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É pro seu bem

Postado em 20 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

O ser humano é egoísta. E violento. E auto-destrutivo algumas vezes. O ser humano é capaz de cada ignorância e idiotice que deixariam os asnos com vontade de entrar na justiça e pedir quebra de copyright. Mas se tem uma coisa que sempre foi motivo de orgulho para essa espécie naturalmente já tão orgulhosa, é o seu livre arbítrio.

Essa coisa esquisita e incômoda chamada liberdade. Só que do jeito que caminha tudo, é impossível não imaginar em como seria um passeio de sábado a tarde num futuro que nos espera ali na esquina.

Você sai de casa, mas antes confere se está usando filtro solar, afinal, aquele texto insuportável narrado pelo Pedro Bial virou lei. Pro seu bem, a Anvisa decidiu que ninguém mais poderia sair na rua sem um FPS 50.

Quem fosse pego em infração deveria participar de um programa de reeducação e, como punição, ter a sua cota mensal de Coca-Cola - que por engordar e fazer mal à saúde, onerando o contribuinte, agora tinha sua venda limitada a duas latas por cidadão - removida do cartão de racionamento.

Quando entra no elevador, percebe que o vizinho colocou muito perfume, coisa de quem não respeita a Lei da Camada de Ozônio. Anota um lembrete no celular para não esquecer de fazer uma denúncia anônima depois. Esse tipo de gente te deixa tão nervoso que dá até vontade de voltar a fumar, mas só vontade, afinal, você não é louco de ir parar na cadeia que nem aquele seu primo que cumpre 20 anos num presídio federal porque foi pego com um cigarro mentolado no bolso.

Foda, foi só falar em menta e deu vontade de tomar aquele sorvete delicioso que tem na praça de alimentação do shopping, mas aí você lembra que esse mês já tomou três e para tomar o quarto precisa apresentar o atestado médico e o termo de responsabilidade abrindo mão de atendimento pelo SUS em caso de diabetes e ambos estão vencidos. Vai ter que se contentar com uma das 20 lojas de alface e granola espalhadas pelo local.


É que depois que as prefeituras pararam de dar alvarás para cadeias de fast-food e pizzarias (faz mal à sua saúde e é pro seu bem), só é possível encontrar hortaliças e carne de soja em quase qualquer lugar, menos no mercado negro, onde são vendidos junto com emagrecedores que foram banidos em nome da cruzada para exterminar a preguiça, a indolência e a gulodice dos obesos.

Aliás, você precisa correr para completar seus 120 km de esteira ergométrica mensais, senão descontam 20% do seu salário conforme a "Lei da Atividade Física".

Mas não é hora de pensar em problema, você saiu de casa pra ir na festa de um ano do seu sobrinho e só quer se divertir.

Chegando lá, é quase impossível não sentir saudade da sua infância e daquelas festas com balões de gás, línguas de sogra e brigadeiros. Agora as festas não tem mais balões ( látex foi proibido em nome da sustentabilidade), nem língua de sogra (termo depreciativo para a progenitora do cônjuge dos seus pais), muito menos brigadeiro (muito chocolate, que aliás está em vias de ser proibido).

Numa roda as crianças brincam alegres, cantando a versão autorizada pela "Comissão para a Promoção da Virtude na Imprensa e nas Artes" de uma velha canção infantil:

"Não atire o pau no gato-to, porque isso-so, não se faz-faz-faz, o gatinho-nho, é nosso amigo-go, não devemos maltratar os animais. Miau!"

Você fica olhando aquilo com cara de babaca e apesar de só servirem canapés de kani, brigadeiros de açúcar mascavo e suco de clorofila, ataca as bandejas com voracidade, já que está sentindo uma grande "necessidade alimentar", termo que foi inventado para designar a velha fome sem que sua fome burguesa, branca e ocidental ofenda os povos oprimidos que realmente passam fome.

Isso porque antigamente diziam que a "fome é negra", mas se você falasse isso mesmo que fosse em tom de piada, terminaria enquadrado na Lei de Harmonia Racial.

Isso te deixa de saco cheio, já que no seu tempo o mundo não era tão paranóico. Mas se serve de consolo, pelo menos é tudo pro seu bem.

O dia que recriarem o mamute

Postado em 15 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Cientistas russos e coreanos resolveram unir forças para recriar o mamute. Esqueça qualquer outra necessidade do mundo atual, o importante mesmo é conseguirmos tirar o Jurassic Park das telas e, quem sabe, até ser devorados por algum T-Rex um dia.

Só que por mais que tal experiência soe bizarra, ela nos fornece material para muita imaginação, afinal, não faltam coisas que poderiam ser revividas num labotarório e que tornariam o mundo bem mais interessante do que a volta no Mamute, ou "mamofante", como os cientistas resolveram chamar o bicho (ainda que isso pareça mais o nome do último sucesso do carnaval baiano).

Pra começar, podiam trazer de volta a vergonha na cara. Porque nem as ombreiras, nem a pochete e nem o mullet (aquele cabelinho que o Chitãozinho e o Xororó usavam quando a Sandy ainda nem pensava em fazer comercial da Devassa e dos benefícios do sexo anal), ficaram tão fora de moda quanto a vergonha na cara.

Digamos que vergonha na cara seja o mamute dos costumes, junto com o senso do ridículo, que é o mico leão dourado dos costumes.

Uma outra coisa que poderia ser ressucitada é a infância. Sim, porque esses mini-adultos cheios de opiniões, vontades e iPhones de hoje em dia são chatos pra cacete. Meninas de 7 anos se preocupando com o peso e moleques de 8 dizendo que querem "comer a Sabrina Sato" não são engraçacinhos, são apenas um sintoma de que a humanidade - que já não é algo que tenha dado muito certo - conseguiu piorar.


E depois do surgimento de Elvis, dos Beatles, do flower power, psicodélico, punk, pós-punk, gótico, metal, britpop e afins, alguma boa alma científica poderia reviver o rock'n'roll, porque do jeito que vai não haverá material para produzir nenhum revival nas próximas décadas, provavelmente fazendo surgir coisas como o neo-neo-neo-grunge.

Outra coisa legal seria alguém libertar expressões como "licença", "por favor" e "obrigado", entre outras, de algum fóssil e trazê-las de volta à vida.

Porque imagina que legal seria aquela mulher com 237 sacolas de compras e um poodle dentro da bolsa passar correndo por você na calçada, esbarrar, quase te derrubar no chão e ao invés de dizer algo como "porra, sai da frente, seu cara de cu", falar simplesmente "desculpa".

Finalmente os cientistas podiam dar uma forcinha e trazer de volta algumas coisas que você encontrava em qualquer esquina antigamente e que já não existem mais, como os fliperamas, aquele cheiro de álcool quando imprimíamos algo num mimeógrafo e o chocolate Surpresa, que era tão legal que teve até uma série de figurinhas sobre os dinossauros.

Pronto, poderiam lançar um Surpresa-Mamofante, assim todo mundo ficaria feliz.

Eu tive um sonho...

Postado em 13 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Acordei num dia em que os tablóides de 0,50 centavos não traziam nenhum escândalo ou frase de duplo sentido estampados, a Luciana Gimenez resolveu fazer medicina na Universidade Estácio de Sá e abandonou seu programa de variedades, a turma do Pânico cansou de fazer sempre a mesma coisa e foi apresentar um programa sobre hermenêutica na TV Cultura e a novelinha Malhação saiu do ar, depois que um dos atores de sua primeira temporada teve o primeiro neto.

