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Rio 40 Graus - Se até a música sobre essa temperatura é ruim, imagine o resto

Postado em 21 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Basta um feriado, um dia de calor, um monte de gente na praia e a oportunidade de fazer um passeio pela Orla, que estereótipos, mazelas e pragas urbanas aparecem para mostrar que os brasileiros ergueram algo que pode até ser muito próximo de uma civilização, mas não é.

Sei que a princípio uma afirmação assim pode chocar e parecer exagerada, afinal, não vivemos naqueles países da África onde pessoas moram em casas que mais parecem tocas construídas por guaxinins ou esquilos, onde doenças se propagam no vento e a fome e a indigência são quase políticas governamentais, mas como a própria constatação inicial já deixa claro, não somos africanos, então isso não é desculpa.

O show de horrores começou nas imediações do calçadão, onde flanelinhas se ameaçavam com uma barra de ferro pelo direito de achacar motoristas. Lindo, né? Mas não tão lindo quando a tatuagem com o símbolo da Porshe na bunda de uma garota de programa, que era alisada nervosamente por um gringo em plena luz do dia, talvez constrangendo os transeuntes mais chegados ao pudor, se é que ainda é permitido se constranger com alguma coisa nessa "era da tolerância".

Só quem não parecia nem um pouco constrangida era a fila de mijões que se formava no muro da finada discoteca Help (futuro Museu da Imagem de do Som), que além de depósito de catadores de lata, virou dormitório de mendigos e banheiro a céu aberto.

Mas nenhuma festa é completa sem uma trilha sonora. E a Orla de Copacabana - este retrato fiel da tão comemorada "miscigenação" brasileira - tem música (ruim) para todos os gostos.

De um lado um botequim com pessoas transformando a calçada em churrascaria. Só faltava o fogo de chão, porque mesas, cadeiras e um carro aberto tocando um pagode horrível no último volume estavam ali compondo o ambiente.

Foto tirada de onde eu estava, adivinha se esse carro tocava música boa ou ruim

Mas isso é pra quem é mais "de raiz". Os mais aventureitos poderiam acompanhar a performance de dois grupos fantasiados de índios, com pintura de tribo amazônica, roupas de índio americano enfeitadas com fitinhas estilo aquelas do Bonfim e tocando músicas andinas. Mais miscigenado do que isso, só se tivesse cota para negros ou algum dos "indígenas" fosse gay.

A praia em si é um espetáculo à parte. Os sempre presentes turistas italianos, que interpretam o tempo inteiro o papel de turistas italianos, estavam lá, é claro. Eles e seus galanteios que, se fossem em português, com certeza seriam cantadas de pedreiro.

Mas tudo bem, eu devia estar de cabeça quente por causa do "delicioso" calor de verão, então resolvi dar um mergulho no mar, que até foi agradável depois que consegui desviar da montanha de lixo que se amontoava na parte mais rasa, pequenos monumentos à educação dos banhistas em forma de copos de plástico, latas de cerveja, garrafas e até fraldas.

Pensei comigo mesmo "ah, é esse trecho que está ruim" e resolvi caminhar um pouco mais, pra ver se a coisa ficaria melhor. Andei, andei, andei e para aliviar o calor paguei 3 reais por uma chuveirada num dos quiosques Orla.

Saindo de lá, me corrija se estiver sendo muito exigente, vi uma coisa meio estranha: equatorianos que vendiam souvenirs do...Equador. Em Copacabana.

Perto dali crianças se divertiam a valer na piscininha artificial de uma língua negra formada por águas que vinham sabe-se lá de onde. Entre coqueiros, redes de volei e grupos de pagode que se apresentavam nos quiosques, um cartão postal da cidade era representado ali na areia: a Baía de Guanabara.

Pensei em continuar passeando, mas uma briga de bêbados por motivo desconhecido e uma discussão de namorados motivada por ciúme - com direito à menina dizendo pro namorado que se ele era ciumento "o pobrema era dele" - me sugeriram que talvez fosse a hora de voltar para o apartamento onde estava passando o dia, bem perto da praia.

Passei o resto da tarde telefonando para a Polícia Militar e para a Guarda Municipal, reclamando dos mijões, da churrascaria na calçada, da música alta e até da possibilidade de um enfrentamento com barras de ferro em plena luz do dia, mas, ao que parece, as forças de segurança e "ordem" do Rio de Janeiro estavam ocupadas verificando se todo mundo pagou o IPVA.

