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E foram felizes para sempre

Postado em 27 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Sempre achei esses finais de histórias infantis e filmes meio irritantes. Aquele monte de gente abraçada, casais se beijando, pássaros voando, o E.T. vontando para casa, os vilões se dando mal, os heróis sorrindo com o topete engomado, uma coisa meio livro de auto-ajuda, meio música da Tropicália.

Mas a verdade é que todas essas lições que os estúdios tentam passar são grandes furadas. A vida real muitas vezes se parece mais com o início dessas sequências de filme, onde o que termina bem na primeira edição o diretor resolve bagunçar na segunda.

A Rainha do Gelo volta para atormentar os bichos falantes de Nárnia, o Jason do Sexta-Feira 13 consegue fugir de dentro de um cofre no fundo do lago, alguém implanta uma mão robótica no Dath Vader e tudo começa outra vez.

Só mesmo em um filme de Hollywood é possível você entrar numa loja, conhecer um japonês que te leva para a casa dele e te bota para lavar o carro, pintar a cerca, lixar o assoalho e você sai dali faixa-preta de caratê. Se fosse nessa sua vidinha aí, isso terminaria mesmo num emprego de carteira assinada, ganhando salário mínimo, vale transporte e um PF de arroz com feijão na hora do almoço.

Afinal, alguém acredita mesmo que um sujeito milionário solteirão ficaria passeando pela rua, pegaria uma prostituda de calçadão, levaria pro seu hotel e no final casaria com ela como fez o Richard Gere com a Julia Roberts em "Uma Linda Mulher"?


Na vida real ele seria casado e contrataria uma oriental e uma africana para fazerem parte de um bacanal envolvendo ornitorrincos, corcundas, um mágico, dois equilibristas e 37 pombos mortos e no final voltaria para casa levando um presente para a esposa, contando como sentiu sua falta.

E ainda que seja comum alguém sair do cinema ou desligar a TV se perguntando "será que eles continuaram vivendo felizes naquela fazenda mesmo?", já cheguei também a imaginar coisas bem menos normais como "acho que a Cinderela abusou dos rodízios de pizza, embarangou depois do segundo filho e o príncipe virou amante da Branca de Neve, que separou do marido depois que descobriu que ele era pedófilo e tinha um caso com o Peter Pan".

Se você pudesse saber mesmo o que acontece depois que aparece o "The End" na tela, veria que os Goonies foram presos pela Capitania dos Portos por navegarem com aquele navio pirata sem autorização, que Thelma e Louise realmente se esborracharam naquele penhasco e só foram reconhecidas através de exame de DNA e que aquela turma da "Escola do Rock" montou uma banda que teve um só sucesso e ainda se desfez, depois de muitas brigas e problemas com drogas.

Isso sem contar com todos os personagens de "Se Beber Não Case", "Porky´s" e "American Pie" que estariam hospedados em alguma penitenciária federal ou então fritando hamburgers no Mc Donald's.

Talvez seja por isso que essas histórias com finais felizes façam sucesso há tanto tempo, afinal, pra ver gente se fodendo você não precisa ler um livro ou ir ao cinema, basta acordar numa segunda-feira de manhã, ir de metrô até o trabalho, voltar para casa à noite e ligar no telejornal.

Vá ao teatro, mas não me chame

Postado em 8 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Se tem uma coisa que dá medo é a frase "precisamos conversar". Depois dela, só mesmo "a gente podia sair pra dançar, né?" e logo em seguida, pelo menos para mim, é "vamos ao teatro?".

Sei que é quase um sacrilégio admitir isso, afinal, qualquer pessoa descolada, intelectualizada et al não deve dizer jamais tal coisa em público, mas sei lá, precisei compartilhar. Pior ainda é o fato de ser fã de Nelson Rodrigues, gênio que se confunde com o teatro, mas de quem eu, particularmente, gosto mesmo é das crônicas.

Mas se algo me redime é o fato do próprio Nelson fazer piada com o teatro em seus textos, quando dizia, por exemplo, que a platéia era basicamente composta de senhoras gordas com sacos de pipoca na mão, e que o tal "teatro moderno" ainda ia fazer um ator espirrar o sangue de um bife na cara do espectador, só para provocar emoções.

O que sei é que não acho muito legal as vozes empostadas, os gestos exagerados, as limitações do cenário (esqueçamos a Broadway  e algumas superproduções com seus efeitos especiais), aquela coisa meio caravana cigana que os próprios atores adoram. Outra coisa são aquelas interpretações livres, capazes de bolar uma montagem porno-escatológica da Branca de Neve.


 Tudo isso tem até o meu total respeito, mas sinceramente, me incomoda.

Causa um pouco de vergonha alheia assistir uma pessoa representando quase qualquer peça. A maquiagem, as caras e bocas, enfim, a menos que seja comédia - onde não só é permitido, como desejável, cair na gargalhada - eu fico meio desconfortável com Romeus, Julietas e Tios Vânias.

A comédia, aliás, é um capítulo a parte, já que conheço pessoas que dizem adorar teatro, mas que só vão mesmo assistir comédias (algumas, as mais estúpidas possíveis), afinal, com tanta coisa pra importar dos Estados Unidos, resolveram trazer logo o politicamente correto e o stand up comedy.

Claro que já assisti várias peças. Alguns musicais, alguns dramas e até algumas comédias. E em algum momento da apresentação eu até curti, mas sempre fazendo aquele esforço para dissociar o fato de que tudo aquilo representado ali seria muito mais realista, interessante e divertido se fosse no cinema.

E cheguei finalmente onde queria: pra mim, ainda que gente muito mais entendida diga que isso é bobagem, o cinema acabou com a graça do teatro. É como ouvir novelas no rádio depois que inventaram a TV.

Não resolvi contar isso tudo pra dizer que sou contra o teatro, que acho que o teatro deva acabar e nem que faço parte de uma parte da população geneticamente superior àquela que gosta de teatro, o objetivo é, talvez, fazer um apelo aos fãs da "nobre arte":

- Vá ao teatro, mas não me chame. Sério, por favor.

Não é que eu tenha aversão nem nada disso, pode ser até que eu me divirta, mas aposto que você consegue pensar em outra coisa melhor pra me chamar, como uma visita ao Museu do Cotonete ou um passeio pelo centro de Duque de Caxias, por exemplo.

Oncinha, cadê você? Deixa eu te explicar...

Postado em 1 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Algo que surgiu no carnaval 2011 acabou fazendo o maior sucesso no carnaval 2012. E não foi a reedição de Tchubirabiron e nem da Dança do Tamanduá, mas um site chamado "Oncinha, cadê você?".

A idéia é basicamente publicar histórias de amores de carnaval, para que aquele Arlequim possa reencontrar a Colombina que fugiu com um Luke Skywalker sem nem deixar o número do telefone. E mesmo não curtindo carnaval, achei a idéia tão legal que perdi algum tempo passeando entre textos como:

"Eu estava no metrô de Botafogo vestido de Cumpadi Uóxinton quando passou uma linda garota fantasiada de Amy Winehouse, nos falamos e trocamos uns beijos, mas como ela estava quase tão bêbada quanto a Amy verdadeira geralmente ficava, acabamos nos perdendo. Adoraria reencontrá-la para ensinar como se dança o Tchan. Amy do Metrô, cadê você?"

Convenhamos, mesmo com a parte da bebedeira incapacitante é, como dizem, fofo.

