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Céu, inferno e reencarnação

Postado em 17 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Se tem uma coisa que todo mundo morre de medo, quer dizer, todo mundo menos esses neo-ateus que passam o dia fazendo pregação ao contrário na internet, é de morrer e ir parar no inferno.

Sabe aquela coisa meio desagradável que é cheiro de enxofre, óleo fervente, espadas espetando seu corpo, navalhas, calor, um fogaréu danado e ainda por cima um sujeito chifrudo berrando coisas com voz fantasmagórica? Pois é, não é algo que ninguém vá querer para si.

Mas se você pensar um pouco, pode concluir que o inferno pode ser a Central do Brasil, por exemplo. Aquele cheiro de jaula emanando de banheiros públicos e bueiros entupidos, empurra-empurra, calor, larápios com navalhas cortando sua mochila para roubar aquele seu Subway Melt que você comprou para viagem esperando comer em casa enquanto assiste CSI Special Victims Unit, aquele monte de sujeitos berrando com voz fantasmagórica coisas como "3 por 1 real" ou "Chip da Oi, Claro, Vivo e Tim". Só faltam mesmo os chifres.

E assim chego no meu ponto: e se realmente existir reencarnação e o país onde você nasce é determinado pelo seu carma? Tudo bem, entendo que você tenha até começado a sentir um aroma de incenso ao ler essa última frase, deve estar pensando que um careca de túnica laranja está escrevendo esse texto, mas é sério, e se, por exemplo, meninas boazinhas nasçam suecas na próxima encarnação, só para aprontarem horrores e voltarem iranianas na encarnação subsequente?

Pensei nisso vendo uma reportagem sobre presídios na Noruega. Um cara, digamos, cumprindo o final de uma sentença por assassinato naquele país vai apra uma ilha-prisão chamada Bastøy. Esqueça o nome que lembra Bastilha e esqueça que ilha lembra Alcatraz.

Este cara é um presidiário norueguês sendo punido pelo sistema, é sério.

Os presos neste lugar vivem em bangalôs que eles mesmos decoram. Trabalham durante um período nas atividades relacionadas à manutenção da ilha (como conduzir ferry boats, por exemplo) e no seu período livre podem tomar sol no terraço de suas casas, assistir TV a cabo, nadar em piscinas, usar câmaras de bronzeamento artificial e está em estudo o acesso à atrizes pornô suecas.

Mentira, claro, mas só a parte das suecas. O resto todo é verdade.

Pois bem, não é difícil concluir que um homicida norueguês encarcerado tenha uma vida muito melhor do que um trabalhador da construção civil em São Paulo.

E nisso se baseia a minha teoria: e se não existir céu ou inferno? E se, como diz muita gente, o céu e o inferno forem aqui mesmo e estejam numa vila na Suécia, num bairro de classe média dinamarquês, numa favela da África ou num campo de refugiados no Sudão?

Claro que tudo isso pode ser uma grande viagem da minha cabeça, afinal, onde já se viu alguém ser tão ruim numa encarnação a ponto de merecer reencarnar como aquele sujeito que segura corda de trio elétrico ou um vassourinha de time de curling na outra?

Também não acredito que alguém consiga ser bom o suficiente para reencarnar como o sabonete da Kirsten Dunst, a menos que se mate para doar todos os órgãos para pesquisa científica.

Só sei que maluquice ou não, convém se comportar. Ajudar velhinhas a atravessar a rua, segurar a porta do elevador para aquele seu vizinho chato, assinar o livro de ouro da portaria no Natal e, claro, evitar ser visto por aí na companhia de políticos.

Porque vai que minha está certa e você perca a oportunidade de morar numa ilha presídio norueguesa na próxima vida?

Vai por mim: o Godzilla é mais interessante do que o seu celular

Postado em 12 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Um cinema nos Estados Unidos ficou famoso por atirar na rua os clientes que liguem o celular - ainda que para passar uma simples mensagem de texto - durante a exibição do filme.

Note que eu usei o termo "atirar na rua", mas não sei se eles fazem isso literalmente, apenas expressei um desejo íntimo de que exista em algum lugar do mundo algum cinema que realmente faça isso e atire no meio da rua um cretino que ligue o celular.

Porque vamos pensar, o cinema não faz parte das obrigações civis ou religiosas de alguém. Você é obrigado a servir o exército quando completa 18 anos, se for muçulmano deve fazer uma peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida, se for judeu deve respeitar o descanso do sábado, mas nenhuma lei ou religião te obriga a ir ao cinema.

O que existe na sua telinha que seja mais interessante do que o que se passa na telona? Godzilla invadindo Nova York, Espaçonaves alienígenas destruindo o planeta, Mila Kunis fazendo sexo oral na Natalie Portman e você preocupado com as últimas ofertas do Submarino que chegaram por email?

Supõe-se que você esteja ali porque quer (vamos fazer de conta que sua esposa não te arrastou para ver "Sete Casais Discutindo Relação" ou seu namorado te obrigou a ver "Transformers 14 - Agora eles são carrinhos de mão"). Sendo assim, nada justifica que você resolva utilizar o celular durante um filme.


Se a sua casa estiver pegando fogo, garanto que você não vai sair e pedir pro bombeiro ligar pro seu celular contando as novidades. E tenho certeza que assistir a "Maratona Mr. Bean" não é uma atitude muito sensata se a sua esposa estiver no hospital para ter um filho.

Durante o filme nada vai acontecer na internet que mude o mundo para sempre (a menos que ele acabe de repente, o que você vai descobrir assim que sair do cinema) e hepatite demora mais de 2 horas para matar alguém, logo não precisa responder a mensagem de texto do seu amigo imediatamente.

Logo o melhor a fazer é desligar o celular.

Ainda mais porque as pessoas que foram ali para ver a última interpretação da Meryl Streep não vão ficar muito satisfeitas em te ouvir combinando uma saída com suas amigas para um choppinho mais tarde, sua conversa com a secretária do dentista tentando remarcar uma consulta ou você discutindo relação e chamando sua namorada de "piranha, ingrata e traidora".

Afinal, quem estiver afim de ver novela mexicana, basta assistir o SBT (e ninguém precisa saber que você é corno).

O que foi, amigo, engoliu um amplificador?

Postado em 5 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Vamos ver: nós temos britadeiras de obras, engarrafamentos com buzinas de motoboy, e aquele barulho legal que faz o freio dos ônibus. Tudo isso e mais o seu chefe histérico, sua cunhada histérica e o seu priminho de 6 anos - que parece ter saído de um filme sobre a infância de um serial killer - também histérico.

Existe o telefone tocando, o celular que canta Sweet Child O' Mine e a creche da esquina com 50 vozes esganiçadas que jamais se calam. Tem a campainha da porta, a sirene da polícia, o barulho dos bombeiros e a gritaria da ambulância.

O latido do cachorro, o miado do gato, os grunhidos dos políticos e, claro, o caminhão de som do sindicato. Por falar em caminhão, tem o trio elétrico, tem os cantores de trio elétrico, as bandas de trio elétrico e os fãs de trio elétrico, todos fazendo barulho à vontade. E por falar em trio elétrico, tem outro caminhão, o do lixo, também adora fazer um barulho, de preferência na magrugada.


