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Marx no capitalismo dos outros é refresco

Postado em 3 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários


Pedrinho estava revoltado, sua raiva era tanta que ele seria capaz até de jogar seu iPhone na parede, caso ainda tivesse um. Aliás, o motivo da revolta era justamente esse: seu progenitor resolveu confiscar o mimo eletrônico, entregando-lhe um cartão para ser usado no orelhão em caso de necessidade.

Bem nascido, frequentador da trinca colégio particular-cursinho de inglês-férias na Disney, Pedrinho ficou embasbacado quando começou a ter aulas de história no Ensino Médio com o Professor Zeca, um porra louca que morou numa comunidade hippie, é socialista, filiado ao PSOL e odeia a burguesia, ainda que não dispense o salário bem acima da média que aquele colégio de burguês paga.

Nas suas aulas Pedrinho aprendeu que o capitalismo é praticamente coisa do demônio, que a burguesia fede, que a elite é insensível e que a classe média tem nojo de povo. Ficou com tanta raiva quando descobriu isso que quase pediu para deixar de ir de carro com motorista pra escola, mas desistiu quando viu como os ônibus vivem lotados e não têm nem um mísero ar-condicionado.

Em compensação colou um adesivo do PCO no pára-choques do Peugeot da mãe, já que o PSOL é muito light pro seu gosto. E tudo ia correndo desse jeito até que o pai dele resolveu dar um basta naquilo.

Acampar na praça tudo bem. Andar com aquelas roupas com aparência de que não eram lavadas desde Woodstock, OK. Mas usar o cartão de crédito para fazer assinatura da Carta Capital foi demais.
  

Só que a dolorosa perda do iPhone não foi nada comparado às privações de fazer inveja à protagonista de novela mexicana que o rapaz estava sofrendo.

O computador (iMac, claro) foi retirado do seu quarto. A TV da sala ganhou uma senha para os canais a cabo, deixando o nosso Che Guevara da Apple Store com acesso somente à Globo, RedeTV!, SBT, Band e Record, sabe como é, essas emissoras do populacho.

Seu armário foi trancado a cadeado e o informaram que teria R$50,00 para gastar em roupas e sapatos. Podia escolher uma loja de mercado popular ou um bazar de igreja, tanto faz. O ar-condicionado do quarto foi substituído por um ventilador de 30cm, que só funcionava durante 6 horas por dia, já que a energia seria racionada.

Junto com o cartão telefônico também ganhou um vale transporte com carga suficiente para metade dos dias do mês. O rapaz poderia escolher ir e voltar da escola de ônibus durante 15 dias ou fazer um dos trechos a pé.

Em casa a empregada foi instruída a só fornecer o que continha numa caderneta de racionamento, que listava uma cota mensal de 12 pãezinhos, meia dúzia de ovos, 200gr de carne moída, 100gr de sardinha, 2 latas de salsicha, um envelope de sopa de pepino em pó e um pacote de biscoito de maizena. Fora das quantidades listadas, nada mais seria fornecido.

Para terminar o pai estabeleceu que qualquer deslocamento que ele tivesse que fazer a mais de 100km de casa deveria ser autorizado previamente. Passeio na casa do avô em Campos do Jordão ou churrascos de final de semana na casa do tio em Búzios entravam nessa restrição. Um formulário com 30 páginas deveria ser preenchido com 30 dias de antecedência e a resposta seria dada em 60 dias úteis. Tal qual cubanos precisam de permissão para deixar o país, frisou o pai.
 
Não aguentando mais aquela vida de cão, ele resolveu juntar todo seu furor revolucionário e exigir sua antiga vida de volta. Expôs toda a humilhação, falta de conforto e indignidade de tudo o que estava passando e obteve como resposta uma declaração simples:

- Ué, você não é comunista? Só estou te dando a vida que você deseja para os outros.

O garoto ouviu aquilo e saiu dali correndo. Foi procurar as camisas do Che, as fotos do Fidel e os Grundrisse do Marx para botar fogo o mais rapidamente possível.

O revolucionário de shopping center e o mendigo da praça

Postado em 1 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Os jovens do mundo estão possessos. Ocuparam praças e exigem: que caia o sistema! E um dos companheiros já estava acampado ao lado daquele chafariz há três semanas. Deu sorte, já que não ficou perto do exaustor da pizzaria. Todo mundo que montou a barraca ali acabou ficando com cheiro de fetuccini.

Ele estava indignado. Muito.

Sabe como é, a fome na África, os magnatas cada vez mais ricos, os impostos sobrecarregando o preço do iPad, o fato de terem colocado maçã como acompanhamento do Mc Lanche Feliz, a fome na África, a fome...bem, muita coisa pra ficar indignado e ainda por cima tinha a Daniela, aquela riponga do terceiro período da faculdade que prometeu que ia dar uma indignada com ele na barraca caso ele a ajudasse no Occupy a Praça.

A única coisa ruim era essa tenda apertada. Pediu dinheiro pro pai para comprar uma com ar-condicionado e frigobar mas quando o burguês progenitor soube o motivo, o mandou ir ocupar a putaquepariu.

Se ainda fosse um resort em Maresias ou Búzios, mas acampar? Numa praça?

Pegou emprestado a cabaninha da Turma da Mônica da irmã mesmo.

Chegou cedo, montou tudo ao lado do tal chafariz (o pessoal da "acampada" brincava dizendo que ali era a Ipanema da praça, a Vieira Souto dos indignados). E repetiram tanto a brincadeira que a turma do Chafariz resolveu parar de andar com a do exaustor, sabe como é, não iam se misturar com aquela ralé fedendo a queijo ralado.

A turma do exaustor por sua vez até pensou em fazer uma ocupação dentro da ocupação e invadir o chafariz, mas deixaram pra lá, afinal Vieira Souto é coisa de burguês.

Nesse dia ele já estava meio de saco cheio da barraca da Turma da Mônica e pensou seriamente em protestar contra aquela situação, recorreria a uma ameaça: enquanto não ganhasse uma barraca nova em formato de iglu não sairia mais do acampamento todo dia para ir em casa tomar banho e comer sucrilhos no café da manhã e nem passaria mais fio dental.

Ia se banhar no chafariz junto com o populacho e tomaria a revolucionária decisão de negligenciar sua higiene bucal. Mas a revolta tinha que ficar para o dia seguinte, já que a riponga deu um toque nele que essa noite ia passar lá na barraca para eles descabelarem o Che Guevara.


Participou o dia inteiro de reuniões importantíssimas onde votaram uma moção de repudio ao Kadafi (que devido à falta de consenso só pode ser aprovada depois que o povo líbio já tinha liquidado o ex-coronel com um balaço) e deixaram bem encaminhada (depois de 11 horas de importantes deliberações) uma declaração de apoio à Trotski contra os stalinistas.

Saiu dali cansado de tanto trabalho, mas ainda conseguiu correr para comprar um vinho e uns pedaços de queijo de Minas (preferia camembert, mas a riponga poderia achar isso coisa de almofadinha).

Estava tudo preparado quando alguém o chamou do lado de fora da barraca. Era um companheiro de acampamento, trazendo pela mão um morador de rua.

- Beleza, companheiro, tudo bem? Será que você pode acolher o companheiro mendigo aqui na sua barraca?

- Pô, cara, essa barraca é minha e já está apertada...

- Mas companheiro, é justamente contra isso que nos indignamos! O sistema é apertado!

E por aí foram, um defendendo seu direito à propriedade da tenda da Turma da Mônica e o outro querendo fazer a reforma social naquele metro e meio quadrado de pano.

Depois uns 20 minutos de deliberação sem a "construção de um consenso",  o cara resolveu se abrir:

- Sabe o que é? Ele ia dormir na minha barraca, mas é que a Daniela, sabe quem é? Uma hippiezinha? Então, ela vai dar uma passada lá hoje e o mendigo vai atrapalhar...

- Pera aí, mas a Daniela disse que ia na minha barraca hoje!

- Nessa pobreza de Turma da Mônica aí?

- Pelo menos é no Chafariz...

- Melhor uma barraca espaçosa perto do exaustor da pizzaria do que um cubículo nessa Vieira Souto de araque, seu burguês!

E começaram a sair na porrada ali mesmo. Enquanto isso, o mendigo foi embora procurar um abrigo da prefeitura.

Lá é menos animado, mas pelo menos ele ganha uma sopa.

A estatização do Canecão foi um show...de incompetência.

Postado em 5 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

No Brasil falar em privatização pega mais mal do que dizer que o Maradona foi melhor do que o Pelé.

Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".

Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.

Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.

Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".

Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.


Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".

Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".

Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.

No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.

Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".

O Canecão assim foi tomado das mãos dos "porcos capitalistas" para ser transformado nisso nisso aí: mais um exemplo do porque o poder público não existe para controlar telefonia, TV a cabo, lanchonetes, aeroportos, carrocinhas de pipoca e nem casas de show.

As ratazanas que hoje moram no que foi o velho Canecão também devem detestar privatizações.

Cale-se! É para o seu bem.

Postado em 13 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

"De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida para o bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob barões ladrões do que sob moralistas onipotentes. A crueldade do barão ladrão pode às vezes adormecer, sua cupidez pode em algum ponto ser saciada; mas aqueles que nos atormentam para nosso próprio bem nos atormentarão sem cessar, pois eles o fazem com a aprovação de sua própria consciência." (C.S.Lewis)

Vivemos em tempos muito estranhos. A idéia de um mundo globalizado e sem fronteiras terminou por produzir uma sociedade com fixação em homogeneidade.