Mas nem todo caso dá certo, na verdade, nem toda tentativa vira um caso, ainda que só de cinco minutos, e porque não atender a todo esse imenso contingente de mal-amados também? Um "Pera aí, Oncinha, deixa eu te explicar" seria de igual utilidade pública. Imagine só ler coisas como:

Anúncio I:

"Fui no Bloco das Pururucas no Domingo, estava vestida de Dilma Rousseff e me apaixonei por um cara vestido de Obama Baiano. Conversamos, só que como eu já tinha bebido 37 cherry bombs e acabei vomitando na túnica dele, que ficou meio nojenta. Queria reencontrá-lo para mostrar que eu não sou assim. Obama das Pururucas, aparece por favor, eu juro que parei de beber". 


Anúncio II:

"Aconteceu em Ipanema, na terça-feira gorda. Eu estava fantasiado de barraca do beijo e conheci uma linda borboleta, com anteninhas e tudo, resolvi vender todos os meus beijos para ela e fechar a barraca, só que quando ela foi comprar uma água, bem, resolvi voltar pro mercado e me atraquei com uma Marilyn que estava passando. Só que a Marilyn era Mário e a Borboleta viu tudo e foi embora voando. Borboletinha, eu te juro que não sou galinha, nem viado, nem curto aquele negócio que eu estava segurando quando você chegou, me dá uma chance, vai".

Anúncio III:

"Cara fantasiado de Batman que estava na Lapa no sábado, eu sei que fiquei com seu primo, com o amigo dele e com o primo do amigo dele, mas te juro que gostei mesmo de você e não sou galinha, me dá uma chance, vamos sair de novo, eu prometo que se você me procurar eu te dou de prima. Sou aquela moreninha fantasiada de piranha empalhada".

Anúncio IV:

"Ciganinha de Laranjeiras, aqui é o seu marido, o carnaval já acabou há quase duas semanas, que tal você voltar para casa porque minhas roupas estão precisando de uma passada?".

Anúncio V:

"PacMan de Laranjeiras, aqui é a Ciganinha, eu não vou voltar para casa porque acho essa sua fixação por videogames uma coisa meio babaca e já enchi o saco dos seus amigos nerds, favor enviar a minha mala para a casa do Rei Momo de Botafogo, que é gordo, mas pelo menos é rico e pode pagar uma passadeira".

Não tenho certeza, mas até eu, que gosto tanto de carnaval que já cheguei a viajar pra São Paulo no período, acho que um serviço assim ia "dar samba".

Um amigo, um convite, um pagode, um cachorro-quente e um nunca mais

Postado em 31 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Chega o final de semana e começa o perigo. Pior do que não ter o que fazer e ficar sozinho em casa vendo TV, são aqueles programas furados que sempre te chamam e você acaba indo.

Nunca se sabe quando algum convite pra um casamento de semi-conhecidos, um videokê ou uma reunião da Herbalife podem aparecer. Mas nesses casos, bem, ninguém aceita um convite assim e espera de diversão, né? Você já sabe que se fudeu logo ao aceitar, afinal de contas, qual é a chance de chegar num batizado e descobrir que o moleque é neto do Hugh Hefner e tudo será animado por garçonetes do Hooters?

Pior mesmo são aqueles convites que têm tudo para ser uma boa, mas na verdade não são. E esse tipo de programa furado fica à espreita, que nem emboscada de índio em filme de cowboy.

O telefone toca e é aquele seu amigo dos tempos da escola te chamando pra um programa "super maneiro". Você termina aceitando, ainda que a expressão "super maneiro" te lembre um desses comerciais de sucrilhos.

Aceita mas já entra no carro dele meio desconfiado de que vai ser uma noite daquelas (não num sentido legal) e quando vê na filipeta da festa as palavras "alternativo", "de raiz" e "hype", tem certeza que perder aquele especial sobre os suricatos no National Geographic não foi um bom negócio.

Mas como todo bom amigo, ele tem um arsenal de palavras de incentivo pra te deixar no clima: "a vida é uma só, cara, vai estar cheio de mulher lá", "a gente não é bonito, nem rico, nem nada demais, mas só vai ter mané ali, vamos nos dar bem" ou por último "deixa de viadagem, porra, você ia ficar em casa vendo National Geographic por acaso?".

Chegando no local você descobre que aquilo é um pagode organizado pela ex-promoter de uma boate alternativa que agora é namorada de um jogador de futebol, daí o "de raiz", "hype" e "alternativo".
O público é dividido entre bombados com cordões de prata e estudantes de ciências humanas com chinelos de couro. No meio disso tudo, você e seu amigo (que ainda por cima saiu usando uma sandálic Croc).

Toda movimentação desde que entram se resume a um batuque infernal, um bêbado de camiseta regata do Exaltasamba falando celular e chorando por causa da ex-namorada (e abraçando vocês com o suvaco suado jurando que "se ela voltar, ele casa"), três garotas que seu amigo chegou em cima e curiosamente "só vieram pra dançar" e aquelas doses de whisky falsificado que custam quase o preço de uma garrafa de Blue Label.

Com o avançar da noite, vocês resolvem abandonar alguns critérios e começam a caçar as gordinhas e as bêbadas. Mas descobrem que as gordinhas ainda não entraram em desespero a ponto de ficar com vocês e que as bêbadas já estão desmaiadas pelos cantos, o que provavelmente os enquadraria em algum artigo do código penal.

Finalmente depois das 4 da manhã a idéia de assistir "No Mundo dos Suricatos" não parece tão ruim assim nem para o seu amigo (e não teria custado aquele roubo em entrada e consumação).

Quando percebe já é quase de manhã e você está com um cachorro-quente em uma das mãos, ao lado de uma Kombi, ouvindo uma discussão entre dois torcedores de Vasco e Flamengo e jurando nunca mais cair numa dessas.

Até a próxima vez, é claro, porque sabe como é, seus amigos sempre têm uns programas "super maneiros" pra te chamar.

Selecionando uma filmografia confiável para chamar alguém pra ir no cinema

Postado em 17 de nov. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Não gosto tanto de filmes a ponto de ir fazer faculdade de cinema e conviver com pessoas que ainda usam bolsas de crochê, calças de Bali, fazem aquele gesto do enquadramento com os dedos e curtem passar o sábado assistindo a filmografia do Glauber Rocha, mas ainda assim posso dizer que gosto muito.

E por isso mesmo vivo procurando lançamentos no jornal, atrás de mostras de países obscuros como o Butão ou Bangladesh, festivais e sessões no meio da tarde, quando invento algum médico ou reunião para fugir e assistir a um filme.

Mas escolher algo para ver sozinho é tranquilo, você pode estar afim de ver "Transformers 10 - A volta da missão de vingança em resposta à primeira missão de vingança que não funcionou", ou então algum filme nepalês sobre monges que fizeram voto de silêncio e desenham mandalas de areia, filme que não conta com um diálogo sequer e que durante suas seis horas e meia de duração tem como o único som o barulho dos monges assoprando para desmanchar as mandalas.

Quando você é responsável somente pela sua experiência daquela ida ao cinema, nenhuma responsabilidade maior é envolvida. O problema é quando você resolve chamar alguém pra ir contigo.

Porque ainda que você seja um cara sensível, culto, educado, erudito e que até beba chá, chamar aquele parceiro do futebol para assisir "Bolshoi, o drama de uma bailarina" vai dar certeza a ele que você é realmente meio esquisitão e ainda por cima soar como um convite subliminar pra curtir uns momentos numa sauna.

