao invés de tentar perder a virgindade aos 12 (e não aos 19 como foi de fato).

E por falar em 6ª Série, lembro que o The Cure veio dar um show no Rio de Janeiro quando eu estava na escola e eu acabei brigando com um amigo (fizemos as pazes depois, mas nunca mais a amizade foi igual) porque ele me pediu para comprar ingressos pra irmos juntos e, em cima da hora, desistiu do show para jogar uma pelada.


No lugar dele, jamais esqueceria o show que não fui (e acabou sendo histórico) por causa de uma bosta de um jogo de futebol na quadra da escola.

Suponho isso porque vivi coisa pior por causa uma bolsa de estudos que ganhei para passar três meses na Inglaterra quando tinha 16 anos.

Imagine só, terra dos Smiths, da realeza, dos Beatles, do Fish&Chips e até dos deliciosos pudins de rim, mas tinha um problema: era nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março e eu não queria "perder" o verão.

Resultado: não fui.

Coisas assim me fazem pensar que certas decisões da nossa vida deveriam ser tomadas por uma comissão. Sério, você reuniria umas 4 ou 5 pessoas que fariam um debate e depois tentariam te convencer do que é melhor naquele momento.

Caso a conversa não funcionasse, estariam liberados para te dar uma surra com cabos de vassoura.

Porque no final das contas, hoje nem consigo lembrar o que fiz naquele verão, e só posso imaginar tudo o que teria feito caso tivesse embarcado no avião da British Airways.

E essa oportunidade perdida volta e meia aparece pra rir na minha cara (e quando descobre que eu passei a detestar verão, calor, Carnaval, etc), ela não só ri, como gargalha. E com razão.

Umas vassouradas não seriam tão ruins assim.

Meu irmão não é um serial killer (e nem dançarino de axé)

Postado em 31 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Uma das frases que eu mais ouvi na vida é que existem amigos que são irmãos. Concordo com isso, muitos amigos tornam-se mesmo quase irmãos, quase.

Porque tem diferença. Amigos são convergências quase totais, são pessoas que se aproximam por afinidade, por gostos em comum, antipatias em comum, enfim, não existe aquela imposição genética que é o irmão de verdade.

Quem não é filho único sabe bem do que eu digo. As brigas pelo controle da TV, dividir o mesmo quarto, ir no banco de trás do carro implicando um com o outro até levar uns cascudos ou um esporro dos pais, fazer castelos de areia, jogar futebol na garagem de casa usando o portão como gol, dedurar o outro, sentir raiva um do outro e se juntar nas horas em que dá merda pra um deles.

Falo isso porque tenho um irmão que é diferente de mim em quase tudo, quase.

Enquanto eu prefiro andar pela Praia de Copacabana, ele prefere caminhar entre os prédios da Avenida Nossa Senhora. Enquanto eu fumo uma cigarrilha por dia, ele fuma meio maço de cigarros (meio porque tem mania de jogar o cigarro fora na metade, o que é ótimo, mas não tão bom quanto se ele parasse de vez).

Eu gosto de Smiths, daquela guitarra dedilhada e discreta do Johnny Marr, ele não detesta Smiths, mas também não é louco por eles como eu sou. Meu irmão prefere guitarristas virtuosos, como Steve Vai e Yngwie Malmsteen, com aqueles solos que me deixam atordoado e quase surdo. Eu não sou louco por esses guitarristas, na verdade detesto. Acho que prefiro ficar trancado num quarto com uma serra elétrica ou um CD da Cláudia Leite. Pensando bem, só a serra elétrica mesmo.

Sempre gostei de festas juninas, feiras de ciência, festinhas americanas e de ficar com as meninas (as que, sabe-se lá porque, me queriam, é claro). Meu irmão gostava de ficar no quarto conversando com os amigos, ouvindo música e tinha pavor das mesmas festas que eu não perdia de jeito nenhum. Correu atrás de meninas, é claro, mas namorou quase todas elas.

Todo mundo tem fases na vida, eu já tive, você já teve. Mas as do meu irmão eram fases incríveis. Quase virou russo, quase virou chinês, torceu pelos quatro grandes clubes do Rio de Janeiro e desconfio que pensou seriamente em tentar torcer pelo Bangu, mas desistiu a tempo.


Não entrava na água do mar, ainda que passássemos férias em Cabo Frio todo ano e, quando raramente fazia, ia de roupa e tudo, igual um iraniano. Andávamos na mesma turma, mas nossos amigos tinham um papo diferente para cada um de nós.

Comigo, sacanagens, saídas e garotas. Com ele, sacanagens, saídas, garotas e guitarras.

Sou de humanas, gosto de ler, escrever e observar pessoas. Ele é de exatas, chegou a começar a cursar Matemática, mas não teve muita paciência para observar números.

Conseguimos discordar em quase cada ponto de vista, gosto ou opinião. E nas únicas vezes em que concordamos totalmente, geralmente fizemos merda, como votar no Lula em 2002.

Quem vê de fora (e às vezes até nós mesmos, vendo de dentro) pensa que a gente se detesta. Não estão de todo errados, muitas vezes nos detestamos mesmo, afinal, o cara tem a ousadia de querer dividir a mesma mãe e o mesmo pai comigo, sabe como é, partilha de progenitores gera uns problemas, mas tudo passa.

Porque diferente de amigos, que se unem e viram irmãos por convergências, irmãos brigam e até viram inimigos por um tempo, mas a convergência os puxa de volta pelas orelhas, afinal, genética é que nem esporro de avó: coloca tudo no seu devido lugar.

Na verdade, como não amar alguém que dividiu a mesma barriga contigo, a mesma infância contigo, a mesma casa, o mesmo quintal, a mesma escola, as mesmas alegrias? Quer mais convergência do que isso?

É até bom que se discorde do resto todo, senão haja saco. Claro que se eu ou ele fossemos, sei lá,  serial killers ou dançarinos do "É o Tchan", talvez precisássemos rever a situação, mas felizmente não é o caso.

Existem amigos que se tornam irmãos e assim o são. Mas irmão é irmão, nem precisa "virar" amigo pra ser, porque já nasce feito. Na hora do "vamos ver", está ali, porque a amizade em si, é fraternal.

É a força do DNA, meu chapa, jamais a subestime (principalmente se o seu irmão for mesmo um serial killer, mas aí já é problema seu).