Ninguém apareceu, só uma coisa surgiu: a certeza de que qualquer civilização é praticamente inviável acima de 40º de temperatura.

Rotina boa é a dos outros

Postado em 10 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Bom humor e pensamento positivo são duas coisas importantes, porém meio super-valorizadas. Não adianta querer mentir, depois de um tempo o otimismo se resume basicamente em torcer para que não dê nenhuma cagada.

Eu sei que sou meio ranzinza, mas sinceramente, essa é a atitude mais condizente com a rotina que somos fatalmente obrigados a encarar quando chegamos na tal idade adulta.

A rotina é mais ou menos como um desses telejornais noturnos. Para ser honesto mesmo, o William Bonner jamais poderia começar o Jornal Nacional com um "boa noite", ele deveria dizer algo como "olha, eu sei que vou estragar o seu dia com notícias de merda, mas tente abstrair se puder".

Mas nesse ponto eu já estou falando do final do dia, como se não existisse o resto dele antes disso.

Você já acorda com aquele despertador te sacaneando. Sim, porque faz um som estridente ou então toca alguma música do rádio, quando na verdade deveria é ter uma voz cavernosa dizendo "acorda aí, não tem jeito. E não me xingue, porque foi você que me programou".

Depois você enfrenta um engarrafamento dirigindo, dentro do ônibus ou um engarrafamento de pessoas num trem ou metrô. E o ponto alto dessa parjornada será o almoço, onde você troca sua mesa cheia de trabalho acumulado por uma velha meio gorda de uns 70 anos catando ovos de codorna e atrasando a fila do restaurante a quilo.

Costumo dizer: me chame de filho da puta, mas não me chame pra um restaurante de comida a quilo.


Na volta pra casa, outro engarrafamento, programação meia-boca na TV e ir dormir pra começar tudo de novo.

Quem diz que rotina é uma coisa maravilhosa só pode ser amante da Angelina Jolie ou então deve ser o próprio Brad Pitt, porque a rotina deles, sim, deve ser maravilhosa, mas a minha e sua são é bem mais ou menos.

Quando conheci Fernando de Noronha não tirava da cabeça que aquele ilhéu (habitante de lá) que nos servia de guia devia achar um saco a sua rotina, que com certeza todos os turistas ali invejavam.

Não podia deixar de imaginá-lo de manhã, reclamando com a esposa em casa:

- Aqueles golfinhos de merda, as mesmas tartarugas de bosta, sem contar esse sol filho da puta!

Fazer a mesma coisa todo dia é um saco, ainda que existam poucas alternativas para isso caso você não ganhe numa loteria, receba uma herança ou resolva virar hippie.

Um dia você descobre que existe algo de errado na sua vida quando a sua maior ambição é passar o dia sem levar nenhum esporro ou sem ter que dar nenhum esporro em alguém.

Pra piorar tudo, você espera o final de semana ansioso e no final das contas se vê em casa, à toa no sábado de noite, porque preferiu ver o Supercine do que ir naquele barzinho de música ao vivo escutar algum pentelho tocando Raul Seixas.

E no final das contas sabe onde tudo termina? Numa segunda-feira. De novo.

O cliente prefere ter razão quando tem razão

Postado em 12 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Quem nunca ouviu o batido ditado "o cliente tem sempre razão"? Confesso que sou meio contra essa história. Não concebo que alguém que já entre num estabelecimento fazendo grosserias para os funcionários tenha razão só porque está do "lado certo" do balcão.

Como também sou prestador de serviços sei que existem clientes que quase não valem o lucro que dão.

Mas tem gente por aí que se esforça para desagradar seus clientes de uma forma inesquecível. Não adianta ter instalações modernas, treinar os funcionários para tratarem todos por "senhor/senhora" e ignorar o fato de que, às vezes, o cliente também tem razão. Sim, porque certos estabelecimentos parecem funcionar ao contrário do tal ditado.

É sintomático, você vai reclamar de algo, solicitar alguma correção na forma como estão te tratando e ouve aquele famigerado "claro, senhor, eu entendo, mas a política da empresa...". Quer dizer, a "política da empresa" está acima de leis, códigos e o principal: do cliente.

Dois casos que vivi ilustram bem isso.