Por outro lado, convidar a garota da faculdade que você está há seis meses tentando sair pra assistir "Orgia de Cérebros, o novo ataque das zumbis lésbicas" pode não ser uma boa idéia (e caso ainda assim você faça o convite e ela aceite, talvez convenha começar a se preocupar em mantê-la longe de facas e demais objetos cortantes).

Outra coisa são aqueles filmes com cenas de putaria aleatória.


Num minuto uma camponesa colhe alfazemas numa cena digna de rótulo de colônia de farmácia, logo depois ela aparece em sua bucólica choupana tomando sopa de tomate e em seguida já aparece nua, junto com seu meio-irmão e algumas cabras, numa cena em que o diretor queria monstrar como preencher o vazio existencial profundo, mas que ficou sem explicar o porque da necessidade das cabras.

Filmes assim não são para ver com sua mãe, sua avó ou a garota que você quer sair há seis meses. E caso ela curta, bem, ofereça logo um contrato pra ser agente da carreira dela como atriz pornô.

Assistir coisas como "Jackass", "Pen & Ênis, dois detetives da pesada" ou "Vomitando Helena" te fazem parecer meio idiota, por isso convém ir ao cinema usando uma máscara.

Mas a pior situação é quando você quer impressionar.

Escolhe cuidadosamente um filme búlgaro que fala sobre as primeiras 17 horas de um relacionamento amoroso que durou apenas 24. O filme é todo em preto e branco e a câmera é embaçada, nova moda na Europa, e então chama a tal garota que queria sair há seis meses pra assisti-lo.

Já na saída, depois da dificuldade em se manter acordado e fazendo cara de interesse mesmo durante uma cena em que a personagem leva nove minutos e meio penteando o cabelo, você vira pra ela e diz:

- E aí? O que achou?

- Legal...

- Legal?

- É, legal, OK e tal, mas eu preferia mesmo é ter ido ver "American Pie".

Cuidado ao sair por aí carregando qualquer livro

Postado em 10 de nov. de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Outro dia estava no metrô e uma garota entrou no vagão carregando um livro chamado "Ninguém é de ninguém". Na hora pensei, com um sorriso malicioso "essa é chegada numa suruba".

Mas nada, é um livro sobre os problemas que o ciúme pode causar numa relação, etc. Quer dizer, ela não era mesmo chegada numa suruba, pelo contrário, provavelmente era uma possessiva-barraqueira-anônima fazendo algum programa de 12 passos.

E é realmente curioso como carregar um livro por aí pode dizer muito sobre você, voluntária ou involuntariamente. Sei de gente que nunca leu uma linha sequer na vida (nem da revista Caras, onde só olha as figuras), mas gosta de sair de casa com algum livro debaixo do braço só para parecer mais inteligente.

Imagem é tudo, por isso um sujeito vestido de branco carregando um tratado de neurocirurgia vai ser automaticamente identificado como médico, ainda que seja só um vendedor de cuscuz que usa o calhamaço como apoio pro seu tabuleiro.

Dizem (não sei se é verdade, nunca testei) que levar qualquer obra do Chico Buarque te ajuda a conquistar menininhas, pois passa a imagem de um cara sensível, mente aberta, erudito sem deixar de ser popular, progressista, enfim, aquele tipo de poser pseudo-esquerdista que algumas delas adoram.


Mas ser visto devorando um livro de auto-ajuda, vai te dar fama de carente, problemático, dessas pessoas que chegam num restaurante e dizem pro garçom:

- Me traz uma Coca? Quer dizer, se puder, senão pode ser Pepsi mesmo, ou será que eu prefiro um suco? Desculpa, por favor, se não for incomodar pode ser só uma água mineral sem...com...sem gás, não, pera aí, traz uma Coca mesmo, o que você acha?

Adulto lendo a saga Crepúsculo com certeza é idiotizado. Livro do Paulo Coelho, denuncia grande possibilidade de tratar-se de um mala.

Qualquer um com a biografia do Justin Bieber me causaria vergonha alheia, ainda mais porque o moleque escreveu (escreveram) aquilo quando tinha 16 anos, o que só justificaria o livro caso ele se matasse no dia no lançamento.

A biografia do Steve Jobs causa duas reações: "macfag" em uns e "esse é o cara" em outros.

Poesia? Gente romântica. Romance? Gente intensa. Ficção científica? Só é menos nerd do que mangás, HQs ou um "Manual de Redes Linux". Livros de dieta? Seriam mais úteis se você emagrecesse lendo. Nelson Rodrigues? Hum...

Só não ficaria encarando demais se um dia esbarrasse por aí com alguém lendo "The Serial Killer Files", porque sabe como é, com gente que usa faixa ou tarja preta, é melhor não se meter.

O "bom dia" do tenor

Postado em 25 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Certas pessoas são um mix de parada militar com show de fogos de artifício. Valem como uma bateria de escola de samba, uma fanfarra de colégio no interior, uma orquestra de arrotos. Elas são grandiloqüentes, contundentes, intensas e geralmente altas, no volume, que fique bem claro.

Jamais acham nada, sempre têm certeza. E são como um aparelho de som com o volume quebrado no máximo. Um simples "oi" que eles dão traz em si mais convicção do que um discurso do Fidel.

São incapazes de dizer o sabor do sorvete preferido sem que aquilo pareça um decreto ou um axioma:

- Menta é o melhor sorvete do mundo! Tenho pena de quem não prefere sorvete de menta. Aliás, pena não, tenho nojo. E aí? Vai pedir de que sabor?

- Errrr...menta?

Se têm dor de cabeça, parece que a dor foi produzida por instrumentos de tortura medieval. Sua fome é a de uns 10 somalis perdidos no deserto. Suas demonstrações de carinho fariam um filhote de cachorro desejar ser um tubarão.


Lógico que a pessoa precisa colocar alguma paixão em qualquer coisa que faça. Coisas como "eu te amo, eu acho" ou "desculpa, mas se vocês não pagarem o resgate eu mato o refém...se vocês estiverem de acordo" são igualmente estranhas. Gente que pede desculpas por tudo, que nunca sabe o que quer, que não reage mesmo quando xingam sua mãe, avó e bisavó ao mesmo tempo enchem o saco do mesmo jeito.

Mas pessoas categóricas demais parecem viver num filme.

Tipo uma dessas comédias românticas em que o cara contrata um quarteto de violinos para o café da manhã, leva a mulher para almoçar no alto do Empire State, à tarde se declara pelo sistema de som de uma ginásio de basquete e já de noite a convida para repetir tudo no dia seguinte durante um salto de pára-quedas.

Tenho uma amiga que namorou um sujeito desses. De vez em quando ele colocava um "n" no final das frases, acho que para dar mais dramaticidade:

- Tudo bem, garotoN? Como você vai? BelezaN?

Aos berros, claro. Isso quando não parava no meio da rua para se declarar:

- Já te disse que te amo muito minha namoradaN?

Acabou muito acertadamente apelidado de Pavarotti.

E pense bem: é curioso assistir um cara assim cantando ópera vestido com roupas bufantes, mas imagine ser acordado todas as manhãs por um "bom dia" daqueles.

O samba do Feng Shui doido

Postado em 20 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Geralmente começa com uma matrícula em aulas de dança do ventre, uma palestra num centro de macrobiótica ou um panfleto de um templo hare krishna.

