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Céu, inferno e reencarnação

Postado em 17 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Se tem uma coisa que todo mundo morre de medo, quer dizer, todo mundo menos esses neo-ateus que passam o dia fazendo pregação ao contrário na internet, é de morrer e ir parar no inferno.

Sabe aquela coisa meio desagradável que é cheiro de enxofre, óleo fervente, espadas espetando seu corpo, navalhas, calor, um fogaréu danado e ainda por cima um sujeito chifrudo berrando coisas com voz fantasmagórica? Pois é, não é algo que ninguém vá querer para si.

Mas se você pensar um pouco, pode concluir que o inferno pode ser a Central do Brasil, por exemplo. Aquele cheiro de jaula emanando de banheiros públicos e bueiros entupidos, empurra-empurra, calor, larápios com navalhas cortando sua mochila para roubar aquele seu Subway Melt que você comprou para viagem esperando comer em casa enquanto assiste CSI Special Victims Unit, aquele monte de sujeitos berrando com voz fantasmagórica coisas como "3 por 1 real" ou "Chip da Oi, Claro, Vivo e Tim". Só faltam mesmo os chifres.

E assim chego no meu ponto: e se realmente existir reencarnação e o país onde você nasce é determinado pelo seu carma? Tudo bem, entendo que você tenha até começado a sentir um aroma de incenso ao ler essa última frase, deve estar pensando que um careca de túnica laranja está escrevendo esse texto, mas é sério, e se, por exemplo, meninas boazinhas nasçam suecas na próxima encarnação, só para aprontarem horrores e voltarem iranianas na encarnação subsequente?

Pensei nisso vendo uma reportagem sobre presídios na Noruega. Um cara, digamos, cumprindo o final de uma sentença por assassinato naquele país vai apra uma ilha-prisão chamada Bastøy. Esqueça o nome que lembra Bastilha e esqueça que ilha lembra Alcatraz.

Este cara é um presidiário norueguês sendo punido pelo sistema, é sério.

Os presos neste lugar vivem em bangalôs que eles mesmos decoram. Trabalham durante um período nas atividades relacionadas à manutenção da ilha (como conduzir ferry boats, por exemplo) e no seu período livre podem tomar sol no terraço de suas casas, assistir TV a cabo, nadar em piscinas, usar câmaras de bronzeamento artificial e está em estudo o acesso à atrizes pornô suecas.

Mentira, claro, mas só a parte das suecas. O resto todo é verdade.

Pois bem, não é difícil concluir que um homicida norueguês encarcerado tenha uma vida muito melhor do que um trabalhador da construção civil em São Paulo.

E nisso se baseia a minha teoria: e se não existir céu ou inferno? E se, como diz muita gente, o céu e o inferno forem aqui mesmo e estejam numa vila na Suécia, num bairro de classe média dinamarquês, numa favela da África ou num campo de refugiados no Sudão?

Claro que tudo isso pode ser uma grande viagem da minha cabeça, afinal, onde já se viu alguém ser tão ruim numa encarnação a ponto de merecer reencarnar como aquele sujeito que segura corda de trio elétrico ou um vassourinha de time de curling na outra?

Também não acredito que alguém consiga ser bom o suficiente para reencarnar como o sabonete da Kirsten Dunst, a menos que se mate para doar todos os órgãos para pesquisa científica.

Só sei que maluquice ou não, convém se comportar. Ajudar velhinhas a atravessar a rua, segurar a porta do elevador para aquele seu vizinho chato, assinar o livro de ouro da portaria no Natal e, claro, evitar ser visto por aí na companhia de políticos.

Porque vai que minha está certa e você perca a oportunidade de morar numa ilha presídio norueguesa na próxima vida?

Na natureza selvagem, mas a 5 minutos do shopping

Postado em 29 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Ar livre, contato com a natureza, respirar fundo, sol, transpiração, adrenalina, bem estar, boa forma, calor, cansaço, sede, fome, mosquitos.

Sei que parece meio esquizofrênica a sequência de palavras acima, mas é exatamente nisso que eu penso quando me falam em trilhas, trekking, mountain bike, acampamentos, escaladas e qualquer outra coisa que me faça afastar mais do que 15 minutos andando de algum veículo que possa me retirar do local em segurança.

Afinal, me desculpe quem gosta disso tudo, mas se eu fosse feito pra andar em terreno acidentado, cheio de lama ou no meio de uma floresta, não teria nascido gente, mas um jipe com tração nas 4 rodas.

Lógico que viajar para se integrar às belezas do planeta é legal, nadar numa praia paradisíaca é muito bom, tomar banho de cachoeira, sentir aquele cheiro de verde, o problema é que depois que você vê 10 praias em 2 dias, já não consegue mais diferenciar uma da outra e no meio daquela caminhada de 6 horas com muito sol e insetos, você entende realmente porque as gerações anteriores gastaram tempo e dinheiro inventando o ar-condicionado.


Falo isso porque uma ilha no Pacífico, com areia branquinha, águas azuis e sombra de coqueiros só é um paraíso se houver uma embarcação te esperando ali perto. Experimenta ser um náufrago pra ver se aquilo não vira o inferno. Por isso praia deserta é sensacional na medida que tenha um local com bebida gelada e um chuveiro com água doce por perto.

Sem contar que fotografar borboletas, gafanhotos, formigas e fungos é até legal, artístico, científico, engajado, sei lá, mas depois da milésima foto convém você tentar um emprego na National Geographic, porque não devem existir tantas araras-de-peito-lilás diferentes assim no mundo.

Mas de tudo isso, o que menos entendo é quem gosta de acampar. Não falo desses campings na Barra da Tijuca, a 10 metros do calçadão, 5 minutos do shopping e com ligação de luz para as barracas além de banheiro comunitário.

Falo de pegar uma mochila do tamanho de um Fusca e se embrenhar no mato com dois pacotes de miojo, uma garrafa de 500 ml de água, uma lata de leite condensado e uma barraca com as dimensões de uma casinha de cachorro para passar uma semana ali. Se acampar fosse mesmo essa maravilha toda, as pessoas morariam numa barraca logo, sem precisar pagar 30 anos de prestação por uma casa.

E quando eu estiver muito afim de ver uma aventura selvagem, assisto um desses programas de sobreviência ou de viagens radicais, que mostram gente nadando em corredeiras e dormindo em folhas de bananeira, mas omitem o fato de que atrás das câmeras tem uma equipe de apoio e provavelmente um ítem que eu colocaria como número 1 da lista de coisas que levaria para uma ilha deserta: um helicóptero.

Se você tiver que ir para a PQP, tente pelo menos não ir de excursão

Postado em 28 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

A princípio toda viagem em grupo parece uma boa idéia. Seja o pessoal da faculdade, alguns velhos amigos ou mesmo aquela excursão.