Uma vez fui ao UCI, complexo de cinemas na Barra da Tijuca, para assistir a um lançamento qualquer. Por um acaso, esse lançamento presenteava quem comprasse o ingresso com um CD. Comprei meu ingresso, recebi o brinde e fui fazer hora dando um passeio.

Perdi (ou sabe-se lá se algum deputado tirou do meu bolso e nem senti) o meu ingresso. Mas ainda tinha o CD em mãos.

Fui para a entrada e comuniquei ao bilheteiro, que chamou o gerente. Minha argumentação era simples: se cada pessoa comprava uma entrada e recebia um CD, e eu possuía o CD, com certeza eu havia comprado o bilhete.

Muito educadamente o barnabé da iniciativa privada (neste caso, uma privada mesmo) me disse que eu poderia muito bem ter comprado o ingresso, dado a outra pessoa e agora estar ali tentando entrar no cinema sem pagar.

Respirei fundo, tentando não mandá-lo para Brasília ou pro Maranhão, e disse a ele que era simples resolver o impasse: bastava ver no computador quantos ingressos foram vendidos e quantas pessoas entraram, se sobrasse um, com certeza era o meu, o idiota na sua frente que ele acusava de trambiqueiro.

Aí veio a pá de cal: entendo, senhor, mas é a política da empresa não deixar entrar sem ingresso.

Uau! O energúmeno não entendeu que não me deixaria entrar "sem ingresso" e sim que me deixaria entrar após eu comprovar que comprei um mas perdi o ticket de papel. Fui embora dali para não atirar o sundae que tinha em mãos no meio do focinho de asno do rapaz e acabar perdendo a razão, e no dia seguinte liguei para a assessoria de comunicação do Grupo UCI. Nada. Solução zero.

Jurei nunca mais voltar ali. Sei que sou apenas um, mas o meu suado dinheirinho eles jamais veriam outra vez. Isso já tem uns nove anos e até aqui, promessa cumprida.

Uma outra vez fui ao Estação, outro cinema mais "cult" aqui do Rio. Mesma coisa, comprei e perdi os ingressos. Não tinha o tal DVD. Fui à bilheteria e nem precisei de gerente, falei a mesma coisa: poderia ver se não sobra um?

Sobrava. Porém a sessão já tinha começado, porque entre procurar o ingresso e resolver isso com eles, levou um tempinho.

Problema? Não. Solução.

A própria funcionária da bilheteria me disse "você(note que o famigerado "senhor" ficou de fora) pode escolher um outro filme ou eu te dou outro ingresso para uma sessão mais tarde". Eu não podia ficar mais tempo ali, porque tinha outro compromisso.

Problema? Novamente não. Solução.

Ela: "tudo bem, eu vou te dar um vale-ingresso que você pode usar em qualquer cinema do Grupo Estação, para qualquer sessão".

Note que não fui chamado de "senhor" nem uma vez, mas ao contrário de quem me chamou de "senhor" umas 30, eles não me trataram como moleque e sim como "senhor" mesmo.

O Estação é muito arrumadinho, mas nem de longe tem o luxo do UCI, mas pergunto: de que servem tantas paredes bonitas, pisos brilhantes, salas com som de 800 canais e filmes em 20 dimensões se o tratamento dispensado ao cliente é pior do que num botequim?

Resultado? Nesses nove anos em que nunca mais pisei no UCI, devo ter assistido uns 200 filmes no Estação, geralmente levando alguém junto. Pode não ser nada, mas pra mim é muito, e pra quem vive de exibir filmes para as pessoas deveria ser também.

Metrô Rio, o trem que engarrafa

Postado em 26 de jan. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

"Atenção: estamos parados aguardando a normalização do tráfego à nossa frente".

Quem anda de metrô diariamente no Rio de Janeiro provavelmente já ouviu essa frase dita por aquela mesma voz feminina que passa a viagem inteira nos dando ordens, "Ceda o lugar", "Não ande com a mochila nas costas", "Respeite o 'Carro das Mulheres'", "Ajude os idosos", "Vá para o meio do carro", "Não segure as portas", etc, etc.

Se você não anda diariamente também ouvirá, porque é praticamente impossível usar o serviço e não ficar preso entre uma estação e outra nesse bizarro e escandaloso "engarrafamento" de trens.

Outro adicional que a concessionária de Daniel Dantas (que cobra uma das passagens proporcionalmente mais caras do mundo) te oferecerá são as paradas bruscas, duas, três e até mais por viagem, dependendo da distância que você percorra.