De repente ela troca o nome pra Julia Fatula ou Sarah Madhava e pronto, é o que basta. Assim, sem mais nem menos, ela vira uma garota "zen". Pára de comer picanhas aos domingos, de beber cervejas às sextas e o sexo das tardes de sábado só rola se for voltado na direção de onde o sol de põe em Calcutá (e com a cama trocada por uma esteira).

Papos cabeça, frases desconexas, cabala-vodu-tarô-zoroastrismo.

Se você diz que está com calor, ouve como resposta algo como "o equiíbrio dos chacras transcedentais precisa estar em harmonia com a existência do arhat". E pensar que você só queria uma cerveja gelada.

Mas o problema é que não foi apenas sua reclamação sobre o tempo que gerou aquele ataque-zen, qualquer coisa que você diga recebe como resposta uma lição, uma moral da história, uma frase sobre aceitação-privação-sublimação-reinvenção de alguma coisa, desde a vontade de comer um chocolate até pisar num cocô de cachorro na rua.


Você passa a viver na companhia de um cruzamento de Paulo Coelho com Baby Consuelo.

Sem contar a transformação da casa dela numa filial do Mundo Verde. Os móveis são arrumados de acordo com o que algum livro de feng shui mandou, o que terminou colocando a mesa de jantar no banheiro social e o sofá na área de serviço, sem contar os incensos, a música indiana, as estátuas de Budas, Ganeshas, os cristais e até um boneco do Batman vestido com roupa de árabe.

Pedir um simples milk shake vira um suplício:

- Vamos tomar um milk-shake?

- Procure a resposta nas vibrações do entorno do seu bodhisattva...

- Tá, baunilha ou Ovomaltine?

- Habib, o seu eu te dirá isso na hora certa.

- Caralho, pelo menos me diz se quer grande, médio ou pequeno?

- Na verdade prefiro um suco de clorofila.

E assim coisas stress, carne vermelha, rock pesado e fast food passam a fazer quase tanta falta quanto o ar que você respira (sem controle de respiração e nem Yoga, porque você está de saco cheio disso).

Não é à toa que namorar uma economista do mercado financeiro ou uma caixa de banco fã do Iron Maiden passou a ser sua obsessão.

Se não der, que seja pelo menos uma gerente do Burger King.

O lado bom de não ser cool

Postado em 6 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Há um tempo li que galinhas não voam tão alto quanto urubus, mas pelo menos não comem carniça e nem são sugadas por turbinas de aviões.

Dito de outra forma, você jamais vai se espantar se um amigo seu aparecer usando ombreiras e mullet se ele sempre tiver sido chegado num visual trash anos 80. Mas com certeza você vai se espantar se um dia aquela gostosa do seu trabalho sair de férias e voltar de cabeça raspada, com uma suástica tatuada na têmpora e pedindo pra ser chamada de "João" a partir de agora.

Disse tudo isso porque outro dia a aparição na TV do vocalista e líder do Guns'N'Roses, Axl Rose, durante o show da banda no Rock in Rio, causou tanta comoção que eu pensei que ele estava torturando filhotes de coelho no palco.

Mas não foi nada disso, todo mundo no Twitter, no Facebook, nos bares, esquinas e até nas aldeias da Amazônia estavam indignados porque o sujeito ficou velho e gordo. Isso mesmo: velho e gordo. Nada de coelhos torturados, nada de sacrifício de virgens vestidas de Branca de Neve, nada de velhos travestis plantando bananeira usando saias, mas apenas o fato do Axl Rose ter envelhecido.

Quase ninguém pensou no fato de que a menos que ele fosse um mutante, um vampiro ou um Highlander, é meio que normal ele ficar velho.


Mas aí volta a história da galinha e do urubu. Alguém por acaso reclama que o Lemmy do Motörhead ficou feio, gordo ou esquisito com o passar dos anos? Não. Simplesmente porque ele nunca foi um sex symbol mesmo.

Daí a minha teoria de que não ser cool tem um lado bom. Pense no pessoal do seu colégio. Todo mundo ficou mais ou menos igual eram nossos pais (menos os que tinham pais bonitos): uns carecas, outros barrigudos, outras viraram pudins de celulite, mas a gente só se choca mesmo com quem era bonito. Os feios só mudam de feiúra e alguns até ficam melhores do que eram.

A mesma coisa com quem já foi considerado gênio. Ninguém se irrita se um imbecil resolver falar alguma imbecilidade, mas se a pessoa for conhecida pela sua inteligência, não convém de uma hora pra outra aparecer demonstrando uma "intelijença".

Por isso existe um lado bom em ser aquele em que ninguém presta muito atenção, a não ser por uma estranha habilidade de fazer esculturas usando pão de forma e pasta de amendoim.

Você pode usar pochete, pedir pra parar o churrasco e tirar uma foto da picanha pra colocar no Orkut, fazer a brincadeirinha do "pavê ou pacomê" todo santo dia (mesmo que a sobremesa seja sorvete de papaya com M&Ms), aparecer no trabalho calçando uma sandália Croc amarela e até ir na praia usando sunguinha de crochê.

E ninguém vai se espantar, você nunca foi cool mesmo.

Porque o revival de uma década geralmente dura mais do que a década em si?

Postado em 21 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Já teve horas em que eu pensei que o revival dos anos 1980 fosse durar até mais ou menos 2980.  E o pior é que pra quem não viveu aquela época, fica a impressão que só curtíamos Bozo, pirocóptero, ursinho blau-blau e "Como uma Deusa" da Rosana.

Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?

Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".


Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.

É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.

Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.

As oportunidades perdidas riem da nossa cara depois

Postado em 16 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Parece que o ser humano foi feito para jamais perder uma boa oportunidade de perder uma boa oportunidade.

A maior delas geralmente é a de ficar calado, mas não é a única.

Digo isso porque quase todo mundo já achou um dia que seria valorizado quando num ataque de honestidade neuro-incapacitante, resolveu confessar para o professor que copiou um trabalho na internet ou para a namorada que deu uns beijos na prima dela naquele final de festa, e no final acabou lembrando porque o ditado diz que em "boca fechada não entra mosca" e não "boca fechada não ganha um beijo de língua da Scarlett Johanson".

E oportunidades perdidas nos perseguem para o resto da vida. Você consegue esquecer o seu aniversário de casamento (supondo, é claro, que você não tenha se arrependido de não ter entrado num avião para a China ao invés de entrar na Igreja naquele dia), mas não esquece aquela garota que te deu mole na 6ª Série e você preferiu ir jogar War com seus amigos ao invés de tentar perder a virgindade aos 12 (e não aos 19 como foi de fato).

E por falar em 6ª Série, lembro que o The Cure veio dar um show no Rio de Janeiro quando eu estava na escola e eu acabei brigando com um amigo (fizemos as pazes depois, mas nunca mais a amizade foi igual) porque ele me pediu para comprar ingressos pra irmos juntos e, em cima da hora, desistiu do show para jogar uma pelada.


No lugar dele, jamais esqueceria o show que não fui (e acabou sendo histórico) por causa de uma bosta de um jogo de futebol na quadra da escola.

Suponho isso porque vivi coisa pior por causa uma bolsa de estudos que ganhei para passar três meses na Inglaterra quando tinha 16 anos.

Imagine só, terra dos Smiths, da realeza, dos Beatles, do Fish&Chips e até dos deliciosos pudins de rim, mas tinha um problema: era nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março e eu não queria "perder" o verão.