Viajar com uma turma pode garantir que você terá sempre companhia para fazer um passeio, para dividir dicas sobre lugares transados e até para se perder num país de língua estranha e placas escritas em alfabeto cirílico. Uma excursão ainda te garante a tranquilidade de não se preocupar com nada, já que eles te buscam no aeroporto, te levam pro hotel, organizam seus passeios e dizem até os horários que você pode ir ao banheiro.

E aí é que a teoria inicia uma briga conjugal com a prática, porque convenhamos, essas viagens em grupo possuem todos os problemas de um casamento - debates sobre ir a um restaurante de massas ou um japonês, diferenças de temperamento, gostos distintos, tensões de uma convivência prolongada, aquela obrigação de ir junto ao mesmo lugar - sem ter nem pelo menos o sexo como compensação, o que nem é de todo ruim, se você pensar naquele casal de cabelo azul comemorando bodas de ouro que está na sua excursão no meio de um bacanal num ônibus fretado.

Os seres humanos são tão diferentes que podem transformar até um passeio na Europa ou no Caribe num inferno para seus semelhantes. Existem os que acordam cedo, os que dormem tarde, os que gostam de aventura, os que preferem programas sossegados, tem quem curta uma loja de eletrônicos, outros preferem um sexshop com dançarinas búlgaras e dromedários, enfim, é difícil atingir qualquer consenso racional, mesmo que não seja sobre nada tão radicalmente oposto quanto chegar até uma praia deserta confortavelmente num Land Rover com ar-condicionado ou descendo de rapel no meio de uma área infestada de tubarões.

Pense bem: você passou a noite numa rave em Barcelona, foi dormir às 8:00 da manhã e depois de 27 doses de alguma coisa misturada com gelatina que te fez achar uma versão de Chitãozinho e Xororó em romeno o maior barato, a única coisa que deseja é dormir.


Mas de repente seu colega de quarto te acorda para fazer uma caminhada e conhecer obras de Gaudí ao ar livre. Porra, seu amigo é gente boa, Gaudí é o maior barato, mas fala sério. E sim, isso estraga um pouco a viagem dos dois.

O mesmo acontece com aquela sua namorada viciada em informática, que depois de passar três dias contigo só visitando museus em Nova York resolve dar um xilique no meio da exposição do Andy Warhol:

- Chega dessas viadagens de latas de sopa e Marilyns coloridas, quero ir na Apple Store agora!

Mas ainda pior é estar num city tour com gente que só tem um interesse: comprar. Vão no Museu do Tubarão? Azar dos tubarões, eles querem é comprar golfinhos de pelúcia. Está no estádio do Barcelona? Problema seu, eles querem é comprar canetas oficiais do time para presentear os amigos do trabalho. Foram numa vinícola no Chile? E daí? Eles querem mesmo é saber onde está a lojinha que vende sabonetes com aroma de prosecco. Está diante de um Van Gogh? Porra, eles querem saber é onde podem comprar 20 Moleskines. E como geralmente guias turísticos ganham comissão por vendas, você ainda corre o risco de ouvir absurdos como:

- Chegamos em "El Caminito", local onde nasceu o tango, vocês terão 15 minutos para conhecer tudo e depois vamos para um passeio de duas horas no shopping.

Dá a maior vontade de mandar todo mundo pra putaquepariu. E de excursão.

Viaje sem sair de casa

Postado em 27 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

De vez em quando eu cismo com isso e ainda que procure não pensar no assunto ele sempre volta à minha cabeça: brasileiro que viaja para o exterior e vai comer em restaurante de comida brasileira merecia ser deportado no ato.

Lógico que se você estiver curtindo uma temporada de 10 anos prospectando petróleo na Sibéria, é normal que sinta saudades de uma farofa, um bife acebolado, um biscoito Torcida. Mas viajar 5, 10, 15, 20 dias que seja e ficar ansioso porque está sem o seu "feijãozinho" é caso de polícia. Polícia mesmo, sério.

Uma vez durante uma viagem passei no avião por uma mulher vestida com a camisa da Seleção, agasalho do Comitê Olímpico Brasileiro, boné com a bandeira e desconfio que se os avisos não mandassem desligar os celulares o dela tocaria "Todos juntos vamos, pra frente, Brasil!". 

Nada contra a pessoa gostar do próprio país (ainda que em se tratando do Brasil eu não entenda a maioria das coisas que as pessoas gostam), mas precisa sair pelo mundo fantasiado de bonecão do posto em época de Copa do Mundo?

Não adianta, tem gente que é xarope mesmo, pode ir para Roma, que não faria diferença alguma se fosse para São Gonçalo ou Arraial D'Ajuda. O cara viaja, mas vai ouvindo funk. Sai pra comer e procura uma feijoada. Vai beber e pede caipirinha. Entra no Louvre, mas diz que espetáculo mesmo é o desfile na Sapucaí.

Mas como esse pessoal têm todo o direito de viajar ao exterior e continuar se comportando como se estivesse em Banânia, nada melhor do que criar alguns serviços para eles, não é? Imagina só: o cara viaja 4 dias para Buenos Aires mas chora como um bebê com saudades de ouvir um vizinho tocando um funk nas alturas, sente falta de olhar um morro e não ver lixo e nem barracos, quase se mata porque não acha um flanelinha sequer pedindo dinheiro.




Mole, basta construir uma rede de parques temáticos chamada "Favelaland", com tudo o que tem direito: churrasquinho de gato, cerveja Schin e um grupo de pagode fazendo show na beira de uma vala negra. E para honrar a prestação de serviços da terra natal, os brasileiros ali pagariam caro para ser mal atendidos.

Até os gringos poderiam aproveitar a experiência, conhecendo de perto como é a sensação de viver no país do samba, futebol e Carnaval. Gigantescos aquecedores manteriam a temperatura dentro do parque oscilando entre 40 e 45 graus, naquela temperatura de cloaca bem ao gosto do "país tropical".

Um corredor de barraquinhas de camelô recepcionaria os visitantes, todas vendendo tênis Mike, camisas Abidas, agasalhos Pumma e bermudas da Holimpikus. Logo em seguida cachorros-quentes "podrão", suco Hula Hula, pipocas com toucinho e peles de porco. Uma vez por dia (logo após o desfile diário das escolas de samba) haveria uma chuva artificial que causaria uma enchente totalmente planejada e o visitante ainda ganharia uma leptospirose de brinde.

Para completar a experiência todos teriam acesso à prestação de contas da construção do parque, que obviamente teve obras atrasadas e superfaturadas. Na saída, todos pagariam entrada novamente, afinal, carga tributária escorchante também é "coisa nossa".

No final todo mundo sairia feliz: os gringos porque tudo não passaria de um programa de índio de um dia, a brasileirada porque não precisaria sentir saudades de casa e pessoas como eu, que não precisariam esbarrar com esses tipos quando estão viajando por aí.

Não é uma boa idéia? 

Pode chegar seu pinheirinho pro lado?

