A estatização do Canecão foi um show...de incompetência.
Postado em 5 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".
Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.
Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.
Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".
Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.
Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".
Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".
Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.
No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.
Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".
O militante satisfeito
Postado em 16 de fev. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Muitos dos que compraram aquela estrelinha pensando que ajudavam um partido "ético" a enfrentar os poderosos coronéis da política brasileira, posso me incluir nessa pelo menos num par de eleições, esqueceram que o seu apoio não significava um fim, mas um meio.
Uma vez no poder, o partido da ética estava ombreado com Sarney, Renan Calheiros e outros representantes de tudo aquilo que eles juraram combater. A ética acima de qualquer suspeita foi substituída pela teoria do "roubo pelo bem do país".
A tal militância então se dividiu entre os comprados e os desiludidos, e talvez essa ressaca da pseudo-ética, que já dura uns bons oito anos, tenha anestesiado o brasileiro até o ponto em que chegamos hoje.
É muito bonito colocar uma tarja verde na foto do Messenger em apoio à causa oposicionista no Irã.
É legal saudar a influência das redes sociais e criar abaixo-assinados contra ou a favor tudo, abrir petições online, passar para frente o último texto do Jabor (ou de um de seus clones).
Esse ativismo globalizado e, digamos, seguro da internet, é inegavelmente um mobilizador e facilitador da organização de protestos e da sua divulgação, mas precisamos não esquecer que suas consequências são nulas caso não influenciem o lugar onde tudo importa, que é o "mundo real".
O militante satisfeito coloca uma foto de uma jovem assassinada no Irã ou algum jornalista preso no Egito na sua página do Twitter e pensa que está tudo bem, que ele fez sua parte.
Não quero dizer que a pessoa deva sair por aí formando grupos armados para tomar o poder - ainda que um dia isso possa render frutos, como a Presidência da República - mas que todo esse ativismo precisa desembocar em alguma coisa mais concreta do que os Trending Topics (assuntos mais comentados do dia) no Twitter.
Os tunisianos, os egípcios, os iranianos estão aí fazendo alguma coisa. Alguma coisa real.
Os brasileiros pensam que estão fazendo algo real quando resolvem promover uma hashtag (a melhor definição que consigo pensar para hashtag é: assunto candidato à Trending Topic), quando fazem sátiras aos nossos nobres políticos em blogs, no próprio Twitter, no Facebook, mas na realidade continuam a conviver com alguns dos maiores cretinos que a nossa política já produziu em postos chave da República, com as sucessivas tentativas de desqualificar o mensalão, com a impunidade.
Por isso toda vez que alguém vem me perguntar o que penso da Palestina, o que acho do Iêmen ou se estou preocupado se o Egito seguirá um modelo turco ou um modelo iraniano, eu fico tentado a perguntar:
- E o Tocantins, hein?
- E a pobreza em Duque de Caxias?
- E os custos das obras da Copa e da Olimpíada?
- E as milhões de casas que foram prometidas, mas que ninguém entregou?
- E o Sarney? Esse parente de Nosferatu que parece ser imune ao sol, água benta e a qualquer denúncia?
Mas aí o militante satisfeito torce o nariz, faz uma careta e me responde que eu sou reacionário, que minha mentalidade é pequena e que eu não enxergo além do meu horizonte.
Sabe como é, Trending Topic não mata a fome, mas diverte.
Rio 40 Graus - Se até a música sobre essa temperatura é ruim, imagine o resto
Postado em 21 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Sei que a princípio uma afirmação assim pode chocar e parecer exagerada, afinal, não vivemos naqueles países da África onde pessoas moram em casas que mais parecem tocas construídas por guaxinins ou esquilos, onde doenças se propagam no vento e a fome e a indigência são quase políticas governamentais, mas como a própria constatação inicial já deixa claro, não somos africanos, então isso não é desculpa.
O show de horrores começou nas imediações do calçadão, onde flanelinhas se ameaçavam com uma barra de ferro pelo direito de achacar motoristas. Lindo, né? Mas não tão lindo quando a tatuagem com o símbolo da Porshe na bunda de uma garota de programa, que era alisada nervosamente por um gringo em plena luz do dia, talvez constrangendo os transeuntes mais chegados ao pudor, se é que ainda é permitido se constranger com alguma coisa nessa "era da tolerância".
Só quem não parecia nem um pouco constrangida era a fila de mijões que se formava no muro da finada discoteca Help (futuro Museu da Imagem de do Som), que além de depósito de catadores de lata, virou dormitório de mendigos e banheiro a céu aberto.
Mas nenhuma festa é completa sem uma trilha sonora. E a Orla de Copacabana - este retrato fiel da tão comemorada "miscigenação" brasileira - tem música (ruim) para todos os gostos.
De um lado um botequim com pessoas transformando a calçada em churrascaria. Só faltava o fogo de chão, porque mesas, cadeiras e um carro aberto tocando um pagode horrível no último volume estavam ali compondo o ambiente.
A praia em si é um espetáculo à parte. Os sempre presentes turistas italianos, que interpretam o tempo inteiro o papel de turistas italianos, estavam lá, é claro. Eles e seus galanteios que, se fossem em português, com certeza seriam cantadas de pedreiro.
Mas tudo bem, eu devia estar de cabeça quente por causa do "delicioso" calor de verão, então resolvi dar um mergulho no mar, que até foi agradável depois que consegui desviar da montanha de lixo que se amontoava na parte mais rasa, pequenos monumentos à educação dos banhistas em forma de copos de plástico, latas de cerveja, garrafas e até fraldas.
Pensei comigo mesmo "ah, é esse trecho que está ruim" e resolvi caminhar um pouco mais, pra ver se a coisa ficaria melhor. Andei, andei, andei e para aliviar o calor paguei 3 reais por uma chuveirada num dos quiosques Orla.
Saindo de lá, me corrija se estiver sendo muito exigente, vi uma coisa meio estranha: equatorianos que vendiam souvenirs do...Equador. Em Copacabana.
Perto dali crianças se divertiam a valer na piscininha artificial de uma língua negra formada por águas que vinham sabe-se lá de onde. Entre coqueiros, redes de volei e grupos de pagode que se apresentavam nos quiosques, um cartão postal da cidade era representado ali na areia: a Baía de Guanabara.
Pensei em continuar passeando, mas uma briga de bêbados por motivo desconhecido e uma discussão de namorados motivada por ciúme - com direito à menina dizendo pro namorado que se ele era ciumento "o pobrema era dele" - me sugeriram que talvez fosse a hora de voltar para o apartamento onde estava passando o dia, bem perto da praia.
Passei o resto da tarde telefonando para a Polícia Militar e para a Guarda Municipal, reclamando dos mijões, da churrascaria na calçada, da música alta e até da possibilidade de um enfrentamento com barras de ferro em plena luz do dia, mas, ao que parece, as forças de segurança e "ordem" do Rio de Janeiro estavam ocupadas verificando se todo mundo pagou o IPVA.
Ninguém apareceu, só uma coisa surgiu: a certeza de que qualquer civilização é praticamente inviável acima de 40º de temperatura.
Tira os pés do sofá, e se fosse na Olimpíada?
Postado em 7 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Sabe como é, visita precisa ser bem tratada.