Era um Brasil diferente, o Magazine Luiza vendia estantes para livros e as crianças não entendiam como alguém um dia realmente pôde gostar de "Ai, se eu te pego", sem falar em micaretas, que hoje só podiam ser vistas no Museu do Mau Gosto, junto com uma reconstrução cenográfica da Gaiola das Popozudas.

Curiosamente, o brasileiro não ficou menos brasileiro por isso, continuava com essa tendência genética a falar alto e trazer sempre uma gargalhada histérica pronta para ser disparada a qualquer momento, mas pelo menos parou de consumir toneladas de entulho no café, almoço e jantar, o que já era grande coisa.

Tiriricas ainda passeavam pelo Congresso, afinal, velhos hábitos não morrem facilmente, mas o cidadão médio cansou de ver sempre a mesma coisa, num loop de "É o Tchan", "Rebolation", "Bonde do Vinho", "Brasil Urgente" e "A Fazenda".


Das novelas, sobrou só a das oito, mesmo assim a título de preservação do patrimônio, já que apenas senhorinhas que já passaram dos 70 anos ainda assistiam aquilo.

Diziam que foi algo que os americanos colocaram na água, alguns suspeitaram de vazamento na usina de Angra, mas o fato é que eu achei bem legal o que vi.

Mas o mais pitoresco, o que mais chamou minha atenção, foi a velha casa do BBB. Algumas pessoas moravam ali, paredes de vidro e pequenas passarelas guiavam os visitantes sobre aquele zoológico humano.

Alguns atiravam um contrato para a capa da Playboy para uma moça, que em troca fazia gracinhas dentro de uma piscina, tal qual uma foca ou um golfinho em troca de um peixe.

O impacto foi tanto, que tive que perguntar a uma daquelas pessoas que observavam o porque daquilo tudo, e a explicação mostrou que eu estava realmente sonhando:

- Sabe o que é, moço, é que a audiência do BBB caiu, ninguém mais votava em paredões, ninguém comprava o pay-per-view, então resolveram tirar o programa do ar, só que esqueceram os BBBs presos aí dentro da casa.

- Que isso, e ninguém soltou?

- Nada, o Eike Batista comprou a casa de porteira fechada, com os participantes dentro e tudo, cercou e começou a cobrar ingresso, dizem até que foi por isso que passou o Carlos Slim como o homem mais rico do mundo.

Pra tudo existe solução, menos...

Postado em 6 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Relacionamentos não são fáceis, e isso não é novidade para ninguém que tenha mais de 7 anos e já tenha vivivo aquele amor infantil que te transforma num mini-psicopata que enforca as Barbies da menina por quem está apaixonado, só para chamar a atenção.

Se você notar, a história da humanidade é repleta de casos de homens baixotes querendo mostrar potência para suas amadas através de guerras mundiais, cheia de traições, de reis abdicando de tronos em favor de suas amadas e até uma igreja inteirinha (com padres, bispos e tudo) fundada só porque um Papa não quis autorizar um divórcio.

Além disso, todo um comércio que vai desde presentes nos dias dos namorados (aliás, dizem que casamento é tão bom, mas não existe um "dia dos casados", já percebeu?), sexshops, alianças de compromisso, noivado e casamento, enxovais e, lógico, advogados de partilha de bens é movimentado pela busca do ser humano pela sua metade da laranja, pela chave do seu cadeado, pela tampa da sua panela, pelo chinelo velho do seu pé cansado e, bem, chega, meu estoque de analogias bregas acabou e acho que você entendeu meu ponto: muito dinheiro também rola em torno do amor, não só o dos golpes do baú.


Sem contar a indústria de beleza com suas máscaras faciais, depilação a laser, academias, cremes, perfumes, produtos para metrossexuais (não interessa aqui se "sexo oposto" pra eles é fazer gol contra), escovas definitivas, tinta de cabelo, botox, tudo, sem exceção, com um único propósito: conquistar alguém, consumir qualquer um, nem que seja uma consumação mínima.

Some-se a isso boates, bares, músicas românticas, bem, já deu para perceber como além daqueles movimentos da Terra que a gente aprende na escola e eu não me lembro agora, amor e sexo também fazem o planeta girar (e nem me prendi falando sobre a profissão mais antiga do mundo).

Mas com tudo isso, toda essa busca, esbarra em problemas quase inexpugnáveis. Se o cabelo é muito crespo, você alisa, se é muito liso, faz permanente. Se tiver bafo, faz tratamento, se for brocha, toma Viagra. O gordo emagrece, o magro toma bomba, ou seja, para quase tudo existe uma solução.

Mas duas coisas me incomodam profundamente: como namorar alguém com voz chata e nome feio? Porque, por mais que você tente, jamais vai conseguir beijar o tempo todo, 16 horas por dia descontando as 8 de sono profundo, só pra não deixar o outro falar. E muito menos vai convencer a pessoa a ficar calada para sempre.

Mas isso nem é o pior. O pior mesmo é chegar num almoço de família e apresentar sua namorada:

- Galera, essa é a Querjinete Patrícia.

Sério, não rola.

Se você tiver que ir para a PQP, tente pelo menos não ir de excursão

Postado em 28 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

A princípio toda viagem em grupo parece uma boa idéia. Seja o pessoal da faculdade, alguns velhos amigos ou mesmo aquela excursão.

Viajar com uma turma pode garantir que você terá sempre companhia para fazer um passeio, para dividir dicas sobre lugares transados e até para se perder num país de língua estranha e placas escritas em alfabeto cirílico. Uma excursão ainda te garante a tranquilidade de não se preocupar com nada, já que eles te buscam no aeroporto, te levam pro hotel, organizam seus passeios e dizem até os horários que você pode ir ao banheiro.

E aí é que a teoria inicia uma briga conjugal com a prática, porque convenhamos, essas viagens em grupo possuem todos os problemas de um casamento - debates sobre ir a um restaurante de massas ou um japonês, diferenças de temperamento, gostos distintos, tensões de uma convivência prolongada, aquela obrigação de ir junto ao mesmo lugar - sem ter nem pelo menos o sexo como compensação, o que nem é de todo ruim, se você pensar naquele casal de cabelo azul comemorando bodas de ouro que está na sua excursão no meio de um bacanal num ônibus fretado.

Os seres humanos são tão diferentes que podem transformar até um passeio na Europa ou no Caribe num inferno para seus semelhantes. Existem os que acordam cedo, os que dormem tarde, os que gostam de aventura, os que preferem programas sossegados, tem quem curta uma loja de eletrônicos, outros preferem um sexshop com dançarinas búlgaras e dromedários, enfim, é difícil atingir qualquer consenso racional, mesmo que não seja sobre nada tão radicalmente oposto quanto chegar até uma praia deserta confortavelmente num Land Rover com ar-condicionado ou descendo de rapel no meio de uma área infestada de tubarões.

Pense bem: você passou a noite numa rave em Barcelona, foi dormir às 8:00 da manhã e depois de 27 doses de alguma coisa misturada com gelatina que te fez achar uma versão de Chitãozinho e Xororó em romeno o maior barato, a única coisa que deseja é dormir.


Mas de repente seu colega de quarto te acorda para fazer uma caminhada e conhecer obras de Gaudí ao ar livre. Porra, seu amigo é gente boa, Gaudí é o maior barato, mas fala sério. E sim, isso estraga um pouco a viagem dos dois.

O mesmo acontece com aquela sua namorada viciada em informática, que depois de passar três dias contigo só visitando museus em Nova York resolve dar um xilique no meio da exposição do Andy Warhol:

- Chega dessas viadagens de latas de sopa e Marilyns coloridas, quero ir na Apple Store agora!