É feio pensar diferente, é feio achar qualquer coisa que o "resto" das pessoas não ache. Isso já seria um problema caso a coação ao antagônico fosse apenas a boa e velha pressão social difusa, só que o buraco é mais embaixo, porque em países com menos tradição democrática como o Brasil, corre-se logo para criminalizar tudo o que destoar do que é considerado "bom".

Nossa sociedade vem sendo bombardeada ultimamente com dois dos assuntos mais caros à tropa do "bem" - essa gente boazinha que procura livrar a sociedade de uma perigosa liberdade que seja muito incômoda - que são a luta pelo desarmamento e contra a tal "homofobia".

Essas duas bandeiras são muito boas para demonstrar como o monopólio do "bem" e da "diversidade" pode ser tão perigoso quanto tanques, fuzis, coturnos e censores, afinal, se eles são "bons" e só querem o "bem", aquele que pensa diferente só pode ser, por associação, o "ruim", que quer o "mal".

Dessa forma, retira-se do outro até mesmo o direito de contra-argumentar.

Ninguém normal acha que todo mundo deva andar armado por aí dando tiros em quem bem entender. Ninguém com a mente equilibrada pensa que um homossexual deva levar uma surra só porque gosta de se relacionar com outro homem. 

Mas muita gente boa (e normal) acha que um cidadão que cumpra certas exigências e seja objeto de fiscalização por parte do governo pode possuir armas, e também que homossexualismo não é algo que esteja de acordo com a sua idéia de "viver bem".

Tudo isso seria muito normal num ambiente democrático, mas o Brasil padronizado pelo esquerdopatismo não funciona assim. Você precisa pensar igual ou pelo menos repetir que pensa igual (ainda que, internamente, não concorde), caso contrário será alvo de perseguição e, quem sabe, até de projetos de lei.

Pergunte a qualquer pessoa que conviva num ambiente universitário o que acontece se alguém defender ali idéias conservadoras, que o pessoal do "bem" chama de reacionárias. Será alvo de deboche, escárnio, indiferença e, finalmente, de ofensas. O sujeito pode até pensar aquilo, desde que não diga nada.

Criamos uma nova espécie de "armário", o ideológico. E ai de quem sair desse armário.

Se alguém acha que gays têm direitos como todo cidadão, mas não acha "bonito" ser gay, é homofóbico.

Se alguém acha que um eventual desarmamento só desarmaria gente que normalmente não comete crimes, deixando armada apenas a bandidagem - que é abastecida com armas que passam pela fronteira negligenciada pela Polícia Federal e pelas Forças Armadas - com certeza é um maníaco a favor do "assassinato de inocentes".


Qualquer um pode discordar da opinião dos outros, pode considerá-la perversa, degradante, errada, equivocada, mas ninguém tem o direito de cercear a liberdade desta pessoa emiti-la apenas em nome de um conforto social, de um higienismo intelectual.

Se alguém diz que não gosta de gays, que não gosta de negros, que é a favor do porte legal de armas ou que apóia uma missão terrestre de invasão à Marte, sua idéia será filtrada naturalmente no campo do que é plausível, aceitável e digno de atenção e, se for o caso, o ostracismo será seu destino.

É uma seleção natural de idéias, onde tudo aquilo que for tosco, será relegado a um gueto minoritário, que nem por isso deixará de ter o direito de existir e dizer o que pensa. Isto é o que se chama liberdade e não o direito de um grupo (majoritário ou não) de só ouvir o que gosta.

Se um sujeito destes agredir um homossexual, injuriar um negro, atirar em alguém ou se amarrar num foguete para tentar chegar à Marte, as leis irão ao seu encontro, levando-o a pagar multas, ser preso ou então a se esborrachar no chão, já que a gravidade também é uma lei.

Em 2005 o Brasil realizou uma votação onde mais de 60% dos votantes achou que não era uma boa idéia proibir o comércio de armas no país. Hoje, menos de 10 anos depois, tenta-se realizar nova votação.

A idéia parece ser perguntar ao povo a mesma coisa até que ele finalmente diga o que eles querem ouvir. Hugo Chávez tem experiência nisso, os petralhas e a turma do "bem" parecem ter aprendido com ele.

O que não entendo é que, já que a população é tão sábia, porque não submeter à ela opções sobre a reforma política, reforma tributária, novo Código Penal, maioridade penal, descriminalização do aborto, entre outros temas?

Porque não criamos um plebiscito revogatório no meio de todos os mandatos, onde os eleitores poderiam decidir se o indivídio encastelado no poder teria direito à outra metade do mandato ou se seria mandado sumariamente para casa?

Simples: porque essa gente só gosta de ouvir o que quer e só aprecia a democracia e a liberdade enquanto podem controlá-las. Por isso a ânsia por leis que criminalizem a opinião está tão na moda no Brasil.

Um sujeitinho que representa bem esta linha de pensamento é o presidente da UBES (Uma associação de estudantes secundaristas), Yann Evanovick, que disse a seguinte pérola:

- "Não dá pra se falar o que quer, algumas opiniões são crimes".

Isto mesmo, segundo esta mente brilhante - e que não está sozinha nesse pântano que é o campo das idéias no Brasil - a opinião deve ser rebaixada ao mesmo nível de um assassinato, de um estupro, de um estelionato, de corrupção (tipo a dos mensaleiros do PT, que a mesma UBES ignora a existência). Já não lhes basta aparelhar o estado, querem agora a nossa mente.

Uma opinião é incômoda? Proíba-se a opinião! Um louco sai por aí atirando nas pessoas? Proíba-se as armas!

Nessa levada, qualquer dia a sua liberdade se restringirá a decidir qual sabor de sorvete você prefere (desde que não tenha gordura trans, é claro) e facas, chaves de fenda, martelos, alcool e fósforos, tesouras e até bicicletas terão sua comercialização proibida, já que a rigor qualquer coisa pode ser usada para ferir e matar outra pessoa.

No final disso tudo, só quem morre mesmo é a liberdade.

Seu direito também termina onde começa a minha liberdade

Postado em 30 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 15 Comentários

O maior problema do sujeito ignorante não é pensar um monte de idiotices, mas acreditar que aquelas iditices são verdades incontestáveis.

E o Brasil é um verdadeiro produtor em série de ignorantes, idiotices e platitudes.

Aqui se confunde notoriedade com notório saber, o que faz com que a população pare para ouvir tudo o que o Caetano Veloso, o Chico Buarque ou a Preta Gil têm a dizer.

Não afirmo que esses três notórios brasileiros só digam bobagens (na verdade dizem bobagens na mesma proporção da maioria), apenas que muita gente vai pedir opinião a eles sobre assuntos sobre os quais eles não fazem a menor idéia do que vão dizer.

Você não vai pedir informações sobre neurocirurgia para o seu padeiro, assim como ninguém em sã consciência vai se importar sobre o que o Ronaldinho Gaúcho pensa sobre o conflito na Chechênia (se é que ele saiba que Chechênia não é o que as mulheres mostram na Playboy).

Da mesma forma, não entendo como alguém pode pedir que a Preta Gil vá procurar o deputado Jair Bolsonaro para perguntar o que ele acha sobre negros, gays ou direitos civis.

Primeiro porque qualquer um com mais de dois neurônios e que acompanhe a política brasileira sabe perfeitamente o que o Jair Bolsonaro pensa sobre gays.

Depois porque não vejo nenhuma qualificação na Preta Gil - se é que ela tem alguma além de ser filha do ex-ministro - para ir a um programa de humor interpelar um deputado sobre um assunto em que sua opinião é notória, e depois se sinta ofendida com a resposta.

Para quem estava imune à polêmica até aqui, ela perguntou o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma negra (ele entendeu que a pergunta era sobre um gay) e escutou o deputado dizer que "não tinha filhos promíscuos".

A filha do Gilberto se ofendeu e declarou no Twitter que iria processrar o deputado "não só por mim, mas por todos os negros e gays do país". Infelizmente esqueceu de dizer que a promoção pessoal que recebeu com isso também seria muito bem vinda.

Ainda que falasse de negros, não vejo crime na declaração do deputado. Você não deve proibir a entrada de negros em lugar algum só pelo fato de serem negros. Nem tratá-los diferenciadamente, negar-lhes direitos e impor-lhes sanções só por causa da cor da sua pele.

Mas nada no mundo obriga alguém a gostar de negros. Se isso é uma degeneração moral, uma deficiência educacional ou mesmo um problema que torna a pessoa abjeta aos olhos dos outros, ainda assim é um direito da pessoa e ela deve poder declarar isso sem que haja um xilique coletivo.

O Brasil virou este estado neurótico e cerceador justamente por proibir liberdades para garantir direitos. É como fazer sexo para preservar a virgindade.


Volto a dizer: ninguém tem permissão para cercear direitos dos negros, mas ninguém deve ser obrigado a gostar de negros e muito menos a manter essa opinião (ridícula, na minha concepção) em segredo.

O problema é que no Brasil todo indivíduo é livre desde que utilize a sua liberdade para abanar a cabeça bovinamente, babando e concordando com a manada. E o mais grave é que este espírito bovino começa a se infiltrar nas leis e instituições do país.

O Conselho de Ética vai se reunir para tentar punir o deputado Bolsonaro, mas a turma do Mensalão está lá, incólume.