Mas tudo isso seria fichinha caso o Metrô Rio não tivesse se esmerado nos últimos meses para avançar ainda mais no seu padrão de (não) qualidade. Some-se a estes problemas citados outros como plataformas entupidas de gente devido ao aumento do intervalo entre os trens, a consequente superlotação das composições e, cereja no bolo, o calor infernal que passou a fazer dentro delas porque o ar-condicionado não funciona direito.

Eles dizem que é porque esse sistema de ar foi feito para refrigerar trens que andam sob a terra (duh) e que como a Linha 2 do metrô carioca é toda sobre a superfície, o ar-condicionado não suporta o calor.

Estranho por duas razões muito simples:

  1. Isso não acontecia antes, mesmo na Linha 2.
  2. Esse calor infernal também vem como brinde para quem usa a Linha 1, toda debaixo da terra como um bom metrô pede.

E aí? E aí nada. O que temos é o "diretor de relações institucionais" do Metrô Rio, senhor Joubert Flores, dizendo que não é bem assim e que tudo isso vai melhorar, um dia, mas só a partir de 2011 que é quando começam a chegar os novos trens que eles compraram.

Este senhor é, como bem lembrou o Artur Xexéo em sua coluna semanal, uma espécie de ilusionista que trabalha para a concessionária. A plataforma está entupida de gente e ele é capaz de dar uma entrevista ali mesmo dizendo que tudo está dentro do limite. Algum jornalista pega um termômetro e registra 35º dentro de um vagão e ele declara que "o ar-condicionado está funcionando muito bem". Os atrasos são constantes e irritantes, mas ele diz que "tudo funciona somente com pequenos atrasos".

Talvez seja mesmo uma questão de ponto de vista. Talvez a culpa seja mesmo dos usuários que ao invés de pensarem na temperatura dentro dos trens como "sauna gratuita", na superlotação do sistema como "oportunidade de fazer novas amizades" e nos constantes atrasos como "excelente hora para pensar na vida", ficam aí reclamando de barriga cheia porque tem o privilégio de pagar uma passagem que custa R$2,80 (e todo ano sobe, sem falha, sem atraso, sem precisar esperar 2011) para usufruir de um serviço de bosta.



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É curiosa essa relação do metrô com o carioca, como também lembrou o Xexéo, porque tínhamos orgulho dele. Sobre a terra continuávamos a ser uma cidade caótica, infernizada pela informalidade e pela ilegalidade, favelizada, suja, abandonada pelos governos que sucediam-se no seu método de abandono, mas debaixo da terra tudo corria bem.

O metrô era limpo, rápido, confortável, pontual, enfim, era tudo o que não se espera do Rio de Janeiro.

Hoje, esse estranho sistema de concessões no qual o Governo do Estado constrói estações e extensões e entrega para uma empresa privada (mal) administrar nos presenteia com tudo que já vemos em cima: caos, desrespeito, desconforto, atrasos, preços altos.

Até uma estranha modernização dos trens que já existem me parece fora da realidade, já que está substituindo os assentos de fibra de vidro atuais por uns estofados, totalmente inadequados para um serviço de transportes que nos finais de semana fica cheio de banhistas, voltando da praia encharcados de água do mar. Sem contar um visual horroroso digno de pastelaria de chinês que algumas estações ganharam após uma reforma visual inútil.

E nessa crônica diária de degradação da assim chamada "Cidade Maravilhosa", o metrô é apenas mais uma dentre tantas coisas que os cariocas terão para sentir saudades de um passado cada vez mais distante.

Qual ladrão você prefere?

Postado em 18 de nov. de 2009 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, resolvi que sairia de casa no meio da madrugada rumo a uma festa na boate Pista 3 (do Grupo Matriz), em Botafogo, aqui no Rio.

Noves fora o total desrespeito à lei anti-fumo e ao direito que todos tem de não respirar substâncias potenciamente mortais, apenas pelo prazer de alguns aspirarem e expirarem fumaça, e alguns pentelhos bebados jogando cerveja para o alto, o que me incomodou mesmo naquela noite foi outra coisa.

Como eu moro no Catete e resolvi tirar o carro da garagem para não virar refém do péssimo sistema de transportes do Rio de Janeiro (isso na Zona Sul, imagina no resto da cidade), pude observar uma discrepância curiosa no caminho de mais o menos 15 minutos que percorri entre um bairro e outro: a proporção inversa da quantidade de policiais e viaturas na rua à quantidade de radares e pardais, sempre alertas, para meter a mão no bolso do sujeito que passe dos 50km/hr ou que avance algum sinal de trânsito (semáforo para os paulistas).