A mãe de todas as vergonhas

Postado em 24 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Certamente todo mundo já passou vergonha na vida. E a menos que queira bancar o Ziraldo (conhecido como "o homem que nunca broxou") da pagação de mico, até você que me lê já entrou nessa.

Levar tombo na frente dos outros, tomar um caldo na praia e sair com o calção de banho na cabeça, sorrir com alface no dente, todas esses são micos menores, que acontecem nas melhores famílias e até nas piores também.

Ser convidado para provar aquela receita maravilhosa no almoço de sábado e depois ter que dizer que está maravilhosa mesmo e não a merda que você achou ou contar alguma piada que só você achou graça podem ser adicionadas na lista de situações embaraçosas.

Mas é no álbum de fotos que tudo começa a complicar mais. Você vai visitar um amigo e ele resolve te mostrar as fotos da viagem que fez a Porto Seguro, com um monte de "gatas que ele pegou".

O problema é que entre a décima primeira e a décima segunda gorda bêbada até você já está incomodado por só conseguir balbuciar coisas como "só", "é" ou no máximo "foda".

Outra coisa é perguntar "está de quantos meses?" pra cunhada da sua namorada e só descobrir depois, quando ela sai de perto correndo aos prantos, que na verdade moça só curte um rodízio de pizzas dia sim, dia não.


Falar mal de alguém sem perceber que a pessoa se aproximou e está parada bem atrás de você, ou então fazer uma brincadeira totalmente absurda e surreal e ainda assim ofender alguém também entram fácil na lista:

- Não vou nessa aula nem que eu precise inventar que fui atropelado por um carrinho de montanha russa...

- Pô, cara, minha tia morreu caindo de uma montanha russa.


Ser pego roubando balas nas Lojas Americanas ou mijando na escada de incêndio do prédio também não são coisas muito legais para a sua reputação. Imagine você numa reunião do condomínio e o síndico pede a atenção de todos para mostrar um vídeo do circuito interno de TV onde você aparece esvaziando seu reservatório de Schincariol numa área comum. Com certeza não será o ponto alto da sua vida.

E isso me leva ao doutorado em vergonha, algo que certamente te acompanha desde os tempos da escola. Pior do que ser pego colando em exame psicotécnico, pior do que qualquer coisa que você já tenha feito sob o efeito do álcool, pior até do que o karaokê da festa de final de ano da sua empresa.

Digo isso porque não importa o que você tenha feito, o mico que tenha aprontado ou a frase sem noção que tenha acabado de dizer, nada será tão vergonhoso quanto ser pego cagando.

E se você duvida que não existe vergonha maior (nem broxar), pense no que aconteceria se na época da escola seus amigos subissem num banquinho e olhassem por cima daquelas portas que não vão até o teto e te pegassem lá sentado no trono.

Acho que nem a "Loira do Banheiro" me causava tanto medo.

E o pessoal lá da rua?

Postado em 6 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Você entra no Facebook e vê que tem lá uma solicitação de amizade, abre a página e encontra a foto de uma morena de olhos verdes, linda, bonita e provavelmente bem gostosa (sabe como é, mulher quando é boa dá pra ver só pelo rosto o que vem do pescoço pra baixo).

Apesar de não fazer a mínima idéia de quem seja, uma estranha animação vai tomando conta, afinal, ainda que você saiba que uma mulher daquelas geralmente não dá mole pra um cara como você, não vai ser você que vai avisá-la disso.

E talvez isto te faça esquecer uma coisa muito importante, como já diz o batido ditado popular: quando a esmola é muita, até o santo desconfia. Só quem não desconfia é você, idiota, que clica em banners achando que vai ganhar um iPad de graça e pensa que chove mulher no Facebook.

Mas tudo bem, você aceita o tal pedido de amizade e minutos depois ela te procura na janelinha de chat:

- Tudo bem? Como vai?

- Tudo bem, e ai?

- Quanto tempo, né? Você está mudado!

- Pra melhor ou pra pior?

- Bobo!

Até aqui, você já percebeu que não faz a menor idéia de quem seja, ainda que ela te conheça. Sua mente gira em torno de duas possibilidades: era alguma baranga do seu colégio que ficou maravilhosa ou então você precisa urgentemente procurar um geriatra, porque sua memória está a perigo, afinal, esquecer uma mulher daquelas é imperdoável.

- Mas e então, você está casada?

- Nada, ninguém quer nada sério...

- Pois é, um problema!

Quem é ela? E se for alguma ex-namorada do seu irmão, alguém que te deu um fora durante aquele último porre que você tomou num casamento e tirou a avó da noiva para dançar macarena?


- Mas e aí? O que tem feito?

- Nada, trabalho demais e chego cansada em casa, só dá tempo mesmo de ir pra academia.

Arrá! Academia! Viu? Sabia pela cara que era gostosa.

- Mas e você? Tem saído muito? Muitas namoradas?

- Tô quieto, lendo, ouvindo música, passei da fase de pegação e bagunça.

Omita o fato de ter ido numa micareta no sábado, ainda que você deteste música baiana.

- E o pessoal lá da rua?

- Ah, nem vejo mais ninguém, mudei faz tempo, perdi o contato.

- Adorava ver vocês jogando futebol no campinho.

Campinho? Futebol? Porra, você jogava tênis e sua rua só tinha uma pista de skate.

- É, o campinho...

- Saudade do Pedrinho, do Alex, do Cabelo.

- Pera aí, eu não conheci nenhum desses caras lá na rua...

- Como não? O Cabelo era teu vizinho!

- Meu vizinho? Impossível.

- Você não é filho da Tia Thereza? Irmão do Paulo?

- Errr, não...

- Hahahahahahaha você é o cara errado então, tinham dois com o mesmo nome, achei que você era meu vizinho, achava ele tão bonitinho, mas você é o outro...

- Poxa, mas se você achava que ele era bonitinho e me achou parecido com ele, já é um começo, não?

- Ah, engraçadinho. Tenho que desligar, tá? Desculpe a confusão aí.

Depois disso, se te serve de consolo, um xará seu vai se dar muito bem, afinal alguma vizinha ficou boazuda e agora vai dar mole pra ele.

Pensando bem, não, não te serve de consolo.

Viva a Juventude

Postado em 4 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

A busca pela fonte da juventude e, mais tarde, o gigantismo do mercado de cirurgias plásticas comprovam: bom mesmo é ser jovem.

Muita gente vai dizer que não, que na verdade ruim mesmo é ser velho, mas não vou entrar em polêmica, isto aqui é uma ode à juventude e não uma diatribe contra a velhice.