Agora a nova batalha é para criminalizar quem não gosta de gays. Ora, gays são cidadãos como qualquer outro e tem seus direitos garantidos na Constituição. Para qualquer violação destes direitos, existem as leis que punem o agresssor, que igualmente valem para todos.

Leis específicas para gays, como querem os "movimentos sociais", criam uma espécie de classe especial de cidadão.

E o que vale para negros, vale para gays, para brancos, japoneses e torcedores do Palmeiras: ninguém é obrigado a gostar deles e nem deve ser impedido de dizer isso. O que não pode - e aí o Estado deve intervir com toda sua força - é que essas pessoas sejam vilipendiadas em seus direitos por conta da antipatia de outro.

E direito constitucional não é a "sua garantia sagrada a não ouvir o que não gosta", como a brasileirada pensa. Direito é a vida, a propriedade, as oportunidades iguais, a liberdade.

Não existe meia liberdade, e se é verdade que ela termina onde começa o direito dos outros, também é verdade que estes direitos terminam onde começa a liberdade alheia.

Para todas as deformações nesta relação, existem os Códigos Civil e Penal. 

Finalizando, ainda que não ache que seja obrigado a esclarecer isso, não tenho nada contra negros ou gays, mas tenho tudo contra essa institucionalização oportunista que transformou a cor da pele e o "cu" em sindicato.

A grande obra de Dilma

Postado em 18 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Mais de dois meses após a posse da presidente Dilma Rousseff, observamos que vários veículos de comunicação (incluindo aqueles que o PT e seus aliados chamam de "mídia golpista") fazem diversos elogios ao seu estilo de administrar e também ao seu comportamento pouco midiático.

A surpresa foi geral.

Pessoas que esperavam uma presidente (por favor, não me peçam para usar o tal "presidenta") iracunda, aparecendo para o país em explosões de ira e autoritarismo assistiram uma pessoa discreta, conciliadora até certo ponto e afável em alguns momentos (suas participações em programas de TV mostraram isso) iniciar seus primeiros passos no governo.

Suas reuniões de trabalho, sua rotina puxada, sua preocupação com prazos e metas, tudo isso foi bastante exaltado, tanto que alguns petistas começaram a dizer, em sua eterna paranóia, que a "mídia" queria jogar a presidente Dilma (criatura) contra o ex-presidente Lula (criador), elogiando um para depreciar o outro.

O fato porém é que se pensarmos com calma, veremos que nem tudo são flores nesse início de governo e no futuro que se prenuncia.

Sarney continua lá, aliado. Assim como Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Fernando Collor, entre outros.

Lentamente, o PT procura reabilitar ex-poderosos do partido e aliados que se envolveram em escândalos como José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palocci, João Paulo Cunha e, pasmem, até Delúbio Soares.


Apesar da presidente dizer que não pretende fazer nenhum tipo de controle da mídia, a "militância" e os blogueiros oficiais continuam clamando por esta pedra da salvação para sua própria irrelevância e contra quem pense diferente do Comissariado.

Nossa política externa se afastou um pouco da fase megalonanica de Celso Amorim, pero no mucho, já que assistimos mais uma vez o Brasil se abster de apoiar sanções a um ditador na ONU, como aconteceu na votação do bloqueio aéreo contra Muammar Khadafi.

O estado continua se imiscuindo mais e mais em vários setores da sociedade, com sua regulamentação excessiva, seu intervencionismo e o uso de seu poderio econômico, inibindo a livre iniciativa e tutelando o cidadão em vários aspectos de sua vida cotidiana.

O melhor exemplo foi a tentativa da Anvisa de banir remédios para emagrecimento, passando por cima de decisões que são estritamente médico-paciente e devolvendo o obeso ao antigo rótulo de glutão-preguiçoso.

Quase todos os fundamentos que eram criticados no governo do ex-presidente Lula, estão presentes no governo Dilma, com raras nuances e a significativa mudança de estilo.

A partir do início de 2011, voltamos a ter na presidência alguém que respeita a liturgia do cargo, alguém que, pelo menos por enquanto, procurou descer do palanque e subir a rampa do Planalto.

Ligamos a TV e não vemos mais o presidente do Brasil falando sobre futebol, fome, guerras no Oriente Médio, casas populares, violência, eleições em Honduras ou sobre o corte de cabelo de Evo Morales, e isto é um alívio.

Concluo então que a melhor obra da presidente Dilma Rousseff até o momento foi simplesmente uma: o silêncio do Lula.

Carnavalescamente Incorreto

Postado em 11 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Houve um tempo em que as pessoas chamavam a maioria das coisas pelo nome delas. Parece uma redundância, não é? Nem tanto, afinal, o politicamente correto veio aí para mudar essa coisa chata de simplificar.

Pensei nisso durante esse último Carnaval, quando o rádio de um ônibus em que eu andava começou a tocar uns velhos sambas do Rio de Janeiro e, entre eles, um da Beija Flor que dizia assim "Vem loirinha, vem sambar, hoje o crioulo só quer Michel Jackiar...".

Imaginei o problema que não seria fazer e cantar uma letra assim atualmente. "Crioulo"? Provavelmente o Ministério Público junto com a Secretaria da Igualdade Racial, a Comissão dos Oprimidos e a Frente Popular para a Maioria das Minorias tentariam censurar a música e prender o autor, ainda que o mesmo também fosse "crioulo".

A imprensa faria um certo estardalhaço, o presidente da OAB daria sua opinião, a coisa viraria Trending Topic no Twitter e depois da reportagem no Fantástico e da enquete no G1, encontraria-se um meio termo e o samba seria adaptado para algo como "Vem, loirinha, vem participar desta dança folclórica e étnica, porque hoje o afro-descendente só quer bailar ao som de artistas estadunidenses".

E no meu exercício de imaginação sobre o onanismo (leia-se punheta) politicamente correto, pensei numa série de letras de marchinhas de carnavalescas que causariam verdadeiro pavor nos nossos Comissários da Verdade e Promotores da Igualdade.

Comecei com uma das mais famosas de todas "Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô mas que calor, ô ô ô ô ô ô", imaginem melindrar a comunidade islâmica associando o nome de Alá a uma festa profana? Não ia poder. Talvez pedissem para trocar Alá por Aladim.

Em "Você pensa que cachaça é água", há um trecho onde o autor fala que pode lhe faltar tudo, até "arroz, feijão e pão" e só não pode faltar a "danada da cachaça" .

Certamente isso seria considerado um estímulo ao alcoolismo e o Ministério Público ainda investigaria possível propaganda subliminar da Caninha 51.

"Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?" e todos respondem em coro "Bicha!", é uma das marchinhas com mais possibilidades de dar zebra se fosse feita hoje em dia. Primeiro, claro, por causa da nova mãe de todas as batalhas dos coitadistas, esquerdóides e politicamente corretos que é a tal "homofobia".


Homofobia é o termo cunhado para taxar qualquer um que se incomode mesmo com os excessos. Você pode ser uma pessoa tolerante, não ter nada contra homossexuais, ter amigos gays, ser a favor da união civil, o escambau, mas se ver um casal de viados se pegando num restaurante e disser algo diferente de um "por favor, poderiam não ejacular na minha maionese, por gentileza?", pronto, será considerado homofóbico.

E essa marchinha seria declarada asquerosamente homofóbica, sendo recomendada a sua censura "pelo bem da democracia". Depois tem o termo "bicha", que seria inaceitável. O povão teria que berrar em uníssono "Será que ele é? Será que ele é? Homoafetivo!".

Outra música que com certeza enfrentaria resistências seria "O teu cabelo não nega". Pra começar porque fala de cor da pele e esse pessoal é meio sensível a estas questões. Eles só não querem que o mundo inteiro seja transparente porque aí todo mundo descobriria que o conteúdo dos seus intestinos é bem semelhante ao que eles têm na cabeça.

E Lamartine Babo dizendo que "O teu cabelo não nega mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega mulata, mulata eu quero o teu amor" seria ao mesmo tempo um exercício de racismo e de objetificação da mulher brasileira.

Objetificação aliás é o que mais essas marchinhas faziam, veja a "Mulata Bossanova" e até mesmo a Colombina, disputada a tapa entre o Pierrot e o Arlequim.

O fato é que atualmente seria complicado fazer marchinhas irônicas, apimentadas, engraçadas e sem amarras no linguajar e na forma de se expressar, porque vivemos num mundo neurótico.

Culpa do politicamente correto, essa gaiola das loucas.

Mas o pensamento que mais me divertiu foi imaginar um bando de deputados vestidos de presidiários com uma letra "M" bordada no peito. "M" de mensaleiro. "M" de metralha". Todos cantando a plenos pulmões:

"Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí".

O militante satisfeito

Postado em 16 de fev. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Assim como no passado muita gente achou que comprando a estrela do PT e votando no Lula estaria automaticamente subindo num expresso rumo a um país sério, atualmente ainda existem pessoas que acreditam na força do gesto simbólico além da força que ele realmente possui.

Muitos dos que compraram aquela estrelinha pensando que ajudavam um partido "ético" a enfrentar os poderosos coronéis da política brasileira, posso me incluir nessa pelo menos num par de eleições, esqueceram que o seu apoio não significava um fim, mas um meio.

Uma vez no poder, o partido da ética estava ombreado com Sarney, Renan Calheiros e outros representantes de tudo aquilo que eles juraram combater. A ética acima de qualquer suspeita foi substituída pela teoria do "roubo pelo bem do país".