Tem o grupo de pagode, equipes de som que tocam funk, a bateria da escola de samba e a batucada do Olodum. E já que falei de músicos (ou algo bem parecido), tem também o tenor da ópera, os graves do Ed Motta e os agudos das duplas sertanejas. Jamais esquecendo os berros dessas cantoras americanas tipo a Beyonce.

Os coros das torcidas de futebol, o seu vizinho gritando na janela quando o time dele faz um gol, os técnicos na beira do gramado e o Galvão Bueno com seus "Rrrrrrrrubinho", "Rrrrrrrronaldo" ou "Anderrrrrrson Silva".

O casal de vizinhos que grita diálogos de filme pornô toda noite depois do Programa do Jô e as paredes finas do seu prédio, que te fazem sentir medo deles a atravessarem com a cama um dia e você se ver no meio de uma mulher vestida de Princesa Leya e de um cara fantasiado de Adolf Hitler.

Os gritos dos vendedores de biscoito nos sinais, de mate e sorvete na praia e, claro, o "Seu Juca", que todo dia passa embaixo da sua janela anunciando " "Ó o vassoureeeeiroooo".

Junte isso tudo e adicione festas rave, festas infantis e festivais de rock. Igrejas evangélicas e pastores de praça, batuqueiros de mesa de bar e jogos de truco. Sem contar aquele seu professor com voz de gralha, as músicas e gritinhos da aula de aeróbica da academia e os botequins lotados.

Sei que poderia continuar essa lista até cansar, mas acho que já deu pra você perceber como você não está sozinho nesse verdadeiro esporte nacional que é se comunicar gritando.

Por isso eu te pergunto: com um mercado tão amplo para você explorar todo o potencial das suas cordas vocais, precisa vir falar alto logo perto de mim? Vira essa boca amplificada pra lá.

Na natureza selvagem, mas a 5 minutos do shopping

Postado em 29 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Ar livre, contato com a natureza, respirar fundo, sol, transpiração, adrenalina, bem estar, boa forma, calor, cansaço, sede, fome, mosquitos.

Sei que parece meio esquizofrênica a sequência de palavras acima, mas é exatamente nisso que eu penso quando me falam em trilhas, trekking, mountain bike, acampamentos, escaladas e qualquer outra coisa que me faça afastar mais do que 15 minutos andando de algum veículo que possa me retirar do local em segurança.

Afinal, me desculpe quem gosta disso tudo, mas se eu fosse feito pra andar em terreno acidentado, cheio de lama ou no meio de uma floresta, não teria nascido gente, mas um jipe com tração nas 4 rodas.

Lógico que viajar para se integrar às belezas do planeta é legal, nadar numa praia paradisíaca é muito bom, tomar banho de cachoeira, sentir aquele cheiro de verde, o problema é que depois que você vê 10 praias em 2 dias, já não consegue mais diferenciar uma da outra e no meio daquela caminhada de 6 horas com muito sol e insetos, você entende realmente porque as gerações anteriores gastaram tempo e dinheiro inventando o ar-condicionado.


Falo isso porque uma ilha no Pacífico, com areia branquinha, águas azuis e sombra de coqueiros só é um paraíso se houver uma embarcação te esperando ali perto. Experimenta ser um náufrago pra ver se aquilo não vira o inferno. Por isso praia deserta é sensacional na medida que tenha um local com bebida gelada e um chuveiro com água doce por perto.

Sem contar que fotografar borboletas, gafanhotos, formigas e fungos é até legal, artístico, científico, engajado, sei lá, mas depois da milésima foto convém você tentar um emprego na National Geographic, porque não devem existir tantas araras-de-peito-lilás diferentes assim no mundo.

Mas de tudo isso, o que menos entendo é quem gosta de acampar. Não falo desses campings na Barra da Tijuca, a 10 metros do calçadão, 5 minutos do shopping e com ligação de luz para as barracas além de banheiro comunitário.

Falo de pegar uma mochila do tamanho de um Fusca e se embrenhar no mato com dois pacotes de miojo, uma garrafa de 500 ml de água, uma lata de leite condensado e uma barraca com as dimensões de uma casinha de cachorro para passar uma semana ali. Se acampar fosse mesmo essa maravilha toda, as pessoas morariam numa barraca logo, sem precisar pagar 30 anos de prestação por uma casa.

E quando eu estiver muito afim de ver uma aventura selvagem, assisto um desses programas de sobreviência ou de viagens radicais, que mostram gente nadando em corredeiras e dormindo em folhas de bananeira, mas omitem o fato de que atrás das câmeras tem uma equipe de apoio e provavelmente um ítem que eu colocaria como número 1 da lista de coisas que levaria para uma ilha deserta: um helicóptero.

É pro seu bem

Postado em 20 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

O ser humano é egoísta. E violento. E auto-destrutivo algumas vezes. O ser humano é capaz de cada ignorância e idiotice que deixariam os asnos com vontade de entrar na justiça e pedir quebra de copyright. Mas se tem uma coisa que sempre foi motivo de orgulho para essa espécie naturalmente já tão orgulhosa, é o seu livre arbítrio.

Essa coisa esquisita e incômoda chamada liberdade. Só que do jeito que caminha tudo, é impossível não imaginar em como seria um passeio de sábado a tarde num futuro que nos espera ali na esquina.

Você sai de casa, mas antes confere se está usando filtro solar, afinal, aquele texto insuportável narrado pelo Pedro Bial virou lei. Pro seu bem, a Anvisa decidiu que ninguém mais poderia sair na rua sem um FPS 50.

Quem fosse pego em infração deveria participar de um programa de reeducação e, como punição, ter a sua cota mensal de Coca-Cola - que por engordar e fazer mal à saúde, onerando o contribuinte, agora tinha sua venda limitada a duas latas por cidadão - removida do cartão de racionamento.

Quando entra no elevador, percebe que o vizinho colocou muito perfume, coisa de quem não respeita a Lei da Camada de Ozônio. Anota um lembrete no celular para não esquecer de fazer uma denúncia anônima depois. Esse tipo de gente te deixa tão nervoso que dá até vontade de voltar a fumar, mas só vontade, afinal, você não é louco de ir parar na cadeia que nem aquele seu primo que cumpre 20 anos num presídio federal porque foi pego com um cigarro mentolado no bolso.

Foda, foi só falar em menta e deu vontade de tomar aquele sorvete delicioso que tem na praça de alimentação do shopping, mas aí você lembra que esse mês já tomou três e para tomar o quarto precisa apresentar o atestado médico e o termo de responsabilidade abrindo mão de atendimento pelo SUS em caso de diabetes e ambos estão vencidos. Vai ter que se contentar com uma das 20 lojas de alface e granola espalhadas pelo local.


É que depois que as prefeituras pararam de dar alvarás para cadeias de fast-food e pizzarias (faz mal à sua saúde e é pro seu bem), só é possível encontrar hortaliças e carne de soja em quase qualquer lugar, menos no mercado negro, onde são vendidos junto com emagrecedores que foram banidos em nome da cruzada para exterminar a preguiça, a indolência e a gulodice dos obesos.

Aliás, você precisa correr para completar seus 120 km de esteira ergométrica mensais, senão descontam 20% do seu salário conforme a "Lei da Atividade Física".