Uma ode ao tempo em que todas as amizades são para sempre, em que os sorrisos, teimosos, não saem da nossa cara. Um tempo em que ainda não descobrimos que não existe amizade eterna e que sorrir de tudo o tempo todo é meio retardado.

Nossa maior preocupação é passar de ano e contas, impostos, multas e mensalidades ainda não tiram nosso sono. Mais tarde vamos descobrir que talvez se nossa preocupação não fosse só passar de ano, mas aprender uma coisa ou outra, bem, esquece, ninguém fica rico mesmo trabalhando.

A juventude é um brigadeiro. Um gigante brigadeiro de colher, que devoramos sem o menor medo da balança, sim, porque a inocência termina no exato momento em que você descobre que brigadeiro engorda e começa a se preocupar com isso.


Os amores são todos que nem Romeu e Julieta, eternos, talvez num prenúncio do que se avizinha, que são alguns casamentos problemáticos com um tentando colocar chumbinho na comida do outro. Bom, pelo menos o veneno permanece na história.

Ser jovem é o primeiro sutiã, aquela coisa meio desengonçada colocada aonde um dia, provavelmente, haverão peitos, os mesmos peitos que um monte de gente vai tentar ver e/ou pegar durante um bom tempo antes de conseguir, ainda que esse tempo esteja ficando bem mais curto atualmente,

É quando pensamos que o sono é mera formalidade entre uma festa e a praia no dia seguinte e não o imperativo que é hoje em dia, entre a hora que o despertador toca, o café da manhã e o resto do dia.

Tem mais um monte de coisas boas, como poder usar bermuda em pleno centro da cidade ao meio-dia durante a semana e ninguém achar que você é turista, vagabundo ou surfista (ou os três juntos) e poder gostar de videogame sem que pensem que você tem algum atraso mental.

Ser jovem é não ter vergonha de ser ridículo, como essas multidões que hoje são fãs de bandas adolescentes e choram por cantores de sertanejo universitário. Ela, a vergonha, chega mais ou menos quando a juventude vai embora.

Pergunte para quem já usou pochete, mullet ou ombreiras se estou mentindo.

Mas ainda que não existissem as amizades eternas, os amores épicos, os sutiãs complacentes, os brigadeiros de colher e as fases do videogame, tem mais uma coisa que é muito legal no fato de ser jovem: não precisamos correr atrás da juventude.

Nada de plásticas, academias, cremes, injeções de extrato de berinjela asiática, massagem javanesa, comprimidos de sal do mar morto, preocupações com sódio ou gordura trans, nada disso.

Ser jovem é não precisar colocar máscaras de lama na cara, ficando com aquela aparência de que um ET vomitou em cima de você.

E só por isso, já merece essa exaltação.

Se beber, não volte no tempo

Postado em 27 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Dizem por aí (se você me perguntar, te respondo: sei lá quem "dizem"), mas voltando, dizem por aí que um bom filme nem sempre rende uma boa sequência.

Confesso que essa pérola da sabedoria popular veio à minha mente quando assisti a continuação de "Se Beber Não Case". Tudo que o primeiro filme tinha de bom, estava ali no segundo filme. As piadas escatológicas, as situações bizarras, os diálogos engraçados, tudo.

E talvez por isso mesmo eu tenha achado a sequência uma grande bullshit se comparada com o primeiro filme, porque tudo estava lá, igualzinho na primeira vez, só que agora em Bangoc, como diz a propaganda.

Perceber isso me fez pensar se tudo na vida não é um pouco como um filme. Esqueça o velho clichê que "sua vida daria um filme", não é disso que estou falando. Se sua vida desse realmente um filme, seria um desses do Glauber Rocha que ninguém aguenta assistir.

Estou falando de outra coisa, dessa tendência que temos de sempre querer reviver o passado de alguma forma.

Eu sei que o tempo do colégio foi legal, que seu primeiro beijo foi uma maravilha, que a primeira saída sozinho com os amigos foi inesquecível, a primeira volta de carro com carteira de motorista (e sem morrer de medo de ser pego pela PM) foi o maior hype e o seu primeiro porre, bem, foi só um porre mesmo.

A gente olha pra trás, lembra de tudo isso e aí tem a verdadeira noção de que tudo na vida muda (e nem sempre pra melhor). Só que as alternativas são morrer ou ficar por aí, envelhecendo e sentindo saudades. Mas pense se existisse outra, tipo, voltar no tempo e ficar por lá se quiséssemos.


Tal qual nas sequências de filmes, sua primeira namorada estaria lá, seus amigos do colégio, sua vontade de poder sair de carro, suas primeiras noitadas, tudo aquilo pelo qual você morre de saudade, legal, né?

Só que Nietzsche - sério, eu enfiei Nietzsche nesse post - perguntava uma coisa meio perturbadora (como aliás é quase tudo nele, a começar pela grafia do nome): você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

Sim, porque você passaria o resto da eternidade tentando enfiar a mão no sutiã de uma menina que não te deixaria nem alisar os peitos dela por cima da blusa, andaria de ônibus para a auto-escola durante anos a fio, ouviria sua mãe dizer que é pra "não passar de meia-noite na rua" todo dia e vomitaria aquela cachaça com groselha horrorosa todo sábado à noite.

Convenhamos, tal qual uma piada que perde a graça depois de contada umas 10 vezes, isso também não seria muito divertido.

E vale pra tudo: aquele seu namoro que você sente falta mas esquece que ela dormia de calça jeans 6 vezes por semana, o seu antigo emprego maravilhoso que não te dava vale transporte e nem pagava hora-extra, aquele seu amigo que mudou pra Europa mas não te pagou os 20 Mc Lanches feliz que você emprestou pra ele durante os anos de amizade.

Moral da história? Sei lá. Não saia de casa para assistir "Se Beber, Não Case 2", perca esse tempo procurando seus amigos do colégio no Orkut, só pra ter certeza que todos os caras ficaram gordos ou carecas e que as mulheres ficaram iguais às mães.

Menos a filha daquela maravilhosa da professora de Educação Física.

Indústria pornô: antes e depois

Postado em 8 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Milhares de garotos de uma geração que não está tão distante conheceram o sexo através de desenhos eróticos e experiências pagas. Talvez isso não tenha mudado tanto hoje, quando os desenhos foram substituídos por vídeos e o bordel cheio de polacas por sessões pagas na webcam.