Quem nunca saiu correndo pela casa, recolhendo roupas, sacolas, copos, pratos e tudo quanto é coisa que estava espalhada, espanando móveis com a mão, rearrumando almofadas, só porque o interfone tocou anunciando a chegada de alguém que você não esperava?
Isso é normal se você está aproveitando um final de semana de ócio e aquele primo pentelho aparece de repente com a esposa e a sogra, mas não é muito saudável caso você viva rodeado de lixo, comendo miojo e resolva dar uma faxina na casa e se alimentar com algo que tenha menos sódio e corantes só porque alguém resolve te visitar.
Falei tanto para chegar no assunto principal: o Rio de Janeiro, é claro.
A indagação "e se fosse na Olimpíada?" passou a fazer parte do vocabulário da maioria dos cariocas.
Se falta luz, água, o trânsito complica mais ainda, a coleta de lixo é irregular, se tem entulho na calçada, esgoto a céu aberto, arrastão nas praias, camelôs invadindo as calçadas, enchente, vazamento de gás, se o metrô continua atrasando, se o preço do pãozinho aumenta, tudo isso é acompanhado pelas tradicionais reclamações e mais a dúvida cruel: e se isso acontecesse na Olimpíada?
Como se tais problemas não fossem inaceitáveis com ou sem um evento mundial, com ou sem a vinda de turistas, com ou sem os "olhos do mundo" voltados para a cidade.
Durante o Panamericano de 2007, a cidade resolveu seus problemas como o sujeito que estava em casa e o primo chegou de repente. Havia um rio fedorento perto da Vila do Pan? Colocaram essência na água. Sério, isso é true story.
O trânsito da cidade é caótico? Deram férias nas escolas do município, ponto facultativo para os funcionários públicos, pintaram umas faixas seletivas por onde as delegações iriam passar e pronto, o problema foi "resolvido".
Por 15 dias, é claro.
A Olimpíada de 2016, ainda que gere algumas obras de maior porte, continua passando a impressão de que o Rio de Janeiro é muito mais pra "inglês ver" do que para "carioca ver".
Já que um sistema de transportes menos medíocre, águas e ar menos poluídos, uma cidade mais limpa e organizada e sensação de segurança, deveria, pelo menos em tese, ser algo feito para todos, turistas e moradores, mas muito mais para os moradores, o que não parece ser o caso.
Não sei você, mas eu não consigo imaginar o governo de certos países mais desenvolvidos - olha o complexo de vira-lata aí - pensando assim: tudo bem, vamos sediar um evento mundial, acho que é hora de remover esses lixões da cidade, cuidar do exército de mendigos e meninos de rua que vivem em nossas calçadas, tapar buracos no asfalto e aproveitar para melhorar a merenda escolar.
É como uma pessoa que só escova os dentes quando vai beijar alguém. Deu nojinho, né?
Pois saiba que sem as Olimpíadas, provavelmente o Rio de Janeiro continuaria com a sala desarrumada, alguma cueca pendurada no ventilador, poeira em cima dos móveis e o pior, tártaro e placa bacteriana pra não botar inveja em nenhum anúncio de creme dental.
A favelagem carioca
Postado em 3 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
Para se ter uma idéia do tamanho do problema, apenas esse conjunto de favelas do Alemão - que é um dentre muitos - se extende por 15 bairros da cidade, degradando o meio ambiente e emporcalhando a visão.
A cidade sempre sofreu com este problema, desde quando era capital federal e recebia trabalhadores de todo o Brasil até os dias atuais, onde o preço do metro quadrado atinge níveis inimagináveis para um lugar com tantos problemas de infra-estrutura como é o Rio de Janeiro.
Nos espaços onde hoje estão a UERJ (no bairro do Maracanã) e o Parque da Catacumba (na Lagoa Rodrigo de Freitas) antes existiam favelas. Outros locais hoje recuperados da cidade como o Planetário também eram tomados por barracos na década de 60.
A diferença é que os governos daquela época - hoje taxados de higienistas e "anti-pobres" pela indústria faveleira, porque na cabeça deles querer uma cidade mais bonita virou crime - faziam algo efetivo para diminuir o problema e achar soluções reais, que é a remoção e o reassentamento.
Hoje em dia as favelas se tornaram grande fonte de dinheiro, prestígio e votos. São associações de moradores, políticos que fazem currais eleitorais, milícias, empresas que vendem gás e outros serviços, vans e Kombis, gatos de luz, de net, de água, jogos ilegais, agiotagem e, claro, muita especulação imobiliária que se unem para garantir os seus negócios e que o Rio de Janeiro jamais se livre da montanha de barracos que enfeia o seu visual.
Dizem que não se pode tirar aquelas pessoas simplesmente, que é "obrigatório" que as coloquem em locais próximos de onde existe a favela atualmente, como se uma invasão fosse algum direito, como se um imóvel dado ou subsidiado pelo estado já não servisse para satisfazer o direito à moradia.
Uma coisa é morar, que realmente é um direito de todo cidadão, outra coisa é a localização, que é mérito.
Mora em Ipanema quem pode.
Mas como enfrentar essa indústria e esse pensamento padronizado que foi imposto à sociedade demanda riscos políticos, nossos governantes preferem se omitir e não fazer nada a respeito. E quando tentam, logo são lembrados dos prejuízos eleitorais que podem sofrer com isso.
Afirmações e loas cretinas como "favela não é problema, é solução", "Viva a Favela!", e também filmes e outras manifestações artísticas que tentam convencer pela repetição de que aquela degradação da cidade é na verdade um bem "cultural", tudo isso junto com ONGs que vivem muito bem da graninha que arrumam defendendo a favelagem e os sempre presentes "Movimentos Sociais", fazem do Rio de Janeiro um lugar que beira a insolvência urbanística.
Suas ruas apertadas, sua geografia peculiar e o paredão de barracos que sitiam a cidade são a prova disso.
Recentemente o prefeito resolveu remover uma favela chamada "Favela do Metrô", justamente porque fica colada à linha férrea, o que por si só já seria razão mais do que justificável para remover tudo dali. Mas some-se a isso oficinas mecânicas ilegais, desmanches de veículos, carros abandonados e áreas públicas invadidas. O local seria limpo e transformado em parte do novo Complexo Esportivo do Maracanã, que sediará a final da Copa do Mundo.
Pois bem, as tais ONGs, Movimentos Sociais e a indústria faveleira já se uniram e começaram a fazer escândalo contra isso. "Não podem tirar a 'comunidade' dali", "algumas pessoas estão ali há 40 anos!","isso é uma violência!".
Quer dizer então que se eu roubar um carro e conseguir ficar com ele durante 40 anos ele passa a ser meu? Sei que o exemplo é extremo, mas tudo nessa história o é. Não podem tirar a "comunidade" porque? Porque compraram terrenos invadidos da mão dos invasores? Isso é uma "violência" porque? Porque remover pessoas de um local infestado de barracos para colocar em imóveis populares ofende o princípio básico da indústria faveleira que é "depois que invadiu, ninguém mais tira"? Até em áreas de risco comprovado a tarefa da remoção é quase impossível por conta de tanta pressão política.
E a violência contra a cidade que esse monte de favelas representa? A sujeira, a feiúra, a degradação, a informalidade? Isso tudo merece ser premiado?