Mas não é hora de pensar em problema, você saiu de casa pra ir na festa de um ano do seu sobrinho e só quer se divertir.

Chegando lá, é quase impossível não sentir saudade da sua infância e daquelas festas com balões de gás, línguas de sogra e brigadeiros. Agora as festas não tem mais balões ( látex foi proibido em nome da sustentabilidade), nem língua de sogra (termo depreciativo para a progenitora do cônjuge dos seus pais), muito menos brigadeiro (muito chocolate, que aliás está em vias de ser proibido).

Numa roda as crianças brincam alegres, cantando a versão autorizada pela "Comissão para a Promoção da Virtude na Imprensa e nas Artes" de uma velha canção infantil:

"Não atire o pau no gato-to, porque isso-so, não se faz-faz-faz, o gatinho-nho, é nosso amigo-go, não devemos maltratar os animais. Miau!"

Você fica olhando aquilo com cara de babaca e apesar de só servirem canapés de kani, brigadeiros de açúcar mascavo e suco de clorofila, ataca as bandejas com voracidade, já que está sentindo uma grande "necessidade alimentar", termo que foi inventado para designar a velha fome sem que sua fome burguesa, branca e ocidental ofenda os povos oprimidos que realmente passam fome.

Isso porque antigamente diziam que a "fome é negra", mas se você falasse isso mesmo que fosse em tom de piada, terminaria enquadrado na Lei de Harmonia Racial.

Isso te deixa de saco cheio, já que no seu tempo o mundo não era tão paranóico. Mas se serve de consolo, pelo menos é tudo pro seu bem.

O dia que recriarem o mamute

Postado em 15 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Cientistas russos e coreanos resolveram unir forças para recriar o mamute. Esqueça qualquer outra necessidade do mundo atual, o importante mesmo é conseguirmos tirar o Jurassic Park das telas e, quem sabe, até ser devorados por algum T-Rex um dia.

Só que por mais que tal experiência soe bizarra, ela nos fornece material para muita imaginação, afinal, não faltam coisas que poderiam ser revividas num labotarório e que tornariam o mundo bem mais interessante do que a volta no Mamute, ou "mamofante", como os cientistas resolveram chamar o bicho (ainda que isso pareça mais o nome do último sucesso do carnaval baiano).

Pra começar, podiam trazer de volta a vergonha na cara. Porque nem as ombreiras, nem a pochete e nem o mullet (aquele cabelinho que o Chitãozinho e o Xororó usavam quando a Sandy ainda nem pensava em fazer comercial da Devassa e dos benefícios do sexo anal), ficaram tão fora de moda quanto a vergonha na cara.

Digamos que vergonha na cara seja o mamute dos costumes, junto com o senso do ridículo, que é o mico leão dourado dos costumes.

Uma outra coisa que poderia ser ressucitada é a infância. Sim, porque esses mini-adultos cheios de opiniões, vontades e iPhones de hoje em dia são chatos pra cacete. Meninas de 7 anos se preocupando com o peso e moleques de 8 dizendo que querem "comer a Sabrina Sato" não são engraçacinhos, são apenas um sintoma de que a humanidade - que já não é algo que tenha dado muito certo - conseguiu piorar.


E depois do surgimento de Elvis, dos Beatles, do flower power, psicodélico, punk, pós-punk, gótico, metal, britpop e afins, alguma boa alma científica poderia reviver o rock'n'roll, porque do jeito que vai não haverá material para produzir nenhum revival nas próximas décadas, provavelmente fazendo surgir coisas como o neo-neo-neo-grunge.

Outra coisa legal seria alguém libertar expressões como "licença", "por favor" e "obrigado", entre outras, de algum fóssil e trazê-las de volta à vida.

Porque imagina que legal seria aquela mulher com 237 sacolas de compras e um poodle dentro da bolsa passar correndo por você na calçada, esbarrar, quase te derrubar no chão e ao invés de dizer algo como "porra, sai da frente, seu cara de cu", falar simplesmente "desculpa".

Finalmente os cientistas podiam dar uma forcinha e trazer de volta algumas coisas que você encontrava em qualquer esquina antigamente e que já não existem mais, como os fliperamas, aquele cheiro de álcool quando imprimíamos algo num mimeógrafo e o chocolate Surpresa, que era tão legal que teve até uma série de figurinhas sobre os dinossauros.

Pronto, poderiam lançar um Surpresa-Mamofante, assim todo mundo ficaria feliz.

Eu tive um sonho...

Postado em 13 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Acordei num dia em que os tablóides de 0,50 centavos não traziam nenhum escândalo ou frase de duplo sentido estampados, a Luciana Gimenez resolveu fazer medicina na Universidade Estácio de Sá e abandonou seu programa de variedades, a turma do Pânico cansou de fazer sempre a mesma coisa e foi apresentar um programa sobre hermenêutica na TV Cultura e a novelinha Malhação saiu do ar, depois que um dos atores de sua primeira temporada teve o primeiro neto.

Era um Brasil diferente, o Magazine Luiza vendia estantes para livros e as crianças não entendiam como alguém um dia realmente pôde gostar de "Ai, se eu te pego", sem falar em micaretas, que hoje só podiam ser vistas no Museu do Mau Gosto, junto com uma reconstrução cenográfica da Gaiola das Popozudas.

Curiosamente, o brasileiro não ficou menos brasileiro por isso, continuava com essa tendência genética a falar alto e trazer sempre uma gargalhada histérica pronta para ser disparada a qualquer momento, mas pelo menos parou de consumir toneladas de entulho no café, almoço e jantar, o que já era grande coisa.

Tiriricas ainda passeavam pelo Congresso, afinal, velhos hábitos não morrem facilmente, mas o cidadão médio cansou de ver sempre a mesma coisa, num loop de "É o Tchan", "Rebolation", "Bonde do Vinho", "Brasil Urgente" e "A Fazenda".


Das novelas, sobrou só a das oito, mesmo assim a título de preservação do patrimônio, já que apenas senhorinhas que já passaram dos 70 anos ainda assistiam aquilo.

Diziam que foi algo que os americanos colocaram na água, alguns suspeitaram de vazamento na usina de Angra, mas o fato é que eu achei bem legal o que vi.

Mas o mais pitoresco, o que mais chamou minha atenção, foi a velha casa do BBB. Algumas pessoas moravam ali, paredes de vidro e pequenas passarelas guiavam os visitantes sobre aquele zoológico humano.

Alguns atiravam um contrato para a capa da Playboy para uma moça, que em troca fazia gracinhas dentro de uma piscina, tal qual uma foca ou um golfinho em troca de um peixe.

O impacto foi tanto, que tive que perguntar a uma daquelas pessoas que observavam o porque daquilo tudo, e a explicação mostrou que eu estava realmente sonhando:

- Sabe o que é, moço, é que a audiência do BBB caiu, ninguém mais votava em paredões, ninguém comprava o pay-per-view, então resolveram tirar o programa do ar, só que esqueceram os BBBs presos aí dentro da casa.

- Que isso, e ninguém soltou?

- Nada, o Eike Batista comprou a casa de porteira fechada, com os participantes dentro e tudo, cercou e começou a cobrar ingresso, dizem até que foi por isso que passou o Carlos Slim como o homem mais rico do mundo.