De Carlos Zéfiro até o RedTube, muita água passou pelas descargas desses banheiros onde adolescentes se trancam para dedicar-se ao prazer solitário.

O corpo feminino - perdoem-me as meninas, mas não posso fingir que já tive qualquer interesse pelo corpo masculino - era, ainda no meu tempo de moleque, um verdadeiro tesouro sem mapa. Não sei se hoje em dia alguém pode acreditar nisso, mas eu juro: uma simples alça de sutiã já era motivo para delirium tremens de nossa parte, que dirá um polêmico mamilo.

Não canso de contar como era a engenharia necessária para conseguir uma Playboy antigamente. Eu chegava na banca de jornal e pedia um Recruta Zero, um jornal O Globo, uma dúzia de balas juquinha e uma Playboy, "porque meu pai mandou comprar pra ele", sempre na esperança da revista de mulher pelada passar desapercebida no meio do pedido.

O jornaleiro ria, me entregava aquele monte de coisas e eu ia embora pra casa correndo, para ficar ali olhando peitos, bundas e a segunda coisa que mais nos deixava curiosos depois de um par de mamilos: os pentelhos das modelos. Vai entender, adolescente se contenta com pouco, né?


Na TV, ainda havia um certo puritanismo e não era normal ligar na novela das seis e dar de cara com beijos gays, incesto e nem orgias com mulheres barbadas e asnos como acontece hoje em dia.

O Fausto Silva (esse mesmo chato dos domingões) era um revolucionário porque falava "porra", "merda" e de vez em quando até "cu" nas madrugadas de sábado. Mas o espetáculo mesmo vinha depois dele, no saudoso "Comando na Madrugada", apresentado pelo jornalista Goulart de Andrade.

Nunca vou esquecer daquelas madrugadas com a TV no menor volume possível, um olho na tela e o outro na porta para a minha avó não me pegar acordado, e a torcida para que as reportagens sobre gastronomia e consumo passassem logo para que chegasse o último bloco do programa.

Ah, o último bloco! Ele sempre ia numa peça de teatro meio alternativa, num motel, numa festa mais liberal, em qualquer lugar que permitisse mostrar no meio da reportagem uma mulher sem roupa. O incrível é que tudo durava, sei lá, uns 20 segundos, mas eu esperava a noite de sábado inteira para ver aquilo.

Um pouco mais tarde a aventura era nos fundos das locadoras, atrás das coleções do Buttman e dos filmes da Tracy Lords. Virei amigo dos donos da "Atrevídeo", locadora especializada no assunto em Nova Friburgo, onde morava.

A internet apareceu democratizando de vez a sacanagem, ainda que a conexão discada funcionasse como uma censura informal, já que era preciso perseverança e paciência de monge tibetano para esperar rápidos 15 minutos pelo loading de uma foto de 100kb, que ainda corria o risco de vir truncada justamente no pedaço que era para mostrar a xoxota da modelo vestida de colegial.

Hoje tudo ficou tão diferente que você consegue saber até se a ex-namorada do seu vizinho faz depilação simples ou virilha cavada, basta achar o site de sex tapes em que ele postou o vídeo feito naquele celular escondido no cesto de roupa suja.

A velocidade das conexões e a variedade das práticas torna tarefa impossível não encontrar conteúdo erótico qualquer que seja sua fantasia. Princesa Leia é coisa do passado, o negócio agora é mais embaixo e qualquer coisa desde Smurfs eróticos até Muppets sadomasoquistas é normal.

E por mais que isso seja repetido várias vezes e previsto desde os tempos da sua avó, se antes a indústria pornô vivia de vaginas e mamilos, não demora muito e viverá de bizarrices como mulheres vestidas e biquinis estilo calçolão.

A maior fantasia sexual imaginável será a Sasha Grey toda coberta, usando uma roupa de esquimó.

Se bem de que se formos pensar bem, essa não é uma idéia tão ruim.

Filhos que são amigos, amigos que são filhos

Postado em 30 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Sempre soube de histórias de pessoas que acabam sendo "adotadas" pelos novos companheiros do pai ou da mãe. Na minha família mesmo conheço vários casos. Tios, tias, avós, que um belo dia conheceram alguém que trazia junto o famoso "pacotinho" e no final das contas abriam suas vidas para recebê-los.

Também lembro que achava isso lindo, uma espécie de altruísmo inatingível, algo digno de aplausos e considerações, afinal, nossa mente é e sempre será povoada por histórias de madrastas malvadas e padrastos bêbados que tratam a casa inteira pior do que Judas no Sábado de Aleluia.

Pra mim essas pessoas eram especiais.

Mas a verdade é que conhecer alguém que já tem filhos e receber esta pequena família como parte de um todo não é nada demais, é apenas o que qualquer pessoa normal faria.

Ainda que faltem momentos de intimidade - em tanta quantidade nos outros casais sem filhos - uma mulher que já é mãe nos mostra como valorizar os poucos momentos de intimidade possíveis.

Ela não deixa de ser mulher, de desejar coisas de mulher. Muitas vezes quer casar novamente, ser mãe novamente, só que - diferente daquelas que têm todo o tempo do mundo para a relação, mas pouco tempo restante para realizar estes sonhos de ser esposa e mãe - ela chega com calma e nos convida a construir algo que já tem fundações, alicerces e um projeto que precisa ser terminado.


Chega e nos convida a entrar numa família semi-pronta e terminá-la juntos. Sem pressa, sem angústias, com aquele passo seguro que só quem "já esteve lá" pode ter.

Ela não deixa de ser menina, não deixa de ter o seu "eu", mas como também traz junto de si um outro "euzinho" menor, frágil, dependente, ela geralmente foge com mais delicadeza do egoísmo daquelas que não precisam se preocupar com outro umbigo além do seu.

E como não amar este pequeno "eu" que se aproxima de nós e torna-se também nosso a cada dia? Como não segurar uma criança no colo, levá-la sobre nossos ombros, colocá-la para dormir, dar comida na boca, aturar malcriações, receber sorrisos, beijos e abraços e ainda assim não se apaixonar perdidamente?

Costumo dizer que no início nós buscamos gostar da criança porque ela é "filha da namorada", mas em pouco tempo - e ainda que não deixe de ser o "filho da namorada" ou a "filha do namorado", tanto faz - construímos uma relação nossa, independente da figura materna-paterna que nos apresentou àquele pequeno ser humano.