E tome urbanização, teleférico, maquiagem, porque isso tudo dá voto e perpetua a dinheirama que essas "comunidades" fazem girar diariamente. Solução mesmo que é bom, nada.
E o Rio de Janeiro, que um dia já foi realmente a tal "Cidade Maravilhosa", segue na sua triste sina de violência, caos urbano e descida da ladeira.
Nossas escolhas
Postado em 1 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Quando resolvem falar de futebol, cada um é uma enciclopédia mais infalível que o outro:
- Lembra aquela final que o Vasco ganhou com um gol do Cocada?
- Não era Cocada, era Cuscuz.
- Que Cuscuz nada! Era Cocada mesmo...você entende muito é daquele paraguaio, o Juancito!
- Romerito, Juancito foi aquele que jogou no Botafogo junto com o Túlio Maravilha...
- Nunca teve Juancito no Botafogo, no máximo tem um Loco Abreu.
- Nem quero saber, meu negócio mesmo é o Zico e o time de 81.
Entre confusões naturais e gozações futbolísticas, todos eles realmente tinham excelente memória (ou quase), isso porque é quase certo que nenhum deles saiba o nome do sujeito no qual votou para deputado.
Dizem por aí que o brasileiro tem memória curta, mentira. Experimenta dever dinheiro pra alguém e veja se nossa memória é mesmo curta. Nossa memória é seletiva e muito mal programada.
Certas coisas um homem tem a obrigação de lembrar. Seu endereço, seu telefone, sua identidade e o nome do primeiro amor. O resto a gente escolhe.
Uma pesquisa recente mostrou que mais de 20% dos brasileiros não conseguem lembrar o nome do deputado em que votaram na última eleição. Mas note que esta pesquisa foi realizada apenas um mês após a eleição, o que me leva a pensar que daqui a mais um mês esse número possa ser 40% ou quem sabe até 50%.
Em dois anos talvez existam mais brasileiros que saibam cantar de trás para frente do hino do Japão do que os que saibam o nome do "seu" deputado estadual, federal ou senador.
E isso transforma o Congresso numa espécie de massa amorfa de sem-vergonhas. São os "ladrões", os "corruptos", os "canalhas", os políticos. Tirando um ou outro que se empenha mais em aparecer num escândalo de maior proporção, todos ali tem mais ou menos a mesma feição perante o resto do país: são "eles".
"Eles não ligam para a gente", "eles só querem saber de roubar", "pra eles a coisa nunca está ruim", "eles vivem na maior mordomia às nossas custas".
Fala-se de políticos em bares, filas de banco e almoços de domingo como se fossem personagens de uma novela da televisão, uma história de ficção que está desconectada da realidade.
O brasileiro decora mais facilmente um bordão televisivo, uma piada, nomes de personagens de novela ou uma letra de axé - se bem de que decorar letra de axé não é tarefa que exija lá grande quantidade de neurônios - do que guarda o nome da pessoa que irá representá-lo na Brasília-Maravilha durante pelo menos quatro anos.
Tudo bem que não são pessoas exatamente agradáveis de se pensar diariamente, mas até no futebol - essa paixão do país monoesportivo - a gente faz questão de lembrar da derrota de 82, do penalty que o Sócrates perdeu em 86, do passe do Maradona para o Caniggia em 90 que afundou aquela Seleção do Lazaroni, da borboletada do Marcos jogando pelo Palmeiras no Mundial de 99.
Se dizem que todo brasileiro é um técnico de futebol, todo brasileiro também é ou será eleitor por força de lei. Talvez seja essa a diferença: ninguém obriga o outro a assistir um jogo, mas depois de certa idade todo mundo é obrigado a ir lá exercer o que chamam de direito.
Durante muitos anos eu só acompanhei jogos de tênis. Conhecia o Ivan Lendl, Boris Becker, John McEnroe e nunca mais esqueci as pernas da Steffi Graff. Futebol não era a minha nesse tempo e se você me perguntar quem era o goleiro da Seleção naquela época, não saberei responder nem se você me oferecer uma boa grana pra isso. Essa era minha escolha.
Assim como escolho ir votar em cada eleição, sei o nome do "meu" deputado, observo sua atuação e faço questão de não maltratar a urna dali a quatro anos.
E talvez a urna só não seja mais maltratada no dia em que todos os brasileiros puderem optar entre a praia e a urna, o pagode e a urna, a micareta e a urna, o nada e a urna.
E cada um continue lembrando do que bem quiser.
Malditas elites!
Postado em 26 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 23 Comentários
Muito bem, na cabeça do Brasil "progressista", "humanista" e "gente boa" essa cena tem duas explicações possíveis. Se a pessoa que atolou o pé na m* for um flanelinha que estava tomando conta de carros - leia-se: extorquindo proprietários de veículos - o monte de merda só pode ser de algum cachorro de madame insensível (prepare-se, essa palavra vai aparecer muito neste texto), que mora num prédio chique e acha que as calçadas são banheiros do seu totó que escandalosamente deve ser mais bem tratado do que muita criança pobre e que não liga para o sofrimento do povão, que é obrigado a andar descalço porque não pode comprar um sapato.
Porém, se quem pisou na bosta for uma patricinha moradora de um prédio de "classe média" e ela reclamar, com certeza o cachorro deve ser algum vira-latas de um "menino de rua", que não tem nada na vida além da companhia do doce cachorrinho, e a cena serve pra mostrar como a mocinha é insensível porque acha que o seu "pé da elite" não pode pisar na merda de um cachorro de alguém do "povo" e, claro, é bem feito que tenha acontecido isso para ela ter noção da realidade.
Pensei nessa historinha no dia em que disse no Twitter que estava acompanhando a passeata de militantes de José Serra durante a campanha eleitoral, e inocentemente me referi a eles como "gente do bem", me aproveitando do slogan da campanha "Serra é do bem". Pra que!? Bastou que eu dissesse isso que logo veio uma "progressista", "humanista" e "gente boa" me repreender: "gente do bem não, gente de bens".
Digamos que só estivessem presentes ali milionários que chegaram de helicóptero - o que obviamente é apenas um exagero meu, mas que fosse - por acaso essas pessoas teriam menos direito de expor suas opiniões e preferências políticas?
Lembro disso também quando ouço qualquer discussão sobre o estado de caos, desordem e violência em que o Rio de Janeiro encontra-se permanentemente afundado. Entre todos os bordões esquerdóides dignos de um vômito como "favela não é problema, é solução", "isso só incomoda quando afeta a elite" ou então "bandidos mesmo são os de gravata", os que mais me enojam são especialmente dois: "quero ver invadir condomínio de rico" e "é bom pra essa classe média insensível ver a realidade".
Acho isso tudo incrível porque quem diz isso deve morar em outro lugar que não o Rio de Janeiro, onde a "realidade" infesta os morros de barracos, as ruas de flanelinhas, camelôs, pivetes, mendigos, uma cidade que se inunda de "realidade" em cada chuva pesada que cai, em cada transporte coletivo medíocre que oferece aos seus habitantes, em cada quilômetro de engarrafamento infernal, enfim, essas pessoas dizem isso como se a tal "realidade" não batesse diariamente à porta das pessoas, independente delas quererem vê-la ou não.
Quem vive no Brasil convive com pobreza, miséria, feiúra, impotência diante de absurdos variados o tempo todo, mas só quem reclama disso são pessoas de "bens".