Resultado: não fui.

Coisas assim me fazem pensar que certas decisões da nossa vida deveriam ser tomadas por uma comissão. Sério, você reuniria umas 4 ou 5 pessoas que fariam um debate e depois tentariam te convencer do que é melhor naquele momento.

Caso a conversa não funcionasse, estariam liberados para te dar uma surra com cabos de vassoura.

Porque no final das contas, hoje nem consigo lembrar o que fiz naquele verão, e só posso imaginar tudo o que teria feito caso tivesse embarcado no avião da British Airways.

E essa oportunidade perdida volta e meia aparece pra rir na minha cara (e quando descobre que eu passei a detestar verão, calor, Carnaval, etc), ela não só ri, como gargalha. E com razão.

Umas vassouradas não seriam tão ruins assim.

Porque estamos virando turistas japoneses

Postado em 14 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

De repente todo mundo parece um turista japonês.

Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.

Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.

Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?

Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".

Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.

Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.


Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.

E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.

Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.

Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.

Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.

É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.

Porque a vingança pode ser um sorvete de menta

Postado em 7 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Meu sorvete preferido é menta com flocos. Você há de perguntar: e daí? Eu te respondo: não imaginei maneira melhor de começar esse texto.

Como detesto ditados populares (mesmo, me sinto mal quando preciso repeti-los no meio de uma conversa), já que apesar de significativos, fazem o que se tem a dizer parecer mais "vazio", por isso preferi dizer meu sabor preferido de sorvete do que falar que "a vingança é um prato que se come frio".

Mas apesar de não gostar muito desses ditados, confesso que "a vingança é um prato que se come frio" é um excelente ditado. Se juntarmos com o "apressado come cru" fica melhor ainda, um verdadeiro dois em um da sabedoria popular, queijo com goiabada, auto-explicativo.

E mesmo que eu ache que dependendo da situação a vingança não é prato frio nem quente, mas um prato quebrado na testa do cretino, é fato que um troco bem planejado, com ares de jogo de xadrez, é bem interessante e ainda por cima te faz parecer mais inteligente.

No fundo é como qualquer vingança, ou seja, ressentimento transformado em ação, mas que soa mais classudo, isso soa.

E um bom exemplo é o da ricaça argentina Corina Kavanagh. Ela era jovem, rica, bonita e susceptível ao amor como todo jovem (não necessariamente bonito). Quis casar com outro jovem, rico, bonito, susceptível ao amor, porém membro de uma família tradicional e aristocrática (aquela coisa de berço e tal), a Família Anchorena.


Os Anchorena foram contra o casamento, pois achavam a Srta Corina meio nova rica, emergente, meio Barra da Tijuca, sabe como é? Os pombinhos então não se mataram como Romeu e Julieta e nem largaram tudo para fugir juntos como Edward VIII e Wallis Simpson. Simplesmente não casaram e pronto.

Só que a Corina não levou isso muito na boa.

Ela recebeu uma herança, comprou um terreno em frente à casa da família do ex-amor e mandou erguer ali o Edifício Cavanagh, um lindo arranha-céu em art-déco com 120 metros de altura, 12 elevadores e uma única exigência: que os arquitetos o construíssem de forma a obstruir totalmente a visão que o palacete dos Anchorena tinha de uma igreja erguida pela família do outro lado da rua.

Dito e feito. Os metidos a besta perderam a vista e o Edifício Kavanagh hoje é considerado um monumento histórico nacional da República Argentina. Uma vingança que virou um belo edifício.

Pelo tempo que devia levar para planejar e construir um prédio desse tamanho na década de 30, suponho que essa vingança foi um prato frio, mas tão saboroso pra ela quanto um sorvete de menta é pra mim (talvez um pouco mais caro).

Moral da história: se um dia te sacanearem fique milionário, compre um terreno, erga um prédio e ferre com a vista da casa do cretino.

Se esse plano for meio complicado, bem, quebre um prato na cabeça dele e vá relaxar tomando um sorvete, do sabor que você preferir, é claro.

E não reclame do meu final, foi a forma que eu achei de usar "prato", "frio", dizer que a vingança é doce e dar um fim nessa história.

Seu álbum de fotos tem mais em comum com o estômago de um urso do que você imagina

Postado em 26 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Dizem, não sei se é verdade, que os esquimós tem uma estranha forma de hospitalidade. Quando um visitante chega lá no seu iglu, o esquimó oferece duas das coisas mais valiosas que possui para compartilhar com o visitante: um jantar à base de gordura de foca e a sua esposa, a Sra. Esquimó.

Na concepção dele, carnes cruas e banha, além da própria Sra Esquimó (que provavelmente passa alguns meses sem banho) são dois presentes irrecusáveis, desses que transformam uma negativa numa ofensa grave.

Tudo bem que seja raro alguém conhecer algum esquimó (A Bjork não conta), mas frequentemente nos vemos agraciados com honras que, se não fosse para não melindrar os outros, recusaríamos na maior felicidade.

Por exemplo: visitar recém-nascidos no hospital e responder coisas como "você acha parece mais com o pai ou com a mãe?". O que dizer numa hora dessas? "Porra, sei lá, bebê é tudo igual"? Aí vira aquele papo de deputado baiano "ah, parece com o pai, mas tem os olhos da mãe e o queixo do avô".

Provar da comida alheia é outra dessas honras que eu faço questão que me "incluam fora" delas.

Alguém te chama pra um almoço na casa da avó, que cozinha "melhor que a Nigella", mas quando você chega lá descobre que o mais próximo daquelas comidas da TV ali é o humor da velha, que é pior do que o do Gordon Ramsay.

E pra piorar ainda tem o bife de fígado com quiabo pra encarar, sem contar que no final você ainda tem que encenar aquele "hummmm", que só é completado mentalmente: "ummmma bosta".


Quer ver outra honraria dispensável? Formaturas. Ficam os formandos lá levantando cartazes com piadas internas cada vez que algum nome é chamado para pegar o diploma, as famílias tirando milhares de fotos, aquela fila interminável de nomes e você lá, de saco cheio, imaginando se pelo menos vai rolar algum coquetel depois (ainda que ele fosse útil mesmo é antes, porque só bêbado pra achar graça naquilo).

Mais chato mesmo só os álbuns de fotografia. Veja, não sou um monstro sem coração que despreza as memórias alheias, nada disso. Acho legal ver as fotos dos outros com 1, 2, 3, 4, 5 anos, aquela clássica foto sentado no vaso quando criança, os móveis, roupas e cortes de cabelo da época do mouse de bolinha, enfim, é legal e tal.

O mesmo vale para fotos daquela viagem à Europa, quando seu amigo visitou 14 países em 18 dias e no final nem ele mais lembra direito se aquela fonte que aparece na fotografia fica em Lisboa, Budapeste ou Amsterdã. Ainda assim é legal ver fotos aleatórias de lugares diferentes.

Mas tudo tem limite.

Depois de 100 fotos do baile de debutantes, depois de ver a tia bêbada, o avô bêbado e até a vizinha bêbada, você começa meio que encher o saco. O mesmo para aquelas 500 fotos de golfinhos em Fernando de Noronha. Sim, porque golfinhos são legais, Fernando de Noronha é lindo, mas ninguém tem saco para 500 fotos da mesma viagem, nem que fosse uma viagem ao centro da Terra.