Nosso amor, nossa amizade, nosso carinho, nossas saudades, nossos segredos, passam a ser particulares e não tem mais nada a ver com o fato de sermos companheiros dos seus pais.

Finalmente, eles viram também nossos filhos. Sim, ainda que sem carga genética, são filhos por escolha, por convivência, são filhos por compartilharem sua infância conosco, seus sonhos.

São, sim, nossos amigos. E como alguém pode ser considerado especial só porque ama amigos que viram filhos, mas que não deixam de ser amigos?

Especiais são eles. Para nós.

Eu rotulo, tu rotulas, ele é o burro

Postado em 25 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

"Pô, cara, você está rotulando"

O rótulo é uma obsessão dos politicamente corretos e socialmente oprimidos, quase todo mundo tem pavor de ser definido simploriamente em uma única palavra, por conta de alguma característica física ou alguma merda que tenha feito uma vez na vida.

O tempo do colégio é a época apropriada para o surgimento de rótulos e famas que acompanharão o sujeito muitas vezes para sempre.

Experimente vomitar em sala de aula, dar um gritinho estridente no laboratório de biologia denunciando o seu medo irracional de pererecas, ou simplesmente pegar aquela gorda com cabelo no suvaco que todo mundo chama de Abominável Homem das Neves pra ver se você se livra disso um dia.

Tenho amigos que, se eu encontrar na rua hoje em dia, vamos lembrar de todo mundo do passado através dos micos que as pessoas pagavam, jamais dos nomes:

- E aí, quanto tempo, como você está?

- Beleza, quanto tempo mesmo, desde a festa na casa daquela menina, como se chamava mesmo?

- Qual?

- Aquela que foi pega no vestiário cheirando a calcinha da Alessandra.


- Ah! A Claudinha, pô, foda aquela festa, né? Acho que foi a última vez que a turma toda se reuniu, pelo menos antes do Paulão ir morar nos Estados Unidos.

- Paulão? Não tô lembrando desse.

- Irmão do Marcelo Merdinha.

- O que se cagou todo no recreio?

- Esse mesmo! O Cagão!

- Ele não casou?

- Casou sim, com a Marcinha Corrimento, lembra dela?

- Aquela da calça branca, claro.

Não tem jeito, amigo, ainda que você pense que não, alguém por aí só vai se lembrar de você através das cagadas que você aprontou. E não adianta reclamar, porque você com certeza faz igual.

Só mesmo "a gostosa", "o gênio","o herói","o bom de cama","a famosa" é que nunca se importam com rótulos, porque "o burro","o broxa","a gorda","o bêbado", "o fresco", esses sempre vão ligar.

Coé? Belezinha, bróder?

Postado em 11 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Lembro quando fiquei adolescente e comecei a sair - com o dinheiro dos meus pais, é claro - para comprar minhas roupas, como estranhava o comportamento dos vendedores das lojas que eu frequentava.

Naquele tempo, mais ou menos como funciona hoje com os smartfones, se você não tivesse pelo menos alguma peça de roupa da Redley, da Company ou da Cristal Graffiti, você não era ninguém.

E a moda faz a gente se sujeitar a coisas que depois vão depor contra nós mesmos no futuro, como usar pochetes, ombreiras e ter aturado vendedores de lojas "pra jovem". Sempre achei estranho o formato de certos programas de TV direcionados a este público, porque mesmo na época em que eu fazia parte dele, nunca vi nenhum amigo meu se comportando como os personagens e apresentadores daqueles programas.

Tudo muito frenético, alto, cheio de gírias forçadas e aquele ar de "coé, bróder" me deixavam meio nauseado. Assistia aquilo e pensava: "me dêem um tiro caso eu me comporte desse jeito sem notar".

Mas nada superava (e ainda supera) certas lojas de roupas e acessórios.

Não é porque entrou ali querendo comprar um tênis "da moda", que o vendedor precisa tratar o cliente como se ele fizesse parte desta tribo que não consegue pronunciar uma frase que não contenha "massa", "sacoé?", "véio", "doideira", "show de bola", "loucura", "neurótico" ou "bombando".

Não sei se isso consta em algum manual de instruções ou se eles encarnam um personagem quando estão ali, mas o fato é que, dependendo da loja, todos agem como um doidão de rave que acabou de ingerir 1kg de ecstasy.

Eu até acredito que seja só personagem mesmo, que eles saiam dali e desencarnem o Paulinho Cintura, e fico imaginando um cliente identificado com o "estilo" de venda ao encontrá-los na rua, numa situação normal:

- Coé, Riquinho, beleza, véio? Show te encontrar aqui, hein, mano? Vô lá na loja essa semana, valeu meu camaradinha?

- Tudo bem, cara? Sabe o que é? Eu saí lá da loja, meu nome é Ricardo e não Riquinho, isso era só um apelido escroto que me obrigavam a usar...

O resto desse diálogo você já pode imaginar.


Eu sei é que aquele tipo de tratamento "playsson" me incomodava bastante, primeiro porque eu achava exagerado e caricato, depois porque eu nunca tinha certeza se a pessoa estava fazendo aquilo pra me zuar ou não.

- Hahaha, viu que otário? Fiquei tratando ele que nem um apresentador da MTV e ele achou que estava abafando...

Já pensou se outros profissionais se comportassem assim?

O cirurgião:

- Beleza pura, Dona Odete? Tranquilex? Saca só, vou colocar uma ponte de safena neurótica na senhora, a senhora vai ficar show de bola, valew?

O diretor de criação:

- , Aninha, que isso, gata! Chapuletou nessa logomarca, hein? Mandou muito! Toca aqui...

O arquiteto:

- Tiagão, mano! Firmeza aí, jão? Seguinte, aquele projeto da obra da sua casa que você pediu já tá quase pronto, segura as pontas que você vai ver como tua cachanga vai ficar doideira total!

O garçon:

- Dois espaguetes com molho de camarão pro rango e pra beber? Aí, vou dar uma idéia pra vocês que são meus chegados curtirem total, serinho, o vinho francês que chegou tá muito show, vocês vão ficar fissurados...

Tenho certeza que essa combinação meio Sérgio Mallandro, meio Evandro Mesquita é meio over em cada das profissões acima, assim como também é em qualquer outra profissão, se pensarmos bem, até mesmo na de vendedor de "loja pra jovem".

Né não, bróder?