Aliás, só quem é rico e não é "insensível" na cabeça dessa gente são os traficantes do morro - cheios de dinheiro por conta da venda do pó - esses são "vítimas" da "insensibilidade" (eu avisei que a palavra apareceria ad nauseam) da "classe média" que os esqueceu.
Incrível também que a "elite insensível" seja aquela que pague os impostos mais altos do mundo, taxas imorais, cobranças em cascata, sem receber nada em troca, e ainda assim seja sacudida de cabeça pra baixo de tempos em tempos para "fazer sua parte" e doar mais, mais, mais em "Crianças Esperanças", "Teletons" e outras campanhas do gênero.
Com tudo isso, esta ainda é a parcela da sociedade a quem é negado até mesmo o direito de se indignar, de se expressar, de exigir algum direito.
Pra ser "bom" no Brasil, pelo menos na visão da turma "progressista", que chama ironicamente os que discordam deles de "elite" e "gente cheirosa", você precisa gostar do fedor, da feiúra, de pisar na merda ou pelo menos aturar tudo isso quieto, não esquecendo de pagar a conta, é claro.
Querer remover favelas é "higienismo", combater a mendicância é "eugenia", não ficar satisfeito com a festa da ilegalidade de camelôs, flanelinhas, vans et caterva é ser "contra pobre", pretender que seus impostos vão para algo além de um imenso buraco negro de ineficiência estatal e assistencialismo barato é ser "insensível".
Uma pessoa que queira uma cidade limpa, bonita e livre de pragas urbanas é ruim. Quem gosta (ou finge que gosta) de viver num lixão a céu aberto que mais parece cenário de um daqueles filmes "Mad Max" é bom.
Tem quem defenda tudo, desde que "traficante também tem família pra sustentar" até maconheiros "do bem", e também faveleiros profissionais, pobristas que lucram com a miséria que dizem combater e, claro, políticos que tem um belíssimo curral eleitoral nessas zonas de desordem e ausência de condições reais de dignidade.
E tome urbanização, teleférico, bolsa isso e bolsa aquilo. Tudo claro financiado pelo bolso dos outros.
Progressista que se preza precisa de pobre pra distribuir cupom, de favela - de preferência bem suja e feia - para poder mostrar como admira a "criatividade" que existe naquilo e que por isso é moralmente superior aos outros, de caos urbano para poder requisitar mais uma verbazinha para criar alguma "comissão" para "ordenar" as "atividades" e de preferência terminar criando algum sindicato, tipo de guardadores de automóveis, de camelôs, de vans e até de vendedores de bala em ônibus.
Essa coisa do governo proporcionar às pessoas maneiras delas melhorarem de vida por conta própria, de cidades limpas e bonitas, calçadas livres, isso tudo é coisa de direita.
Com toda essa onda de leis anti "homofobia", "racismo", "xenofobia" e o escambau, bem que poderiam criar uma lei contra a "classe-médio-fobia".
Sabe como é, essa gente branca (ou quase), hetero, trabalhadora, pagadora de impostos, que não recebe nada de ninguém, que não conta com ninguém além de si próprio e que ainda por cima não tem nenhuma ONG que a defenda.
Democracia das bananas
Postado em 8 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários
O Brasil é hoje cada vez mais uma democracia das bananas.
Antes de começar, deixe-me esclarecer que não acho que nenhuma raça, etnia ou grupo regional é naturalmente superior ou inferior ao outro. Não existe branco superior, judeu inferior, negro sub-desenvolvido, amarelo super-dotado só pelo fato destas pessoas serem brancas, judias, negras ou amarelas. O que diferencia um indivíduo do outro é sua formação, as oportunidades que teve, seu caráter, a sociedade em que se desenvolveu.
Dito isto - e certamente qualquer pessoa que tenha um mínimo de razoabilidade entende e concorda com isso - vou seguir para a parte que realmente pode ser polêmica, mas que precisa ser dita.
Uma estudante paulista disse no Twitter que "não gosta de nordestinos". Junto a isso também disse que estes mereciam ser "mortos". Na segunda parte, sim, existe um crime (ou talvez um comportamento moralmente reprovável) porque é impossível incitar agressões a quem quer que seja - judeus, nordestinos, pretos, brancos e até mesmo adversários do PT - e ser civilizado ao mesmo tempo.
Mas na primeira parte, onde ela diz - não exatamente com essas palavras - "não gostar de nordestinos", não existe crime. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém e nenhuma democracia que não seja neurótica e incoerente pode obrigar um cidadão a engolir esse tipo de opinião em nome de uma suposta "igualdade" ou mesmo "pluralidade".
Não existe pluralidade onde existe supressão da liberdade, ainda que seja apenas a de opinião.
Ninguém pode proibir um preto, um branco, um verde de entrar pela porta social de um prédio baseado na cor da sua pele. Ninguém pode achar normal que se mate, prenda ou persiga pessoas por estas serem judias, católicas, protestantes ou muçulmanas.
Não entro no mérito disso ser agradável, "bonito" ou não, mas todos, repito, todos tem o direito de dizer que não gostam de pretos, brancos, verdes, judeus, católicos, protestantes e muçulmanos sem por isso serem alvo de perseguição pelo estado, pelas entidades sociais, pela imprensa e por qualquer outra pessoa.
Qualquer um deve ter o direito de dizer que não gosta de paulistas, que acha nordestinos feios, cariocas vagabundos, gaúchos arrogantes e o que mais bem entender sem que nada aconteça. Isso é uma opinião, isso é um sentimento pessoal - errado ou não - e não cabe à sociedade, ainda mais na forma de leis equivocadas, agir sobre esse direito.
Temos essa obsessão pela "unanimidade", obrigando o indivíduo a pensar - ou pelo menos fingir que pensa - igual à manada.
Opiniões patéticas são desprezadas, são alvo de escárnio, são desconsideradas, mas jamais devem ser tratadas como crime. Veja o caso ridículo de "nazistas americanos". Um país que lutou - e foi um dos maiores responsáveis pela derrota da Hitler - admite que seus cidadãos se digam "nazistas", sem que por isso parem na cadeia.
Vão para cadeia sim, se destruírem a propriedade alheia, se agredirem alguém, enfim, se cometerem crimes. De resto, recebem apenas o tratamento que um louco que se diga Napoleão recebe: a irrelevância. Para o resto, existe o código penal.
Qualquer coisa diferente disso pode ser tudo, menos democracia.
O outro evento, este ainda mais chocante, foi o caso envolvendo o livro de Monteiro Lobato "Caçadas de Pedrinho", denunciado por diversos órgãos governamentais - inclusive o MEC que para fazer censura de conteúdo é competente, mas para organizar o ENEM não é - sendo acusado de "racista", "perverso", entre outras imbecilidades por conta de trechos onde diz que "Tia Anastácia sobe numa árvore que nem uma macaca de carvão" e também “Não vai escapar ninguém – nem Tia Anastácia, que tem carne preta”.
O ministro da "Secretaria de Igualdade Racial" - coloco assim entre aspas porque esse ministério é uma aberração que não promove "igualdade racial" e sim "onguismo afro-brasileiro" - disse que o livro "fere a auto-estima dos negros".