Fico pensando no que o esquimó deve dizer:

- Gente esquisita...só mostram umas figuras sem parar e nem me oferecem uma gosma pra comer ou a esposa pra consumir durante o processo...

Carioca way of life

Postado em 12 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Nasci na cidade errada. Muito antes das pessoas que me conhecem pronunciarem esta sentença, eu já sabia lá no fundo que, ainda que goste de muitas coisas do Rio de Janeiro (talvez nem tantas, talvez muitas por hábito), eu não possuo no "âmago do meu ser" o carioca way of life.

Acho que descobri isso mais ou menos na época em que admiti preferir sentir frio e me agasalhar do que cultuar uma estação onde você sua e passa calor 24 horas por dia, como é o escaldante (e adorado) verão da "Cidade Maravilhosa".

Esse negócio de Cidade Maravilhosa também ajuda a denunciar minha dissidência carioquesca. Não concordo absolutamente com este título, muito menos com o tal de "cidade mais linda do mundo". Porque? Quem decidiu isso? A pessoa que diz isso já conheceu o mundo inteiro, cidade por cidade, para saber?

Claro que a visão do Redentor sobre a montanha, da Enseada de Botafogo coalhada de barcos e do litoral deslumbrante com uma cidade apertada entre o mar e os morros é bonita, mas o problema é que se você desviar o olhar em meio grau verá que o resto dos morros é tomado por barracos, se chegar perto sentirá o cheiro de podre da água da Enseada e se resolver pegar sol numa das belas praias, pode terminar sem a bolsa ou a carteira.

E aí entra outra diferença minha com o carioca way of life, que é o fato de todo carioca legítimo, o tal "da gema" saber que a cidade é suja, caótica, cheia de mendigos, flanelinhas, favelas, camelôs, tudo que é tipo de praga urbana, mas se tomarem de dores quando alguém resolve falar disso.

"Pera aí! Toda cidade grande tem problemas!" é o bordão preferido. Concordo, toda cidade tem problemas, mas o Rio de Janeiro parece querer resumir todos os problemas numa cidade só.


Tirando isso, outra coisa que me afasta de ser um carioca legítimo é não curtir aquela coisa do "mermão", do "bora pro ensaio do bloco?" ou "eu curto um samba no pé". Não sou Flamengo, acho a Mangueira um porre, blocos de Carnaval pra mim são ajuntamentos de desodorante vencido, não curto essa coisa de bancar malandro ou de achar que o resto da população do Brasil se resume a otários, caipiras e viados que morrem de inveja das minhas praias.

O que é irrita também é a "vida cultural" que o Rio de Janeiro possui. Dizem que é a capital cultural do Brasil, tudo bem, pode ser, mas a diversidade não é o forte. A noite carioca é feita literalmente para inglês ver.

Botequins com sambinha, feijoadas com sambinha, bares com sambinha e sambinhas com sambinha. Quem não curte essa coisa de Lapa-Havaiana-no-pé-calcanhar-sujo sofre para encontrar o que fazer.

Claro que existem exceções (senão a não daria pra habitar aqui nem mesmo sabendo que minha família inteira está na cidade), mas para a grande maioria dos cariocas a idéia de cultura, moda e diversão se resume a sambinha na Lapa, feijoadas musicais, hippies vendendo pulseirinhas, funk-favela, coisas feitas com garrafas PET, pessoas batendo em latas, coisas feitas com coisas recicladas, artesanato ameríndio-africano-colorido-mu​derno, capoeira e, claro, jongo em Santa Teresa.

Essa coisa de adoração por favela aliás é um parêntese dos grandes. Filmes sobre favela, músicas de favela, instalações em centros culturais mostrando barracos (como se fosse possível viver aqui sem ver montes deles), excursões de turistas para favelas, etc, etc, etc. Não dá pra engolir.

É complicado aderir, mesmo pra alguém que nasceu na cidade.

Aí quando resolvo dizer estas coisas, me chamam de baba-ovo de paulista, de reclamão, dizem que isso é porque eu não como ninguém ou porque eu quero é que me comam (dependa da imaginação do interlocutor), xingam e não conseguem entender como alguém pode falar mal de coisas assim, tão, como diria, "maravilhosas".

Nessa hora me solidarizo com baianos que não gostam de axé, pernambucanos que não gostam de frevo, russos que não gostam de vodka e até americanos que resolvem se alistar no Talibã.

Programação do dia: chegada à Paris e almoço no Empório Brasil

Postado em 5 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Tem coisa que é muita sacanagem, tipo, finalmente (e sabe-se lá porque) você vai ser entrevistado no programa do Jô Soares (tem quem ache isso uma merda, mas sob certa forma é um parâmetro de "chegar lá" no Brasil).

Só que justo no seu dia de glória, quando você vai avisar para toda a sua família ficar a postos com gravadores na frente da TV para registrar o momento, e o dia que seus inimigos dirão coisas como "ah, se ainda fosse no David Letterman", você acessa o site do programa para ter o gostinho de ver seu nome ali e lê o seguinte:

- Hoje no Programa do Jô entrevista com Fulano de Tal ("Fulano de Tal" é você), com Krong, o mágico das galinhas e com o novo projeto do funkeiro MC Leopardo juto com o grupo de pagode Exaltalhança.

Um lineup de convidados assim vai te fazer sentir como se estivesse num circo de variedades. Se ainda chamassem, sei lá, o grupo de lutadoras no gel da Playboy, tudo bem, mas Krong? O mágico das Galinhas?! Galinhas? E um projeto de funkogode fusion?

Você já imagina seus inimigos rindo "Hehehehe, bem de acordo com aquele bosta...".

Não contei isso tudo só pra você pensar que eu tomei ácido ou qualquer coisa do tipo, é porque me chama atenção como certas coisas podem estragar momentos que eram pra ser mágicos para nós.

É aquela foto do seu casamento onde justo na hora de jogar o buquê aparece sua tia de calça saruel mostrando o cofre, é o sorriso com alface no dente, é o sorteio de um carro zero que você ganha mas que pelo regulamento do sorteio (que você aceitou sem saber) precisa passar um ano com o carro pintado de rosa e laranja e a inscrição "Ganhei no sorteio do Shopping das Calcinhas".

É o "mas" que sempre aparece para ferrar com a sua paciência. Como aqueles elogios cretinos que sempre vêm com um "mas" depois. Tipo "você está linda hoje, mas...essa maquiagem te deixa meio com cara de puta".


Muitas vezes essas situações são compulsórias, não tem jeito, você precisa sorrir (nem que seja um sorriso amarelo) e andar por aí fazendo propaganda do Shopping das Calcinhas durante um ano, mas o que dizer de quem procura isso?

Viajar, por exemplo. Você junta grana, compra dólares ou euros, tanto faz, marca a passagem, tira o passaporte, paga 300 taxas, enfrenta a fila do check-in, frango borrachudo e barrinha de cereal da classe econômica, fila da imigração, jet-lag, fuso horário, aí finalmente chega no seu destino e vai almoçar no...Empório Brasil?

Juro, na minha opinião quem viaja pro exterior e vai comer em restaurante brasileiro deveria ser proibido de deixar o país. É como você participar de uma promoção, ganhar um automóvel e na hora de receber o prêmio dizer "dá pra vir pintado de laranja e rosa com o nome do Shopping das Calcinhas escrito?".