Ainda que o Rio seja uma cidade dominada pela violência, com bandidos cada vez mais cruéis e bestiais, o mesmo poder público que é incapaz de garantir um transporte de massa decente e uma segurança mínima ao cidadão, é o que o pune caso ele, por exemplo, cruze um sinal vermelho para não ser ameaçado com uma arma.

Foram 15 minutos de trajeto, uns 3 ou 4 pardais em sinais, mais uma meia dúzia de radares controlando o limite de velocidade e uma, isso mesmo, uma viatura da Polícia Militar, fazendo um lanche em um desses postos de gasolina 24 horas.

Digo isso porque não esbarrei com nenhuma barreira da "Operação Lei Seca", que aproveita o ensejo de combater quem bebe e dirige e fiscaliza também o pagamento do IPVA, as lanternas, faróis e mais qualquer outra coisa que possa gerar multa, reboque e bastante transtorno para o pobre coitado que seja parado ali.

Sem contar as ruas esburacadas, mal iluminadas, dignas de uma pocilga de cidade.

Polícia para proteger? Nem pensar. "Choque de Ordem" que retire das ruas os flanelinhas que infernizam o cidadão? De jeito nenhum! Uma sincronização de sinais de trânsito para que os engarrafamentos não sejam ainda mais insuportáveis? Pra que?!

O poder público é eficiente mesmo quando se trata de multar, rebocar, punir, infernizar. Tudo, claro, para a "nossa proteção", segundo eles mesmos dizem.

Operação Lei Seca e Choque de Ordem tem o tempo todo. Operação "Asfalto Liso" e "Estacione em Paz" isso ainda estou pra ver.

Só resta uma dúvida: será que se a pessoa cruzar o sinal e ainda assim seu carro levar um tiro, ela ganha desconto na multa ou no IPVA, pelo menos? Duvido muito.

Neste paisinho de muitos deveres e punições e quase nenhum direito, o que sobra no final é a escolha entre ser roubado pelo ladrão no meio da rua ou pelos ladrões nos palácios.

Vans, mosquitos, flanelinhas

Postado em 11 de set. de 2009 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Certamente quem mora no Rio de Janeiro acompanhou esta semana a polêmica da retirada de grande parte da frota de vans de circulação.

O governador resolveu fazer um edital e os vencedores receberam autorização para continuar circulando, com itinerários e pontos de parada determinados e os demais, que não participaram ou não atingiram as exigências, passaram à ilegalidade.

O que houve foi muita gritaria, manifestações, oportunistas dizendo que isso é pra "favorecer a Zona Sul" (como se promover a ordem não favorecesse a todos), e um trânsito um pouco menos caótico ao final do primeiro dia de implantação do novo sistema.

Não conheço mudança de paradigma que ocorra sem tensão e o paradigma do Rio de Janeiro é esse: a desordem urbana.

A um dia chamada Cidade Maravilhosa é infernizada por kombis, vans, camelôs, flanelinhas, moleques de rua, favelização. Tudo isso passou a fazer parte do cotidiano de quem mora no Rio, tanto que são pragas vistas como fato consumado, aquele popular "ah, mas é assim mesmo...".

É assim mesmo, mas não precisa continuar sendo.

Retirar as vans que promoviam caos é um bom começo, mas ainda é muito pouco. O Centro do Rio é imundo. Fezes de mendigos, trombadinhas, camelôs, estacionamento irregular, feiura por onde se olhe. Tudo isso precisa ser posto dentro dos limites da civilidade.

E pros que falam que na Zona Sul tudo é azul, aconselho-os a tentar estacionar seu carro em qualquer rua dos bairros desta região.

Se não for abordado por um marginal exigindo pagamento adiantado por um pedaço de terreno público, terá seu toca-fitas roubado por algum cheirador de cola sem-vergonha.

Pra quem desejar ir mais longe, pode ir até a Barra da Tijuca, templo dos new-rich-emergentes-detergentes. Você ali provavelmente não será importunado por flanelinhas, já que nem calçadas o bairro tem direito: na Barra tudo foi inventado pra ser feito de carro.

Provavelmente exista até sapataria drive-thru no bairro, mas não é sobre isso que quero falar.