Nem sei por onde começar dado o enorme festival de idiotices contido na história toda, mas penso que o melhor a dizer é que o negro brasileiro - esse cidadão de pele preta que descende de escravos - não é um "coitadinho" e nem um cidadão tutelável para ser tão protegido pelo estado assim.
Penso que um profissional negro, casado, com sua família e sua vida independente não tem mais ou menos problemas de auto-estima do que um branco que seja gordo, um asiático que seja careca ou um branco e um asiático que não sejam nem gordos e nem carecas. Todos são pessoas, com problemas de auto-estima mais ou menos parecidos.
O que se faz no Brasil com essas políticas equivocadas que ganharam força no governo do PT é criar no país uma tensão racial que não existia. É fato que o racismo era velado por estas bandas, mas também é fato que não existia esse ressentimento racial que vemos hoje, com estudantes brancos sentindo-se injustiçados por cotas, com estudantes negros precisando provar seu valor duas vezes, com a sociedade sendo alvo deste tipo de censura boçal que ataca até mesmo Monteiro Lobato.
Comparar um negro a um macaco é ridículo se a pessoa quiser dizer que a etnia é inferior. Mas comparar um negro subindo rapidamente numa árvore a um macaco não é. Afinal, parece mais com o que? Com um urso polar? E a parte visível da "carne da Tia Anastácia" era o que? Magenta?
Por esta lógica Machado de Assis mencionando "crioulos" em seus livros também pode ser considerado despiciendo para a formação de nossos jovens. Desse jeito, só restarão livros de auto-ajuda e o jornal da CUT para ler na escola.
Não sejamos hipócritas, não sejamos histéricos e resistamos, sim, a esta ditadura cultural e de opinião em que o Brasil está se tornando.
Porque a cada dia que passa, o ar fica mais irrespirável.
A escolha mais fácil da história
Postado em 19 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários
O problema é que, como disse uma vez Garrincha, "esqueceram de combinar com os russos". E os russos nesse caso fomos nós, pobres eleitores-contribuintes, que teimamos em comparecer às nossas seções eleitorais e levar o pleito para o segundo turno.
E nada melhor do que um segundo turno - sem os ruídos estáticos de campanhas majoritárias e proporcionais nos estados, além de candidatos nanicos - para explicitar bem a escolha que se apresenta para cada brasileiro e brasileira que prestam.
Digo isso porque existem aqueles brasileiros homiziados em estatais, acochambrados em cargos de diversos escalões ou simplesmente arrolados em folhas de pagamento de centrais sindicais, movimentos sociais, ONGs e demais braços do lulo-petismo para dizer por aí o que convém ao partido, seja na imprensa ou seja na blogosfera. A estes, só um resultado interessa: a vitória de Dilma Rousseff, a candidata imposta Lula, a "mãe" do PAC, o Plano de Ascensão da Companheirada.
E a escolha que se espraia ao Brasil que presta nesse segundo turno nunca foi tão simples.
A candidata inventada por Lula, aquela que não consegue articular mais de duas frases sem assassinar o português, a concordância, a lógica e a inteligência do interlocutor, nada mais é do que um prontuário. Mas não só ela, os que a acompanham também.
Naquele balaio de gatos existem mensaleiros, aloprados, a Família Guerra e o Cardeal que tomou à força o dízimo do banco alemão. Naquele balaio de gatos deposita-se um numerário inimaginável, subtraído das mais diversas formas dos cofres públicos.
Ali também se depositam ONGs obscuras, o MST, a pelegada sindicalista que faz sabe-se lá o que com o dinheiro daquele imposto sindical tão bem defendido (e mantido numa caixa preta) por um personagem da estirpe de Carlos Lupi, além de dois ex-presidentes cujos nomes falam por si: Sarney e Collor.
Chocado, o pobre cidadão perceberia ao lado da Laranja Eleitoral de Lula as falanges que vão para portas de gráficas impedir a circulação de materiais que não lhes agradam, a TV Brasil transformada em bunker de campanha, o presidente fugindo do Palácio do Planalto - e abdicando do mandato para o qual foi eleito - para assumir o papel de chefe de facção, de palanqueiro pago pelo contribuinte.
O brasileiro que presta veria ainda que ao lado de Dilma estão José Dirceu e Erenice, que junto com ela formaram o trio de ferro que fez da Casa Civil capitania hereditária, transformando em maninhos a Anac, a Infraero, o Ministério de Minas e Energia e os Correios.
Finalmente veriam o partido vítima, como o PT sempre se apresentou à sociedade, fabricando dossiês, invadindo sigilos fiscais, atacando as famílias de seus opositores, ameaçando "extirpar" adversários.
Ouviria o alarido da festa da turma do "não sei", do "eu não sabia", dos que classificam crimes seríssimos cometidos pela companheirada como simples "erros".
Com tudo isso de um lado da balança, o eleitor poderia olhar para o outro e não enxergar nada, que ainda assim ficaria inclinado a votar no vácuo, mas nem isso o PT parece deixar impune, pois é justamente um vácuo que ele apresenta como candidata à presidência da república.
Como disse antes, é a escolha mais fácil da história.
O desastre do Brasil é o brasileiro
Postado em 20 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Quando vejo algum cidadão daqui dizer "meu país é lindo!", não posso deixar de concordar, mas ao mesmo tempo penso numa pergunta silenciosa "e o que você fez para ele ser bonito assim?". 99% dos cidadãos - caso fossem honestos- poderiam responder: nada.
Algumas cidades do mundo não são tão favorecidas pela natureza, no entanto as pessoas que ali viveram foram - ano a ano, década a década, século a século - construindo uma beleza "human made".
Prédios, pontes, ruas, monumentos, vão formando o que acaba se tornando uma linda cidade, fruto do que seus cidadãos criaram. Seja no meio de uma planície sem graça, seja no meio de um deserto inclemente, seja em locais onde o meio-ambiente é selvagem.
O Brasil não. Exceção à sua capital, Brasília - que alguns acham de mau gosto, mas eu acho bonita - o que existe aqui foi a natureza que criou ao seu modo. Se formos analisar friamente só o que o povo daqui construiu, encontraremos em sua absoluta maioria cidades abaixo da crítica.
Favelizadas, caóticas, ruas apertadas, calçadas estreitas, prédios gigantescos em formato de caixotes bem ao gosto da especulação imobiliária, rios poluídos, transportes sucateados, lixo espalhado. Vamos admitir: a obra do brasileiro não está a altura daquilo que ganhou de mão beijada.
O que o povo daqui fez foi simplesmente sabotar o que a natureza lhe deu de presente. Das águas da Baía de Guanabara, palco da chegada da corte portuguesa - e que já servia de penico para a população desde aquele tempo - até as dunas destruídas no Nordeste para abrigar condomínios de luxo (e gosto duvidoso), em cada município brasileiro veremos exemplos de como o povo que tanto se orgulha da beleza do "seu" país consegue atentar contra esta mesma beleza.
E não olhe pro sujeito ao lado com raiva, pensando "desgraçado, está destruindo tudo" ou comece a xingar os políticos, porque se você joga lixo no chão, você é outro responsável tal qual o cara aí do lado ou qualquer prefeitinho sem-vergonha que libere alvarás para a especulação imobiliária, permita a favelização em troca de votos ou não cuide dos rios de sua cidade.
Não sou ecochato, longe disso, mas acho que a evolução e o progresso podem - e devem - ser acompanhadas de bom gosto.