Nada contra curtir seu país, nada contra quem mora (veja bem, mora) no exterior sentir saudade de um feijãozinho, uma caipirinha, um sambinha (ainda que detestasse samba enquanto morasse aqui), mas ninguém morre porque ficou 15 dias sem comer uma orelha de porco ou escutar o Exaltasamba. Sério.

E quem faz isso, na boa, se a Constituição não permitir que seja proibido de deixar o país, pelo menos merecia voltar pra cá num vôo sentado na poltrona do meio, com o mágico Krong de um lado e o MC Leopardo do outro.

É proibido proibir, mas em certos casos, não deveria ser

Postado em 1 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Recentemente uma companhia aérea anunciou que iria permitir o uso de celulares em seus vôos, obviamente cobrando o preço de um aparelho de celular por minuto. Outro dia também li que iriam permitir o uso da internet a bordo.

Eu sinceramente preferiria que eles estivessem discutindo a proibição das poltronas do meio e das barrinhas de cereal, por isso pensei num monte de coisas que ainda que não sejam proibidas, deveriam ser.

O Brasil é problemático para esse tipo de situação, porque é um país onde uma lei pode ou não "pegar". Urinar na calçada, estacionar o carro em fila dupla, atirar lixo pela janela, meter o pé na jaca nos cofres públicos, tudo isso é proibido, mas ninguém respeita muito.

Mas supondo que algum acidente com radiação tenha feito o brasileiro passar a respeitar leis e não extrapolar sua individualidade - ouvindo música (ruim) aos berros em celulares ou fazendo churrasco na calçada, por exemplo - algumas leis bastante úteis poderiam ser propostas.


Não proibiram o fumo em lugares públicos? Então, poderiam proibir também os malas de puxar papo em fila de banco ou em elevadores reclamando sobre o tempo. Nada de "que friaca, hein?" ou "está um calorão!".

E aproveitando a deixa, o papo de bêbado e as opiniões desenfreadas de taxistas poderiam entrar no bolo também. Sabe como é, taxistas são Caetanos Velosos, sempre prontos a emitir opiniões desconexas e descovernadas sobre qualquer assunto. Certas horas eu penso que bastaria colocar um taxista na Presidência da República que viraríamos a Suécia em seis meses.

O brasileiro aliás tem esse problema. Não é um povo, é uma opinião aleatória. Tanto faz se o assunto é a seleção de futebol, física quântica ou as orelhas do Dr. Spock, sempre haverá uma teoria mirabolante e uma opinião pronta sobre o assunto.

Outra coisa é esse negócio de tudo que diz respeito ao Brasil precisar ter um axé ou um batuque no meio. Quem decidiu isso? Também tivemos Villa Lobos, Tom Jobim, tem um monte de descendente de alemão, italiano, judeu, etc, etc, por aqui, mas seja na abertura do Pan Americano, no Sorteio das Eliminatórias da Copa ou qualquer outro evento do tipo, sempre colocam a Ivete Sangalo. Porque? Taí uma boa coisa pra se discutir.

E a tal reforma ortográfica que desfigurou o "vôo", perseguiu o o hífen e bateu a carteira da lingüiça, afanando a trema? Ainda "estou aguardando" que "estejam realizando" uma reforma que "esteja reformando" o idioma e "esteja pretentendo estar suprimindo" o gerúndio do telemarketing, que tal?

Deixo até o tauba, largato e Framengo pra uma oportunidade.

Num tempo onde se debate intensamente a permissão da união civil de gays, liberação da maconha e libertinagem sexual, seria muito mais saudável começar a discutir algumas proibições.

E se você me acha muito radical, tente discordar de mim quando estiver no metrô, ouvindo compulsoriamente aquele funk no celular do cara do lado.

Acho que ele vai ser alpinista...

Postado em 29 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Uma das maiores questões de qualquer ser-humano, mais do que onde está e para onde vai, mais do que dúvidas existencialistas sobre a existência ou não do destino, da sorte ou mesmo do Batman, mais até do que dúvidas sobre se gostar de observar pernas cabeludas (no caso dos caras) ou os seios da amiga (no caso das meninas) no vestiário da academia te faz ou não ser gay, é: o que eu vou ser quando crescer?

Muita gente cresce e não consegue responder essa pergunta, tanto que ela gera uma outra: pera aí, será que o que eu quero ser existe?

É mais fácil quando você é criança, afinal, tudo nessa fase da vida é possível. Eu já quis ser ditador do mundo. Sério, não me queira mal por isso. Meu sonho era oferecer algum país (não sei porque a Itália sempre me vinha em mente) para a minha esposa no dia do casamento.

Passava tardes no telhado de casa fungindo que derrubava aviões inimigos com uma bazuca de plástico azul. De novo, não me queira mal (ou ache que sou caso perdido) por isso, porque juro que eu mudei.

Depois da Síndrome de Mussolini Jr, eu desejei ser goleiro de futebol. Enquanto todo mundo queria ser o Zico, o Roberto Dinamite ou o Maradona, eu queria ser o Waldir Peres, o goleiro careca da Seleção Brasileira.

Sorte que não consegui uma coisa nem outra. Não virei goleiro e nem fiquei careca.

Conforme o tempo passa, a coisa complica um pouco.


Primeiro porque por mais que estudemos, nos preparemos, façamos cursos e o escambau, muito provavelmente em algum momento nosso destino será decidido por algum RH cretino, que depois de "O Aprendiz" resolveu pensar que é o Roberto Justus ou o Donald Trump.

Depois porque o mercado de trabalho atualmente funciona baseado no seguinte princípio: "vamos demitir três, contratar um para fazer todo o trabalho e pagar 1/3 do que pagaríamos a cada um deles". Tudo isso faz parte desse novo universo onde "empregado" passou a ser "associado" ou "colaborador", o que na verdade quer dizer que você não é merda nenhuma.

Aposto que qualquer um em sã consciência preferiria ser chamado de "lacaio" ou "escravo" e em troca trabalhar 20 horas por semana e ter 60 dias de férias.

Sonhos com astronautas, goleiros da seleção e super-heróis vão ficando para trás e no final das contas você opta por algo mais realista e vai ser dentista, advogado, engenheiro, professor, etc, etc. Mas que fique bem claro: se a democracia funcionasse mesmo e se fosse verdade que "podemos ser tudo que quisermos", você deveria estar nesse momento vestido com uma malha meio esquisita, usando uma máscara e disparando teias de aranha das mãos enquanto voa entre prédios.

Nenhum teste vocacional deve dizer que você tem propensão a cowboy de filme, mas nenhum também deve dizer que você leva o maior jeito para proctologista ou técnico de exame de fezes e no entanto muita gente acaba fazendo isso pra viver.

Aliás, se essas vocações aparentes funcionassem mesmo, talvez fosse mais fácil do que parece. Outro dia falava com uma amiga e perguntei sobre filho de 2 anos dela, o diálogo valeu meu dia:

- E aí? Como vai o Arthur?

- Ele tá bem, levadíssimo...inclusive acho que vai ser alpinista já que é a décima vez que eu tenho que correr para tirá-lo de cima do armário...

Academia nossa de cada dia

Postado em 18 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Dizem que os seres humanos são diferentes individualmente, mas que no final das contas o todo é igual.

Pensei nisso depois de me matricular pela vigésima vez na minha décima-terceira academia. Sabe como é, hoje em dia você pode roubar até verba do leite das criancinhas que não será considerado tão mau quanto alguém que não vai levantar pesos e suar diariamente.