Vá ao teatro, mas não me chame

Postado em 8 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Se tem uma coisa que dá medo é a frase "precisamos conversar". Depois dela, só mesmo "a gente podia sair pra dançar, né?" e logo em seguida, pelo menos para mim, é "vamos ao teatro?".

Sei que é quase um sacrilégio admitir isso, afinal, qualquer pessoa descolada, intelectualizada et al não deve dizer jamais tal coisa em público, mas sei lá, precisei compartilhar. Pior ainda é o fato de ser fã de Nelson Rodrigues, gênio que se confunde com o teatro, mas de quem eu, particularmente, gosto mesmo é das crônicas.

Mas se algo me redime é o fato do próprio Nelson fazer piada com o teatro em seus textos, quando dizia, por exemplo, que a platéia era basicamente composta de senhoras gordas com sacos de pipoca na mão, e que o tal "teatro moderno" ainda ia fazer um ator espirrar o sangue de um bife na cara do espectador, só para provocar emoções.

O que sei é que não acho muito legal as vozes empostadas, os gestos exagerados, as limitações do cenário (esqueçamos a Broadway  e algumas superproduções com seus efeitos especiais), aquela coisa meio caravana cigana que os próprios atores adoram. Outra coisa são aquelas interpretações livres, capazes de bolar uma montagem porno-escatológica da Branca de Neve.


 Tudo isso tem até o meu total respeito, mas sinceramente, me incomoda.

Causa um pouco de vergonha alheia assistir uma pessoa representando quase qualquer peça. A maquiagem, as caras e bocas, enfim, a menos que seja comédia - onde não só é permitido, como desejável, cair na gargalhada - eu fico meio desconfortável com Romeus, Julietas e Tios Vânias.

A comédia, aliás, é um capítulo a parte, já que conheço pessoas que dizem adorar teatro, mas que só vão mesmo assistir comédias (algumas, as mais estúpidas possíveis), afinal, com tanta coisa pra importar dos Estados Unidos, resolveram trazer logo o politicamente correto e o stand up comedy.

Claro que já assisti várias peças. Alguns musicais, alguns dramas e até algumas comédias. E em algum momento da apresentação eu até curti, mas sempre fazendo aquele esforço para dissociar o fato de que tudo aquilo representado ali seria muito mais realista, interessante e divertido se fosse no cinema.

E cheguei finalmente onde queria: pra mim, ainda que gente muito mais entendida diga que isso é bobagem, o cinema acabou com a graça do teatro. É como ouvir novelas no rádio depois que inventaram a TV.

Não resolvi contar isso tudo pra dizer que sou contra o teatro, que acho que o teatro deva acabar e nem que faço parte de uma parte da população geneticamente superior àquela que gosta de teatro, o objetivo é, talvez, fazer um apelo aos fãs da "nobre arte":

- Vá ao teatro, mas não me chame. Sério, por favor.

Não é que eu tenha aversão nem nada disso, pode ser até que eu me divirta, mas aposto que você consegue pensar em outra coisa melhor pra me chamar, como uma visita ao Museu do Cotonete ou um passeio pelo centro de Duque de Caxias, por exemplo.

Oncinha, cadê você? Deixa eu te explicar...

Postado em 1 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Algo que surgiu no carnaval 2011 acabou fazendo o maior sucesso no carnaval 2012. E não foi a reedição de Tchubirabiron e nem da Dança do Tamanduá, mas um site chamado "Oncinha, cadê você?".

A idéia é basicamente publicar histórias de amores de carnaval, para que aquele Arlequim possa reencontrar a Colombina que fugiu com um Luke Skywalker sem nem deixar o número do telefone. E mesmo não curtindo carnaval, achei a idéia tão legal que perdi algum tempo passeando entre textos como:

"Eu estava no metrô de Botafogo vestido de Cumpadi Uóxinton quando passou uma linda garota fantasiada de Amy Winehouse, nos falamos e trocamos uns beijos, mas como ela estava quase tão bêbada quanto a Amy verdadeira geralmente ficava, acabamos nos perdendo. Adoraria reencontrá-la para ensinar como se dança o Tchan. Amy do Metrô, cadê você?"

Convenhamos, mesmo com a parte da bebedeira incapacitante é, como dizem, fofo.

Mas nem todo caso dá certo, na verdade, nem toda tentativa vira um caso, ainda que só de cinco minutos, e porque não atender a todo esse imenso contingente de mal-amados também? Um "Pera aí, Oncinha, deixa eu te explicar" seria de igual utilidade pública. Imagine só ler coisas como:

Anúncio I:

"Fui no Bloco das Pururucas no Domingo, estava vestida de Dilma Rousseff e me apaixonei por um cara vestido de Obama Baiano. Conversamos, só que como eu já tinha bebido 37 cherry bombs e acabei vomitando na túnica dele, que ficou meio nojenta. Queria reencontrá-lo para mostrar que eu não sou assim. Obama das Pururucas, aparece por favor, eu juro que parei de beber". 


Anúncio II:

"Aconteceu em Ipanema, na terça-feira gorda. Eu estava fantasiado de barraca do beijo e conheci uma linda borboleta, com anteninhas e tudo, resolvi vender todos os meus beijos para ela e fechar a barraca, só que quando ela foi comprar uma água, bem, resolvi voltar pro mercado e me atraquei com uma Marilyn que estava passando. Só que a Marilyn era Mário e a Borboleta viu tudo e foi embora voando. Borboletinha, eu te juro que não sou galinha, nem viado, nem curto aquele negócio que eu estava segurando quando você chegou, me dá uma chance, vai".

Anúncio III:

"Cara fantasiado de Batman que estava na Lapa no sábado, eu sei que fiquei com seu primo, com o amigo dele e com o primo do amigo dele, mas te juro que gostei mesmo de você e não sou galinha, me dá uma chance, vamos sair de novo, eu prometo que se você me procurar eu te dou de prima. Sou aquela moreninha fantasiada de piranha empalhada".

Anúncio IV:

"Ciganinha de Laranjeiras, aqui é o seu marido, o carnaval já acabou há quase duas semanas, que tal você voltar para casa porque minhas roupas estão precisando de uma passada?".

Anúncio V:

"PacMan de Laranjeiras, aqui é a Ciganinha, eu não vou voltar para casa porque acho essa sua fixação por videogames uma coisa meio babaca e já enchi o saco dos seus amigos nerds, favor enviar a minha mala para a casa do Rei Momo de Botafogo, que é gordo, mas pelo menos é rico e pode pagar uma passadeira".

Não tenho certeza, mas até eu, que gosto tanto de carnaval que já cheguei a viajar pra São Paulo no período, acho que um serviço assim ia "dar samba".

Se você tiver que ir para a PQP, tente pelo menos não ir de excursão

Postado em 28 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

A princípio toda viagem em grupo parece uma boa idéia. Seja o pessoal da faculdade, alguns velhos amigos ou mesmo aquela excursão.

Viajar com uma turma pode garantir que você terá sempre companhia para fazer um passeio, para dividir dicas sobre lugares transados e até para se perder num país de língua estranha e placas escritas em alfabeto cirílico. Uma excursão ainda te garante a tranquilidade de não se preocupar com nada, já que eles te buscam no aeroporto, te levam pro hotel, organizam seus passeios e dizem até os horários que você pode ir ao banheiro.