Mas ainda pior é estar num city tour com gente que só tem um interesse: comprar. Vão no Museu do Tubarão? Azar dos tubarões, eles querem é comprar golfinhos de pelúcia. Está no estádio do Barcelona? Problema seu, eles querem é comprar canetas oficiais do time para presentear os amigos do trabalho. Foram numa vinícola no Chile? E daí? Eles querem mesmo é saber onde está a lojinha que vende sabonetes com aroma de prosecco. Está diante de um Van Gogh? Porra, eles querem saber é onde podem comprar 20 Moleskines. E como geralmente guias turísticos ganham comissão por vendas, você ainda corre o risco de ouvir absurdos como:

- Chegamos em "El Caminito", local onde nasceu o tango, vocês terão 15 minutos para conhecer tudo e depois vamos para um passeio de duas horas no shopping.

Dá a maior vontade de mandar todo mundo pra putaquepariu. E de excursão.

Tenha muito respeito por quem tem o poder de cuspir na sua comida

Postado em 16 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Uma decisão que eu tomei há muito tempo é a de jamais mandar um prato de volta para a cozinha num restaurante.

O bife mal passado pode estar tão cru que vem com pêlos e mugindo, a comida pode ter uma aparência menos apetitosa do que uma tijela de Bonzo, mas eu jamais, sob hipótese alguma, chamo o garçom e peço pra levar de volta e trazer do jeito que eu queria.

Um garçom nada mais é do que um atravessador. A sua existência se baseia no fato de que um cliente não deseja ir até a cozinha do restaurante, abrir as panelas e pegar sua própria comida, como se estivesse na casa da sua tia num almoço de final de semana. Ele está ali para nos fazer sentir importantes, para dar a ilusão de que aquele almoço de terça-feira é um repasto imperial e, claro, para nos tomar 10% no final.

Outra função é evitar que você conheça as entranhas do restaurante. Notou como usei o termo "entranhas", que não remete a algo propriamente aconchegante? Sim, porque apesar daqueles avisos que dizem que a cozinha está "franqueada para a sua visita", acredite, na maioria das vezes ela não está.

E acredite também que nem você gostaria de fazer essa visita. Imagine a cena - não totalmente impossível - do cozinheiro com um esparadrapo no polegar, um avental mais sujo do que macacão de gari, monocelha, camiseta regata, suando e coçando a orelha com uma tampa de caneta Bic enquanto mexe num caldeirão de sopa. Perdeu o apetite, não é? Está aí mais uma explicação para a existência do garcom.


  É aí que começam seus problemas (e os dele). Como já disse, o sujeito que serve a sua mesa é um intermediário. Ele vai até você, fica sabendo o que você precisa, vai até a pessoa que fornece o que você precisa e volta trazendo o que você precisa, ou seja, a comida.

Ele não está na sua cabeça para adivinhar que você gosta do seu peixe fresco, mas não tão fresco a ponto de vir num balde nadando, e não faz a sua comida, a ponto de ter culpa porque o seu omelete não veio tão bonito quanto o da foto do cardápio. Mas como é a parte visível de tudo o que ocorre longe do seu olhar, ele é que vai ouvir seus desaforos.

Isso sem contar clientes que dão xilique por tudo:

- Nunca fui tão humilhado na minha vida! Pedi calda de chocolate e colocaram de caramelo!

Numa situação dessas, você estará lidando com a frustração de alguém que não fez a cagada (no caso a comida), mas que está levando toda a culpa pelo ocorrido. Não esqueça que ele não pode te mandar para onde deseja, já que o cliente "tem sempre razão", nem brigar com o cozinheiro, que pode ostantar um título de "chef" ou pelo menos andar com facas por aí o dia inteiro, o que o transforma em alguém com quem não convém muito se meter.

Por isso, durante todo o trajeto de volta para a cozinha, o garçom estará puto, chateado e sem tempo para uma sessão de análise onde descarregaria toda a sua raiva. O que sobra para ele então?

Sua comida. Já se perguntou o que pode acontecer com ela numa situação dessas? Vai por mim, de tudo o que já imaginei, cuspe é lucro.

Por isso um conselho - que se fosse bom venderiam - mas que te dou mesmo assim, sem nem cobrar gorjeta: jamais irrite um garçom.

Porque fotografar comida não é um pecado capital, mas pode ser evitado

Postado em 14 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Já notou como ninguém normal chega no motel, tira foto da outra pessoa e posta no Facebook, mas curiosamente vivem fazendo isso com o que vão comer no restaurante? Basta navegar um pouco pela internet que você nota como, às vezes, tudo se parece com um "caiu na net" gastronômico.

Entre chamar os outros de porcos enquanto joga lixo no chão; alimentar, dar banho e sair por aí catando as fezes de um animal e ainda assim dizer que é seu "dono", frequentar micaretas e tirar fotos na frente do espelho do banheiro, com certeza fotografar comida seria um hábito humano passível de estudo por alienígenas. Eles se perguntariam em desespero "porque eles fazem isso, porque?".

Como não sou um E.T. (pelo menos eu acho) confesso que já caí nessa muitas vezes (ainda hoje tiro muitas fotos de comida), mas tenho procurado evitar, porque o melhor da comida é mesmo o gosto, logo em seguida vem o cheiro, a aparência ajuda, claro, mas numa foto sempre vão faltar dois dos três elementos principais do prazer da comida.

Lógico que queremos eternizar momentos, deixar uma lembrança pelo menos visual daquele gosto que pode nunca mais ser o mesmo, porque podemos não voltar mais ali, o lugar pode fechar, podem tirar aquela bomba de maracujá de linha, algum acidente com radiação pode te fazer só sentir gosto de biscoito Trakinas em tudo - seja uma picanha ou um biscoito Trakinas - mas o que explica fotos de coxinhas de galinha, mistos-quentes e pratos de arroz com feijão?


E ainda que popularizassem um cinema 5, 6 ou 7D, com cheiro e tudo - o que sempre me causa certo nojo quando penso em filmes de zumbis - não seria aquele Mc Lanche Feliz que estaria em cartaz, não é? Porque assim como ninguém compra um ingresso para assistir "Aniversário do Pedrinho 2 - O Retorno do Animador de Festas", não creio que alguém pagaria um ingresso do tal cinema com aromas para assistir "Tentativas de Bife Acebolado da Tati - A Saga do Arroz Queimado".

Assim como grandes diretores, somente grandes "chefs" apareceriam no cinema, então, continua a dúvida: pra quê fotografar comida e colocar na internet?

Some-se a isso o fato de geralmente pedirmos comida quando estamos com fome, o que torna ainda mais inexplicável essa auto-tortura de atrasar sua degustação para tirar uma foto. É como ter sede, abrir a geladeira mais esbaforido do que um pastor alemão na praia, pegar um copo d'água e dizer:

- Não, pera aí, vou tirar uma foto porque esse é um belo copo d'água.

E se você não faz isso com água, não deveria fazer com um brownie. Porque assim como aquela pessoa que você leva pro motel faria se você parasse de dois em dois minutos para tirar uma foto, se o brownie falasse, certamente ele te diria:

- Me come logo, e esquece a porra da foto pro Facebook.

A menos, é claro, que vá você, a pessoa, o brownie, um sorvete, cenourinhas americanas e uma melancia, mas aí já seria um bacanal gastrômico e uma foto seria ainda mais inaceitável.

A história de uma ação de anti-marketing muito bem sucedida

Postado em 9 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Todos os dias milhões de profissionais do marketing fazem de tudo para conectar a marca do seu cliente às exigências do mercado. Pesquisas qualitativas, testes, amostras grátis, enfim, toda aquela atenção, competência e uma boa dose de puxa-saquismo sem os quais é praticamente impossível fazer sucesso na vida.