O carteiro saiu para a entrega

Postado em 4 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Foi-se o tempo em que alguém ficava escondido atrás do muro que nem Jack, o Estripador, esperando pelo carteiro.

Pode parecer meio estranho, mas numa época distante as pessoas se conheciam e a partir daí trocavam telefones ou então mandavam cartas. Lembro que durante muito tempo troquei cartas com uma amiga que de Botafogo, distante uns 30 minutos de onde eu morava naquele tempo.

Frases como "tem msn?" ou "me adiciona no Facebook" ainda não tinham virado o novo "qual é o telefone do cachorrinho?" que se tornaram hoje em dia.

Soa até estranho dizer isso, mas já foi comum escrever "não" ao invés de  "naum", e coisas como "mlk", "blz", "fmz" ou "ri litrus" provavelmente seriam entendidos como outro idioma ou algum sintoma de atraso intelectual (o que aliás, não deixa de ser).

Creio até que se não fosse pelas correspondências profissionais, contas diversas e aquelas cartinhas com ameaças do SPC, os carteiros estariam passando por sérias dificuldades.

Até mesmo os desejados cartões postais viraram MMS (esses torpedos com foto).

E onde antes aparecia a Torre Eiffel única e iluminada, agora aparece a Torre Eiffel como pano de fundo para a Martinha, sua prima, que te enviou a foto por torpedo só fazer inveja.

Eu já estava prestes a mandar uma carta com votos de solidariedade para os Correios quando lembrei do comércio eletrônico.

Essa maravilha dos tempos modernos, que nos livrou de escadas rolantes, das filas no caixa e de vendedores tentando te empurrar um colchão de molas americano com tecnologia da NASA, quando você só entrou na loja enganado pensando que ali vendiam meias.


Conheço gente que não vai no shopping mais nem para comprar roupa. Agora basta entrar no site da loja, escolher modelo, cor, tamanho, passar o cartão e depois só ficar esperando a encomenda chegar em casa.

E aí é que, segundo diziam no tempo em que ainda se escreviam cartas, a porca torce o rabo.

A ansiedade pela chegada do carteiro foi substituída pelo botão F5 ou "Refresh" do sistema de rastreamento online sendo acionados freneticamente:

- E aí, novidades?

- Beleza, minha encomenda saiu de Manacapuru anteontem, já passou por Santarém, Teresina, Brasília, ontem visitou Juiz de Fora e parece que hoje está no centro de distribuição lá em Benfica...

- Sorte a sua, a minha parece que se apaixonou por Boston e está já lá há uma semana.

Mas apesar desses problemas, confesso que a sensação de abrir um embrulho que você comprou e está há dias esperando é muito boa. Recordo perfeitamente quando comprei meu iPod e a maravilha que foi abrir a caixa e encontrá-lo ali dentro, verde e com a inscrição "Rock and Roll all Night an Party Everyday", exatamente como eu queria.

Mas já pensou se ao invés disso viesse um cor-de-rosa, com a inscrição "Jamais te esquecerei Pedrão, beijos Joel"?

Tudo bem que você pode trocar, mas na hora é mais ou menos como levar gato por lebre, coisa que, se pensarmos bem, não acontece quando vemos algo que gostamos na rua, pegamos com as nossas mãos, examinamos e levamos para casa.

Quer dizer, até acontece, mas aí não seria uma compra, aí seria um namoro seguido de casamento.

O Zé das Tralhas

Postado em 21 de fev. de 2011 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Atualmente dão nome para todas as manias que sempre existiram. É síndrome disso, fobia daquilo, mania de não sei o que. Não estou duvidando das terminologias, só acho engraçado essa catalogação de esquisitices.

Uma delas é a síndrome de Diógenes, caracterizada pela "autonegligência involuntária e acumulação de objetos". Tudo bem que os casos extremos levam a pessoa a catar lixo pela rua e viver cercada de insetos e roedores, mas descobrir que a tendência de acumular velharias é motivo de estudo não deixa de ser curioso para alguém que era conhecido na infância como "Zé das Tralhas".

Tenho pena mesmo de me livrar de objetos e coisas que me lembrem alguma coisa. Mas precisa ser necessariamente alguma coisa boa. Contas, multas de trânsito e velhas estrelas do PT vão parar no lixo sem a menor dor na consciência.

Mas se aquilo me lembrar de algum momento feliz, alguma viagem, uma pessoa querida, fica difícil mesmo jogar fora. Uma foto da primeira namorada, um panfleto de um hotel em que me hospedei, um cartão postal que mostra Nova York ainda com as Torres Gêmeas tocando as nuvens, estão todos enfurnados em alguma caixa, em algum canto de algum armário.

E esse é outro aspecto hilário desse negócio de guardar velharias: na maioria das vezes, além de não prestar para nada, elas ainda ficam fora do nosso alcance. É como aquele tio que só aparece na festa de Natal, sabemos que ele está por aí, mas onde, não fazemos a menor idéia.


Para você ter uma noção, eu não consigo nem mesmo me livrar de uma terrível piranha empalhada, só porque ela me lembra uma viagem que fiz ao Amazonas há uns dez anos atrás.

Torcedor de futebol é outro tipo de ser que adora guardar tudo relacionado ao seu time. Camisas velhas - qual vascaíno que não tem uma camisa que, de tão velha, deixou de ser preta e virou azul marinho? Ou Flamenguista com uma camisa tão desbotada que ficou cinza e rosa? - posters de times campeões, jogos de botão dos tempos de colégio, tudo vira museu.

Vivemos acumulando certas quinquilharias, algumas inclusive só na nossa cabeça. Caso contrário, porque acharíamos que o passado sempre foi melhor do que é o presente?

Tenho uma notícia pra vocês: o passado só parece melhor porque o mundo era menos populoso, logo, haviam menos cretinos sobre a face da terra.

No fundo, tudo o que passa só parece melhor porque a gente não lembra direito, mais ou menos como acontece quando a gente abre uma caixa guardada no sótão e se pergunta: porque foi que eu guardei esse negócio aqui mesmo?

Descobertas de quem mora sozinho

Postado em 29 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Papel higiênico não nasce no banheiro.

Você até pode achar que essa afirmação é estranha, mas para quem nunca morou sozinho e de repente resolve curtir as maravilhas de ter o seu "canto", esta é , entre outras, uma descoberta fenomenal.