A tal militância então se dividiu entre os comprados e os desiludidos, e talvez essa ressaca da pseudo-ética, que já dura uns bons oito anos, tenha anestesiado o brasileiro até o ponto em que chegamos hoje.

É muito bonito colocar uma tarja verde na foto do Messenger em apoio à causa oposicionista no Irã.

É legal saudar a influência das redes sociais e criar abaixo-assinados contra ou a favor tudo, abrir petições online, passar para frente o último texto do Jabor (ou de um de seus clones).


Esse ativismo globalizado e, digamos, seguro da internet, é inegavelmente um mobilizador e facilitador da organização de protestos e da sua divulgação, mas precisamos não esquecer que suas consequências são nulas caso não influenciem o lugar onde tudo importa, que é o "mundo real".

O militante satisfeito coloca uma foto de uma jovem assassinada no Irã ou algum jornalista preso no Egito na sua página do Twitter e pensa que está tudo bem, que ele fez sua parte.

Não quero dizer que a pessoa deva sair por aí formando grupos armados para tomar o poder - ainda que um dia isso possa render frutos, como a Presidência da República - mas que todo esse ativismo precisa desembocar em alguma coisa mais concreta do que os Trending Topics (assuntos mais comentados do dia) no Twitter.

Os tunisianos, os egípcios, os iranianos estão aí fazendo alguma coisa. Alguma coisa real.

Os brasileiros pensam que estão fazendo algo real quando resolvem promover uma hashtag (a melhor definição que consigo pensar para hashtag é: assunto candidato à Trending Topic), quando fazem sátiras aos nossos nobres políticos em blogs, no próprio Twitter, no Facebook, mas na realidade continuam a conviver com alguns dos maiores cretinos que a nossa política já produziu em postos chave da República, com as sucessivas tentativas de desqualificar o mensalão, com a impunidade.

Por isso toda vez que alguém vem me perguntar o que penso da Palestina, o que acho do Iêmen ou se estou preocupado se o Egito seguirá um modelo turco ou um modelo iraniano, eu fico tentado a perguntar:

- E o Tocantins, hein?

- E a pobreza em Duque de Caxias?

- E os custos das obras da Copa e da Olimpíada?

- E as milhões de casas que foram prometidas, mas que ninguém entregou?

- E o Sarney? Esse parente de Nosferatu que parece ser imune ao sol, água benta e a qualquer denúncia?

Mas aí o militante satisfeito torce o nariz, faz uma careta e me responde que eu sou reacionário, que minha mentalidade é pequena e que eu não enxergo além do meu horizonte.

Sabe como é, Trending Topic não mata a fome, mas diverte.

A favelagem carioca

Postado em 3 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Essa cobertura extensa da tomada do "Complexo" do Alemão pela polícia e pelas forças armadas serviu para mostrar um monte de coisas, entre elas o estado de favelização completo em que se encontra o Rio de Janeiro.

Para se ter uma idéia do tamanho do problema, apenas esse conjunto de favelas do Alemão -  que é um dentre muitos - se extende por 15 bairros da cidade, degradando o meio ambiente e emporcalhando a visão.

A cidade sempre sofreu com este problema, desde quando era capital federal e recebia trabalhadores de todo o Brasil até os dias atuais, onde o preço do metro quadrado atinge níveis inimagináveis para um lugar com tantos problemas de infra-estrutura como é o Rio de Janeiro.

Nos espaços onde hoje estão a UERJ (no bairro do Maracanã) e o Parque da Catacumba (na Lagoa Rodrigo de Freitas) antes existiam favelas. Outros locais hoje recuperados da cidade como o Planetário também eram tomados por barracos na década de 60.

A diferença é que os governos daquela época - hoje taxados de higienistas e "anti-pobres" pela indústria faveleira, porque na cabeça deles querer uma cidade mais bonita virou crime - faziam algo efetivo para diminuir o problema e achar soluções reais, que é a remoção e o reassentamento.

Hoje em dia as favelas se tornaram grande fonte de dinheiro, prestígio e votos. São associações de moradores, políticos que fazem currais eleitorais, milícias, empresas que vendem gás e outros serviços, vans e Kombis, gatos de luz, de net, de água, jogos ilegais, agiotagem e, claro, muita especulação imobiliária que se unem para garantir os seus negócios e que o Rio de Janeiro jamais se livre da montanha de barracos que enfeia o seu visual.

Dizem que não se pode tirar aquelas pessoas simplesmente, que é "obrigatório" que as coloquem em locais próximos de onde existe a favela atualmente, como se uma invasão fosse algum direito, como se um imóvel dado ou subsidiado pelo estado já não servisse para satisfazer o direito à moradia.

Uma coisa é morar, que realmente é um direito de todo cidadão, outra coisa é a localização, que é mérito.

Mora em Ipanema quem pode.

Mas como enfrentar essa indústria e esse pensamento padronizado que foi imposto à sociedade demanda riscos políticos, nossos governantes preferem se omitir e não fazer nada a respeito. E quando tentam, logo são lembrados dos prejuízos eleitorais que podem sofrer com isso.

A Lagoa da qual hoje o carioca se orgulha tanto era assim, se fosse hoje,
na era do "direito", imaginem que gracinha seria...

Afirmações e loas cretinas como "favela não é problema, é solução", "Viva a Favela!", e também filmes e outras manifestações artísticas que tentam convencer pela repetição de que aquela degradação da cidade é na verdade um bem "cultural", tudo isso junto com ONGs que vivem muito bem da graninha que arrumam defendendo a favelagem e os sempre presentes "Movimentos Sociais", fazem do Rio de Janeiro um lugar que beira a insolvência urbanística.

Suas ruas apertadas, sua geografia peculiar e o paredão de barracos que sitiam a cidade são a prova disso.

Recentemente o prefeito resolveu remover uma favela chamada "Favela do Metrô", justamente porque fica colada à linha férrea, o que por si só já seria razão mais do que justificável para remover tudo dali. Mas some-se a isso oficinas mecânicas ilegais, desmanches de veículos, carros abandonados e áreas públicas invadidas. O local seria limpo e transformado em parte do novo Complexo Esportivo do Maracanã, que sediará a final da Copa do Mundo.

Pois bem, as tais ONGs, Movimentos Sociais e a indústria faveleira já se uniram e começaram a fazer escândalo contra isso. "Não podem tirar a 'comunidade' dali", "algumas pessoas estão ali há 40 anos!","isso é uma violência!".

Quer dizer então que se eu roubar um carro e conseguir ficar com ele durante 40 anos ele passa a ser meu? Sei que o exemplo é extremo, mas tudo nessa história o é. Não podem tirar a "comunidade" porque? Porque compraram terrenos invadidos da mão dos invasores? Isso é uma "violência" porque? Porque remover pessoas de um local infestado de barracos para colocar em imóveis populares ofende o princípio básico da indústria faveleira que é "depois que invadiu, ninguém mais tira"? Até em áreas de risco comprovado a tarefa da remoção é quase impossível por conta de tanta pressão política.

E a violência contra a cidade que esse monte de favelas representa? A sujeira, a feiúra, a degradação, a informalidade? Isso tudo merece ser premiado?

E tome urbanização, teleférico, maquiagem, porque isso tudo dá voto e perpetua a dinheirama que essas "comunidades" fazem girar diariamente. Solução mesmo que é bom, nada.

E o Rio de Janeiro, que um dia já foi realmente a tal "Cidade Maravilhosa", segue na sua triste sina de violência, caos urbano e descida da ladeira.

Nossas escolhas

Postado em 1 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

"Seu" Paulo é torcedor do Flamengo, "Seu" Olavo é torcedor do Vasco, "Seu" Luiz é torcedor do Botafogo e "Seu" Manoel torce pelo Fluminense. A primeira estranheza é essa, um Olavo torcedor do Vasco enquanto um Manoel é tricolor.

Quando resolvem falar de futebol, cada um é uma enciclopédia mais infalível que o outro:

- Lembra aquela final que o Vasco ganhou com um gol do Cocada?

- Não era Cocada, era Cuscuz.

- Que Cuscuz nada! Era Cocada mesmo...você entende muito é daquele paraguaio, o Juancito!

- Romerito, Juancito foi aquele que jogou no Botafogo junto com o Túlio Maravilha...

- Nunca teve Juancito no Botafogo, no máximo tem um Loco Abreu.

- Nem quero saber, meu negócio mesmo é o Zico e o time de 81.

Entre confusões naturais e gozações futbolísticas, todos eles realmente tinham excelente memória (ou quase), isso porque é quase certo que nenhum deles saiba o nome do sujeito no qual votou para deputado.

Dizem por aí que o brasileiro tem memória curta, mentira. Experimenta dever dinheiro pra alguém e veja se nossa memória é mesmo curta. Nossa memória é seletiva e muito mal programada.

Certas coisas um homem tem a obrigação de lembrar. Seu endereço, seu telefone, sua identidade e o nome do primeiro amor. O resto a gente escolhe.

Uma pesquisa recente mostrou que mais de 20% dos brasileiros não conseguem lembrar o nome do deputado em que votaram na última eleição. Mas note que esta pesquisa foi realizada apenas um mês após a eleição, o que me leva a pensar que daqui a mais um mês esse número possa ser 40% ou quem sabe até 50%.


Em dois anos talvez existam mais brasileiros que saibam cantar de trás para frente do hino do Japão do que os que saibam o nome do "seu" deputado estadual, federal ou senador.