O que quero dizer é: não pense que lá tudo é igual os EUA só por causa daquela Estátua da Liberdade fake e das loiras siliconadas. Não. Além de suburbanos que encheram o pote de dinheiro com suas lojas de material de construção, imobiliárias e empresas de quentinhas, a Barra e o Recreio também são infestados por mosquitos.

O atual inferno é vivido pelo pessoal do Recreio, mas a Barra também é privilegiada, com suas lagoas e rios podres.

Li nos jornais que além dos pagodes, axés e funks que os jogadores de futebol que vivem ali ouvem em casa, a outra "música" que ecoa ao final de tarde é o som dos estalos das raquetes elétricas matando mosquitos.

Não é um som pior do que a música de nossos "boleiros", mas com certeza o animalzinho que elas matam é.

E o que o poder público fala? Praticamente que a culpa disso tudo é do mosquito e que o mosquito não é sua jurisdição a menos que esteja provocando uma epidemia.

Ao que parece, a partir da milésima morte por dengue ou febre amarela é que o mosquito entra na alçada do governo.

Mas porque falei disto tudo? Simples: para mostrar que nossa Cidade Maravilhosa precisa de muito mais do que músicas e loas para merecer este título, ela precisa de ação.

É necessário que esta vontade política toda que limpou as ruas de vans e providencialmente ajudou os donos de empresas de ônibus, também limpe os flanelinhas, camelôs, moleques de rua e, porque não, os mosquitos.

Ou então que o governo distribua logo raquetes elétricas para todos e que permita utiliza-las para, pelo menos, abatermos os flanelinhas também.

"Desculpe Senhor, é a política da empresa"

Postado em 31 de ago. de 2009 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Quantas vezes você já ouviu a frase acima? Quantas vezes esta mesma frase, geralmente dita para justificar algum tipo de péssimo atendimento, foi pronunciada por algum atendente de call center-robô, contratado para jornadas de trabalho e salários chineses, por empresas que levam o seu dinheiro e deveriam servi-lo da melhor forma possível?

Comigo já aconteceu dezenas de vezes, todas elas terminando em pré-explosões de fúria minhas, geralmente contidas por uma providencial "queda" da ligação.

Mas nem sempre os robotizados atendentes "estarão promovendo um ataque de nervos no cliente". Existem as péssimas experiências presenciais também.

Falo sobre isto porque ontem meu celular parou de telefonar para números da sua própria operadora. Acreditem, o meu TIM conseguia ligar para um Claro, um Vivo e até mesmo um Oi, mas não conseguia ligar para outro número da própria operadora (nota:promoções e descontos na TIM não contemplam "clientes-empresa", ou seja, você paga mais para ficar na senzala da prestação de serviços deles).

Fosse o contrário iria suspeitar de complô, mas só se fosse o Chapolin a arquitetar um plano destes, então resolvi ligar para o serviço de auxílio ao cliente da empresa.

Trezentos e oitenta e nove opções digitadas, musiquinhas e aquela simpática voz robotizada da atendente eletrônica depois (se a bateria estiver terminando eles se livram do problema já aí nessa demora), eis que sou atendido por uma senhorita sem voz robótica, pena que só a voz.

Pede meu nome, o número do qual estou falando com o DDD(aí me pergunto, porque me fazem digitá-lo no início se sempre me pedem depois?), CPF, Identidade e finalmente consigo relatar o problema. Só queria saber o seguinte: se era um problema da rede da TIM ou se era algo com meu telefone.

Não iria nem pedir reparo, queria saber o que estava acontecendo.

Solução? Nem pensar! Estamos falando de atendimento telefônico no Patropi.

Como minha linha é corporativa, a gerúndica senhorita me pediu para falar com o "administrador do contrato".

Eu disse a ela que estava na rua, num domingo à noite e com certeza não estava na companhia de nenhum dos meus "colegas de trabalho", mas que sou um dos sócios da empresa que contratou o serviço e que ela pode conferir estes dados no calhamaço de documentos que tive que enviar para eles na aquisição das linhas.

Que nada! "Senhor, só posso informar o que acontece se falar com um administrador do seu contrato".

"Mas eu sou um dos otários que pagam pelo contrato!"

"Mas é política da empresa, Senhor..."

"Quer dizer que se eu estiver na selva amazônica e precisar de ajuda, terei que levar um helicóptero com o 'administrador do contrato' até lá porque vocês não se dispoem a atender quem paga o contrato?"