Todo país sofre com seus desastres naturais. O desastre do Brasil, até aqui, tem sido o brasileiro.
Niterói: uma cidade em decomposição
Postado em 24 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários
E enquanto a qualidade de vida na cidade é destroçada pelo inchaço populacional, as imobiliárias comemoram.A Síndrome da Criatura
Postado em 17 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários
Mas é preciso, antes de tudo, que o tal governante saiba o que fazer com o poder em mãos, é preciso ter um plano. "Permanecer na cadeira" não é um plano. "Não mexer em time que está ganhando" também não é um plano. O passado serve como guia do futuro, mas não se pavimenta um metro de estrada com o asfalto que já foi derramado.
Essa situação passou a ser muito comum no Brasil após o advento da reeleição. O governante passa o primeiro mandato potencializando suas conquistas e dourando a pílula de seus fracassos, tudo na intenção de conseguir os desejados "mais quatro anos". Depois que consegue, vem o desastre. Não existe mais aquele grande prêmio ali adiante, já que uma terceira eleição consecutiva é vedada por lei, então ele simplesmente passa os dias esperando a morte chegar, realizando um governo de qualidade bem inferior ao que realizou anteriormente.
Mas existem os que governam razoavelmente bem em ambos os mandatos e ainda aqueles que precisam sair do cargo para disputas maiores antes do tempo - caso de prefeitos que concorrem ao governo e governadores que concorrem à presidência - deixando ali seu lugar-tenente.
Nesse caso as situações são bem parecidas: eles precisam garantir ao eleitorado que aquele substituto na verdade é uma imagem refletida deles mesmos. Eles precisam garantir a tão conhecida "transferência de votos" e transformar o que muitas vezes não passa de um estafermo em seu herdeiro político. E aí o potencial para desastres aumenta exponencialmente.
Isso acontece porque ainda que seja possível criar uma imagem à semelhança de um criador, o normal é que a criatura seja sempre inferior. Existem exceções, é claro, mas como o próprio nome já diz, não é o devemos esperar.
O que podemos esperar é que a incompetência e a indecisão naturais do títere façam ruir até mesmo a popularidade antes inabalável do titereiro, ou então que a criatura se rebele, corte as cordas e inicie uma luta fratricida no seio daquele grupo político
Não faltam exemplos - tanto da incompetência quanto da traição das criaturas - na política nacional e internacional.
Celso Pitta terminando de destroçar o nome já não menos destroçado de Maluf é um bom exemplo. Rosinha rebaixando Anthony Garotinho dos 15% de votos numa eleição presidencial em 2002 de volta para ser apenas um cacique regional de Campos (RJ) é outro. Cristina Kirchner abalando a popularidade do seu marido Néstor (que chegou a perder uma eleição na província de Buenos Aires para um empresário colombiano naturalizado chamado Francisco de Narváez) é um caso bem significativo. César Maia elegendo Luiz Paulo Conde prefeito do Rio de Janeiro e logo depois o grupo político de ambos rachando ao meio é outro exemplo clássico.
Tudo isso serve para provar que uma das maiores ruínas de um político é sua vaidade. A sensação de poder enfeitiça qualquer um, a saída deste mesmo poder pode ser traumática - dizem que na porta dos "ex" a grama cresce alta devido a falta de visitantes - e a tentação de manter este poder é imensa. Alguns tentam subverter as regras da democracia - como faz Hugo Chávez na Venezuela - outros procuram se manter no poder através dessas criaturas eleitorais,como faz agora Lula no Brasil.
E muitas vezes a falta de preparo, a falta de liderança e até mesmo a fadiga de material que qualquer grupo político sofre em anos de poder transforma essa experiência em desastre.
Isso quer dizer que pretendo fazer terrorismo eleitoral ou então que torço pelo fracasso de um eventual terceiro governo petista? Não, não mesmo. Isso quer dizer apenas que o mesmo passado que empurra alguns políticos a fazer campanha com os olhos no retrovisor, pretendendo "garantir a continuidade", também serve de advertência para o fato de que "continuidade" não é nada sem um plano e sem qualidade.
É preciso estar sempre atento à Síndrome da Criatura.
Se for mandar buscar a morte, mande vir no SAMU
Postado em 8 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários
Essa é apenas uma forma de dizer que desejo que ela demore muito, e se for depender do SAMU é capaz de termos aí um problema de superpopulação, porque a temida senhora não virá nunca. E faço questão de explicar o porque em duas rápidas cenas do cotidiano que eu mesmo tive o (des)prazer de presenciar.
Na primeira eu tinha almoçado num restaurante, era sábado e a casa estava cheia, era um desses estabelecimentos de dois andares, um desses templos de gulodice a quilo, já estava indo embora quando ouço por trás de mim o som de um pinguim rolando escada abaixo. Pensei na hora "pinguins não curtem comida a quilo, como pode?" e olhei para conferir: era uma senhorinha terminando uma cena de pastelão.
Lembrei de todos os episódios de E.R. que já assisti e disse: ela precisa ir para um hospital, pode ter que fazer uma tomografia (falar CT Scan é muito mais cool, mas fazer o que..) e resolvi ligar para o tal 192 do meu celular. O diálogo que veio em seguida é kafkiano:
-Alô? Quero pedir uma ambulância para socorrer uma senhora que caiu de uma escada.
- Pois não Senhor, qual o endereço?
- Rua tal, número tal, em frente ao colégio tal.
- O Senhor pode me dar um ponto de referência?
- EM FRENTE AO COLÉGIO TAL.
- Peço que tenha calma Senhor, essa escada onde ela caiu, está localizada em que lugar?
- Na rua tal número tal, dentro do restaurante tal e qual.
- Mas a escada é dentro do restaurante ou é saindo do restaurante e chegando na rua?
- É dentro do restaurante.
- Entendo. O Senhor pode me dizer a altura da escada?
- Eu não tenho fita métrica aqui, esqueci no meu outro cinto de utilidades, mas calculo que seja algo entre três e quatro metros.
- Três ou quatro metros Senhor?
- Quatro, quatro.
- Muito bem. Essa Senhora, qual a idade dela?
- Não sei, aparenta ter uns 60 anos.
- Ela está acompanhada?
- Sim, o filho está junto dela, socorrendo.
- E qual a idade do filho dela?
- Desculpa, mas isso é realmente relevante?
- Senhor, tudo o que eu pergunto é relevante.
- Não sei, uns 40 anos.
- E o Senhor tem o telefone dele?
- Se você quer um encontro, porque você mesma não pede? Que tal mandar uma ambulância logo?
- Senhor, eu preciso fazer todas essas perguntas, tenha paciência.
- Eu tenho paciência, só não sei se a cabeça dela que bateu no chão umas duzentas vezes enquanto ela rolava escada abaixo vai ter a mesma paciência.
- Ela está acordada?
- Está.
- Lúcida?
- Está tão lúcida quanto alguém de 60 anos, com um filho de 40, que possui o número de celular 9999-9999, que caiu de uma escada de uns quatro metros, dentro do restaurante tal, na rua tal, em frente ao colégio tal poderia estar 15 minutos depois da queda e sem nenhum tipo de socorro.