E isso transforma o Congresso numa espécie de massa amorfa de sem-vergonhas. São os "ladrões", os "corruptos", os "canalhas", os políticos. Tirando um ou outro que se empenha mais em aparecer num escândalo de maior proporção, todos ali tem mais ou menos a mesma feição perante o resto do país: são "eles".

"Eles não ligam para a gente", "eles só querem saber de roubar", "pra eles a coisa nunca está ruim", "eles vivem na maior mordomia às nossas custas".

Fala-se de políticos em bares, filas de banco e almoços de domingo como se fossem personagens de uma novela da televisão, uma história de ficção que está desconectada da realidade.

O brasileiro decora mais facilmente um bordão televisivo, uma piada, nomes de personagens de novela ou uma letra de axé - se bem de que decorar letra de axé não é tarefa que exija lá grande quantidade de neurônios - do que guarda o nome da pessoa que irá representá-lo na Brasília-Maravilha durante pelo menos quatro anos.

Tudo bem que não são pessoas exatamente agradáveis de se pensar diariamente, mas até no futebol - essa paixão do país monoesportivo - a gente faz questão de lembrar da derrota de 82, do penalty que o Sócrates perdeu em 86, do passe do Maradona para o Caniggia em 90 que afundou aquela Seleção do Lazaroni, da borboletada do Marcos jogando pelo Palmeiras no Mundial de 99.

Se dizem que todo brasileiro é um técnico de futebol, todo brasileiro também é ou será eleitor por força de lei. Talvez seja essa a diferença: ninguém obriga o outro a assistir um jogo, mas depois de certa idade todo mundo é obrigado a ir lá exercer o que chamam de direito.

Durante muitos anos eu só acompanhei jogos de tênis. Conhecia o Ivan Lendl, Boris Becker, John McEnroe e nunca mais esqueci as pernas da Steffi Graff. Futebol não era a minha nesse tempo e se você me perguntar quem era o goleiro da Seleção naquela época, não saberei responder nem se você me oferecer uma boa grana pra isso. Essa era minha escolha.

Assim como escolho ir votar em cada eleição, sei o nome do "meu" deputado, observo sua atuação e faço questão de não maltratar a urna dali a quatro anos.

E talvez a urna só não seja mais maltratada no dia em que todos os brasileiros puderem optar entre a praia e a urna, o pagode e a urna, a micareta e a urna, o nada e a urna.

E cada um continue lembrando do que bem quiser.

Malditas elites!

Postado em 26 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 23 Comentários

Imagine uma cena: alguém está caminhando na rua voltando da praia, está descalço e anda apressadamente porque o chão está quente, de repente o chão fica mais quente ainda e curiosamente mais mole, a pessoa olha pra baixo e constata que atolou o pé num monte de bosta de cachorro.

Muito bem, na cabeça do Brasil "progressista", "humanista" e "gente boa" essa cena tem duas explicações possíveis. Se a pessoa que atolou o pé na m* for um flanelinha que estava tomando conta de carros - leia-se: extorquindo proprietários de veículos - o monte de merda só pode ser de algum cachorro de madame insensível (prepare-se, essa palavra vai aparecer muito neste texto), que mora num prédio chique e acha que as calçadas são banheiros do seu totó que escandalosamente deve ser mais bem tratado do que muita criança pobre e que não liga para o sofrimento do povão, que é obrigado a andar descalço porque não pode comprar um sapato.

Porém, se quem pisou na bosta for uma patricinha moradora de um prédio de "classe média" e ela reclamar, com certeza o cachorro deve ser algum vira-latas de um "menino de rua", que não tem nada na vida além da companhia do doce cachorrinho, e a cena serve pra mostrar como a mocinha é insensível porque acha que o seu "pé da elite" não pode pisar na merda de um cachorro de alguém do "povo" e, claro,  é bem feito que tenha acontecido isso para ela ter noção da realidade.

Pensei nessa historinha no dia em que disse no Twitter que estava acompanhando a passeata de militantes de José Serra durante a campanha eleitoral, e inocentemente me referi a eles como "gente do bem", me aproveitando do slogan da campanha "Serra é do bem". Pra que!? Bastou que eu dissesse isso que logo veio uma "progressista", "humanista" e "gente boa" me repreender: "gente do bem não, gente de bens".

Digamos que só estivessem presentes ali milionários que chegaram de helicóptero - o que obviamente é apenas um exagero meu, mas que fosse - por acaso essas pessoas teriam menos direito de expor suas opiniões e preferências políticas?


Lembro disso também quando ouço qualquer discussão sobre o estado de caos, desordem e violência em que o Rio de Janeiro encontra-se permanentemente afundado. Entre todos os bordões esquerdóides dignos de um vômito como "favela não é problema, é solução", "isso só incomoda quando afeta a elite" ou então "bandidos mesmo são os de gravata", os que mais me enojam são especialmente dois: "quero ver invadir condomínio de rico" e "é bom pra essa classe média insensível ver a realidade".

Acho isso tudo incrível porque quem diz isso deve morar em outro lugar que não o Rio de Janeiro, onde a "realidade" infesta os morros de barracos, as ruas de flanelinhas, camelôs, pivetes, mendigos, uma cidade que se inunda de "realidade" em cada chuva pesada que cai, em cada transporte coletivo medíocre que oferece aos seus habitantes, em cada quilômetro de engarrafamento infernal, enfim, essas pessoas dizem isso como se a tal "realidade" não batesse diariamente à porta das pessoas, independente delas quererem vê-la ou não.

Quem vive no Brasil convive com pobreza, miséria, feiúra, impotência diante de absurdos variados o tempo todo, mas só quem reclama disso são pessoas de "bens".

Aliás, só quem é rico e não é "insensível" na cabeça dessa gente são os traficantes do morro - cheios de dinheiro por conta da venda do pó - esses são "vítimas" da "insensibilidade" (eu avisei que a palavra apareceria ad nauseam) da "classe média" que os esqueceu.

Incrível também que a "elite insensível" seja aquela que pague os impostos mais altos do mundo, taxas imorais, cobranças em cascata, sem receber nada em troca, e ainda assim seja sacudida de cabeça pra baixo de tempos em tempos para "fazer sua parte" e doar mais, mais, mais em "Crianças Esperanças", "Teletons" e outras campanhas do gênero.

Com tudo isso, esta ainda é a parcela da sociedade a quem é negado até mesmo o direito de se indignar, de se expressar, de exigir algum direito.

Pra ser "bom" no Brasil, pelo menos na visão da turma "progressista", que chama ironicamente os que discordam deles de "elite" e "gente cheirosa", você precisa gostar do fedor, da feiúra, de pisar na merda ou pelo menos aturar tudo isso quieto, não esquecendo de pagar a conta, é claro.

Querer remover favelas é "higienismo", combater a mendicância é "eugenia", não ficar satisfeito com a festa da ilegalidade de camelôs, flanelinhas, vans et caterva é ser "contra pobre", pretender que seus impostos vão para algo além de um imenso buraco negro de ineficiência estatal e assistencialismo barato é ser "insensível".

Uma pessoa que queira uma cidade limpa, bonita e livre de pragas urbanas é ruim. Quem gosta (ou finge que gosta) de viver num lixão a céu aberto que mais parece cenário de um daqueles filmes "Mad Max" é bom.

Tem quem defenda tudo, desde que "traficante também tem família pra sustentar" até maconheiros "do bem", e também faveleiros profissionais, pobristas que lucram com a miséria que dizem combater e, claro, políticos que tem um belíssimo curral eleitoral nessas zonas de desordem e ausência de condições reais de dignidade.

E tome urbanização, teleférico, bolsa isso e bolsa aquilo. Tudo claro financiado pelo bolso dos outros.

Progressista que se preza precisa de pobre pra distribuir cupom, de favela - de preferência bem suja e feia - para poder mostrar como admira a "criatividade" que existe naquilo e que por isso é moralmente superior aos outros, de caos urbano para poder requisitar mais uma verbazinha para criar alguma "comissão" para "ordenar" as "atividades" e de preferência terminar criando algum sindicato, tipo de guardadores de automóveis, de camelôs, de vans e até de vendedores de bala em ônibus.

Essa coisa do governo proporcionar às pessoas maneiras delas melhorarem de vida por conta própria, de cidades limpas e bonitas, calçadas livres, isso tudo é coisa de direita.

Com toda essa onda de leis anti "homofobia", "racismo", "xenofobia" e o escambau, bem que poderiam criar uma lei contra a "classe-médio-fobia".

Sabe como é, essa gente branca (ou quase), hetero, trabalhadora, pagadora de impostos, que não recebe nada de ninguém, que não conta com ninguém além de si próprio e que ainda por cima não tem nenhuma ONG que a defenda.

Uma má idéia nunca vira um bom plano

Postado em 15 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Em 1986, no meio da euforia causada pelo Plano Cruzado, o PMDB elegeu 22 governadores dos 23 possíveis na época, ganhou maioria no Senado, elegeu nada menos do que 260 deputados federais e mais uma enxurrada de deputados estaduais, todos, quase sem exceção, "candidatos do Sarney".

Logo adiante o Plano Cruzado revelou-se um embuste. O congelamento de preços - que espalhou pelas ruas os folclóricos "Fiscais do Sarney" - e a gastança desenfreada do governo levaram o país a um caos financeiro, político e administrativo.