Mas assim como tem gente que dá sorte ganhando na Mega Sena, nascendo ou, derradeira tentativa, casando, existem pessoas que fazem tudo para que sua forma de ganhar dinheiro dê errado e no final acabam dando certo (e nem estou falando de alguém que compõe algo como "Ah, Moleque!" ou a "Dança da vassoura", com versos tão poéticos quanto "me diga aonde você vai, que eu vou varrendo" e fica rico com isso).

E num sábado, num pequeno bar comandado por seu dono e único funcionário, Zé Barba, que usava um tapa-olho de pirata que nunca descobrimos se era por necessidade ou só para assustar os clientes, conheci a maior ação de anti-marketing da história (pelo menos da minha história).

- O que é aquilo naquela garrafa no canto?

- Ah, é uma merda aí que eu fiz, deixa pra lá que é um lixo.

- Mas porque você mergulhou aquela planta numa garrafa de cachaça?

- Não é planta, é boldo, e não é cachaça, é vodka, whisky, campari e conhaque. Ah sim, tem um resto de cachaça ali também.

- Porra, você saiu misturando tudo pra que?

- Tava cheio de bebida quase vazia aqui e eu quis jogar fora, fui despejando tudo naquela garrafa Pet e joguei um boldo pra ver se dava uma cor.

- E deu, uma cor de bosta.

- Foi o que eu disse no início, é uma merda.

- Mas qual é o gosto?

- E você acha que eu sou maluco de provar isso? Só ficou ali porque eu esqueci de jogar a garrafa no lixo, mas se quiser experimentar, é 10 reais.


Não arrisquei dar um gole naquilo, ainda mais tendo que pagar, mas uma semana depois, quando voltei lá (até hoje não sei porque a gente voltava naquele lugar, que ainda vendia Crush, coxinha de galinha com osso e ovo cozido colorido), fiquei assustado: o tal lixo vendia mais do que KY em casa de swing.

- Não acredito que você realmente esteja vendendo isso.

- Eu não acredito é que tenha otário que compre - disse ele, enquanto enchia o copo de um dos otários - mas esses idiotas dizem que o boldo previne a ressaca.

- Será?

- Como eu vou saber? Tenho nojo de beber isso, mas já vendi umas 10 garrafas só hoje.

Enquanto isso, um sujeito vira pra mim e diz:

- Ele só fala mal pra deixar a pessoa curiosa e acabar provando.

- Mas é bom?

- Não, é uma merda, mas eu continuo trazendo meus amigos aqui pra eles cairem nessa também...ah sim, a história da ressaca é verdadeira, você acorda bonzinho no dia seguinte.

- Acho que é porque passa mal na véspera, né?

Silêncio.

O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)

Postado em 2 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Mais do que um tsunami, do que os juros do cartão, muito mais do que o Jason para um casal que foi transar no meio do mato num local deserto (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?), o que eu tenho medo mesmo é de mudança.

Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.

E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.

Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".

Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.


Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).

Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.

E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:

- Esse é o apartamento reformado?

- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?

- Embaixo do monte de entulho?

- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.

- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?

- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.

- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?

- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?

- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.

- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.

- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.

- Só que pelo que você pode pagar, dois quartos real mesmo só se for no subúrbio ou numa comunidade, aliás, tem uma casa alugando do lado da casa da moça pendurando roupa no varal, quer dar uma olhada?

E pra completar, bem, digamos que você encontre algo que possa pagar e morar sem passar as noites dormindo como um bebê:  acordando de duas em duas horas e chorando enquanto se pergunta "porque eu?".

Ainda vai precisar arrumar os fiadores, o seguro, todas as cópias de seus documentos incluindo a certidão de batismo e a carteira do Clube do Mickey, além de um testemunho de idoneidade prestado por um tabelião, um delegado, um fiscal da receita, um sósia do Elvis e um rabino.

Pensando bem, acho que agora sei porque todas aquelas pessoas nos filmes vão parar no meio do mato.

Viaje sem sair de casa

Postado em 27 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

De vez em quando eu cismo com isso e ainda que procure não pensar no assunto ele sempre volta à minha cabeça: brasileiro que viaja para o exterior e vai comer em restaurante de comida brasileira merecia ser deportado no ato.

Lógico que se você estiver curtindo uma temporada de 10 anos prospectando petróleo na Sibéria, é normal que sinta saudades de uma farofa, um bife acebolado, um biscoito Torcida. Mas viajar 5, 10, 15, 20 dias que seja e ficar ansioso porque está sem o seu "feijãozinho" é caso de polícia. Polícia mesmo, sério.

Uma vez durante uma viagem passei no avião por uma mulher vestida com a camisa da Seleção, agasalho do Comitê Olímpico Brasileiro, boné com a bandeira e desconfio que se os avisos não mandassem desligar os celulares o dela tocaria "Todos juntos vamos, pra frente, Brasil!". 

Nada contra a pessoa gostar do próprio país (ainda que em se tratando do Brasil eu não entenda a maioria das coisas que as pessoas gostam), mas precisa sair pelo mundo fantasiado de bonecão do posto em época de Copa do Mundo?

Não adianta, tem gente que é xarope mesmo, pode ir para Roma, que não faria diferença alguma se fosse para São Gonçalo ou Arraial D'Ajuda. O cara viaja, mas vai ouvindo funk. Sai pra comer e procura uma feijoada. Vai beber e pede caipirinha. Entra no Louvre, mas diz que espetáculo mesmo é o desfile na Sapucaí.

Mas como esse pessoal têm todo o direito de viajar ao exterior e continuar se comportando como se estivesse em Banânia, nada melhor do que criar alguns serviços para eles, não é? Imagina só: o cara viaja 4 dias para Buenos Aires mas chora como um bebê com saudades de ouvir um vizinho tocando um funk nas alturas, sente falta de olhar um morro e não ver lixo e nem barracos, quase se mata porque não acha um flanelinha sequer pedindo dinheiro.




Mole, basta construir uma rede de parques temáticos chamada "Favelaland", com tudo o que tem direito: churrasquinho de gato, cerveja Schin e um grupo de pagode fazendo show na beira de uma vala negra. E para honrar a prestação de serviços da terra natal, os brasileiros ali pagariam caro para ser mal atendidos.

Até os gringos poderiam aproveitar a experiência, conhecendo de perto como é a sensação de viver no país do samba, futebol e Carnaval. Gigantescos aquecedores manteriam a temperatura dentro do parque oscilando entre 40 e 45 graus, naquela temperatura de cloaca bem ao gosto do "país tropical".

Um corredor de barraquinhas de camelô recepcionaria os visitantes, todas vendendo tênis Mike, camisas Abidas, agasalhos Pumma e bermudas da Holimpikus. Logo em seguida cachorros-quentes "podrão", suco Hula Hula, pipocas com toucinho e peles de porco. Uma vez por dia (logo após o desfile diário das escolas de samba) haveria uma chuva artificial que causaria uma enchente totalmente planejada e o visitante ainda ganharia uma leptospirose de brinde.

Para completar a experiência todos teriam acesso à prestação de contas da construção do parque, que obviamente teve obras atrasadas e superfaturadas. Na saída, todos pagariam entrada novamente, afinal, carga tributária escorchante também é "coisa nossa".

No final todo mundo sairia feliz: os gringos porque tudo não passaria de um programa de índio de um dia, a brasileirada porque não precisaria sentir saudades de casa e pessoas como eu, que não precisariam esbarrar com esses tipos quando estão viajando por aí.

Não é uma boa idéia? 