E aí é que a teoria inicia uma briga conjugal com a prática, porque convenhamos, essas viagens em grupo possuem todos os problemas de um casamento - debates sobre ir a um restaurante de massas ou um japonês, diferenças de temperamento, gostos distintos, tensões de uma convivência prolongada, aquela obrigação de ir junto ao mesmo lugar - sem ter nem pelo menos o sexo como compensação, o que nem é de todo ruim, se você pensar naquele casal de cabelo azul comemorando bodas de ouro que está na sua excursão no meio de um bacanal num ônibus fretado.

Os seres humanos são tão diferentes que podem transformar até um passeio na Europa ou no Caribe num inferno para seus semelhantes. Existem os que acordam cedo, os que dormem tarde, os que gostam de aventura, os que preferem programas sossegados, tem quem curta uma loja de eletrônicos, outros preferem um sexshop com dançarinas búlgaras e dromedários, enfim, é difícil atingir qualquer consenso racional, mesmo que não seja sobre nada tão radicalmente oposto quanto chegar até uma praia deserta confortavelmente num Land Rover com ar-condicionado ou descendo de rapel no meio de uma área infestada de tubarões.

Pense bem: você passou a noite numa rave em Barcelona, foi dormir às 8:00 da manhã e depois de 27 doses de alguma coisa misturada com gelatina que te fez achar uma versão de Chitãozinho e Xororó em romeno o maior barato, a única coisa que deseja é dormir.


Mas de repente seu colega de quarto te acorda para fazer uma caminhada e conhecer obras de Gaudí ao ar livre. Porra, seu amigo é gente boa, Gaudí é o maior barato, mas fala sério. E sim, isso estraga um pouco a viagem dos dois.

O mesmo acontece com aquela sua namorada viciada em informática, que depois de passar três dias contigo só visitando museus em Nova York resolve dar um xilique no meio da exposição do Andy Warhol:

- Chega dessas viadagens de latas de sopa e Marilyns coloridas, quero ir na Apple Store agora!

Mas ainda pior é estar num city tour com gente que só tem um interesse: comprar. Vão no Museu do Tubarão? Azar dos tubarões, eles querem é comprar golfinhos de pelúcia. Está no estádio do Barcelona? Problema seu, eles querem é comprar canetas oficiais do time para presentear os amigos do trabalho. Foram numa vinícola no Chile? E daí? Eles querem mesmo é saber onde está a lojinha que vende sabonetes com aroma de prosecco. Está diante de um Van Gogh? Porra, eles querem saber é onde podem comprar 20 Moleskines. E como geralmente guias turísticos ganham comissão por vendas, você ainda corre o risco de ouvir absurdos como:

- Chegamos em "El Caminito", local onde nasceu o tango, vocês terão 15 minutos para conhecer tudo e depois vamos para um passeio de duas horas no shopping.

Dá a maior vontade de mandar todo mundo pra putaquepariu. E de excursão.

Ah, os velhos carnavais!

Postado em 23 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Quem nunca ouviu da avó ou de um tio essa frase "ah, os velhos carnavais é que eram bons!"? E dá-lhe a falar de pierrôs, colombinas, melindrosas, batalhas de confete e escolas de samba "de verdade". Só que eu tenho uma teoria: aquela época não era melhor, eles pensam assim porque eram mais novos e ainda não tinham visto tudo.

Falo isso porque cada vez que assisto a TV na época do Reinado de Momo - termo que, aliás, acaba com o glamour de qualquer monarquia - fico com a impressão de que já vi aquilo antes.

Reportagens sobre a Bahia, sobre o frevo em Pernambuco, a correria das escolas de samba para aprontar alegorias, o que comer e beber para se manter alimentado e hidratado durante a "folia", os blocos de rua, as fantasias criativas (quantas versões de um Darth Vader serão necessárias para que essa fantasia deixe de ser criativa, aliás?), tudo é rigorosamente igual ao que passou no ano anterior e no outro e no outro.

As bebedeiras, o movimento nas estradas, os engarrafamentos, os supermercados lotados (eventos que, diga-se de passagem, se unidos à varrição da casa de praia poderiam virar um enredo chamado "A Peregrinação Anual da Classe Média Praiana" ou algo assim).


Por falar em enredo, adoraria ver o que aconteceria com as escolas de samba se proibissem de falar sobre Bahia, Amazônia, África e Jorge Amado. Porque as únicas coisas que são menos surpreendentes do que esses enredos são os carros alegóricos que sempre quebram e as rainhas de bateria que passam a impressão de, juntas, possuírem um QI de 0,5.

Tenho quase certeza de que se as emissoras resolverem passar um VT de qualquer carnaval passado ao invés de transmitir ao vivo o desse ano, ninguém vai notar a diferença (exceção às escolas de samba de São Paulo, que sempre inovam falando de temas tão interessantes quanto óculos escuros, guaraná Dolly e nuggets).

O resto do Brasil não foge muito à regra. Quem não sabe que em Salvador o carnaval dura mais de uma semana, que em Olinda todo mundo passa quatro dias fingindo que adora frevo e que no final da festa o "bloco dos garis entra na avenida"?

Mais clichê mesmo só comentaristas de desfile de fantasias e entrevistadores tarados nos bailes (que sempre passam a impressão de estarem acontecendo sem cessar numa espécie de universo paralelo desde os anos 70).

E o amedrontador é saber que ano que vem vamos assistir a tudo isso outra vez, com um monte de gente se espantando como se estivesse diante de uma novidade de cair o queixo.

Não é a toa que até hoje verdadeiros exércitos de soldados do "pavê ou pacomê" repetem sem cansar a piada da Mangueira entrando.

Porque fotografar comida não é um pecado capital, mas pode ser evitado

Postado em 14 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Já notou como ninguém normal chega no motel, tira foto da outra pessoa e posta no Facebook, mas curiosamente vivem fazendo isso com o que vão comer no restaurante? Basta navegar um pouco pela internet que você nota como, às vezes, tudo se parece com um "caiu na net" gastronômico.

Entre chamar os outros de porcos enquanto joga lixo no chão; alimentar, dar banho e sair por aí catando as fezes de um animal e ainda assim dizer que é seu "dono", frequentar micaretas e tirar fotos na frente do espelho do banheiro, com certeza fotografar comida seria um hábito humano passível de estudo por alienígenas. Eles se perguntariam em desespero "porque eles fazem isso, porque?".

Como não sou um E.T. (pelo menos eu acho) confesso que já caí nessa muitas vezes (ainda hoje tiro muitas fotos de comida), mas tenho procurado evitar, porque o melhor da comida é mesmo o gosto, logo em seguida vem o cheiro, a aparência ajuda, claro, mas numa foto sempre vão faltar dois dos três elementos principais do prazer da comida.

Lógico que queremos eternizar momentos, deixar uma lembrança pelo menos visual daquele gosto que pode nunca mais ser o mesmo, porque podemos não voltar mais ali, o lugar pode fechar, podem tirar aquela bomba de maracujá de linha, algum acidente com radiação pode te fazer só sentir gosto de biscoito Trakinas em tudo - seja uma picanha ou um biscoito Trakinas - mas o que explica fotos de coxinhas de galinha, mistos-quentes e pratos de arroz com feijão?