Morar sozinho é bom, pode ter certeza. Você entra e sai a hora que quer, pode assistir televisão deitado no sofá até de madrugada, pode receber quem bem entender, pode andar pelado pela casa, ouvir música alta, passar 30 dias só se alimentando com barras de chocolate e M&Ms, deixar todos os aparelhos eletrônicos ligados ao mesmo tempo, enfim, tudo o que você sempre quis fazer quando era adolescente e não podia nem quando se trancava no banheiro e muito mais.

Mas é claro que não existe almoço grátis e tudo isso tem seu preço.

Por exemplo, você descobre que além do papel higiênico não nascer no banheiro, as frutas também não aparecem milagrosamente na fruteira como você sempre acreditou enquanto morava com seus pais.

Também vai perceber que pode até comprar uma geladeira frost free e um forno auto-limpante, mas que por mais modernos que sejam esses eletro-domésticos, eles ainda não são dotados da capacidade de fazer brotar queijos, ovos, refrigerantes, iogurtes e nem o seu jantar.

Pode parecer incrível agora que você mora sozinho, mas alguém precisava ir no supermercado e comprar todas aquelas coisas que apareciam na geladeira, e alguém precisava cozinhar aqueles jantares que surgiam como milagre no fogão.

E sabe o mais amedrontador? Além do fato de toda a louça que você suja não correr pro banheiro para tomar banho e ficar limpinha esperando a próxima refeição, ninguém te ouve reclamar porque o pão acabou, o presunto está no final ou tem uma barata no banheiro, como acontecia antes.


Você acreditava que suas reclamações eram palavras mágicas, não é? Que bastava esbravejar durante algum tempo que o pão fresco corria direto da padaria para a sua cozinha, o presunto se fatiava e ficava lá, se oferecendo ao seu paladar, e a barata pegava um chinelo, cometia um suicídio altruísta e ainda por cima tomava o cuidado de já se matar na lixeira, para não deixar aquela gosma no chão.

Viver sozinho é escolher entre matar a barata e limpar toda aquela nojeira ou então conviver harmoniosamente com ela no mesmo apartamento, como se vocês fossem roommates. Gritar pela empregada não é uma opção.

Outras particularidades vão se mostrando com o tempo, como a estranha mania que os botijões de gás têm de acabar no meio de um feriado prolongado, das velas se esconderem durante um apagão e da sua despensa ficar vazia no meio da madrugada, justo naquela hora que bate uma fome tão grande que se uma ONG te descobrisse, criava uma comissão para estudar uma forma de te ajudar.

Depois de algum tempo morando sozinho, você provavelmente já terá desenvolvido a estranha compulsão por estocar papel higiênico, enlatados, fósforos e velas, como se fosse enfrentar algum bombardeio aéreo.

Você também vai nutrir uma estranha paixão por móveis - sério, vai dar o maior valor a ter cadeiras para sentar e a não acordar com a cara no mesmo nível dos seus sapatos naquele colchão jogado no chão - e além disso vai achar o maior barato comer numa mesa e não ter caixas de papelão espalhadas por todos os lados.

Mas tirando as contas que não se pagam sozinhas, a sujeira que insiste em te perseguir e não ir embora antes de ser espantada com vassoura, espanador e pano de chão e o fato de que o número de amigos que você resolve reunir em casa é diretamente proporcional à trabalheira que você vai ter para arrumar tudo no dia seguinte, morar sozinho é uma aventura e tanto.

O ideal mesmo seria unir a liberdade de ter sua própria casa com a comodidade que você tinha na casa dos seus pais, quando sempre existia alguém para resolver cada um dos seus problemas e tudo parecia custar baratinho.

Infelizmente isso não é possível, ou até é, mas você precisa dar um golpe do baú ou ganhar a Mega Sena primeiro.

O aniversário nosso de cada ano

Postado em 27 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Depois de uma certa idade, as pessoas não deveriam mais dar "parabéns" quando a gente faz aniversário, mas dizer alguma coisa como "bem feito" ou então "de novo?".

Fazer aniversário seria muito mais legal se a gente não precisasse envelhecer durante o processo.

Tudo bem que a alternativa a fazer aniversário é não fazer nenhum, e como não sabemos o que acontece depois dessa, preferimos não passar pra tal  "melhor" antes da hora, mas ficar mais velho não é definitivamente o maior evento da vida de ninguém, por isso tentamos atrasar o processo física e mentalmente o quanto podemos.

Fazer aniversário pressupõe ficar mais maduro com o tempo, ser menos impulsivo, saber mais das coisas, se afastar da adolescência, das inquietudes, gostar de canja de galinha, começar a ouvir Roberto Carlos,Frank Sinatra e a reclamar dos impostos.

Mas e se a gente não acha isso muito legal? E se a gente quer continuar usando calças curtas, falando bobagem com os amigos, enchendo a cara, vomitando o banheiro todo e consumindo Bis, pizza dormida e Coca-Cola quente no café da manhã?

Você vai me dizer "e daí?" e eu te respondo: você acha mesmo que ninguém vai te chamar de "Peter Pan"?

Vivemos para cumprir um papel na sociedade, essa é a verdade.


Se antes dos 18 cada aniversário é um passo rumo a uma liberdade maior, depois dos 18 essa liberdade vai lhe sendo tomada como se você fosse um presidiário que violou a condicional.

Aos 15 podemos sair de casa e voltar depois da meia-noite, mais ou menos aos 16 começamos a saber o que é o sexo, aos 17 já podemos beber uma cerveja na frente dos nossos pais sem levar um tapa na cabeça, aos 18 vem a carteira de motorista e a liberdade quase total e por aí vai.

Mas logo em seguida começam as cobranças: faculdade, estágio, trabalho. E mais adiante o sucesso profissional, casamento, filhos.

"Casa quando?", "E quando vem o primeiro bebê?", "Os filhos já foram pra faculdade?", "Cadê os netinhos?", a única pergunta que não fazem (mas pensam) é: "Não acha que já tá fazendo hora extra aqui nesse mundo, não?"

E quando você menos espera, acorda um dia e percebe que trabalho, contas, obrigações e outras exigências do seu "papel na sociedade" te fazem ter a mesma liberdade que você tinha aos 15, ou seja, quase nenhuma.

A diferença é que ninguém te sustenta, ou seja, era melhor ter 15 e correr batendo a porta do quarto, colocando um rock a todo volume só para encher o saco dos seus pais. Hoje se você fizer isso provavelmente te acharão meio maluco e, com sorte, você só vai levar uma multa do condomínio por perturbação da ordem.