Você é o que você come.

Postado em 20 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Não, este não será um texto que exaltará os benefícios da alface sobre a picanha e nem vai te recomendar que coma bifes de soja.

Acontece é que faz tempo que tenho essa obsessão: tentar decifrar as pessoas através da comida. Acredito realmente que você pode descobrir traços da personalidade alheia simplesmente analisando o que ela pede para encher a pança.

Por exemplo, você sai para jantar numa churrascaria com a rapaziada da faculdade, chegando lá um dos presentes dispensa cupins, maminhas e costelas bovinas para se dedicar ao sushi, às saladas e à sessão de palmitos. Pode ser exagero meu, mas esse cara será zuado pela turma.

O mesmo é chegar num jantar vegetariano (sim, todos têm inimigos que os convidam para esses eventos) carregando numa marmita um sanduíche de leitão. Não vai pegar bem com certeza. E, por favor, não invente agora um "preconceito alimentar" que eu te jogo como alimento aos leões.

Certas comidas também denunciam a sua classe social. Se eu te disser que tem um sujeito comendo um canapé de patê de lagostin com creme de endívias e um outro comendo um cachorro quente com ervilhas, milho, requeijão e purê, qual dos dois você vai achar que é um almofadinha cheio de dinheiro e qual você vai achar que está num ponto esperando a Kombi?

Numa rodoviária, qual a chance de você encontrar uma loja que veja macarons, marrons glacê, cupcakes, canapés e suco de toranjas e qual a chance de encontrar coxinhas de galinha feitas na época em que o Geisel era presidente? A menos que você esteja na França, pode acreditar que você vai comer é a coxinha do Geisel.


O espanto com qualquer coisa diferente disso seria o mesmo de encontrar uma barraquinha do Angú do Gomes na Trafalgar Square.

Uma vez eu estava com uma namorada num desses botequins enfeitadinhos (que servem banana split e tudo) e resolvi pedir um chopp e um milk-shake. Quandoo garçon chegou, entregou o chopp pra mim e o milk-shake pra ela automaticamente, só que a pinguça era a menina.

Mas o pior foi a cara de espanto dele quando trocamos os copos, fazendo aquela expressão do tipo "esse aí deve achar que dois brothers se alisando na sauna não tem nada demais".

Beber sucos orgânicos, tipo aquelas coisas com clorofila também me fazem pensar que a pessoa não usa desodorante é acha que depilação é contra a natureza, mas pior mesmo são os cardápios frescos, tipo suflê de alho poró com creme de aspargos, pêras flambadas, patê de trufetas e chá de lima. Eu leio uma coisa dessas e já imagino que vou entrar no cheque especial e que o maître em algum momento virá defender as propriedades eróticas da massagem na próstata.

Mas definitivo mesmo foi um caso que eu jamais esqueci: assistindo um programa de televisão, vi um jogador de futebol comemorando um contrato de milhões de dólares. Fazendo um churrasco. De espetinhos. Igual esses de camelô. Você imagina isso? Comemorar seu primeiro milhão com um churrasquinho de gato e tubaína?

Por isso eu digo: é até possível o churrasquinho de gato sair da pessoa na próxima ida ao toalete, mas jamais ele sairá da alma.
Você é o que você come.

Caixa de Manzanas

Postado em 2 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Nunca entendeu direito a fixação dos filmes antigos pela chegada de carteiros.
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.

Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.

Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.

A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".

Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.

Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.


Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.

Mas finalmente o carteiro passou, depois de longa e dolorosa espera. Tantas noites sem dormir querendo uma notícia, tanta angústia e ansiedade sem uma palavra de consolo sequer.

Mas agora o sofrimento finalmente acabara. Viu seu nome escrito e nesse momento soube que sim, era real. Não era de conto de fadas, não era uma simples ilusão de felicidade, uma promessa vazia, um pote de outro atrás do arco-íris.


Segurou com força aquele embrulho e depois o abriu correndo, rasgando apressadamente seu próprio nome escrito no papel, o coração palpitando, a respiração acelerada.

Mas a espera compensou. Não seria mais uma dessas pessoas que passam a vida suspirando, imaginando como seria se tudo fosse diferente. Se esforçara, dera o melhor de si, acreditara em seu potencial e agora a recompensa estava ali, bem diante dos seus olhos.


E mal podia acreditar ao ler palavras tão emocionantes, palavras que nem todo mundo consegue ler em uma vida inteira, talvez as mais lindas que jamais lera na sua existência:

"Designed by Apple in California".

Surfista maneiro, adolescente de comercial

Postado em 15 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Outro dia um amigo meu disse que não entende porque o Facebook traduziu o seu botão "like" (aquele que sinaliza quando uma pessoa gosta de algo que vê no perfil de outra) como "curtir" ao invés de "gostei".

Esse "curtir" fica parecendo propaganda de leite achocolatado, com um monte de adolescentes dizendo de maneira forçada coisas como "curti muuuito essa manobra meeeeu".

Isso me fez pensar no porque de todo adolescente de comercial soar assim, como diria, tão idiota mesmo.

Porque apesar de parecer impossível, jovens em propagandas parecem ainda mais retardados do que na vida real, afinal de contas, quem vira pra um amigo e manda coisas como "noooossa, que rrrampa irada caaaaara!"?

Sério, ninguém que não tenha sido exposto à radiação acorda de manhã e solta um "mãe, quero devorar um sucrilhow"?

É um fenômeno, aliás, que não é só restrito à adolescentes e comerciais de TV. Quase todo filme, seriado, novela ou coisas do gênero sempre mostra gangsters, surfistas, lutadores, universitários, etc, de uma forma, no mínimo, constrangedora.

Eu sempre lembro dos personagens do filme "Menino do Rio" ou do seriado "Armação Ilimitada" , todos surfistas que só falavam coisas como "auê, brother!" ou "nuossa, que onda chocante!". Ainda era criança na época, mas já ficava imaginando se para surfar bem era preciso fazer lobotomia ou algo assim.


Mais ou menos como pobre/favelado ou bandido/favelado de filme, que não acerta uma concordância, quase como se isso fosse uma imposição genética e também não consegue dizer uma frase sequer que não contenha um "caralho" ou "porra", ainda que o contexto não permita tal construção.

- Bom dia, tudo bem, porra?

- Bom dia, caralho!

- Quer pão com manteiga ou sem manteiga? Porque não tem mais nada pra comer.

- Sem manteiga, caralho.

Não dá pra levar a sério, nem sob a mira de um revólver cenográfico.

Bizarros também são esses diálogos de teatro ou filmes de época que colocam todo mundo falando na terceira pessoa, como se Romeu e Julieta fossem pular do alto de uma árvore a qualquer momento e distribuir veneno para a platéia.

Certa vez conheci uma garota que falava assim, na vida real. É sério.

Imagine como era esquisito até o osso ouvir coisas como:

- Ligue-me mais tarde, estarei na festa do Fulano, se fores, avisa-me.

Uma vez quase respondi :

- Claro, guardarei o número de vosso telefone com zelo na minha algibeira.

Mas tudo bem, enquanto eu não falar que nem adolescente de comercial, estou mantendo a dignidade.

Carioca way of life

Postado em 12 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Nasci na cidade errada. Muito antes das pessoas que me conhecem pronunciarem esta sentença, eu já sabia lá no fundo que, ainda que goste de muitas coisas do Rio de Janeiro (talvez nem tantas, talvez muitas por hábito), eu não possuo no "âmago do meu ser" o carioca way of life.

Acho que descobri isso mais ou menos na época em que admiti preferir sentir frio e me agasalhar do que cultuar uma estação onde você sua e passa calor 24 horas por dia, como é o escaldante (e adorado) verão da "Cidade Maravilhosa".