Postado em 22 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Todo ano quando Dezembro vai se aproximando, assistimos no Brasil a três fenômenos da natureza: a chegada do calor, a saída dos zumbis consumistas dos seus casulos e o aparecimento de uma decoração de Natal repleta de pinheiros, renas e neve artificial, totalmente em desacordo com aquela temperatura digna de uma cloaca que se vê nas ruas.

É por essas e outras que eu adoraria viajar em meados de Novembro e só voltar depois que as águas de março lavassem o cheiro da urina que se espalha pelas ruas no Carnaval.

Mas o problema é que eu poderia viajar à vontade, mas fotografar essas viagens (pelo menos em Dezembro) já seria uma outra história. Digo isso porque finalmente descobri a maior utilidade das decorações de Natal: estragar suas fotos.

Não pense que é mau-humor gratuito, ranzinzice, nada disso (ainda que eu ache ridículo esses homens vestidos de Papai Noel num calor de 40º), mas um fato incontestável e digo mais: a menos que viaje para a Lapônia, o merecia ser ressarcido quando sai de casa nessas épocas.

Raciocine comigo: você paga mais de mil dólares numa passagem para Paris, passa meses sonhando com isso, chega lá e encontra um Papai Noel pendurado na Torre Eiffel ou um pinheiro falso no alto da Casa Rosada.


Tudo bem que tem um monte de cretino que adora tirar foto de decoração de Natal, mas que estraga, estraga ou você acha que um gondoleiro de Veneza vestido de beduíno de presépio não é esquisito?

Certa vez estava visitando um castelo antiquíssimo e ao invés de tirar fotos das armaduras, das camas de reis e princesas, das muralhas, dos catiçais, etc, tinha gente tirando foto de um pinheiro decorado com embrulhos de presentes falsos, iguais a estes de qualquer shopping em Madureira.
É um tal de "chega pro lado que eu vou abaixar aqui pra tentar esconder aquelas guirlandas penduradas na Torre de Belém".

Decorações de Natal operam verdadeiros milagres: a Avenida Paulista fica parecendo a Disney. A Disney fica parecendo algum supermercado na periferia de Belo Horizonte.
Certos lugares até combinam, como Nova York (sei de gente que gosta de ir lá só pra ver a decoração de Natal), mas sinceramente eu não imagino aquelas árvores radioativas cheias de luzes num filme do Woody Allen, no máximo do King Kong.

E isso acaba te deixando numa situação complicada: quando chega Dezembro, se ficar no Brasil o calor te derrete, se fugir a rena do nariz vermelho te pega.

Férias

Postado em 3 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários


Parto para alguns dias de férias e reencontro com minhas origens em Terras Portuguesas. Tentarei atualizar o blog de lá, mas não prometo.

Um beijo e um abraço carinhoso a todos os meus leitores e que eu possa voltar cheio de boas histórias para contar!

Porque estamos virando turistas japoneses

Postado em 14 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

De repente todo mundo parece um turista japonês.

Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.

Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.

Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?

Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".

Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.

Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.


Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.

E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.

Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.

Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.

Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.

É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.

Programação do dia: chegada à Paris e almoço no Empório Brasil

Postado em 5 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Tem coisa que é muita sacanagem, tipo, finalmente (e sabe-se lá porque) você vai ser entrevistado no programa do Jô Soares (tem quem ache isso uma merda, mas sob certa forma é um parâmetro de "chegar lá" no Brasil).

Só que justo no seu dia de glória, quando você vai avisar para toda a sua família ficar a postos com gravadores na frente da TV para registrar o momento, e o dia que seus inimigos dirão coisas como "ah, se ainda fosse no David Letterman", você acessa o site do programa para ter o gostinho de ver seu nome ali e lê o seguinte:

- Hoje no Programa do Jô entrevista com Fulano de Tal ("Fulano de Tal" é você), com Krong, o mágico das galinhas e com o novo projeto do funkeiro MC Leopardo juto com o grupo de pagode Exaltalhança.

Um lineup de convidados assim vai te fazer sentir como se estivesse num circo de variedades. Se ainda chamassem, sei lá, o grupo de lutadoras no gel da Playboy, tudo bem, mas Krong? O mágico das Galinhas?! Galinhas? E um projeto de funkogode fusion?

Você já imagina seus inimigos rindo "Hehehehe, bem de acordo com aquele bosta...".

Não contei isso tudo só pra você pensar que eu tomei ácido ou qualquer coisa do tipo, é porque me chama atenção como certas coisas podem estragar momentos que eram pra ser mágicos para nós.

É aquela foto do seu casamento onde justo na hora de jogar o buquê aparece sua tia de calça saruel mostrando o cofre, é o sorriso com alface no dente, é o sorteio de um carro zero que você ganha mas que pelo regulamento do sorteio (que você aceitou sem saber) precisa passar um ano com o carro pintado de rosa e laranja e a inscrição "Ganhei no sorteio do Shopping das Calcinhas".

É o "mas" que sempre aparece para ferrar com a sua paciência. Como aqueles elogios cretinos que sempre vêm com um "mas" depois. Tipo "você está linda hoje, mas...essa maquiagem te deixa meio com cara de puta".


Muitas vezes essas situações são compulsórias, não tem jeito, você precisa sorrir (nem que seja um sorriso amarelo) e andar por aí fazendo propaganda do Shopping das Calcinhas durante um ano, mas o que dizer de quem procura isso?

Viajar, por exemplo. Você junta grana, compra dólares ou euros, tanto faz, marca a passagem, tira o passaporte, paga 300 taxas, enfrenta a fila do check-in, frango borrachudo e barrinha de cereal da classe econômica, fila da imigração, jet-lag, fuso horário, aí finalmente chega no seu destino e vai almoçar no...Empório Brasil?

Juro, na minha opinião quem viaja pro exterior e vai comer em restaurante brasileiro deveria ser proibido de deixar o país. É como você participar de uma promoção, ganhar um automóvel e na hora de receber o prêmio dizer "dá pra vir pintado de laranja e rosa com o nome do Shopping das Calcinhas escrito?".

Nada contra curtir seu país, nada contra quem mora (veja bem, mora) no exterior sentir saudade de um feijãozinho, uma caipirinha, um sambinha (ainda que detestasse samba enquanto morasse aqui), mas ninguém morre porque ficou 15 dias sem comer uma orelha de porco ou escutar o Exaltasamba. Sério.

E quem faz isso, na boa, se a Constituição não permitir que seja proibido de deixar o país, pelo menos merecia voltar pra cá num vôo sentado na poltrona do meio, com o mágico Krong de um lado e o MC Leopardo do outro.

Atletas de férias

Postado em 25 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

É sempre muito bom conhecer lugares e pessoas novas. Sei, entretanto, que isso não quer dizer necessariamente que as pessoas destes lugares estejam interessadas em nos conhecer. Procuro sempre não atrapalhar muito o processo, mas sei que o mesmo não ocorre com certos turistas brasileiros, que parecem fazer questão de se fazer notar (e gerar antipatia) por onde quer que passem.