Você tem mais de 40 anos, resolve aprender a surfar e alguém com certeza vai dizer "não tá meio velho pra isso?". Você tem 60, morre de depente e dirão "nossa, mas era tão novo!".

Resumo: para  "estar vivo" você permanece novo por bastante tempo, mas para "viver", logo fica velho.

O que sobra é que os primeiros aniversários se parecem muito com os últimos: você mesmo pouco liga para a festa que os outros fazem quando completa 1 ou quando faz 90 ano e entende muito pouco do que se passa à sua volta em ambas.

Aquele monte de gente sorrindo, comendo, bebendo, cantando "parabéns pra você" e pensando quietinhas entre um brigadeiro e um cajuzinho:

- Será que esse moleque um dia vai ser médico ou engenheiro?

- Acho que o vovô quer competir com o Niemeyer...

PS: O autor deste blog fez aniversário ontem (26/12), daí a reflexão (estimulada por um amigo) sobre aniversários. Mas não precisa dar parabéns e nem dizer "bem feito", OK?

Sou cretina, não estou te dando mole

Postado em 15 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

De vez em quando surgem algumas lendas urbanas, como a loira do banheiro, o destino das caneas Bic e alguém que ganhou 20 milhões na raspadinha. Outra dessas lendas que acabam tomando conta do imaginário das pessoas é a da garota que é apenas legal, mas "não está te dando mole".

Sei que muitas vezes a diferença entre ser educada ou prestativa e querer dar uns amassos no cara é tênue, e que alguns homens não são muito bons em identificar isso.

- Oi, pode me informar as horas?

- Claro! São oito e quinze.

Ele pensando: "Hummm, acho que ela tá afim de me dar, viu o jeito que sorriu com o canto da boca quando falou quinze, que também quer dizer um quarto de hora? Sacou a maldade dela? 'Quarto'?".

O problema é que sujeitos assim, ao contrário do que você possa pensar, não são a maioria. Um bom número deles inclusive já se encontra cumprindo algum tipo de pena relacionada a isto num presídio federal.

O normal são caras que curtem mulheres, que querem conhecer alguém legal, que só estão afim de uma transadinha rápida mas que preferem que a mulher fique afim deles primeiro, e que não esteja sedada e nem amarrada durante a experiência.

E nessa hora começa a complicar, porque o que será um "mole"? O que será "ser legal"?

A sociedade convencionou que mulheres não podem dizer abertamente pra um cara quando querem alguma coisa com ele, só podem enviar sinais e raras são as que rompem essa barreira. Lógico que homens também contribuem, porque se o sonho deles é um dia encontrar quem diga "Oi, tô afim de te dar", na mesma hora que conseguem isso e a menina toma a atitude, eles pensam "é piranha, deve estar querendo me passar alguma doença ou me dar um boa noite Cinderela".

Só que algumas exageram nesse lance de ser "legal" ou de ser íntima no limite entre a amizade e o amor livre, e por isso eu digo que tem mulher que é cretina mesmo e se aproveita de mais essa lenda urbana (tal qual fazem quando roubam uma Bic no escritório e dizem pro dono que "canetas Bic somem para um mundo paralelo") para provocar, se sentir gostosa e mexer com a cabeça dos outros.


- Não sei se a minha operação para colocar prótese de silicone ficou boa, acho que está meio assimétrico, me diz o que você acha?

- Claro, porque não, se quiser me mostrar...ah, você está tirando a blusa, nossa, é, o médico fez direitinho sim, quer dizer, mas que peito gostoso!

- Pô, cara, você tá sendo inconveniente! Eu só te pedi uma opinião isenta, de amigo e você já confundiu as coisas.

Exagero meu? Nem tanto. Isso acontece, acredite em mim.

- Meu namorado me traiu, você acredita? Eu passo oito horas por dia na academia e no salão para manter essa minha barriga de tanquinho, essas minhas coxas grossas, a minha bunda empinada, meus cabelos bonitos, para estar sempre cheirosa assim e ele me trai.

- Não fica assim não, ele devia estar numa má fase ou então não te merece mesmo, fica bem que você vai ficar legal, sabe como é, às vezes nem foi com outra, pode ter sido outro, em todo caso evite andar em lugares do teto rebaixado por enquanto e depois parta pra outra.

- Sério, você trairia uma mulher como eu? Que fala francês, inglês, espanhol, que pratica pompoarismo, faz yoga, curte sexo todos os dias e ainda por cima tem essa panturrilha aqui?

- Não, eu não faria isso, mas o seu namorado é outra pessoa, vai ver ele estav...

- Tô com tanta raiva que seria capaz de me vingar dele agora mesmo. Quer ir até lá em casa e me comer só pra eu dar o troco?

- Pô, claro que quero, sempre te achei um tesão...

E ela chorando:

- Tá vendo? Sabia! Você não é meu amigo nada, você quer é se aproveitar de mim!

Fica difícil entender, mais ainda saber como agir. Todo mundo já deve ter passado por situações parecidas.

Tipo quando você conhece uma garota no curso de webdesign, gatinha, estilosa, gente boa e que ainda se chama Charlote. Curte as mesmas músicas que você, gosta dos mesmos tipos de lugares, vocês conversam horas sobre cinema e ela também acha que "Vicky, Cristina, Barcelona" é uma obra-prima.

Vocês começam a sair para tomar um café de vez em quando - ela pede mocha frappuccino e você toma vanilla latte - e começaram até a ir beber juntos nas sextas-feiras.

Ela está solteira, você está solteiro e tudo leva a crer que ela está afim de você, inclusive o fato de vocês rirem juntos, passarem cada vez mais tempo um com o outro e até dela elogiar seu topete, suas costeletas, te chamar de bonito e ligar às 2:00 da manhã só pra ouvir sua voz.

Até que um dia você resolve que chegou a hora de dar uns amassos na Charlote. Coloca perfume, a chama pra ir num show de alguma banda indie mais chata do que Los Hermanos (mas que provavelmente vai impressioná-la), chegando lá vocês entram de mãos dadas para passar pela confusão e no meio de uma música em que o vocalista barbudo diz algo como "então eu quero esquecer de tudo e te beijar como se fosse um Carnaval em junho" - esqueça o fato dele ter romantizado uma micareta - você a segura forte, olha nos olhos e diz:

- Eu quero muito te beijar...

Ela sorri, olha de volta nos seus olhos e diz:

- Pô cara, eu sou legal, não tava de dando mole.
 
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