Esse negócio de Cidade Maravilhosa também ajuda a denunciar minha dissidência carioquesca. Não concordo absolutamente com este título, muito menos com o tal de "cidade mais linda do mundo". Porque? Quem decidiu isso? A pessoa que diz isso já conheceu o mundo inteiro, cidade por cidade, para saber?

Claro que a visão do Redentor sobre a montanha, da Enseada de Botafogo coalhada de barcos e do litoral deslumbrante com uma cidade apertada entre o mar e os morros é bonita, mas o problema é que se você desviar o olhar em meio grau verá que o resto dos morros é tomado por barracos, se chegar perto sentirá o cheiro de podre da água da Enseada e se resolver pegar sol numa das belas praias, pode terminar sem a bolsa ou a carteira.

E aí entra outra diferença minha com o carioca way of life, que é o fato de todo carioca legítimo, o tal "da gema" saber que a cidade é suja, caótica, cheia de mendigos, flanelinhas, favelas, camelôs, tudo que é tipo de praga urbana, mas se tomarem de dores quando alguém resolve falar disso.

"Pera aí! Toda cidade grande tem problemas!" é o bordão preferido. Concordo, toda cidade tem problemas, mas o Rio de Janeiro parece querer resumir todos os problemas numa cidade só.


Tirando isso, outra coisa que me afasta de ser um carioca legítimo é não curtir aquela coisa do "mermão", do "bora pro ensaio do bloco?" ou "eu curto um samba no pé". Não sou Flamengo, acho a Mangueira um porre, blocos de Carnaval pra mim são ajuntamentos de desodorante vencido, não curto essa coisa de bancar malandro ou de achar que o resto da população do Brasil se resume a otários, caipiras e viados que morrem de inveja das minhas praias.

O que é irrita também é a "vida cultural" que o Rio de Janeiro possui. Dizem que é a capital cultural do Brasil, tudo bem, pode ser, mas a diversidade não é o forte. A noite carioca é feita literalmente para inglês ver.

Botequins com sambinha, feijoadas com sambinha, bares com sambinha e sambinhas com sambinha. Quem não curte essa coisa de Lapa-Havaiana-no-pé-calcanhar-sujo sofre para encontrar o que fazer.

Claro que existem exceções (senão a não daria pra habitar aqui nem mesmo sabendo que minha família inteira está na cidade), mas para a grande maioria dos cariocas a idéia de cultura, moda e diversão se resume a sambinha na Lapa, feijoadas musicais, hippies vendendo pulseirinhas, funk-favela, coisas feitas com garrafas PET, pessoas batendo em latas, coisas feitas com coisas recicladas, artesanato ameríndio-africano-colorido-mu​derno, capoeira e, claro, jongo em Santa Teresa.

Essa coisa de adoração por favela aliás é um parêntese dos grandes. Filmes sobre favela, músicas de favela, instalações em centros culturais mostrando barracos (como se fosse possível viver aqui sem ver montes deles), excursões de turistas para favelas, etc, etc, etc. Não dá pra engolir.

É complicado aderir, mesmo pra alguém que nasceu na cidade.

Aí quando resolvo dizer estas coisas, me chamam de baba-ovo de paulista, de reclamão, dizem que isso é porque eu não como ninguém ou porque eu quero é que me comam (dependa da imaginação do interlocutor), xingam e não conseguem entender como alguém pode falar mal de coisas assim, tão, como diria, "maravilhosas".

Nessa hora me solidarizo com baianos que não gostam de axé, pernambucanos que não gostam de frevo, russos que não gostam de vodka e até americanos que resolvem se alistar no Talibã.

A turma errada

Postado em 10 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Todo mundo conhece uma turma errada.

A turma errada é errada e pronto. Não é questão de opinião, de gosto, nada disso. E ainda que seus participantes se achem na turma certa, acredite: não são.

Eles são reconhecíveis à primeira vista, quase como a gostosa do pedaço. A turma errada é praticamente uma reunião de ombreiras e pochetes, de tão errada que é.

Playboys, surfistas, posers, góticos, esquerdistas militantes, cada um na sua, mas com algo em comum: o erro. E não confunda com conceitos, porque isso não tem nada a ver com a história.

Um jamaicano de dreadlocks e camiseta do Bob Marley no meio de um show do Iron Maiden à primeira vista pode ser considerado um erro, mas se você pensar melhor vai concluir que tudo é música, que ainda que curta um reggae nada o impede de gostar do Iron e que, se ao invés de estar no meio de um monte de metaleiros de preto ele estivesse no meio de um monte de rastafaris, ele jamais seria um erro.

A turma errada é errada em qualquer contexto. Não tem possibilidade de estar certa nunca.


Por exemplo: um playboy num carro rebaixado, cantando pneu, ouvindo trance aos berros, usando um cordão de prata da grossura de uma corrente de bicicleta no pescoço, pronunciando a cada minuto coisas como "uhuuuu" e chamando até a namorada de "brow", é um equívoco sobre pernas ainda que more num país imaginário chamado Babacolândia.

E o que dizer de metaleiros adoradores de satã que se cumprimentam com frases do tipo "infernais saudações!"? Esse pessoal que vai passear em cemitérios e beber vinho de 1 real, que colocam aquela maquiagem de zumbi até para ir tomar um açaí na esquina e frequentam shows de bandas com nomes tão sugestivos como  "Funeratus", "Putridus" ou "Carniça".

Passar a vida esperando pelo momento em que sua alma "descansará eternamente nos bosques frios" (e nórdicos), enquanto se dedica à curiosa arte de não comer ninguém a não ser alguma daquelas "minas true" que adoram cabeludos e são mais conhecidas onde moram como "aquela gorda wicca" definitivamente é um erro.

Surfistas que só falam com vogais - "aí, ó, ó o auê aí" - e revolucionários Mc Donalds (sabe aquela coisa de lutar contra a burguesia e o imperialismo mas sem dispensar um McLanche Feliz?): erro, erro.

Góticos vestidos de corset fazendo pose de vampiro? Adultos fazendo cosplay? Erro.

Turma de academia? Torcida organizada de futebol? Show de bola e de erros.

Me recuso a falar de funkeiros, pagodeiros e micareteiros pelo simples fato de que estes são um erro em turma ou mesmo desacompanhados.

É claro que você pode até discordar de mim, dizer que isso é questão de opinião sim e que estou sendo babaca, preconceituoso e rotulador. Como resposta só o que posso fazer é te mandar ir procurar sua turma.

Mas não se iluda, provavelmente será alguma turma errada.

Post com clara inspiração no blog: http://turmaerrada.blogspot.com/

Rock in Rio (ou não)

Postado em 11 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Recorrer já no título a algo supostamente dito pelo Caetano Veloso é apelação, mas fazer o que? O assunto merece.

Não sou crítico musical, então não possuo aquela isenção (cof-cof), conhecimento (cof-cof) ou bom gosto (cof-cof-cof) para pretender que o que vou dizer aqui é uma verdade absoluta, mas fazer o que? Eu tenho esse péssimo hábito (pelo menos no Brasil) de ter opinião, então vamos lá.

Sempre achei estranho o "Rock in Rio" acontecer em Lisboa durante muitos anos. Nada contra a pátria-ancestral, nada disso, mas porque não Rock in Lisboa? Tudo bem, os gênios do marketing me explicaram que se tratava do uso de uma marca conhecida e por isso o nome.

Aguardo ainda, é claro, o Glastonbury-Itu, o Parintins-São Paulo e a São Silvestre-Copacabana (sei que isso pode ser contestado, mas não iria perder a piada).