Quer encontrar um brasileiro no exterior? Siga o barulho.

Mas não é esse o assunto, ainda que a falta de educação do povo do Patropi sempre renda assunto.

Quero falar é sobre as tarefas que nos impomos quando estamos de férias.

Seja por um curto período, seja por um período mais longo, as viagens de férias se tornaram uma espécie de obrigação social do indivíduo. Quando eu era moleque, passava as férias inteiras na piscina da casa da minha avó ou em frente a um videogame e achava aquilo o máximo.

Um bolo de chuva, um passeio no shopping, uma ida na praia, um lanche no Mc Donald's, tudo isso é assunto para férias de criança.

Depois que crescemos não é mais assim.

Hoje eu preciso me deslocar, rodar pelo mundo o tanto que meu orçamento permita e, uma vez longe de casa, absorver o máximo possível do lugar para onde vou. Sei que quase todo mundo é assim, pois observo nos meus amigos esta mesma tendência ao turismo frenético.


Nossas férias são usadas para ampliarmos nossa bagagem cultural, para justificarmos nossa passagem pelo mundo. Os lugares que você visitou passam a te definir e por isso você precisa conhecer tudo, fazer tudo, saber de tudo.

Nada de descanso, nada de ficar sentado num café a tarde inteira olhando o vai-e-vem das pessoas, isso sim, é um luxo.

Imagina? Você volta de Buenos Aires e alguém te pergunta:

- Conheceu Puerto Madero?

- Sim, claro!

- E Palermo?

- Também!

- Foi ver as exposições do Malba?

- Não deu tempo, nesse dia fui tomar um sorvetinho...

E o outro com aquela cara de desaprovação como se dissesse: "que animal...".

Por isso visitamos museus, galerias, praças, monumentos, andamos por calçadões, fazemos passeios de barco, jangada, buggy, corremos de um lado para o outro em parques aquáticos, fazemos mergulhos guiados, comemos fora, compramos lembrancinhas, sem esquecer é claro de atender aos pedidos dos amigos, afinal, a melhor maneira de todo mundo que fica trabalhando estragar as férias de quem viaja é dar aquela lista de encomendas.

E entre uma coisa e outra tiramos umas duas mil fotografias, de outra maneira pra que serviriam os álbuns de redes sociais? Pega mal colocar foto da pizza de sábado ou do churrasco da sua tia no Facebook (isso é coisa de Orkut), ali só vale férias em Varadero, poses nos Alpes, fotos com aqueles dois polegares para cima em frente à Torre Eiffel ou simulando segurar a Torre de Pisa.

Só tem Donald Trump, Eike Batista e Jorginho Guinle no Facebook.

No final das contas, quando você se dá conta já está tomado por aquele mau-humor característico da volta das férias, sentado no avião quase desacordado e provavelmente mais cansado do que quando saiu.

E a maior ironia de todas é chegar no trabalho na segunda-feira seguinte e ouvir a pergunta:

- E aí? Recarregou as baterias?

Pausa na vida virtual

Postado em 21 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Parto amanhã para uma curta temporada na bela capital uruguaia, Montevideo, quando poderei apreciar aqueles deliciosos bifes de chorizo que fariam horror em qualquer vegetariano e passar o dia ouvindo esse idioma maravilhoso que é o espanhol.


Por isso mesmo não atualizarei o blog e provavelmente nem o Twitter até semana que vem, quando espero encontrar todos os meus (poucos) leitores por aqui, com alguns quilos a mais creditados na conta do Coelhinho.

Desejo a todos um bom descanso e uma Feliz Páscoa!

Viajantes são ETs

Postado em 7 de fev. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

O viajante é uma espécie de ser de outro planeta.

Ele não deixa de ser humano, é claro, ainda mais quando resolve largar garrafas pet e embalagens nas praias por aí afora, mas com certeza quem viaja deixa de ser um pouco quem é.

Desde a antecipação do saguão de embarque, passando pelas rezas discretas, quase escondidas, durante a decolagem e chegando na visão de um lugar totalmente novo (ou no reencontro com um querido lugar antigo), ainda somos nós, mas com certeza somos outros.

O tempo do viajante passa diferente. Enquanto no escritório, seja numa imitação de Champion de 20 reais ou num Rolex de 5 mil, as horas passam junto com o rastro de uma lesma, quando viajamos as horas se tornam minutos e os dias viram piscadas de olho.

Piscou, você está num city tour qualquer (que uma antiga professora de espanhol gostava de chamar de "shit tour"), piscou novamente você já está no dia seguinte, visitando algum museu ou feirinha de artesanato.

As próximas duas piscadas fatalmente nos levam ao aeroporto e à viagem de retorno.

Não invejo quem tira férias porque sei bem a depressão que os espera na volta. E não adianta vir me dizer que a vida é assim, que é preciso voltar à rotina, que o trabalho engrandece o homem, etc, etc.


Se rotina fosse essa maravilha toda e trabalhar feito um mouro fosse a beleza que dizem que é, com certeza não te pagariam pra fazer isso todo dia, nem mesmo essa merreca que você acha que ganha.

Felizes são os viajantes, que pairam por sobre as rotinas alheias, que atropelam os problemas que cada cidade certamente possui com sua curiosidade e suas máquinas fotográficas. É preciso viver num lugar para ser atingido por suas mazelas, quem está ali só de passagem, acha graça até das filas, do trânsito e da chatice das pessoas.

Viajantes são sociáveis, fazem amizades com a facilidade das crianças. Seja a família tomando sol ao lado na praia, o casal que está na piscina do hotel, as pessoas que passam um dia inteiro em conviência meio forçada numa van refrigerada, enfim, não falta assunto, não faltam os "de onde eu venho é assim..." e os "lá na minha cidade...".

Talvez a minha rotina é que seja um saco, talvez seja a sua rotina que é esse pavor. Se nós fossemos milionários russos, ganhadores da Mega Sena ou Sultões de Brunei pode ser que nossa rotina nem seria assim tão chata.

Não consigo imaginar o George Clooney ou a Madonna pensando assim "segunda-feira começa tudo de novo, aquele café requentado, aquelas conversas idiotas no corredor da empresa, aqueles clientes enchendo o saco...putz, já quero férias de novo".

Mas não somos sultões, milionários e nem astros de cinema, sendo assim, tenho verdadeiro horror do tal dia a dia e acredito fortemente que pro mundo ser justo, deveríamos trabalhar um mês e tirar férias onze, se possível com direito a alguns abonos por falta.

Seríamos todos viajantes. Cariocas em Pernambuco, pernambucanos em Curitiba, curitibanos em Manaus, manauenses em São Paulo, paulistas no Sul, sulistas no Centro-Oeste, todos de bom humor, passeando, pairando sobre os problemas alheios, sem estresse, sem correrias, sem chefes, vizinhos do lado e nem poltronas do meio.

Desse jeito nem teríamos tempo pro mau humor, ou talvez até arranjássemos algum, mas só pra não perder o hábito.