E ainda que popularizassem um cinema 5, 6 ou 7D, com cheiro e tudo - o que sempre me causa certo nojo quando penso em filmes de zumbis - não seria aquele Mc Lanche Feliz que estaria em cartaz, não é? Porque assim como ninguém compra um ingresso para assistir "Aniversário do Pedrinho 2 - O Retorno do Animador de Festas", não creio que alguém pagaria um ingresso do tal cinema com aromas para assistir "Tentativas de Bife Acebolado da Tati - A Saga do Arroz Queimado".

Assim como grandes diretores, somente grandes "chefs" apareceriam no cinema, então, continua a dúvida: pra quê fotografar comida e colocar na internet?

Some-se a isso o fato de geralmente pedirmos comida quando estamos com fome, o que torna ainda mais inexplicável essa auto-tortura de atrasar sua degustação para tirar uma foto. É como ter sede, abrir a geladeira mais esbaforido do que um pastor alemão na praia, pegar um copo d'água e dizer:

- Não, pera aí, vou tirar uma foto porque esse é um belo copo d'água.

E se você não faz isso com água, não deveria fazer com um brownie. Porque assim como aquela pessoa que você leva pro motel faria se você parasse de dois em dois minutos para tirar uma foto, se o brownie falasse, certamente ele te diria:

- Me come logo, e esquece a porra da foto pro Facebook.

A menos, é claro, que vá você, a pessoa, o brownie, um sorvete, cenourinhas americanas e uma melancia, mas aí já seria um bacanal gastrômico e uma foto seria ainda mais inaceitável.

O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)

Postado em 2 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Mais do que um tsunami, do que os juros do cartão, muito mais do que o Jason para um casal que foi transar no meio do mato num local deserto (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?), o que eu tenho medo mesmo é de mudança.

Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.

E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.

Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".

Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.


Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).

Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.

E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:

- Esse é o apartamento reformado?

- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?

- Embaixo do monte de entulho?

- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.

- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?

- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.

- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?

- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?

- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.

- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.

- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.

- Só que pelo que você pode pagar, dois quartos real mesmo só se for no subúrbio ou numa comunidade, aliás, tem uma casa alugando do lado da casa da moça pendurando roupa no varal, quer dar uma olhada?

E pra completar, bem, digamos que você encontre algo que possa pagar e morar sem passar as noites dormindo como um bebê:  acordando de duas em duas horas e chorando enquanto se pergunta "porque eu?".

Ainda vai precisar arrumar os fiadores, o seguro, todas as cópias de seus documentos incluindo a certidão de batismo e a carteira do Clube do Mickey, além de um testemunho de idoneidade prestado por um tabelião, um delegado, um fiscal da receita, um sósia do Elvis e um rabino.

Pensando bem, acho que agora sei porque todas aquelas pessoas nos filmes vão parar no meio do mato.

Um amigo, um convite, um pagode, um cachorro-quente e um nunca mais

Postado em 31 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Chega o final de semana e começa o perigo. Pior do que não ter o que fazer e ficar sozinho em casa vendo TV, são aqueles programas furados que sempre te chamam e você acaba indo.

Nunca se sabe quando algum convite pra um casamento de semi-conhecidos, um videokê ou uma reunião da Herbalife podem aparecer. Mas nesses casos, bem, ninguém aceita um convite assim e espera de diversão, né? Você já sabe que se fudeu logo ao aceitar, afinal de contas, qual é a chance de chegar num batizado e descobrir que o moleque é neto do Hugh Hefner e tudo será animado por garçonetes do Hooters?

Pior mesmo são aqueles convites que têm tudo para ser uma boa, mas na verdade não são. E esse tipo de programa furado fica à espreita, que nem emboscada de índio em filme de cowboy.

O telefone toca e é aquele seu amigo dos tempos da escola te chamando pra um programa "super maneiro". Você termina aceitando, ainda que a expressão "super maneiro" te lembre um desses comerciais de sucrilhos.

Aceita mas já entra no carro dele meio desconfiado de que vai ser uma noite daquelas (não num sentido legal) e quando vê na filipeta da festa as palavras "alternativo", "de raiz" e "hype", tem certeza que perder aquele especial sobre os suricatos no National Geographic não foi um bom negócio.

Mas como todo bom amigo, ele tem um arsenal de palavras de incentivo pra te deixar no clima: "a vida é uma só, cara, vai estar cheio de mulher lá", "a gente não é bonito, nem rico, nem nada demais, mas só vai ter mané ali, vamos nos dar bem" ou por último "deixa de viadagem, porra, você ia ficar em casa vendo National Geographic por acaso?".

Chegando no local você descobre que aquilo é um pagode organizado pela ex-promoter de uma boate alternativa que agora é namorada de um jogador de futebol, daí o "de raiz", "hype" e "alternativo".
O público é dividido entre bombados com cordões de prata e estudantes de ciências humanas com chinelos de couro. No meio disso tudo, você e seu amigo (que ainda por cima saiu usando uma sandálic Croc).

Toda movimentação desde que entram se resume a um batuque infernal, um bêbado de camiseta regata do Exaltasamba falando celular e chorando por causa da ex-namorada (e abraçando vocês com o suvaco suado jurando que "se ela voltar, ele casa"), três garotas que seu amigo chegou em cima e curiosamente "só vieram pra dançar" e aquelas doses de whisky falsificado que custam quase o preço de uma garrafa de Blue Label.

Com o avançar da noite, vocês resolvem abandonar alguns critérios e começam a caçar as gordinhas e as bêbadas. Mas descobrem que as gordinhas ainda não entraram em desespero a ponto de ficar com vocês e que as bêbadas já estão desmaiadas pelos cantos, o que provavelmente os enquadraria em algum artigo do código penal.

Finalmente depois das 4 da manhã a idéia de assistir "No Mundo dos Suricatos" não parece tão ruim assim nem para o seu amigo (e não teria custado aquele roubo em entrada e consumação).

Quando percebe já é quase de manhã e você está com um cachorro-quente em uma das mãos, ao lado de uma Kombi, ouvindo uma discussão entre dois torcedores de Vasco e Flamengo e jurando nunca mais cair numa dessas.

Até a próxima vez, é claro, porque sabe como é, seus amigos sempre têm uns programas "super maneiros" pra te chamar.

Só prestam atenção em você quando você queria ser esquecido

Postado em 24 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Já percebeu como todo mundo resolve prestar atenção em você justamente no momento em que tudo o que você mais queria é que te esquecessem, ou seja, quando faz alguma merda? E não venha dar uma de certinho, porque com certeza alguma você já aprontou.

Furar aquela fila do supermercado entrando no caixa rápido com 50 volumes dizendo como desculpa que "são 20 rolos de papel higiênico, logo só conta como um ítem". Fingir que não viu um vizinho e deixar o elevador ir embora só pra não ter que aturá-lo tentando te vender um kit Herbalife pela décima-nona vez.

Assistir filme pornô no trabalho, falar com voz de criança quando está apaixonado, criar apelidos para o órgão sexual do parceiro. Mentir sobre o seu trabalho, dizendo que é o "gerente para prospecção e relacionamento com mercados digitais" quando na verdade é pago por hora para enviar emails de SPAM para uma mailing list que foi comprada a 5,99 no Mercado Livre.