O fato é que finalmente o festival com o nome do Rio de Janeiro voltou ao Rio de Janeiro, o único problema é que quando resolve fazer isso, só traz o "in Rio", porque parece que o "Rock" ficou esquecido em Lisboa.

Porque vamos lá, quando vi no lineup do festival nomes como Maria Gadú, Rihanna, Cláudia Leitte, Ivete Sangalo, Monobloco, Martinho da Vila, etc, etc, juro que pensei que era o Domingão do Faustão.

Outros nomes como Guns'n'Roses, Lenny Kravitz, Frejat e Mike Patton também me passaram a impressão de que estes artistas dependem mais do Rock in Rio para viver do que a cantora Simone depende do Natal.

Nem o Metallica, o Motörhead ou o Coldplay servem para limpar muito a barra, porque estão entremeados por coisas que até são rock, mas não são, tipo NX Zero e Móveis Coloniais de Acaju.

Não sei o que houve com aqueles festivais de rock que tinham um único palco e sua principal atração era mesmo o bom e velho rock'n'roll.

Esse Rock in Rio de agora parece mais algo voltado para "world music", para pessoas "ecléticas", para quem "quer ver e ser visto", um clima meio Fashion Rio. Só falta colocarem alguma coisa de sustentabilidade no meio.

Desculpe quem gostou da programação e quem já comprou ingresso pra ir, sei que algumas coisas que estarão ali tem valor e sei que tudo evolui com o tempo, mas rock pra mim é moto soltando fumaça, lama, cabeludos de casaco de couro, groupies, cerveja, gente louca vomitando no final da madrugada, etc, etc, etc.

Podem me chamar de purista, mas rock é atitude. Sou do tempo em que as mães escondiam as filhas quando algum roqueiro chegava perto delas. Hoje em dia elas as vêem com esses rapazes estilo Restart e só ficam preocupadas se eles vão pedir o vestido das moças emprestado.

Por isso mesmo eu resolvi aderir ao slogan do festival "Eu Vou" e resolvi que vou é ficar em casa (mesmo porque acho que todo mundo que curte uma micareta já comprou os ingressos, dada a velocidade com que se esgotaram).

Gosto é que nem bunda, eu sei, mas a minha não vai passar nem perto daquela cidade "do rock".

Me engane, por favor

Postado em 20 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Quase todo mundo adora comprar coisas. Mas todo mundo que adora comprar coisas prefere que estas coisas tenham alguma história. Já explico.

Você está andando pela calçada e encontra um vendedor de frutas e verduras. O carrinho caprichosamente arrumado, as hortaliças devidamente pulverizadas com água para parecerem mais frescas do que uma Halls preta e até o sujeito devidamente paramentado com um chapeuzinho de palha.

É quase instintiva a pergunta "de onde vêm estas frutas?" e ele quase certamente responderá "ah, é de uma roça que eu tenho lá em Ribanceira".

É muito melhor comprar alimentos plantados pelo próprio vendedor lá em Ribanceira do que alimentos que ele pega ali na esquina e revende.

Você pode sentir o cheiro de terra pela manhã, o café e o leite quente que ele toma às 4:00 horas antes de ir pegar na enxada e cuidar da roça, o sol da manhã na sua fronte, o suor do trabalho pesado, a colheita feita junto com a esposa e os filhos e, pronto, o que era simplesmente um ramo de chicória ou um amarrado de alfaces vira um capítulo de Ana Raio e Zé Trovão.

Talvez até o verdureiro plante o que vende e traga para a cidade grande naquele carrinho, mas a maior probabilidade é que ele compre tudo num Ceasa mesmo e saia por aí revendendo. Mas como as pessoas gostam de comprar coisas com história, bem, ele que não é bobo entra na onda e faz o teatro.


Imagino o cara no final do dia tirando o chapéu, colocando uma camisa da Oakley e indo pro seu apartamento num subúrbio qualquer, tomar um choppinho enquanto ouve pagode no rádio.

Isso tudo me lembra um episódio daquele seriado Friends, quando uma das personagens resolve comprar uma mesa de centro numa dessas lojas de móveis gigantes tipo a Tok&Stok. A sua companheira de casa, mais natureba, tem verdadeiro horror deste tipo de coisa produzida em série, preferindo comprar móveis e utensílios usados, porque "eles tem história".

Quando a mesa chega, a amiga precisa inventar uma "história" para a tal mesinha e aí diz que era a mesa de um boticário, que vivia numa cidade onde queimavam bruxas ou algo assim. Quando perguntada sobre a época da mesa ela simplesmente responde "ah, de antigamente".

A natureba ainda vira e diz "consigo sentir até o cheiro das ervas medicinais que ele guardava aí, nossa, muito melhor do que aquelas horríveis mesinhas fabricadas em série". Pronto, era a história.


E tal qual quem compra verduras "da roça" ou a personagem que adorou a mesa de "antigamente", nós adoramos essas histórias.

É o hippie que vende pulseirinhas de concha mas diz que são "corais australianos" ou aquele velho telefone que o sujeito do antiquário jura que foi de uma "vizinha de Rui Barbosa".´

Funciona mais ou menos como essas réplicas chinesas de produtos famosos: compramos uma idéia e não a coisa propriamente dita.

Só que nesse caso, corremos menos risco da coisa parar de funcionar dali a uma semana.

Churrasco de gato no Lago dos Cisnes

Postado em 17 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Pode reparar: você nunca vê carro rebaixado, tunado, com o porta-malas aberto tocando Mozart aos berros. É sempre funk, axé ou pagode. Mas experimente falar isso na frente desse pessoal liberal meio de esquerda que hoje em dia parece ser o modelo do brasileiro consciente e engajado.

Talvez te chamem até de nazista, afinal de contas, sabe como é, ter bom gosto e não extrair nenhum prazer de batuques e frases de duplo sentido só pode ser coisa de gente que curte um campo de concentração.

Mas o fato é que certos gostos contribuem para os estereótipos que os cercam.

- Bora fazer um quarteto de cordas de fundo de quintal amanhã?

- Quero ver, quero ver, as bailarinas fazendo plié até o chão!

- Pega a Brasília lá e liga o som pra gente ouvir um Beethoven na calçada enquanto lava os carros.

- Viu a nova dos Rolling Stones? "Ah Moo Lee Kee"?

- Passa lá em casa amanhã que a gente vai assar um salmãozinho na laje.


Essas e muitas outras são frases que dificilmente você vai ouvir por aí, simplesmente porque ainda que o pessoal gente boa, liberal e meio de esquerda diga o contrário, certas coisas não se misturam.

Carro rebaixado, com vidro fumê, porta-malas aberto e com música aos berros, tem muito mais chance de tocar Exalta Samba, Latino, Tati Quebra-Barraco ou Ivete do que tocar João Gilberto, Cole Porter, Chopin ou Muse.

E esse assunto traz à tona outro dado curioso: só música ruim toca alto, só perfume barato é forte a ponto de empestiar um vagão inteiro de metrô, só carro escrotamente tunado pertence a motoristas que dirigem como babuínos amestrados, só manifestações populares incômodas são feitas no meio da rua, caviar não frequenta laje, champanhe tem alergia à boteco e uma bailarina pode até descer até o chão, mas jamais fará isso rebolando e se comportando como se fosse um espeto de maminha servido num rodízio.

Pronto. Pode me chamar de preconceituoso agora.

Mas na minha opinião, se você acha elitista gostar de música clássica, se acha coisa de gente metida preferir ambientes silenciosos, se pensa que perfume francês é pra frescos e carros originais de fábrica não tem tanta graça quanto carros transformados em caminhões do Corpo de Bombeiros, quem tem preconceito é você. Contra o bom gosto.