Foi quando o gerente do restaurante me procurou e disse:
- Amigo, outro dia eu fiquei meia hora com eles e a ambulância não veio. Eu vou pegar o carro do restaurante e levar a senhorinha acidentada para o hospital.
Só tive tempo de dizer para a atendente do 192:
- Muito obrigado pelo quiz. Não precisa mais mandar nada, porque como sempre as pessoas já se viraram sozinhas.
Da outra vez foi em Botafogo, em frente ao Espaço de Cinema. Ouvi aquele barulho característico de uma colisão de automóveis, só que ao invés de frear, o carro continuava acelerando. A mulher ao lado do motorista berrava "Ele está infartando! Ele está enfartando" (coloquei as duas formas "infartando" e "enfartando" para ninguém ficar chateado), fingindo que não lembrava da história da mulher da escada disquei para o 192 de novo.
Mas como seguro morreu de velho - porque nunca dependeu do SAMU - e eu sei que tem uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ali perto, corri pra lá enquanto respondia ao questionário sócio-econômico-e-até-de-vidas-passadas que a atendente do 192 fazia.
Chegando na UPA, recebi a notícia que os médicos e enfermeiros ali lotados não pode ir nem na esquina caso alguém esteja morrendo lá. É preciso trazer o indivíduo até eles. Tudo bem, pelo menos eles devem ter alguma influência e abreviar o atendimento do 192, não é?
Não.
O Cabo do Corpo de Bombeiros estava já há 12 minutos - cronometrados no meu celular - com a atendente num debate interessante: a vítima bateu e desmaiou ou desmaiou e bateu?
Porque se tivesse batido e desmaiado, seria caso de ligar para o 193. Se tivesse desmaiado e batido, aí sim, seria 192.
No meio da discussão filosófico-matemática sobre qual era o número responsável pelo Senhor que agonizava a uns 800 metros dali, eis que chega o enfartado, trazido por um segurança que trabalhava na rua e resolveu ir até a UPA dirigindo o carro da vítima.
O cabo dos bombeiros devolveu o telefone, agradeceu meu "gesto de cidadão" e me confessou ao pé do ouvido "Esse 192 é uma m*!".
Não sei qual foi o destino da senhorinha da escada ou do senhor que desmaiou, mas sei de uma coisa: o cabo estava coberto de razão.
A "STFHC" ou Síndrome do Transtorno por Fernando Henrique Cardoso
Postado em 2 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Lembro de ter acompanhado tudo ao vivo pela CNN. Os estados íam sendo colocados um a um na coluna de votos de cada candidato, o então vice-presidente, o democrata Al Gore, e o então governador do Texas, o republicano George W. Bush, sobrando ao final apenas a Florida.
Os eleitores do Partido Democrata até hoje consideram que aquela foi uma "eleição roubada", a despeito de Bush ter vencido todas as recontagens realizadas naquele estado sob todos os métodos possíveis. Fosse por 500 votos ou por 100 mil votos, ele nunca ficou atrás de Gore ali, mas os democratas jamais perdoaram aquilo.
Já em 2008, quando Bush sairia da Casa Branca ao final do seu segundo mandato, a eleição não parecia ser entre o atual presidente Barack Obama e o candidato republicano John McCain, mas entre os democratas e George W. Bush.
Mesmo sem concorrer a mais nada, ele permanecia presente nos debates, nas propagandas, nos ataques. O sentimento geral entre os eleitores de Obama é que eles deveriam "vingar" a derrota de 2000, a "eleição roubada", e fazer justiça. Não foi surpresa quando, já eleito, o presidente Obama e seu partido começassem a falar de uma "herança maldita". Este termo desperta alguma lembrança sobre a política brasileira?
Se não despertar deixe-me refrescar sua memória: foi assim que o atual presidente Lula batizou o legado de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. A despeito de ter mantido a política econômica, de ter mantido a política de privatizações e concessões, de ter mantido e ampliado o programa de Bolsas, transformando-0 em carro-chefe de seu governo, Lula e os petistas até hoje falam de FHC como se ele fosse o "coisa ruim". Porque?
Antes de mais nada, deixe-me dizer que não sou grande fã do governo de Fernando Henrique. Não foi um bom momento econômico porque o mundo não ajudou, e o Brasil ainda não tinha os fundamentos econômicos sólidos que o permitiram resistir àquela crise como resistiu à de 2008. Mas a cada dia me torno mais admirador da postura republicana que ele manteve durante a sua sucessão, bem diferente deste comportamento de caudilho que Lula exibe agora.
Cada vez que FHC diz algo, que aparece na TV ou emite uma opinião em sua coluna dominical nos jornais, os petistas reiniciam o linchamento moral e histórico a que se dedicam desde o primeiro dia em que se aboletaram no poder. Mas porque? Lula não é o mais popular de todos? Não é "O Cara"?
Simples: porque após o impeachment de Collor, o PT considerava que era direito seu eleger o próximo presidente. A eleição de 1994 seria apenas um ritual que conduziria o "líder metalúrgico" ao Planalto. Por isso foram contra o Plano Real, o qual chamavam de "eleitoreiro".
E foi justamente por causa do Plano Real que levaram uma coça nas urnas. E levaram outra coça em 1998, junto com outro populista sem nenhum cacoete para administrador como o ex-governador Leonel Brizola, o "arquiteto das favelas" do Rio de Janeiro. E eles não perdoam FHC por isso.
Tiveram a chance de levar seu "estimado líder" ao poder em 2002, coisa que os americanos não puderam fazer com Al Gore, já que a política daquele país até admite uma segunda candidatura, mas jamais admitiria um perdedor de 4 eleições sem trabalho fixo - a não ser o de candidato presidencial profissional - continuar tentando até conseguir.
Mas não foi o bastante. Porque não foi contra FHC, o cara que "roubou" o direito deles elegerem o presidente em 1994.
E quem sabe como seria caso tivessem conseguido o poder naquela época. Pelo empenho que demonstram em eleger uma inepta como presidente agora, não é de se espantar que caso o PT estivesse no poder já há uns 16 anos hoje seríamos uma república companheira, que escolhe seus sucessores como um Vaticano Sindicalista.
Mas isso não aconteceu. Não aconteceu porque o ex-presidente Itamar Franco não deixou que o país naufragasse após o impeachment de Fernando Collor. Não aconteceu porque o Plano Real tirou o Brasil da ciranda inflacionária e plantou a semente da inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Não aconteceu porque ainda não foi daquela vez que funcionou a política do "quanto pior, melhor", tão cara ao PT quando eles estão na oposição. Não aconteceu porque no meio do caminho da trupe palanqueira tinha uma eleição e porque eles perderam essa eleição.
O culpado? Fernando Henrique Cardoso, e ele precisava e ainda precisa ser punido. Seja com dossiês contra sua esposa, já falecida, seja com o linchamento histórico que sofre por parte dos bate-paus petistas.
Ele precisa-ser-punido.
Afinal, chutou a bunda do "Cara" nas urnas duas vezes e isso é mais do que eles podem suportar.
Reescrevendo a história
Postado em 17 de jul. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários
Em certas ocasiões, "reescrever a história" é bom. Quando se subverte o destino miserável de um povo em algo virtuoso é um belo exemplo. Mas infelizmente não é essa a norma. Quando um partido político com vocações anti-democráticas chega ao poder, ele tenta reescrever esta história apagando o que não lhe é conveniente dos livros e, se possível, até da memória das pessoas.