Bons Aires

Postado em 4 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Sei que puristas e ufanistas não gostarão nada disso, mas se eu fosse Tom Jobim, o "samba do avião" não seria samba, seria tango e diria que minha alma canta quando vejo o Rio de La Plata

Mas a verdade é que Buenos Aires me faz passar muita raiva.

Das suas ruas largas, suas avenidas imponentes, seus prédios de extremo bom gosto, sua gente amistosa, seus parques gramados cheios de pessoas nos finais de tarde, suas estátuas cheias de significado, a bandeira alvi-celeste tremulando, suas praças.

Detesto.

A sorveteria Freddo (que faz o melhor sorvete de limão do mundo), seus quiosques vendendo meu alfajor preferido, o Jorgito, em cada esquina, a facilidade de tomar refrigerante de pomelo sem ter que recorrer à suco de toranja ou a algum "citrus" da vida, seus bifes de chorizo de 200 quilos, suas milanesas com papas fritas, seus choripans, seus antigos restaurantes que parecem estar parados no tempo.

Não gosto.

O Clube Eros e suas sodas servidas em sifões, a Plazoleta Cortazar nos sábados à tarde, as ruas de Almagro, os diferentes e lindos Palermos: o Viejo, o Soho, o Hollywood, o Chico, sua imensa flor de metal perto do Malba e da faculdade de direito, suas moças bonitas.

A Bombonera, a Praça de Mayo, os fileteos.


O microcentro e sua Calle Florida, as Galerias Pacífico, o obelisco, Puerto Madero com a ponte em formato de mulher (ainda que eu nunca tenha conseguido enxergar um corpo de mulher ali), seus ônibus decorados, seu metrô caótico que leva a toda parte, os finais de tarde ensolarados, as feiras dos finais de semana, o prazer de sentar num café e ouvir ao meu redor aquele idioma maravilhoso, falado com o melhor sotaque de todos.

Me irritam.

Simplesmente saltar do avião num aeroporto e ser recepcionado pelo frio que me faz esquecer o calor infernal do trópico, entrar num taxi preto e amarelo e sentir uma felicidade inigualável simplesmente pelo fato dos meus pés estarem sobre solo argentino.

Aí você vai me perguntar, com toda razão, qual é a parte irritante disso tudo que foi descrito hiperbólicamente como se fosse um livreto promocional de turismo.

Fácil: ir embora.

Marcus na mochila 2.0

Postado em 29 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius

Amanhã parto em uma viagem de alguns dias para a cidade que mais amo no mundo: Buenos Aires.

Sim, pode ser exagero, afinal não conheço o mundo inteiro, mas até que outra se apresente e me conquiste, ela é a cidade que mais amo, dentre todas as que já vi.


Por isso o blog ficará sem atualização até semana que vem, provavelmente na quarta ou quinta-feira, que é pra me dar tempo de curar a ressaca do passeio.

Desejo a todos um bom feriado e desde já deixo a recomendação: visitem a Argentina. É inesquecível e impossível de não voltar.

Mitos sobre ser brasileiro

O brasileiro é um povo amistoso.

Já ouviram isso em algum lugar? Eu já. E também coisas como festeiro, malemolente, hospitaleiro, simpático, caloroso. Mas será mesmo?

O brasileiro viaja ao exterior, seja para morar ou para turismo, e faz questão de permanecer isolado do resto das pessoas. "Ah, essa excursão é boa porque só tem brasileiro", "Hummm, achei um restaurante brasileiro ótimo", "Ai, que saudade de um feijãozinho", "Essa gringalhada tem aparência de quem não toma banho...". Pode perceber isso: brasileiro tem mania de andar em bando.

Sei de gente que morou em países com idiomas não tão complicados como a Espanha, a Itália e mesmo a Inglaterra e não conseguiu aprender direito a falar a língua do país. Isso porque ficam ali numa espécie de gueto. Só andam com brasileiro, só se relacionam com brasileiro, só querem falar português.

Isso é ser amistoso?

Temos um Carnaval que atrai muita gente. Mas junto com o carnaval vem a exploração sexual (até de menores), o ágio nos preços, empurra-empurra, inconveniências mil (desde passar a mão na bunda da mulher dos outros até coisas mais agressivas). Para entrar num baile carnavalesco, assistir um desfile de escolas de samba ou participar de um trio elétrico cobram valores equivalentes a quase o salário mensal do tal "povão", que teoricamente é quem faz a festa.

E o "povão", que teoricamente faz a festa, fica é do outro lado dos tapumes, do lado de fora das cordinhas, na "pipoca" do trio.

Isso é ser festeiro?

Somos conhecidos por querer levar vantagem em tudo, por quebrar todas as leis, costumes e regras do bom senso e da civilidade. Se existe uma placa pedindo que não pisem na grama, os brasileiros pisarão. Se existe um aviso pedindo para não fazer barulho, os brasileiros farão. Se existe uma roleta sem vigilância que conta com a honestidade da pessoa que por ali passa, os brasileiros trairão até a roleta. Se algo for necessário em cinco minutos, mesmo que possa fazer em dez, o brasileiro fará em quinze.

Já notaram como aqui a pergunta "tá com pressa?" é respondida prontamente com um "não, não", mesmo que a pessoa esteja indo salvar alguém da forca?


Isso é ser malemolente? Não sei, como tenho verdadeiro asco pelo termo, pode até ser que sim.

Os brasileiros, principalmente em cidades turísticas, vêem os "gringos" como um otário em potencial. Sabe como é, aquela gente estranha que tem o hábito bizarro de respeitar regras e confiar nos outros. O esperto, o malandro, o sagaz, esse não confia em ninguém, e tem sempre uma faca guardada para enfiar nas costas de qualquer um, afinal, no mundo você é "otário" ou "malandro".

Se um estrangeiro vem pro Brasil montar uma empresa, porque não cobrar tudo em dobro? Se vem passear, porque não cobrar o triplo?

Isso é ser hospitaleiro?

Somos, e isso não tem como negar, um povo em sua maioria rude. Seja pela educação precária, seja pela violência das grandes cidades, mas isso é um fato. Se uma porta de trem ou metrô abre, as pessoas são capazes de pisotear uma velhinha de 80 anos para conseguir um lugar sentado. Se alguém distribui qualquer coisa de graça (até saquinhos de bosta enfeitados), as pessoas não organizarão uma fila, afinal, fila é coisa de otário. As pessoas vão organizar uma espécie de "bolo doido", com empurrões, tapas, puxões de cabelo, xingamentos e mais o que você puder imaginar. Seja por um punhado de ouro, seja por um saco de bosta.

Quem acompanhou o Pan Americano de 2007 se lembra, vaiaram não só o presidente da república - um bufão ridículo, que merece vaia, mas que ali representava a nação, ainda que ele mesmo esqueça disso - como também vaiaram delegações visitantes, hinos, atletas e o que você mais puder imaginar.