Bombas de retardo ficaram esperando a eleição de 1986 se decidir para estourar logo depois do pleito e já no ano seguinte a inflação era ainda pior do que antes da alquimia econômica do governo Sarney. Foi criado assim o tão conhecido termo "estelionato eleitoral".
Houve revolta, quebra-quebra, e José Sarney - o presidente popular durante o breve sucesso do Cruzado - e que elegeu aquela montanha de políticos a reboque de sua popularidade - chegou ter uma picareta atirada em cima dele durante um tumulto no Rio de Janeiro (versão jamais confirmada). Mas de toda forma foi um evento emblemático sob todos os aspectos, já que o ônibus de Sarney foi apedrejado por militantes do PT, chegando inclusive a ter uma janela quebrada.

Lula não é Sarney e Dilma não é propriamente um "plano", ainda que seja uma idéia ruim, mas a gastança eleitoral de seu governo e as bombas de retardo que já começaram a estourar logo após as eleições - vide o caso Caixa-Banco Panamericano, o ENEM, a tentativa de retorno da CPMF e o deficit das contas públicas - estão aí para deixar pelo menos uma pulga atrás da orelha de cada brasileiro que pensa e presta: será Dilma o seu Plano Cruzado?

Em final de mandato, Lula não terá nem tempo de ganhar o Troféu Picareta que Sarney mereceu. Logo ele, que falava tanto dos "300 picaretas no Congresso" e elegeu uma renca de igual tamanho agora em 2010 graças a políticas voltadas mais para as urnas do que para o futuro, virando o presidente "mais popular da história destepaiz".

Vai acabar deixando a possível honraria de um picaretaço para a sua sucessora, o Plano Cruzado que ele tirou da cabeça e impôs ao Brasil.

A escolha mais fácil da história

Postado em 19 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

Antes do dia 3 de Outubro, os institutos de pesquisa, os analistas isentos e as pitonisas do sufrágio, nos avisavam que era inútil comparecer às urnas. Nosso voto era uma espécie de penetra na festa da democracia deles. Já estava até escrito nas estrelas que a candidata do PT, aquele atentado ao Brasil chamado Dilma Rousseff, seria eleita "presidenta" no primeiro turno e tudo o que poderíamos fazer seria aceitar, digerir e curvarmo-nos perante a vontade soberana do "maior presidente que o Brasil já teve no universo".

O problema é que, como disse uma vez Garrincha, "esqueceram de combinar com os russos". E os russos nesse caso fomos nós, pobres eleitores-contribuintes, que teimamos em comparecer às nossas seções eleitorais e levar o pleito para o segundo turno.

E nada melhor do que um segundo turno - sem os ruídos estáticos de campanhas majoritárias e proporcionais nos estados, além de candidatos nanicos - para explicitar bem a escolha que se apresenta para cada brasileiro e brasileira que prestam.

Digo isso porque existem aqueles brasileiros homiziados em estatais, acochambrados em cargos de diversos escalões ou simplesmente arrolados em folhas de pagamento de centrais sindicais, movimentos sociais, ONGs e demais braços do lulo-petismo para dizer por aí o que convém ao partido, seja na imprensa ou seja na blogosfera. A estes, só um resultado interessa: a vitória de Dilma Rousseff, a candidata imposta Lula, a "mãe" do PAC, o Plano de Ascensão da Companheirada.

E a escolha que se espraia ao Brasil que presta nesse segundo turno nunca foi tão simples.

A candidata inventada por Lula, aquela que não consegue articular mais de duas frases sem assassinar o português, a concordância, a lógica e a inteligência do interlocutor, nada mais é do que um prontuário. Mas não só ela, os que a acompanham também.

Naquele balaio de gatos existem mensaleiros, aloprados, a Família Guerra e o Cardeal que tomou à força o dízimo do banco alemão. Naquele balaio de gatos deposita-se um numerário inimaginável, subtraído das mais diversas formas dos cofres públicos.

Ali também se depositam ONGs obscuras, o MST, a pelegada sindicalista que faz sabe-se lá o que com o dinheiro daquele imposto sindical tão bem defendido (e mantido numa caixa preta) por um personagem da estirpe de Carlos Lupi, além de dois ex-presidentes cujos nomes falam por si: Sarney e Collor.


Chocado, o pobre cidadão perceberia ao lado da Laranja Eleitoral de Lula as falanges que vão para portas de gráficas impedir a circulação de materiais que não lhes agradam, a TV Brasil transformada em bunker de campanha, o presidente fugindo do Palácio do Planalto - e abdicando do mandato para o qual foi eleito - para assumir o papel de chefe de facção, de palanqueiro pago pelo contribuinte.

O brasileiro que presta veria ainda que ao lado de Dilma estão José Dirceu e Erenice, que junto com ela formaram o trio de ferro que fez da Casa Civil capitania hereditária, transformando em maninhos a Anac, a Infraero, o Ministério de Minas e Energia e os Correios.

Finalmente veriam o partido vítima, como o PT sempre se apresentou à sociedade, fabricando dossiês, invadindo sigilos fiscais, atacando as famílias de seus opositores, ameaçando "extirpar" adversários.

Ouviria o alarido da festa da turma do "não sei", do "eu não sabia",  dos que classificam crimes seríssimos cometidos pela companheirada como simples "erros".

Com tudo isso de um lado da balança, o eleitor poderia olhar para o outro e não enxergar nada, que ainda assim ficaria inclinado a votar no vácuo, mas nem isso o PT parece deixar impune, pois é justamente um vácuo que ele apresenta como candidata à presidência da república.

Como disse antes, é a escolha mais fácil da história.

Espelho, espelho meu...nunca antes na história "destepaiz"

Postado em 24 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

A frase acima não funcionou ao gosto de quem a pronunciou nem mesmo no conto de fadas. Um belo dia o espelho disse para a Madrasta que a Branca de Neve era a mais bonita, e deu origem à tragédia.

A imprensa nada mais é do que o espelho de uma nação. Vou melhorar isso: as notícias que a imprensa publica nada mais são do que o reflexo no espelho do que é uma nação. Pronto, melhorou.

Enquanto estas notícias - boas ou más - serviram ao PT - na situação ou na oposição - o espelho dizia o que convinha aos ouvidos de seus partidários, sindicalistas, movimentos sociais, blogueiros, jornalistas a soldo, enfim, a todo o universo que cerca o Partido dos Trabalhadores e assim a imprensa livre era não só desejável, como estimulada.

Mas como diz o ditado popular "hoje sou eu, amanhã é você" e o PT que era pedra virou vidraça. Lula, que sempre confraternizou com jornalistas quando era oposicionista, resolveu só tratar com eles através de discursos após chegar ao poder. Poucas foram suas entrevistas coletivas. Tirando isso, uma ou outra aparição em programas pré-arrumados e só.

O PT amigo dos jornalistas na oposição - que municiava e pegava munição contra adversários - virou o PT do "controle social da mídia" quando chegou ao governo, seja lá que diabos um "controle social da mídia" possa ser.


O "partido da ética" mostrou na prática que era apenas mais um partido como qualquer outro. Decepção para alguns, constatação imperdoável para quem já se considerou o dono desta ética, coisa mais do que normal para o comissariado do partido, que levou ao pé da letra o princípio de que "não dá para fazer política sem botar a mão na m*", como disse o histórico petista Paulo Betti, numa defesa apaixonada do que foi a relação do governo Lula com o Congresso Nacional de Collor, Sarney e Renan Calheiros, entre outros.

Ao fim de quase oito anos de poder, o PT apresentou ao Brasil a apropriação de méritos alheios, o Mensalão, os aloprados, as quebras de sigilo fiscal de adversários, o aparelhamento do estado, o nepotismo, a transformação da Casa Civil em balcão de negócios, mas o único problema que o partido enxerga nisso tudo é a imprensa, que noticiou os seus malfeitos.

Nota-se que o problema do PT não é com as práticas nocivas ao país que alguns de seus políticos adotam, e sim com o fato disso ser descoberto e tornado público. Se fosse jogado para debaixo do tapete ou sufocado dentro do armário, para virar um esqueleto do cadáver que já foi um dia a tal "ética" da qual o partido se apoderara, estaria tudo bem.

A falta de punição interna para Antônio Palocci e José Dirceu - que inclusive fazem parte do alto mandarinato do partido - é a prova de que o PT não tem problema com os desvios que pratica e sim com o fato de ser pego por eles de vez em quando.

E é claro, sobre quem mais poderia cair a responsabilidade senão sobre o pobre espelho, a imprensa? É "golpismo" denunciar corrupção. É "querer ganhar no tapetão" falar sobre o envelope fechado - verdadeiro atentado ao país - que eles apresentam como candidata a presidência. É "coisa de elite" desejar que o dinheiro pago em impostos não vá parar no bolso de pelegos, ONGs, blogueiros e toda sorte de miliciano ideológico que o partido sustenta para manter seu naco de poder. Percebem a inversão de valores?

No final das contas, é culpa da mídia - pobre espelho - se quando eles olham seu reflexo vêem algo feio de doer. Mais fácil quebrar o espelho do que consertar a feiúra.

É preciso extirpar a imbecilidade da política brasileira

Postado em 14 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

O presidente Luis Inácio da Silva, retirando de vez a faixa presidencial e assumindo o papel de líder de gangue, declarou que é preciso "extirpar o Democratas da política brasileira". Nada mais característico vindo de uma pessoa que parece cada dia mais desconectada da realidade.