"É política da empresa Sen..."

Desliguei na cara. Por um momento pensei que ela fosse me chamar até de "senador", aí seria demais!

O serviço voltou a funcionar sozinho e ficou na história mais uma ótima experiência com os robotizados atendentes de gerúndio, quer dizer, de call center.

Outro dia falei sobre os péssimos serviços que são prestados no Rio de Janeiro, mas tenho que confessar que fui duro demais com a cidade em que vivo. Em se tratando de pós-venda e auxílio ao cliente, a regra para o Brasil inteiro é mais ou menos esta: trate o cidadão como se fosse um pedinte.

Exemplos são vários. A Kalunga (misto de papelaria, loja de informática e túmulo da relação cliente-empresa) não troca nada que você compre na loja por "arrependimento".

Funciona assim: você vai lá e compra um lápis marrom. Seu filho na verdade necessitava de um lápis preto(posso chamar o lápis assim ou tenho que usar 'afro-descendente'?) e a luz de neon da loja o fez enganar-se com a cor. Azar o seu.

Se for lá tentar trocar eles dirão: "só podemos trocar seu lápis marrom por outro lápis...marrom! É a política da empresa, Senhor".

E não adianta nem ir pra justiça, pois o Código de "Defesa" do Consumidor garante a loja esta prerrogativa. Troca por arrependimento em loja física é "gentileza" e não obrigação.

Lição que fica: a Kalunga não tem a menor intenção de ser gentil com seu cliente. Faça como eu: leve seu dinheiro embora de lá. Sei que sou um só, não sou rico, não sou grande comprador e provavelmente farei tanta falta pra eles quanto o Belchior fez para o grande público brasileiro nos últimos dois anos, mas é só o que posso fazer e se muita gente fizer isso, ou eles mudam ou quebram.

Geralmente essa frase maldita "é a política da empresa", esconde todo tipo de prática lesiva a você. Cortam sua luz em 10 minutos, religam em 48 horas. Dizem que vão trocar o produto em caso de defeito, mas levam 797 dias para faze-lo.

Fazem uma promoção que dá uma batata-frita na compra de um cheeseburger e um milk shake, mas se você pede os ítens separadamente e não diz "quero um trio-beócio", eles entendem que você não quer a promoção e por "política da empresa" te negam a batata-frita grátis.

Aquela máxima "o cliente tem sempre razão", inexiste por completo.

Tanto que até me espantei um dia.

Comprei ingressos no cinema Estação e em cima da hora, por motivo que não me recordo, tive que cancelar a minha sessão de filmes e ir para outro lugar. A bilheteria se prontificou em devolver meu dinheiro ou, se eu preferisse, me fornecer um ingresso com data em aberto para ser utilizado em qualquer cinema do grupo.

Me espantei sim, porque Cinemark e UCI por exemplo tratam o consumidor como pedinte. Já tive péssimas experiências em ambos, e no UCI foi tão ruim que nunca mais voltei lá, desde o ano 2000.

São vários exemplos que demonstram o que é prática corrente no Brasil: aqui o consumidor é bajulado enquanto o cobiçado dinheirinho está no seu bolso, a partir do momento em que o numerário é transferido para o vendedor/prestador de serviços, você se torna um mendigo de você mesmo.

A partir deste mágico momento, você deixa de ser o "claro que sim, Amigão!" e passa a ser o "lamento, Senhor".

Te chamam de "Senhor" para te tratarem como um moleque.

Qualquer coisa que o cliente necessite, desde uma simples informação, passando por trocas, reparos, tudo, é acompanhado de solicitações de documentos, provas, notas fiscais, informações inúteis e todo tipo de burocracia que dificulte sua vida, sem contar a lentidão das soluções.

As agências reguladoras, como Anatel, até que ajudam, mas a quantidade de aborrecimento que você tem para conseguir que qualquer serviço seja prestado decentemente torna o país bastante hostil para os consumidores.

Podemos fazer muito pouco. A justiça no Brasil é lenta demais, o que para mim não deixa de ser injustiça, e o governo se não for para multar e tributar, liga pouco para o cidadão.

Mas o que ainda podemos fazer, solitariamente, é levar nosso dinheiro para outro lugar.

Uma andorinha só não faz verão, eu sei, mas se todo mundo fizer isto, pode fazer um belo e seco inverno para cima deles.
 
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