Uma verdadeira demonstração de como o brasileiro é hospitaleiro, não? Não.

Por fim, seja onde for, é fácil descobrir um grupo de brasileiros. Eles falam alto, gritam, mexem em tudo - mesmo se avisos pedirem o contrário - fazem inconveniências, pensam que estar em algum lugar "a passeio" ou mesmo temporariamente, lhes tira a obrigação de ter um mínimo de educação.

Tudo que é tipo de comportamento incômodo e excessivamente expansivo é creditada ao fato do brasileiro ser "caloroso".

Sei que não são todos, antes que algum pentelho politicamente-correto-meio-termo venha me dizer que estou generalizando, mas são muitos, um número que aliás é bem acima do aceitável. Concluo que o brasileiro não precisa de muito para ser um povo melhor. Precisa apenas ser menos amistoso, festeiro, malemolente, hospitaleiro, simpático, caloroso.

Já será o bastante.

Férias (de novo), por favor!

Postado em 22 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Não disponho de dados científicos, mas tenho quase certeza de que depois de quedas abruptas do mercado de ações, honra perdida por samurais e tédio em suecos endinheirados, a depressão pós-férias é uma das maiores causas de suicídio no mundo.

Férias são aquilo que nos mantém vivos nos demais 11 meses do ano. Numa realidade ideal, nos pagariam para trabalhar um mês e o restante nos dariam de folga, mas se a realidade fosse ideal não existiriam as guerras, a fome, a peste, as novelas da Globo, reality shows e nem livros do Paulo Coelho.

Elas servem para que recarreguemos nossas baterias, reavaliemos nossa rotina, arrumemos dívidas em dólares no cartão de crédito e também tiremos 3.789 fotos que nem nós mesmos vamos ver uma a uma.

Mas a verdade mesmo é que nunca precisamos tanto delas quanto no momento em que terminam.

Porque pense bem: você está no seu trabalho, admirando a bela visão de uma planilha de Excel, o cara da mesa ao lado assobiando um pagodinho que ouve no fone de ouvido, no seu email chega mais um Power Point enviado por aquele antigo colega de escola que pretende se candidatar a vereador e manda mensagens de incentivo com músicas do Oswaldo Montenegro de fundo cinco vezes ao dia.

O ar-condicionado ataca sua rinite, mas lá fora o calor é de quase 40º. Seu chefe está meio de mau humor e por isso mandou bloquear o msn, falta pouco para o meio-dia mas você sabe que o maior evento do seu almoço será conseguir pescar três camarões no bobó do restaurante a peso.

Já na volta do almoço aquela boazuda do jurídico passa por você tentando tirar um pedaço de carne do dente com uma folha de papel e aí que você tem certeza de que ela não pretende mesmo jamais te dar mole. A feiosa da recepção vem e te oferece uma Hall´s preta e, piscando o olho, diz que é uma "delícia beijar com essa bala na boca", depois passa o engraçadinho do DP avisando em tom de brincadeira que "vai cochilar embaixo da mesa pra desgastar a feijoada". Detalhe: ele faz essa mesma brincadeira contigo todos os dias há três anos.


Nesse momento o seu relógio toma um Lexotan e começa a contar os minutos como se fossem horas. A parte da tarde é um lixo pior do que a da manhã e a secretária do chefe lixando as unhas e passando acetona só não é mais deprimente do que a maravilhosa experiência de voltar para casa pegando metrô lotado e engarrafamento, para depois comer a sobra da pizza de anteontem e comprovar em campo que a programação da TV é um lixo.

Você dorme já assustado com o barulho que o despertador fará na manhã seguinte, despertador que se fosse honesto tocaria a marcha fúnebre ou então teria uma voz dizendo: "Que merda, hein, amigão...mas já que não tem jeito, vamos lá...".

Sai de casa atrasado, e o medo do esporro e do trabalho acumulando na mesa quase te faz acreditar que você realmente quer chegar logo no seu escritório. O metrô lotado, ônibus entupido ou engarrafamento infernal te levam para mais um dia igualzinho ao de ontem, isso é claro se tudo correr bem e você não tiver que fazer hora extra.

Tudo o que te mantém vivo durante essa verdadeira "prova do líder" são aqueles 30 dias em que você pode viver livre do peso excruciante da rotina. Você está olhando pela janela, pensando se pula ou se joga a gordinha do planejamento que já te perguntou quatro vezes sobre a mesma planilha só hoje, mas a visão destes 30 dias te salva.

E quando eles finalmente chegam, passam mais rápido do que aquela sua primeira transa, quando você finalmente conseguiu perder a virgindade encostado na lixeira da garagem do prédio da sua ex-namorada, a mesma que depois te traiu com um primo chamado Guido que morava em São Paulo.

Já no avião, voltando pra casa, você lembra do seu dia a dia, do pessoal do seu trabalho, das perguntinhas cretinas que vai ouvir como "e aí? animado pra começar tudo de novo?" e algo soa fundo na sua mente, tão alto quanto os saltos da vizinha do andar de cima que te acordam toda noite, religiosamente às 3:00 da manhã:

Você precisa de férias. De novo. Urgentemente.

Porquê virei chileno (só um pedaço)

Postado em 13 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Acordei às 3:00 da madrugada para pegar um taxi pro aeroporto, logo a monotonia da paisagem dos campos da Argentina que assistia do alto do avião contribuiu muito para meu sono dos justos. Sorte que uma aeromoça da Lan me acordou para "colocar o assento na posição vertical", devido à turbulência que o avião sempre enfrenta quando voa sobre o espetáculo que eu estava prestes a ver pela janelinha: a Cordilheira dos Andes.

É na forma desta imensa parede gelada que o Chile dá boas vindas a quem o visita. Mas diferente do que se poderia imaginar, os chilenos estão longe de ser um povo frio. São amistosos, generosos, solícitos e pacientes - até mesmo com o meu parco espanhol coalhado de sotaque argentino - o qual quase todos corrigiam e diziam "passe um ano no Chile e fale como um de nós". Quem me dera poder passar um ano entre eles.

A outra "parede" que impressiona é a de bandeiras nacionais. Não estamos numa Copa do Mundo, não tem nenhum evento esportivo mundial significativo do qual os chilenos estejam participando, mas ainda assim os carros, lojas, praças e casas exibem a bandeira nacional com tanto orgulho quanto o que eles mostram ao falar de seus maravilhosos vinhos, do seu excelente churrasco e até mesmo o porque de preservarem nos prédios que circundam o palácio presidencial de La Moneda as marcas de tiros do golpe que instalou Augusto Pinochet no poder.

Essa aliás é outra característica dos chilenos: não renegar nada do seu passado e compreender que tudo ocorreu para que eles chegassem onde estão hoje, até mesmo uma ditadura militar de alto custo em vidas, mas que tirou o país do subdesenvolvimento.