Acho que você precisa pensar seriamente em deixar essa bomgostofobia de lado.

Ser rico é uma coisa, vencer na vida é outra

Postado em 13 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Outro dia estava assistindo um programa de TV aberta (pode jogar os tomates) que mostrava uma dessas festas estilo "Programa do Amaury". Mais ou menos na terceira entrevista com algum ex-BBB ou ex-Fazenda falando sobre seus "projetos", resolvi mudar o canal para algo mais interessante, um leilão de bovinos no Canal Rural.

Mas a imagem daqueles animais - não falo dos do Canal Rural - me fez pensar como algumas vezes o dinheiro pode ser usado para comprar toda a falta de classe que um ser humano pode conseguir.

Não vou falar mal de dinheiro aqui, mesmo porque eu acho que ainda que ele não compre felicidade, ele compra quase todo o resto, até uma vaga para você estacionar sua Mercedes bem do lado dela.

Mas com a mesma facilidade que te deixa perto da felicidade, ele também te senta no colo do mau gosto.

Por isso, se você ficou surpreendentemente rico, provavelmente terá dinheiro para comprar qualquer automóvel e tuná-lo com "tudo que tem direito": luzes, piscina, lago com jacaré, rodas de magnésio, televisão de plasma, som stéreo estilo trio elétrico e claro, adesivo com os nomes dos filhos ou "eu amo minha esposa" no vidro de trás, não é?

Você vai poder andar por aí com um iPhone, um Blackberry e um Nextel, tirar todos da sua bolsa Luiz Vitão ao mesmo tempo e falar alto pra todo mundo em volta escutar, afinal, "você não deve nada a ninguém".

Também vai poder comprar muitas jóias, cordões, anéis, pulseiras, medalhas de ouro, brincões de diamante, relógios cravejados, virando uma espécie de Medalhão Persa ambulante, coisa de fazer inveja ao Ronaldinho Gaúcho ou o Zeca Pagodinho.


Pode também se permitir ter um cachorro que frequenta manicure, salão de beleza, massagista e que te acompanhará em todo lugar, com uma coleira bem vistosa ou então dentro de uma bolsinha de couro que custa o preço de um carro popular, afinal, você tem grana pra isso.

Você pode contratar um personal trainer que vai andar atrás de você na academia montando e desmontando seus pesos, te passando a garrafinha com energético e secando seu suor com uma toalhinha Tommy Hilfiger.

Se quiser, vai ter uma mansão com piscina em formato de cavaquinho com suas iniciais desenhadas no fundo, uma televisão de 900 polegadas, uma coleção de quadros do Romero Britto e edições de luxo (com fio de ouro e tudo) da obra completa do Paulo Coelho.

Todo mundo vai invejar aqueles armários cheios de CDs e DVDs de pagode, axé, funk e aquele poster autografado pelo Latino no seu studio de som.

Pra mostrar que é chique, você pode até se matricular num curso de vinhos - mandando a empregada assisitir no seu lugar e gravar tudo numa câmera - e andar por aí com uma maletinha de vinhos, fazendo todo mundo pensar que seu sobrenome é Concha y Toro.

Camarotes em micaretas e churrascadas com o Exaltasamba tocando no seu quintal podem se tornar coisa corriqueira, afinal, você pode, é ou não é?

E se alguém te chamar de brega, novo rico, emergente ou qualquer coisa do tipo, você ainda vai poder tirar um pacote de notas de 100 do bolso, abanar na cara da pessoa e dizer:

- Você tá é com inveja, ó, porque eu pago tudo à vista e em dinheiro!

Tudo isso você vai poder, se quiser, é claro.

Mas se você tem grana para tudo isso aí e ainda assim resolveu não fazer, parabéns, meu chapa, além de ficar rico você também venceu na vida.

Coé? Belezinha, bróder?

Postado em 11 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Lembro quando fiquei adolescente e comecei a sair - com o dinheiro dos meus pais, é claro - para comprar minhas roupas, como estranhava o comportamento dos vendedores das lojas que eu frequentava.

Naquele tempo, mais ou menos como funciona hoje com os smartfones, se você não tivesse pelo menos alguma peça de roupa da Redley, da Company ou da Cristal Graffiti, você não era ninguém.

E a moda faz a gente se sujeitar a coisas que depois vão depor contra nós mesmos no futuro, como usar pochetes, ombreiras e ter aturado vendedores de lojas "pra jovem". Sempre achei estranho o formato de certos programas de TV direcionados a este público, porque mesmo na época em que eu fazia parte dele, nunca vi nenhum amigo meu se comportando como os personagens e apresentadores daqueles programas.

Tudo muito frenético, alto, cheio de gírias forçadas e aquele ar de "coé, bróder" me deixavam meio nauseado. Assistia aquilo e pensava: "me dêem um tiro caso eu me comporte desse jeito sem notar".

Mas nada superava (e ainda supera) certas lojas de roupas e acessórios.

Não é porque entrou ali querendo comprar um tênis "da moda", que o vendedor precisa tratar o cliente como se ele fizesse parte desta tribo que não consegue pronunciar uma frase que não contenha "massa", "sacoé?", "véio", "doideira", "show de bola", "loucura", "neurótico" ou "bombando".

Não sei se isso consta em algum manual de instruções ou se eles encarnam um personagem quando estão ali, mas o fato é que, dependendo da loja, todos agem como um doidão de rave que acabou de ingerir 1kg de ecstasy.

Eu até acredito que seja só personagem mesmo, que eles saiam dali e desencarnem o Paulinho Cintura, e fico imaginando um cliente identificado com o "estilo" de venda ao encontrá-los na rua, numa situação normal:

- Coé, Riquinho, beleza, véio? Show te encontrar aqui, hein, mano? Vô lá na loja essa semana, valeu meu camaradinha?

- Tudo bem, cara? Sabe o que é? Eu saí lá da loja, meu nome é Ricardo e não Riquinho, isso era só um apelido escroto que me obrigavam a usar...

O resto desse diálogo você já pode imaginar.


Eu sei é que aquele tipo de tratamento "playsson" me incomodava bastante, primeiro porque eu achava exagerado e caricato, depois porque eu nunca tinha certeza se a pessoa estava fazendo aquilo pra me zuar ou não.

- Hahaha, viu que otário? Fiquei tratando ele que nem um apresentador da MTV e ele achou que estava abafando...

Já pensou se outros profissionais se comportassem assim?

O cirurgião:

- Beleza pura, Dona Odete? Tranquilex? Saca só, vou colocar uma ponte de safena neurótica na senhora, a senhora vai ficar show de bola, valew?

O diretor de criação:

- , Aninha, que isso, gata! Chapuletou nessa logomarca, hein? Mandou muito! Toca aqui...

O arquiteto:

- Tiagão, mano! Firmeza aí, jão? Seguinte, aquele projeto da obra da sua casa que você pediu já tá quase pronto, segura as pontas que você vai ver como tua cachanga vai ficar doideira total!

O garçon:

- Dois espaguetes com molho de camarão pro rango e pra beber? Aí, vou dar uma idéia pra vocês que são meus chegados curtirem total, serinho, o vinho francês que chegou tá muito show, vocês vão ficar fissurados...

Tenho certeza que essa combinação meio Sérgio Mallandro, meio Evandro Mesquita é meio over em cada das profissões acima, assim como também é em qualquer outra profissão, se pensarmos bem, até mesmo na de vendedor de "loja pra jovem".

Né não, bróder?
 
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