Pedir o carro do seu primo emprestado para sair com aquela gatinha e ainda dizer que "está meio enjoado desse Honda Civic e não vê a hora do seu Zonda Cinque ser liberado pela alfândega", mesmo que seu meio de transporte regular seja mesmo uma Motorella, uma velha bicicleta Monark adaptada com motor de Mobilete.

Comer uma caixa de Bis assistindo CSI enquanto disse pra sua namorada que ia pra academia para finalmente se livrar dessa pochete que carrega na cintura, aproveitar enquanto seu namorado foi pro banho e revirar a caixa de mensagens e o histórico de ligações do celular dele.

Aproveitar aquele sinal vermelho para realizar uma faxina nas cavidades nasais, olhar a bunda da mulher do vizinho, aquela loira que passa a tarde na academia e fez implante de silicone com o mesmo médico da Pamela Anderson. Fingir que está falando no celular para não ter que aturar vendedor chato, amigo chato ou qualquer outro chato e de repente o telefone tocar, arruinando completamente sua ligação imaginária.

Ainda que você tenha lido tudo isso e pensado: ah, eu não faço isso, não. Posso garantir: ah, você faz sim. Se não alguma dessas coisas, outras que eu não estão aí e você sabe muito bem quais são, sabe mas não vai admitir, porque afinal de contas conseguiu esconder se safar até agora.

E no final das contas, a gente dificilmente se envergonha de fazer alguma coisa, o que a gente se envergonha mesmo é de fazer e os outros descobrirem. Você se arrepende é de ter sido pego.

Dos mitos e verdades sobre os mitos e verdades

Postado em 19 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Todo mundo detesta mentira. Isso é quase um cartão de visitas, seja num primeiro encontro ou na hora de elaborar uma breve descrição sobre si próprio, geralmente sempre vai haver um "sou muito verdadeiro, odeio mentiras".

Mas isso é um mito.

O fato é que ninguém suporta muito ouvir a verdade e, na maioria das vezes, ouvir uma mentira é muito mais legal. Seu amigo pode achar suas roupas ridículas, seu corte de cabelo escroto, sua voz irritante e no fundo até se perguntar porque diabos ele ainda é seu amigo, já que tudo em você o irrita, mas desde que diga que você é o cara,bem, ele vai poder continuar te pedindo cinquentinha emprestado e você vai continuar emprestando, tudo em nome da amizade.

Quem nunca deu entrevista para a TV enquanto tomava banho? Você fica ali contando como foi difícil chegar ao sucesso, como valoriza seus fãs, qual seu prato preferido e até dá dicas para iniciantes, como se estivesse no Programa do Jô ou no David Letterman.

Agora me diga: quem toma banho se imaginando preenchendo notas fiscais enquanto o chefe berra lá da sala que aquela planilha de Excel que ele te deu há 5 minutos já era para estar pronta "ontem"? Novelas, seriados e filmes de Hollywood movimentam milhões explorando esse nosso gosto pela fuga da realidade.


Se você vai numa boate junto com um amigo e não pegam ninguém, existem duas possibilidades de contar isso no dia seguinte pro resto da turma. Vocês dizem que não arrumaram nada e ainda gastaram 150 reais cada um só para terminar vomitando numa loja de conveniência às 4 da manhã, ou então fingem que acreditam que um pegou mesmo uma loira na saída do banheiro e que o outro deu uns beijos na barwoman nos fundos da despensa.

Dali a uns anos nem vocês vão saber se aquilo aconteceu mesmo ou não.

Quando alguém te mostra um trabalho, te pergunta o que você achou do novo corte de cabelo ou simplesmente diz que te ama, nunca, me deixe repetir, nunca vai esperar ouvir que o trabalho está uma merda, que o corte de cabelo ficou parecido com algum personagem do Planeta dos Macacos do qual você não lembra bem, mas sabe que não era um dos humanos, ou que você agradece muito aquele amor, mas infelizmente só pode retribuir com simpatia.

Todo mundo diz que adora verdade, mas só fica feliz quando ouve uma mentira. Caso contrário, porque uma frase como "a verdade dói" seria tão repetida a ponto de virar ditado popular?

Por isso aprenda de uma vez por todas: ninguém liga para a sua opinião, todo mundo quer mesmo é um elogio.

Eu sou o pé ou o chinelo?

Postado em 17 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Depois de uma certa idade todo mundo quer saber porque você ainda continua solteiro. Não interessa o fato de metade dos seus amigos que casaram terem separado antes de dois anos de casamento, o problema é você, que continua por aí fugindo do enlace matrimonial.

E basta ir numa festa, batizado, coquetel de divórcio, seja onde for,  que fatalmente vai ter que explicar que sim, esta é uma opção sua e, sim, também é uma opção dos outros e, sim, também é porque você acha que não precisa unir seus defeitos intoleráveis com os defeitos intoleráveis de outra pessoa só para ser infeliz junto de alguém.

- Nossa, você é linda, independente, culta, porque tá sozinha?

- Ah, fui ficando mais exigente, sabe?

- Quem escolhe demais fica sem nada, viu?

Mas pense bem: você conhece uma pessoa que parece legal, rola aquela atração física, saem a primeira vez, ficam, resolvem que vão continuar e tal, e um belo dia a pessoa telefona e te chama pra uma micareta.


Como você quer dar uma chance, até pensa em ir, sabe como é, só pra agradar, mas depois pensa "E se isso der em namoro? Porra, eu vou ter que ir a micaretas o resto da vida". E então comete aquele erro fatal que faz as pessoas gostarem bem menos de você: é honesto. Vira e diz "pô, micareta não rola, eu simplesmente tenho mais horror disso do que de um tsunami de bosta". Pronto, lá se vai aquela possível relação embora atrás do trio elétrico.

O problema é que isso tudo soa muito razoável na hora, mas quando você vai contar para alguém sempre fica parecendo que foi um exagero seu:

- Qual o problema? Uma micaretinha de vez em quando? Você é muito intolerante.

Dito isso a mocinha resolve deixar de ser "tão intolerante" e cede às cantadas de Reginaldo Rossi do filho do vizinho. Combinam uma saída no domingo (programa mais light e tal) e quando entra no carro dele nota que o MC Jibóia está tocando no volume máximo, olha os CDs tentando achar algo que se salve, mas só encontra Parangolé, Chiclete, Revelação e Swing & Simpatia (ou seja lá como se chamam essas coisas), aí pensa: preciso mesmo namorar alguém que ouve a trilha sonora do Domingão do Faustão?

 Mas a cobrança nunca termina:

- Se você não escolhesse tanto.

- É, acho que é chatice mesmo, pronto, eu escolho demais, admito. Agora vamos falar mal de outra pessoa que esteja ausente? É mais divertido.

- Não se irrite, sempre tem um chinelo velho pra um pé cansado.

- Sério? Então me diz, você acha que eu sou o pé ou o chinelo?

Como seu email pode arruinar uma entrevista de emprego

Postado em 10 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Uma entrevista de emprego funciona mais ou menos como aqueles questionários de sites de encontro: você tenta mostrar suas qualidades para impressionar alguém que procura por alguém.
A maior diferença é que você talvez não termine a entrevista nu (mas isso o Seinfeld já disse mais ou menos desse jeito) e também no caso do site de encontro, você provavelmente não vai receber um salário caso tudo corra bem.