O acidente e o resgate dos mineiros presos na mina San José - eu estava lá quando a perfuratriz chegou ao abrigo, possibilitando o início do resgate - certamente contribuiu para o aumento do nacionalismo, mas dava pra notar que era algo mais, que aquilo faz parte do jeito de ser deles.

Em suas largas ruas e alamedas, Santiago se espalha aos pés da Cordilheira, que domina sua paisagem. Como em toda metrópole o povo é apressado, os carros passam rápido e o trânsito das 17:00 horas apesar de falar castellano incomoda tanto quanto se falasse com sotaque paulista ou carioca. Mas ao invés de voltar para casa com medo da violência, os chilenos vão para uma infinidade de bares, cafés, centros comerciais e boates.

Conheci o "Pátio Bella Vista", uma espécie de shopping a céu aberto cheio desses bares e lojinhas, com um movimento que nos finais de semana não acaba antes dos primeiros raios de sol. Conheci a "chicha", uma bebida feita a partir da fermentação da uva, que me disseram ser como a mulher chilena: aparentemente doce e inofensiva, porém escondendo uma verdadeira diaba por dentro. A mulher não sei, mas a chicha realmente me nocauteou.

Sou um apaixonado pelo idioma espanhol - que no entanto ainda não domino perfeitamente - e as moças falando com aquela língua entre os dentes ficam um charme, tal como uma policial - que eles chamam de "paquitas" - me ensinando como chegar à avenida Merced. Vocês não imaginam como esse "Merced" fica bonitinho hablado por ellas. É verdadeiramente um prazer para mim passar dias tendo a língua de Cervantes como meu idioma oficial. Lojas, padarias, farmácias, sorveterias, livrarias, tudo com a tecla SAP acionada. Uma delícia.


Delícia aliás que é uma palavra até tímida para descrever os bifes de 200 metros de altura que eles servem e o seu sanduíche nacional, o Barros Luco, um amontoado de filés cortados na fina espessura de uma fatia de mortadela, cheios de queijo e que não por acaso era o favorito de um ex-presidente, que acabou batizando o sanduíche.

Fui até Valparaíso e Viña Del Mar - que aliás foi fundada por um português - e, como não poderia deixar de ser, molhei meus pés no Oceano Pacífico, como se nunca tivesse visto o mar na vida.

Voltei para o Brasil com um pedaço do meu coração naturalizado chileno definitivamente. A imagem das praças gramadas de Santiago, cheias de gente deitada sob as árvores nos finais de tarde nunca mais se apagará na minha mente, assim como a lembrança do adorável povo chileno.

Povo que não merece certas visitas, como a de uma brasileira que fazia um barraco numa panaderia porque cismou que a mocinha do caixa tinha que entender o português raivoso dela. Na cabeça da "sujeita", como ela era turista todo mundo tinha que se esforçar para entende-la e não ela, visitante num país estrangeiro, é que tinha obrigação de dar o seu jeito.

Ainda virou pra mim, como que pedindo aprovação, e disse: "sou turista, eles tem que se esforçar pra me atender, não é?", ao que, envergonhadíssimo, respondi:

- Perdon, no comprendo.

Desculpa mesmo, mas naquela hora nunca fui tão chileno.

Marcus na mochila

Postado em 5 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius

Bem que isso poderia ser o nome de um desses programas em que as pessoas viajam de graça às custas de algum canal de TV, não é? Mas é apenas um comunicado aos que me lêem.

Desde que saí da faculdade nunca mais tive aquelas férias tradicionais de 30 dias corridos. Tudo bem que também não tenho outras coisas chatas de quem tem férias tradicionais de 30 dias corridos como horário para chegar e para sair, hora de almoço, Orkut, Twitter e MSN bloqueados e tudo o que faz de qualquer trabalho ser "o trabalho", aquela entidade que mete mais medo do que o Darth Vader.

Mas ainda assim não tenho as tais férias tradicionais de 30 dias corridos. Preciso tirá-las como se fossem prestações das Casas Bahia, suavemente no decorrer do ano.

E essa semana é uma dessas aguardadas, adoradas e deliciosas ocasiões. Viajo nesta quarta-feira para a bela capital do Chile, Santiago, e só retorno na segunda, bem a tempo de curtir o feriado na terça.


Sendo assim, farei algo que também é raro desde que comecei a escrever este blog, que é ficar sem atualizá-lo até a próxima quarta, quando estarei devidamente mau-humorado naquela típica depressão pós-férias e pós-viagem.

Espero retornar com muitas histórias para contar, fotos para mostrar e também muitas observações sobre a qualidade de vida dos chilenos, que me ajudem a provar por A+B que Deus definitivamente não é brasileiro.

Até a volta!

Pode ficar tranquilo que o dólar não vai subir

Postado em 9 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Basta que eu não queira viajar pra lugar algum, que ele fica mais congelado do que o meu salário.

Não sei se algum de vocês já reparou, mas planos de viagem mexem com a cotação do dólar. Comigo pelo menos é quase certeza: se eu for tentar fechar algum pacote, ainda que seja para ir ali em Buenos Aires, o dólar dispara no ato.

Tem vezes que fico observando os jornais, uma notícia atrás da outra dizendo que o "real valoriza outra vez frente ao dólar", ou que o "dólar tem recorde histórico de desvalorização no ano", mas tal qual um caçador espreitando sua presa, eu não me movo. Sei que ao menor sinal de que vou tentar viajar, tudo aquilo muda e a moeda americana sobe uns 20% em questão de 10 minutos. Não tenho tempo nem de sair do metrô que a situação cambial muda mais do que a inflação dos tempos do Sarney.

Um sujeito mais paranóico pode até pensar que isso é perseguição pessoal.

Certa vez eu queria porque queria ver os pinguins da Patagônia. Fui até a agência repetindo mentalmente "só vou pegar um orçamento, só vou pegar um orçamento", na verdade eu nem queria só pegar um orçamento, mas tentava enganar o sexto sentido que a cotação do dólar parece possuir - temo até que leia pensamentos - e ver se conseguia driblá-lo. Viu? Esse sou eu virando paranóico.


Cheguei na agência, conversei com a mocinha, consultei os preços, achei tudo muito bom (inclusive o fato de existirem datas disponíveis para o período que eu queria) e, quase a ponto de fechar o negócio, pedi que ela acrescentasse mais dois dias ao final do pacote, já que pretentia aproveitar a ida à Argentina para assistir a uma partida do Boca.

Curiosamente quando ela ia concluir a venda, o sistema ficou lento, caiu - com certeza sabotado pelas forças ocultas do câmbio do dólar - e como estava com pressa, ficou combinado que eu voltaria no dia seguinte para finalizar. Tudo bem, né?

Não. Naquela madrugada no Brasil - já dia na Ásia - milhões de japoneses resolveram espirrar ao mesmo tempo, ocorreu algum eclipse solar na China, os indianos resolveram comer carne de vaca, algum emir em Dubai resolveu doar todo seu petróleo para a caridade, nem sei, mas o dólar aumentou.

