Sei que a princípio uma afirmação assim pode chocar e parecer exagerada, afinal, não vivemos naqueles países da África onde pessoas moram em casas que mais parecem tocas construídas por guaxinins ou esquilos, onde doenças se propagam no vento e a fome e a indigência são quase políticas governamentais, mas como a própria constatação inicial já deixa claro, não somos africanos, então isso não é desculpa.
O show de horrores começou nas imediações do calçadão, onde flanelinhas se ameaçavam com uma barra de ferro pelo direito de achacar motoristas. Lindo, né? Mas não tão lindo quando a tatuagem com o símbolo da Porshe na bunda de uma garota de programa, que era alisada nervosamente por um gringo em plena luz do dia, talvez constrangendo os transeuntes mais chegados ao pudor, se é que ainda é permitido se constranger com alguma coisa nessa "era da tolerância".
Só quem não parecia nem um pouco constrangida era a fila de mijões que se formava no muro da finada discoteca Help (futuro Museu da Imagem de do Som), que além de depósito de catadores de lata, virou dormitório de mendigos e banheiro a céu aberto.
Mas nenhuma festa é completa sem uma trilha sonora. E a Orla de Copacabana - este retrato fiel da tão comemorada "miscigenação" brasileira - tem música (ruim) para todos os gostos.
De um lado um botequim com pessoas transformando a calçada em churrascaria. Só faltava o fogo de chão, porque mesas, cadeiras e um carro aberto tocando um pagode horrível no último volume estavam ali compondo o ambiente.
A praia em si é um espetáculo à parte. Os sempre presentes turistas italianos, que interpretam o tempo inteiro o papel de turistas italianos, estavam lá, é claro. Eles e seus galanteios que, se fossem em português, com certeza seriam cantadas de pedreiro.
Mas tudo bem, eu devia estar de cabeça quente por causa do "delicioso" calor de verão, então resolvi dar um mergulho no mar, que até foi agradável depois que consegui desviar da montanha de lixo que se amontoava na parte mais rasa, pequenos monumentos à educação dos banhistas em forma de copos de plástico, latas de cerveja, garrafas e até fraldas.
Pensei comigo mesmo "ah, é esse trecho que está ruim" e resolvi caminhar um pouco mais, pra ver se a coisa ficaria melhor. Andei, andei, andei e para aliviar o calor paguei 3 reais por uma chuveirada num dos quiosques Orla.
Saindo de lá, me corrija se estiver sendo muito exigente, vi uma coisa meio estranha: equatorianos que vendiam souvenirs do...Equador. Em Copacabana.
Perto dali crianças se divertiam a valer na piscininha artificial de uma língua negra formada por águas que vinham sabe-se lá de onde. Entre coqueiros, redes de volei e grupos de pagode que se apresentavam nos quiosques, um cartão postal da cidade era representado ali na areia: a Baía de Guanabara.
Pensei em continuar passeando, mas uma briga de bêbados por motivo desconhecido e uma discussão de namorados motivada por ciúme - com direito à menina dizendo pro namorado que se ele era ciumento "o pobrema era dele" - me sugeriram que talvez fosse a hora de voltar para o apartamento onde estava passando o dia, bem perto da praia.
Passei o resto da tarde telefonando para a Polícia Militar e para a Guarda Municipal, reclamando dos mijões, da churrascaria na calçada, da música alta e até da possibilidade de um enfrentamento com barras de ferro em plena luz do dia, mas, ao que parece, as forças de segurança e "ordem" do Rio de Janeiro estavam ocupadas verificando se todo mundo pagou o IPVA.
Ninguém apareceu, só uma coisa surgiu: a certeza de que qualquer civilização é praticamente inviável acima de 40º de temperatura.