Um estivador levanta quilos e quilos todo dia e aposto que pra fazer isso ele recebe por mês bem menos do que um aluno de uma dessas academias de luxo paga para levantar os mesmos quilos e quilos. Fazer o que, assim é a humanidade e suas imensas gaiolas de hamster.

Seja no Brasil, na China e, creio eu, até no Irã (se os aiatolás permitirem que se cultue o corpo que deverá ser coberto com uma burca depois), os mesmos personagens estarão presentes. O homo-marombensis parece ser uma raça bastante uniforme.

Porque vejamos, basta entrar numa academia em qualquer canto (pelo menos essa é a impressão que eu fiquei depois das minhas 12 ou 13 experiências), que você vai encontrar a coroa plastificada, que usa as roupas de ginástica de filha e passa a tarde quase toda ali, entre uma aula de aeróbica, uma sessão de power yoga e uma massagem. Só se ausenta mesmo para retocar os fios loiros no salão da esquina.

Outro personagem perene, lógico, é o bombado-micareteiro-jiu-jiteiro-contador-de-fofoca-vendedor-de-creatina. Acho que o próprio nome da espécie já diz tudo. Se um dia você chegar na academia às 8:00 e no outro for lá às 20:00, vai pensar que ele combinou horários contigo.

Mas não, ele fica lá 12 horas por dia mesmo, conversando sobre futebol, micaretas, carros e piriguetes, entre uma ou outra série de repetições. O mais legal é que ele parece um Gremlins, já que se prolifera de tal forma que você nunca consegue saber se é uma turma de caras iguais e que agem igual ou se é apenas o mesmo sujeito que se subdividiu.

O bombado-micareteiro-jiu-jiteiro-contador-de-fofoca-vendedor-de-creatina quase sempre é namorado da gostosa. A gostosa não é qualquer uma, ela é "a" gostosa. Toda academia tem mulher bonita, corpos sarados, etc, etc, mas a gostosa dispensa explicações, debates e convenções, ela é auto-explicativa, você se matricula, chega lá e sabe de cara: aquela lá é "a gostosa".

Provavelmente um dia ela vai virar outro personagem que também está presente nas academias, que é a ex-gostosa. Ela já foi a gostosa um dia, já foi a namorada do bombado-micareteiro-jiu-jiteiro-contador-de-fofoca-vendedor-de-creatina (que agora vende carros numa agência da Barra) e o fato de ter tido dois filhos ou de fazer intercâmbio nos Estados Unidos ou de ter se apaixonado por um garçom de um rodízio de pizzas a fez ser não mais a gostosa, mas a "ex-gostosa".


Sua luta é para recuperar o trono e poder continuar usando as mesmas roupas de ginástica que usa hoje, mas que ficavam muito melhores nela no tempo em que era "a" gostosa e não a "ex".

Finalmente tem o coroa atlético. Ele já foi sedentário, já fumou 20 maços de Minister por dia, já ingeriu álcool em quantidades que fariam Amy Winehouse e Serge Gainsbourg sentirem inveja, mas hoje ele é o coroa atlético.

Apesar de já ter mais de 60 anos, tem um abdômen mais definido que o seu, aos 30 e poucos. Participa de todas as meias maratonas do circuito, joga vôlei de praia, corre 40 minutos a mais do que você na esteira (o que geralmente quer dizer que corre 45 minutos), é bronzeado, disposto e traz um sorriso no rosto mesmo numa segunda-feira às 6:00 da manhã.

Come salada de alface com kani com a mesma vontade com que você ataca um BK Staker com quatro andares de bacon e, pior,  as mesmas meninas que te ignoram, adoram conversar com ele e corre a lenda que já saiu para tomar vinho com a deliciosa da professora de pilates.

Um tipo bastante comum também é aquele que está sempre voltando. Sabe como é, já fez matrícula 200 vezes, é velho conhecido do cara que faz a avaliação física, frequenta mais a cantina do que a sala de alongamento, tem pressa (afinal o verão está batendo na porta quando ele volta a malhar) e, passado o Carnaval, tem um insight e resolve que essa história de culto ao corpo é coisa de quem tem a mente vazia.

O último tipo é o que vai mas fica observando tudo, não sabe bem o que faz ali mas continua frequentando (afinal é bom cidadão, pagador de impostos e não quer ser confundido com esses meliantes consumidores de gordura trans).

A academia não lhe rende um corpo atlético ou algum tipo de consciência superior estilo "mens sana in corpore sana", mas rende alguns textos curiosos, tipo este que acabei de escrever.

Como você vai contar amanhã tudo aquilo que faz hoje?

Postado em 15 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

No tempo dos seus pais já rolava muita putaria.

Resolvi começar com uma frase de efeito não só para prender sua atenção, mas também para deixar claro que o que vou dizer em seguida não tem nenhum falso moralismo ou nostalgia, só constatação mesmo.

Mas ainda que naquele tempo já rolasse a maior sacanagem, a coisa funcionava de forma mais discreta, quase como uma contravenção. Digamos que a vida sexual das pessoas fosse como a bebida no período da Lei Seca americana: todo mundo se embriagava, mas disfarçava.

Atualmente tudo se parece mais com o tráfico de drogas num desses morros do Rio de Janeiro, ou seja, uma verdadeira exibição ostensiva de armas.

Quando converso com alguém mais velho sobre seus primeiros namoros (e até mesmo sobre como meus pais se conheceram), as histórias invariavelmente terminam num cerco pesado realizado pelos pais das meninas (verdadeiros xerifes da virgindade), em namorinhos de portão, bancos de praça e na emoção que era conseguir "pegar na mão" pela primeira vez.

Hoje tudo mudou. Somos capazes de sentar num bar no meio da tarde e ouvir candidamente uma garota contar em como curte fazer sexo anal "de ladinho". Tudo bem, exterminamos quase toda a hipocrisia nesse aspecto (ou talvez a transferimos para outras áreas da vida, o politicamente correto está aí pra não me deixar mentir).

Sites de encontro, sex tapes, micaretas, bailes funk, casas de swing aparecendo no horário nobre. Mas imagine só como vai ser quando nossos filhos e netos começarem a se interessar sobre nosso passado.


Pense só quando você precisar responder à simples pergunta "papai, como você e a mamãe se conheceram?":

- Ah, filhão, sua mãe era a popozuda mais glamourosa do baile, foi pentada violenta a noite toda!

- Mas vocês pelo menos já se conheciam antes?

- Na verdade não, quer dizer, eu já tinha visto a sua mãe, mas num vídeo de um site de caseiras que o ex-namorado dela colocou.

Imagine a menina na cozinha, num dia frio, ajudando a mãe a fazer bolinhos de chuva e de repente surge a curiosidade:

- Mãe, você resolveu namorar o papai porque? Você diz que nunca gostou de careca...

- Bem, seu pai não era careca quando nos conhecemos, aliás, era só um pouco, mas a verdade é que estava todo mundo doidão de ectasy naquela rave e eu fiquei com seu pai porque ele era muito parecido com o meu namorado na época, que sumiu no meio da festa e acabou pegando a sua tia Márcia.

- Pera aí, o seu namorado era o tio Rubão?

- Era, mas naquele tempo ele se chamava DJ Shark.

Complicado, né?

Tudo bem que até lá provavelmente surgirão novos hábitos que transformarão esses de hoje em coisa de freiras e frades, mas o problema é como a gente vai fazer pra manter o respeito perante esses moleques com histórias como essas pra contar.
 
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