80% de aprovação não fazem bem a ninguém. A tendência é que a pessoa passe a buscar os 90%, quem sabe até os 99%, tal qual Saddam Hussein. A obsessão passa a ser "esses teimosos que não gostam de mim".

E não falta - ainda - quem não goste das atitudes de Lula. Só que sempre que algum destes se refere a ele como "o analfabeto", exagera na crítica e municia aqueles que ainda hoje vivem de espalhar e perpetuar a imagem do "metalúrgico pobre e perseguido que venceu na vida".

Vamos ser honestos: Lula não é pobre, metalúrgico ou perseguido há bastante tempo. Desde bem antes da sua chegada à presidência ele já era um homem de posses, sustentado por uma máquina partidária, fumando charutos cubanos e passeando pelo Brasil de jatinho. Convenhamos que essa não é a realidade de nenhum metalúrgico.

O problema é que o tempo em que Lula se dedicou a fazer política, ele deixou de dedicar à própria instrução.



Não que isso tenha lhe feito alguma falta, pelo contrário, seu instinto político aguçado e sua inteligência - sim, ele é inteligente, uma inteligência usada para afundar a política do país no charco, mas que é inegável - deixaram nele a impressão de que "já sabe de tudo", quando na verdade o máximo que ele sabe é isso que demonstrou em seu governo: ser esperto - no pior sentido da palavra - para se apropriar de méritos e obras alheias, para negar e se livrar de denúncias e para comandar o PT e o Brasil como se fossem uma assembléia de porta de fábrica.

Os antigos dizem que "quem nunca come melado, quando come se lambuza", e por mais batido que seja esse ditado, ele se aplica muito bem à figura de Lula. Historicamente o PT sempre teve algo em torno de 30% dos votos no país. Outros 30% eram anti PT e os 30 e  poucos por cento que sobravam eram o fiel da balança, trazendo equilíbrio e pacificando a política, obrigando os partidos a se manterem afastados do radicalismo, sob pena de espantá-los.

O problema é que Lula, através de um crescimento econômico que não é só obra sua, dos programas de transferência de renda, de um aparelhamento do estado sem precedentes e do domínio completo dos tais "movimentos sociais" e sindicatos conseguiu encurralar seus opositores, trazer muitos "isentos" para seu curral eleitoral, exibindo hoje estas altas taxas de popularidade.

E esta popularidade vai, pouco a pouco, rompendo as amarras que ainda prendiam seu discurso e suas ações ao estado de direito. Não se enganem: se Lula soubesse que o Congresso lhe daria a possibilidade de disputar um terceiro mandato, sem um processo de final incerto que poderia manchar sua biografia, ele tentaria a manobra e não estaria presenteando o país agora com esta criatura eleitoral, esta ameaça ao Brasil chamada Dilma Rousseff.

E é por isso que ele se dedica com especial atenção a destruir um a um seus adversários nos estados, como Arthur Virgílio, Tasso Jereissati e o DEM de Santa Catarina. O que Lula deseja é um Senado domesticado, como já foi domesticada a Câmara dos Deputados.

Porque o que mantém o presidente num caminho distante do chavismo mais abjeto não é sua consciência democrática, que é inexistente, mas amarras legais, que um Congresso "petizado" transformará em pó, tal qual sua alta popularidade transformou em pó o pouco juízo que tinha.

O que o Brasil precisa não é extirpar nenhum partido da política, é extirpar a corrupção, o aparelhamento do estado, a desmoralização do Congresso e, principalmente, esta imbecilização que domina o atual cenário e que o PT parece fazer questão de perpetuar.

Lula e Chávez: dois lados do mesmo tostão furado

Postado em 31 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Chávez: "Golf é esporte de burguês gordo"


Lula: "Tênis é esporte da burguesia, porra"


Como podem notar, tanto no quesito idiotice quanto na truculência e falta de educação, ambos os tiranetes são iguais. O que difere? É que um vive num país com instituições democráticas mais frágeis como é a Venezuela, e conseguiu "tomar conta" mais rápido.

O outro apenas cuida - diariamente - de enfraquecer estas mesmas instituições no Brasil, talvez já na intenção de aprontar o mesmo por aqui. O "pensamento" - se é que podemos chamar qualquer coisa que sai dessas duas cabeças de pensamento - é bem parecido. O "nós" contra "eles", o estado forte e aparelhado, o controle da mídia, o roubo de fatos históricos para transformá-los em mérito pessoal do "grande líder"
.
Lá, Chávez já roubou até mesmo Simon Bolívar. Aqui, Lula ainda não se disse a reencarnação de Tiradentes, talvez por medo de, quem sabe, ter o mesmo destino, ou talvez porque ache muito pouco. Afinal porque ser apenas um mártir se pode ser um deus?

O que os petralhas não entendem - talvez por falta de inteligência, talvez por mau-caratismo ou talvez porque estejam ocupados demais tentando dizimar qualquer coisa que se oponha a eles - é que os seus opositores não querem que eles se calem ou sejam varridos do mapa, querem é não ter que se calar e não sucumbir diante dessa nova modalidade de ditadura do Século XXI, que é a turba emburrecida, abrindo mão de ser indivíduo para aderir à manada, esmagando qualquer coisa que se coloque à sua frente em nome da "maioria". Não existe democracia plebiscitária.

Isso não é democracia, e está longe de ser liberdade.


Cabe apenas perguntar à Lula se o seu filho, que enriqueceu depois que ele entrou para o governo, é um burguês ou não. Perguntar o que seria afinal essa elite companheira, essa burguesia do capital alheio surgida no mandarinato petista. Esses empreenderores que curiosamente só ficam ricos nas diretorias de algum sindicato, partido ou depois que chegam ao governo.

Porque o conceito de "elite" e "burguesia" dessa gente é bastante deturpado, ainda mais quando se tem notícia de que um dos "grandes" ídolos de todos eles, o assassino chamado Che Guevara, adorava jogar um golfzinho e de que todo grão-petralha que se preze adora um vinho ou whisky importado.

Niterói: uma cidade em decomposição

Postado em 24 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Sou da época em que Niterói era considerada nada mais do que um dormitório do Rio de Janeiro, uma cidade patinho feio, bem ali ao lado da "Cidade Maravilhosa", meio esquecida, desprezada.

Mas o tempo passou e ela mostrou que poderia ser um bom lugar para viver. Foi embelezada, melhorou sua infra-estrutura e finalmente foi coroada como uma das 4 melhores cidades do Brasil, isso já na década de 1990.

Suas praias e sua gente bonita contribuíram para isso, mas infelizmente a cidade chega em 2010 longe de ser o paraíso que foi vendido pela propaganda oficial.

A Niterói de hoje definitivamente não é a mesma cidade aprazível do final século passado. Além do MAC (Museu de Arte Contemporânea), belíssima e exemplar obra de Oscar Niemeyer, tambem foi erguido ali um verdadeiro mar de prédios. Em Icaraí e Santa Rosa (zona nobre da cidade) então a coisa é ainda mais assustadora.

Cada pequena casa antiga ou vila deu lugar a prédios de 50, 100 e até 200 unidades habitacionais, como muito bem mostra o vídeo filmado e editado pelo niteroiense Pedro de Luna, disponível no You Tube. Onde antes viviam duas, três, quatro famílias, agora passaram a viver centenas. Empresas do ramo imobiliário e o poder público, patrocinadores de toda esta verticalização predatória, pouco ligam para as consequências que a população enfrenta.

Ações na justiça já tentaram impedir novas construções, mas a própria prefeitura contestou-as alegando queda na arrecadação caso os espigões parem de subir e, pasmem, um cidadão que nada mais é do que membro da diretoria da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário de Niterói foi nomeado pelo prefeito para a Coordenadoria de Planejamento Urbano, o que entregou as decisões sobre onde pode construir ou quem vai fiscalizar a especulação ao próprio setor imobiliário, maior beneficiário desta prática.

E enquanto a qualidade de vida na cidade é destroçada pelo inchaço populacional, as imobiliárias comemoram.

"Niterói é vitrine imobiliária do país!", comemora o site da Patrimóvel. Só esquece de avisar aos incautos dos problemas que ocorrem por trás da tal "vitrine". E não falo aqui de desabamentos no Morro do Bumba ou do caos em que a cidade se torna em caso de uma chuva mais forte, estou falando de coisas menos emergenciais, porém não menos urgentes, como o direito de ir e vir, transportes coletivos decentes, preservação do meio ambiente.

Numa cidade que não tem nem de longe a excelência na prestação de serviços que outras grandes cidades possuem - ainda lembro da "bronca" que levei do atendente de uma pizzaria em Niterói porque tentava pedir uma pizza pelo telefone às 15:00 e, segundo ele, "aquilo não é hora de comer pizza, pizza é só depois das 17:00" - e no entanto possui engarrafamentos de níveis paulistanos.

Seja sábado, domingo, de dia, de noite, a hora que for, o trânsito em Niterói é caótico, engarrafado, insuportável, agressivo. O calor também aumentou, com a cidade figurando diversas vezes nas temperaturas máximas do Grande Rio. Os serviços pioraram, estacionar é um inferno, o asfaltamento vive com problemas, a poluição das águas é uma ameaça real.

E nada é feito. Os prédios continuam a subir e a prefeitura ainda acredita que colocando canteiros de flores, pintando faixas de pedestres e fazendo marketing conseguirá tapar o sol com a peneira. Ledo engano. Só o que tapa o sol ali é a sombra dos prédios que colocam a cidade a perder para sempre, porque não se enganem: a degradação é permanente, irreversível.