Por conta disso a viagem ficou mais cara, e eu - consumidor consciente - resolvi pesquisar em outras agências de turismo, pra ver se melhorava o preço. Só que o câmbio não perdoa, agora ele já sabia da minha intenção e continuou subindo todo dia, até que aquele preço que eu achei caro no início, virou uma bagatela depois de duas semanas.

Resumo da ópera? Desisti da Patagônia, dos pinguins e do Boca Juniors e fui em viagem para Fernando de Noronha, que é tudo o que dizem e mais um pouco, um verdadeiro paraíso na terra.

E o melhor: é totalmente livre da influência do dólar.

Brasil? Pelé! Mulata! Favela!

Postado em 22 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Dependendo de onde a pessoa nasceu, o lugar passa a defini-la. Já faz muito tempo, mas o Rio de Janeiro já foi cheio de "Pernambucos", "Mineiros" e "Paraíbas". Com o aumento da migração e o ataque do politicamente correto, as alcunhas foram praticamente aposentadas.

Mas experimente alguém vir de Roraima ou do Acre para ver se não se tornará rapidamente "o Roraima" e "a acreana". É que a menos que você seja de lá ou vá morar por algum motivo, vai conhecer mesmo pouca gente desses lugares. E assim também acontece com gente de lugares remotos como Manaus ou de municípios menores, porém de nomes tão exóticos quanto Bofete (SP), Varre-e-Sai (RJ), Ressaquinha (MG), Coité do Nóia (AL), Xangri-lá(RS), Uauá (BA), Nhecolândia (MS), Quincuncá (RN).

Só com muita sorte alguém de um desses lugares não ganhará um apelido referente a eles. Acho que as pessoas só não gostam de brincar com quem vem de Pau Grande (RJ), porque aí o apelido ajudaria a vítima ao invés de caçoar dela.

E isso funciona também em relação aos países do mundo. A menos que o viajante seja do Djbouti ou do Quirguistão, provavelmente haverá algum estereótipo ligado à sua terra que será mencionado quando ele anunciar de onde veio.

Até o Cazaquiatão já tem o Borat pra isso. Se o turista for argentino falarão de churrasco, Evita, Gardel e Maradona, a menos que ele esteja no Brasil, onde falarão de catimba, pouco apreço por tomar banho e outras grosserias disseminadas pela nossa televisão.

Um brasileiro passeando no exterior fatalmente ouvirá a tríade-maldita "Pelé-Mulata-Favela" quando disser de onde veio, o que me deixa fulo da vida, não tanto pelas menções, mas porque eles tem alguma razão em achar que não produzimos muita coisa além de batuque e barracos nos últimos 100 anos.

Mas o que me irrita mesmo é estar em algum lugar e alguém vir me dizer que conhece um "restaurante brasileiro maravilhoso, com feijoada, caipirinha e um sambinha". Sim, claro, como sou brasileiro tenho a mente tão limitada que mesmo na Europa ou nos EUA só consigo me divertir ouvindo batucada e comendo porco esquertejado. Sei que a intenção não é ofender, mas me ofendo mesmo assim.

É como você virar para um americano e dizer "Estados Unidos? Ahhh! Fast-Food! Gente gorda! Malucos que atiram nos outros dentro de lanchonetes!" ou então conhecer um francês e dizer "França? Queijo podre! Desodorante vencido! Não toma banho!".

E tem pra todos os gostos: "Italiano? Mora com a mamma até os 50! Comedor de lasanha! Só fala gritando!" ; "Português? Tamanco! Mulher de bigode! Ceroulas!".

Entendem? Qualquer um acharia isso um saco, menos algum sujerito lá de Pau Grande, que provavelmente iria adorar se alguém dissesse "Pau Grande?Quanto você calça?".

Quem eu seria se não fosse quem sou?

Postado em 1 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Eu adoro misto-quente com Toddynho. Também não troco um milk-shake de Ovomaltine por nada (de beber, é claro) nesse mundo. Gosto de fazer batida de morango com vodka e leite condensado e o cachorro-quente do Geneal é quase irresistível pra mim.

Estudei em vários colégios diferentes, mas o que mais me marcou foi o Gama Filho, onde dançava quadrilha em Julho, participava da Feira de Ciências em Setembro e morria de saudades quando entrava de férias em Dezembro, ainda que não admitisse isso nem sob tortura.

Minha praia predileta no mundo dos mortais (porque Fernando de Noronha está no paraíso) é a de Tabatinga, em João Pessoa, e o nome da minha primeira namorada é Fernanda.

Coisas assim, bobas, nos definem durante a vida. São nossos gostos, hábitos, manias, opiniões que vão construindo aquela pessoa pela qual as outras chamam e conhecem quando referem-se a nós.

Uma das minhas eternas viagens, razão deste texto hoje, é imaginar como eu seria caso fosse americano, francês, japonês, australiano, russo...

Essa sensação apareceu quando a internet se popularizou de vez e transformou o mundo que outrora era imenso em um ovo de codorna que a gente cruza num clique.

Leio blogs e textos de pessoas de diversos países que consiga entender o idioma e me encantam suas memórias da infância, da juventude e da vida adulta recente. Seus hábitos, gostos e coisas que consideram imprescindíveis para tornar seus dia-a-dias mais doces.

Sei que é impossível viver mais de uma vida de cada vez, mas adoraria saber como deve ser observar nossa mãe preparando um bentô pra q levarmos pra escola; relembrar paqueras e namorinhos na "Paris Plage",que a cada verão ocupa as margens do rio Sena; ter uma primeira namorada russa chamada Kalinka (com quem tomaria meu primeiro porre e veria uma "kalinka" pela primeira vez na vida); relembrar idas com o meu pai nas férias a Sydney ou a alguma caçada no Outback (sim, no Outback australiano você precisa matar sua comida antes dela ir pro prato) ou olhar num velho álbum os meus tempos de High School, vanilla coke e Taco Bell.

Quem sabe eu não torceria pra algum time de rugby, não jogaria lacrosse ou me interessaria tanto por sumô a ponto de saber quem é Asashōryū Akinori e achar um absurdo que num longínquo canto da América do Sul, as pessoas prefiram falar de Kaká, Ronaldinho, Adriano e achem que lutador mesmo é o Mike Tyson.

E tenho até medo de imaginar qual seria meu prato predileto caso eu fosse chinês, por exemplo.

Loucuras e brincadeiras à parte, isso prova ser imperativo buscarmos sempre viver tudo o que pudermos ao máximo.Porque notem que nesse tempo todo aí eu nunca supus que seria pobre (porra, tô fora...prefiro ser brasileiro remediado do que francês descamisado), mas também nunca pensei em ser rico, famoso ou coisa do tipo.

O que importa são as experiências, as amizades e tudo aquilo que nos ajuda a ser quem somos, o resto é só um veículo para chegarmos a estes lugares.
 
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