Em todo caso, impressionar é a questão. Colocamos uma roupa legal, penteamos o cabelo, fazemos a barba, as mulheres se maquiam.

Outra semelhança de uma entrevista de emprego para um primeiro encontro é que tudo sempre parece muito melhor antes de você conseguir. A pessoa parece bonita, charmosa, interessante, o emprego parece legal, o ambiente sensacional. Só que depois que já são seus (a pessoa e o emprego) é que você vê o bafo de manhã, as TPMs, o futebol de todo sábado a tarde, o tiozinho do faturamento que sempre faz piadas sexuais até mesmo envolvendo clipes e papel, o salário que nunca chega a conhecer o dia 20 de cada mês.

Mas como na entrevista a intenção é entrar (num primeiro encontro não deixa de ser a mesma coisa), então você faz de tudo para isso.


Aumenta suas qualidades, sua experiência. Aquele estágio no mercadinho do seu tio em Santo Antônio de Pádua vira uma "sólida vivência em atendimento ao consumidor e em distribuição", aquela festa infantil que você ajudou sua amiga a fazer vira "proficiência em produção de eventos", mais ou menos como você preenche aquele formulário do "Love Encontros" dizendo que faz musculação 3 vezes por semana quando na realidade você não passa na frente da academia há 3 anos.

Mas o legal é que pode ser que dê certo. Você deixa lá seu currículo e sai da entrevista praticamente com o emprego garantido e é aí que tudo fica bem diferente do tal site de encontros.

Porque é justamente quando o cara resolve te mandar um email avisando que você foi aceito para a vaga que ele vai lá e lê que o seu endereço eletrônico é algo como marcelogatinho69@sexmail.com, tatixuxinhafunk@maeloira.org ou luizinhowXD@clubedomickey.us.

Nessa hora, você que poderia até arrumar um encontro, acaba de perder o emprego.

Faça de conta que sua intimidade é dinheiro e guarde só para si

Postado em 5 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Pense que durante um tempo não existia intimidade entre seres humanos. Isso mesmo, essa coisa de ter seu "espaço" é novíssima e, antes e durante um bom tempo, vivíamos em casas com um único cômodo, fazíamos nossas necessidades na frente de todo mundo, enfim, nesse quesito éramos só um pouco melhor do que cupins.
Nossa intimidade foi uma conquista, ter nosso canto, nossa vida, ser dono do próprio nariz, tudo isso veio depois de anos de evolução. Ditaduras tentam invadir sua privacidade vigiando a sua vida.

Grampeiam telefones, colocam arapongas atrás de você, violam sua correspondência, entram na sua casa no meio da noite, controlam sua internet.

E no Irã? Mandam até na roupa que você usa, na música que você escuta, no que você diz e quase até no que você pensa.

Se você for levado para uma prisão, por exemplo, a primeira coisa que vão tirar de você é a sua privacidade. Revistas íntimas, visitas controladas. Isso porque nem preciso dizer que nossas cidades estão virando verdadeiras janelas indiscretas com suas câmeras espalhadas por toda parte.

Por onde vamos, seja no shopping ou no elevador do nosso prédio, lá estão elas a nos vigiar, tomando conta da nossa vida que nem vizinhas fofoqueiras.


Aliás, já que mencionei as vizinhas (e porque não vizinhos) aposto que você já reclamou ou já ouviu alguém reclamar disso, de alguém te vigiando, tomando conta da sua vida. Até inventaram uma expressão, "não me acompanha, que eu não sou novela", que eu acho boa só em parte, já que só acompanho novela se for sob a mira de um revólver.

Para você ter seu sagrado direito de cuidar da própria vida sem nenhum cretino xeretando, a coisa ficou tão séria que até a Constituição usou um de seus artigos para garantir a todo cidadão o seu "direito à privacidade".

Golpes de estado, manifestações, ações na justiça, gerações inteiras queimadas na fogueira, cruzadas, filmes do Hitchcock, anti-virus e firewalls, aquele aviso no computador da sua empresa alertando que eles sabem o que você fez no RedTube na tarde passada, enfim, todo mundo lutando como pode em torno do tema "privacidade".

E é por isso mesmo que eu juro que não entendo porque você pega toda essa história, toda essa luta da raça humana, e joga na lata do lixo quando pega esse seu celular ou Nextel e fica por aí falando aos berros sobre o churrasco no final de semana, sobre seu exame de fezes ou sobre a confusão que deu quando a Martinha esqueceu a calcinha no seu quarto e sua namorada pegou.

Sério, dá um tempo nisso.

A noite vai ser boa, tudo vai rolar...

Postado em 29 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Conhece essa música? Aquela do "trocando de biquini sem parar". Pois é, se  tocar, pelo menos pra mim, a noite já não vai ser boa, porque eu não gosto dela, mas você pode gostar e aí a história muda completamente.

Gosto é uma coisa complicada e por isso mesmo chamar alguém pra sair é uma arte, aliás, nem é uma arte, é um perigo mesmo. Você em casa, sem nada pra fazer, torcendo pro telefone tocar e o que acontece? Ele toca! Quem mandou torcer? É um amigo do seu trabalho:

- Beleza? Estou te ligando pra te convidar pra vir aqui em casa, vai rolar um pagode fundo de quintal sensacional, com mocotó e cervejinha, não aceito um "não" como resposta, hein...

Viu só? Bem feito. Estudar análise combinatória não deve ser tão pior do que o programa que você arrumou. Mas pro seu amigo pagodeiro, tenho certeza que a batucada com sopa de pata de vaca deve ser a melhor coisa do mundo. Cada um dá um pouco, fazem as compras e é só "diversão".

Aí você se pega contribuindo com R$ 20,00 para um evento que você pagaria R$ 50,00 pra não ter que ir.

O legal é que o inverso também é verdadeiro, e isso te permite uma vingança sensacional.


Vá no tal pagode, finja que está se divertindo, chame aquela prima baranga cheia de Kolene no cabelo que ele vive querendo empurrar pra cima de você de "princesa", beba a cerveja quente como se fosse um Tanqueray com tônica, até bata palminhas na hora de um dos muitos "ôôôs", "êêês" ou "láláiás".

Comporte-se como se quisesse sair dali e dar uma esticadinha num baile da "Gaiola das Popozudas". Depois de meia hora, diga pra ele que vai ali e já volta e fuja o mais rapidamente possível.

Dali a uma semana será a hora da vingança. Retorne aquele telefonema, pergunte o que ele está fazendo, elogie o churrascão e faça o convite fatal:

- Tô ligando pra te chamar pra um festival de cinmema iraniano. Vai rolar uma maratona de 8 horas de filmes sobre tapetes persa e depois da palestra do Caetano vai ter um jantarzinho num bistrô vegetariano, não aceito não como resposta, hein...

Apareça já de ingressos comprados, se instale na cadeira, espere apagar as luzes e depois de uma meia hora diga pra ele que vai ali e já volta, e fuja o mais rapidamente possível, afinal de contas, o pagodeiro que merece ficar de castigo é ele.
 
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