Tudo isso transforma Niterói em pura propaganda enganosa, numa cidade vendida pelos seus governantes como se ainda fosse uma das melhores do Brasil para se viver, mas que no entanto se torna cada vez mais apenas uma foto desbotada daquilo que foi brevemente um dia.

Uma mera foto em decomposição.

A Síndrome da Criatura

Postado em 17 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

É um direito legítimo de um governante buscar sua reeleição. Sempre que a lei assim permitir e respeitados os limites da convivência democrática, a busca da manutenção de um projeto político - se for aliado a um projeto de país então é melhor ainda - não se configura em tendência autoritária e muito menos em salto rumo ao fracasso.

Mas é preciso, antes de tudo, que o tal governante saiba o que fazer com o poder em mãos, é preciso ter um plano. "Permanecer na cadeira" não é um plano. "Não mexer em time que está ganhando" também não é um plano. O passado serve como guia do futuro, mas não se pavimenta um metro de estrada com o asfalto que já foi derramado.

Essa situação passou a ser muito comum no Brasil após o advento da reeleição. O governante passa o primeiro mandato potencializando suas conquistas e dourando a pílula de seus fracassos, tudo na intenção de conseguir os desejados "mais quatro anos". Depois que consegue, vem o desastre. Não existe mais aquele grande prêmio ali adiante, já que uma terceira eleição consecutiva é vedada por lei, então ele simplesmente passa os dias esperando a morte chegar, realizando um governo de qualidade bem inferior ao que realizou anteriormente.

Mas existem os que governam razoavelmente bem em ambos os mandatos e ainda aqueles que precisam sair do cargo para disputas maiores antes do tempo - caso de prefeitos que concorrem ao governo e governadores que concorrem à presidência - deixando ali seu lugar-tenente.

Nesse caso as situações são bem parecidas: eles precisam garantir ao eleitorado que aquele substituto na verdade é uma imagem refletida deles mesmos. Eles precisam garantir a tão conhecida "transferência de votos" e transformar o que muitas vezes não passa de um estafermo em seu herdeiro político. E aí o potencial para desastres aumenta exponencialmente.

Isso acontece porque ainda que seja possível criar uma imagem à semelhança de um criador, o normal é que a criatura seja sempre inferior. Existem exceções, é claro, mas como o próprio nome já diz, não é o devemos esperar.

O que podemos esperar é que a incompetência e a indecisão naturais do títere façam ruir até mesmo a popularidade antes inabalável do titereiro, ou então que a criatura se rebele, corte as cordas e inicie uma luta fratricida no seio daquele grupo político

Não faltam exemplos - tanto da incompetência quanto da traição das criaturas - na política nacional e internacional.

Celso Pitta terminando de destroçar o nome já não menos destroçado de Maluf é um bom exemplo. Rosinha rebaixando Anthony Garotinho dos 15% de votos numa eleição presidencial em 2002 de volta para ser apenas um cacique regional de Campos (RJ) é outro. Cristina Kirchner abalando a popularidade do seu marido Néstor (que chegou a perder uma eleição na província de Buenos Aires para um empresário colombiano naturalizado chamado Francisco de Narváez) é um caso bem significativo. César Maia elegendo Luiz Paulo Conde prefeito do Rio de Janeiro e logo depois o grupo político de ambos rachando ao meio é outro exemplo clássico.

Tudo isso serve para provar que uma das maiores ruínas de um político é sua vaidade. A sensação de poder enfeitiça qualquer um, a saída deste mesmo poder pode ser traumática - dizem que na porta dos "ex" a grama cresce alta devido a falta de visitantes - e a tentação de manter este poder é imensa. Alguns tentam subverter as regras da democracia - como faz Hugo Chávez na Venezuela - outros procuram se manter no poder através dessas criaturas eleitorais,como faz agora Lula no Brasil.

E muitas vezes a falta de preparo, a falta de liderança e até mesmo a fadiga de material que qualquer grupo político sofre em anos de poder transforma essa experiência em desastre.

Isso quer dizer que pretendo fazer terrorismo eleitoral ou então que torço pelo fracasso de um eventual terceiro governo petista? Não, não mesmo. Isso quer dizer apenas que o mesmo passado que empurra alguns políticos a fazer campanha com os olhos no retrovisor, pretendendo "garantir a continuidade", também serve de advertência para o fato de que "continuidade" não é nada sem um plano e sem qualidade.

É preciso estar sempre atento à Síndrome da Criatura.

A "STFHC" ou Síndrome do Transtorno por Fernando Henrique Cardoso

Postado em 2 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Em 2000, os EUA realizaram uma controversa eleição presidencial. A condução do presidente George W. Bush ao seu primeiro mandato talvez tenha sido a eleição mais tumultuada de toda a história daquele país, com recontagens, protestos, e o resultado sendo referendado pela Suprema Corte após intenso debate nacional.

Lembro de ter acompanhado tudo ao vivo pela CNN. Os estados íam sendo colocados um a um na coluna de votos de cada candidato, o então vice-presidente, o democrata Al Gore, e o então governador do Texas, o republicano George W. Bush, sobrando ao final apenas a Florida.

Os eleitores do Partido Democrata até hoje consideram que aquela foi uma "eleição roubada", a despeito de Bush ter vencido todas as recontagens realizadas naquele estado sob todos os métodos possíveis. Fosse por 500 votos ou por 100 mil votos, ele nunca ficou atrás de Gore ali, mas os democratas jamais perdoaram aquilo.

Já em 2008, quando Bush sairia da Casa Branca ao final do seu segundo mandato, a eleição não parecia ser entre o atual presidente Barack Obama e o candidato republicano John McCain, mas entre os democratas e George W. Bush.

Mesmo sem concorrer a mais nada, ele permanecia presente nos debates, nas propagandas, nos ataques. O sentimento geral entre os eleitores de Obama é que eles deveriam "vingar" a derrota de 2000, a "eleição roubada", e fazer justiça. Não foi surpresa quando, já eleito, o presidente Obama e seu partido começassem a falar de uma "herança maldita". Este termo desperta alguma lembrança sobre a política brasileira?

Se não despertar deixe-me refrescar sua memória: foi assim que o atual presidente Lula batizou o legado de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. A despeito de ter mantido a política econômica, de ter mantido a política de privatizações e concessões, de ter mantido e ampliado o programa de Bolsas, transformando-0 em carro-chefe de seu governo, Lula e os petistas até hoje falam de FHC como se ele fosse o "coisa ruim". Porque?

Antes de mais nada, deixe-me dizer que não sou grande fã do governo de Fernando Henrique. Não foi um bom momento econômico porque o mundo não ajudou, e o Brasil ainda não tinha os fundamentos econômicos sólidos que o permitiram resistir àquela crise como resistiu à de 2008. Mas a cada dia me torno mais admirador da postura republicana que ele manteve durante a sua sucessão, bem diferente deste comportamento de caudilho que Lula exibe agora.

Cada vez que FHC diz algo, que aparece na TV ou emite uma opinião em sua coluna dominical nos jornais, os petistas reiniciam o linchamento moral e histórico a que se dedicam desde o primeiro dia em que se aboletaram no poder. Mas porque? Lula não é o mais popular de todos? Não é "O Cara"?

Simples: porque após o impeachment de Collor, o PT considerava que era direito seu eleger o próximo presidente. A eleição de 1994 seria apenas um ritual que conduziria o "líder metalúrgico" ao Planalto. Por isso foram contra o Plano Real, o qual chamavam de "eleitoreiro".

E foi justamente por causa do Plano Real que levaram uma coça nas urnas. E levaram outra coça em 1998, junto com outro populista sem nenhum cacoete para administrador como o ex-governador Leonel Brizola, o "arquiteto das favelas" do Rio de Janeiro. E eles não perdoam FHC por isso.

Tiveram a chance de levar seu "estimado líder" ao poder em 2002, coisa que os americanos não puderam fazer com Al Gore, já que a política daquele país até admite uma segunda candidatura, mas jamais admitiria um perdedor de 4 eleições sem trabalho fixo - a não ser o de candidato presidencial profissional - continuar tentando até conseguir.

Mas não foi o bastante. Porque não foi contra FHC, o cara que "roubou" o direito deles elegerem o presidente em 1994.

E quem sabe como seria caso tivessem conseguido o poder naquela época. Pelo empenho que demonstram em eleger uma inepta como presidente agora, não é de se espantar que caso o PT estivesse no poder já há uns 16 anos hoje seríamos uma república companheira, que escolhe seus sucessores como um Vaticano Sindicalista.

Mas isso não aconteceu. Não aconteceu porque o ex-presidente Itamar Franco não deixou que o país naufragasse após o impeachment de Fernando Collor. Não aconteceu porque o Plano Real tirou o Brasil da ciranda inflacionária e plantou a semente da inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Não aconteceu porque ainda não foi daquela vez que funcionou a política do "quanto pior, melhor", tão cara ao PT quando eles estão na oposição. Não aconteceu porque no meio do caminho da trupe palanqueira tinha uma eleição e porque eles perderam essa eleição.
O culpado? Fernando Henrique Cardoso, e ele precisava e ainda precisa ser punido. Seja com dossiês contra sua esposa, já falecida, seja com o linchamento histórico que sofre por parte dos bate-paus petistas.

Ele precisa-ser-punido.

Afinal, chutou a bunda do "Cara" nas urnas duas vezes e isso é mais do que eles podem suportar.
 
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