Por exemplo, é isso o que Lula faz há quase 8 anos com o seu "Nunca antes na história destepaiz". Ele nega cada conquista, cada avanço, cada coisa boa -ainda que insuficiente - que foi feita no decorrer da história. Apodera-se de programas iniciados no governo de Fernando Henrique - como o Bolsa Escola, Vale Gás, Bolsa Alimentação - amplia seu alcance, coloca todos sob o guarda-chuva do Bolsa Família e passa a dizer que tudo aquilo é criação sua.
Ao fazer isso, ele atenta não só contra a nossa inteligência, mas contra a história. Mistifica, distorce as verdades e cria - de maneira semelhante a qualquer outro ditadorzinho de meia pataca - uma releitura do passado que o glorifique. Não é a toa que vive por aí se apresentando como se fosse alguma divindade.
Basta procurar: qualquer regime autoritário, confesso ou não, trata logo de apagar seus adversários do mapa. Os petistas ainda não chegaram ao cúmulo de derrubar estátuas, remover placas de bronze ou mudar nomes de rua, mas se pudesem...e até quando será que não poderão?
Como já disse outras vezes, o PT - em seu imenso egoísmo histórico, em seu hábito de colocar sempre o partido na frente da nação - apresentou como candidata ao posto de sucessora de Lula a pessoa mais despreparada, não testada e inapta a ser presidente da república de que se tem notícia.
E para criar em torno da tal candidata uma história que ela não possui, conhecimentos que ela não possui e aptidões que nunca teve, o PT põe sua fábrica de mentiras em funcionamento e trata de reescrever a história.
Ela participou de grupos terroristas que mataram até civis durante o regime militar? Na leitura deles ela foi uma "corajosa guerreira" que "lutava pela democracia" - esqueça aqui que a democracia que pessoas como ela queriam era semelhante às que existem em Cuba e no falecido Bloco Soviético - e os exilados eram "covardes", que fugiram da luta.
Ela nunca administrou nada na vida? Inventam que ela foi "gerente do PAC", aquele plano de obras que não saiu nem 10% do papel e só existe em computação gráfica e maquetes.
Ela não sabe a diferença entre a Candelária e a Cinelândia? Já que falou que o comício das "Diretas Já" aconteceu na Cinelândia, quando na verdade foi na Candelária? Não tem problema, os petistas dizem que antes houve uma "passeata" saindo da Cinelândia e transferem o evento histórico de lugar com dois sofismas, três gritos e umas mil repetições, como convém a qualquer mentira que queira passar no vestibular para verdade.
Mestre pela UNICAMP? Mentira. Presa por crime de opinião? Mentira. Não participou da luta armada? Mentira. Não mandou espionarem Ruth Cardoso? Mentira. Nenhum dossiê ou tentativa de arapongagem saiu de seu comitê eleitoral? Mentira.
Mentira, mentira, mentira.
E assim este partido que aparelha o estado e se une à nova elite pelega vai contando mentira atrás de mentira, na sua tentativa de reescrever a história, enganar o eleitor e jogar o país neste salto no escuro.
Cabe a você, que vai às urnas em Outubro, decidir se quer pular nesse abismo e, principalmente, se é com essa gente que deseja estar abraçado.
No tempo da chinelada, existiam bem menos "chinelos"
Postado em 13 de jul. de 2010 / Por Marcus Vinicius 15 Comentários
Ao invés de dar logo uma chinelada porque o moleque jogou uma pedra no telhado da vizinha, hoje os pais tem que perguntar para ele "o que o levou a desejar causar danos à residência de outra pessoa".
Digo isso porque existe um projeto de lei proposto para comemorar os 20 anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no qual serão coibidos "castigos corporais" em crianças.
Quando você lê isso assim de primeira, até acha uma coisa excelente, afinal "castigos corporais" é uma expresão que remete ao que agentes penitenciários fazem com presos, inquisidores com bruxas, maridos violentos com esposas oprimidas, etc, mas olhando mais atentamente o texto, veremos que ele prevê que serão considerados como "castigos corporais" as velhas palmadas e, pasme, até colocar a criança de castigo.
Não sei como o Estado poderia se enfiar mais dentro da casa das pessoas do que isso. Talvez só falte aos politicamente corretos definir quais os dias em que os casais poderão fazer sexo e qual é o horário correto de ir ao cinema.
Não é exagero meu, apesar de parecer, porque tenho quase certeza de que o ideal do politicamente correto é chegar num ponto onde a liberdade de pensamento será substituída por uma cartilha, opinião se resumirá a dizer qual o nosso sabor preferido de sorvete e a indivualidade será coisa de gente ruim, muito ruim.
Sou do tempo em que se tirássemos nota baixa no colégio ficávamos sem ver televisão, se fizéssemos besteira levávamos umas palmadas e se a besteira fosse grande demais o cinto comia. Não sou traumatizado, não virei bandido, não tenho desvios sexuais e, acredite, morro de saudades da minha infância.
Amar e educar um filho é dar tudo o que puder a ele, inclusive educação, inclusive vários "nãos".
Pelo tal texto, serão considerados abusos, entre outros, "palmadas, tapinhas na mão, obrigar a criança a ficar em certo lugar", ou seja, você vai ter que fazer uma terapia de grupo com seus filhos mais ou menos a partir dos 2 anos de idade, ou então terá que educá-lo com base no que os "progressistas" acham que é devido.
O papel dos pais se resumirá basicamente a conceber uma criança e sustentá-la até a maioridade, quando provavelmente deverão pagar algum advogado para tirá-lo da cadeia, já que não conheço uma pessoa sequer criada sem limites que preste para qualquer outra coisa além de virar um delinquente.
Lógico que surras homéricas, dessas de deixar a criança roxa, abusos diversos, assédio moral, tudo isso é condenável, é coisa de covarde, de bandido, que merece é cadeia. Uma coisa é dar umas palmadas, colocar de castigo sem ler gibis durante uma semana ou sentado no sofá durante meia hora. Outra coisa bem diferente é espancar a criança, humilhá-la, deixar sem alimentação, ao relento.
E a tal proposta de lei peca justamente por isso, por tratar todas as situações como o excesso.
Conversar, orientar, propor, avisar, tudo isso é papel dos pais. Fazer uma criança é fácil e para isso basta um ato sexual (ou laboratorial, como preferir). Criar um filho, formar um ser humano, é tarefa bem mais complexa.
Mas na hora que a conversa não adianta, é salutar que os pais coloquem de castigo sim e dêem umas chineladas na bunda, porque isso nunca matou ninguém e na época em que o chinelo falava mais alto, não víamos tantos imbecis fazendo tantas imbecilidades quanto vemos hoje em dia.
Porque no final das contas, se você negligenciar o seu dever de educar seus filhos, será a vida que vai distribuir chineladas nele mais tarde, e as chineladas da vida machucam muito, muito mais, e não deixam nenhuma saudade.
Ópio do Povo
Postado em 27 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
E assim João, que poderia ter qualquer outro nome, acorda de manhã bem cedo para pegar um ônibus lotado, que daria no mesmo se fosse um trem lotado ou uma lotação ilegal e lotada, para chegar na hora no colégio particular onde trabalha como faxineiro, um colégio desses que os filhos dos ricos estudam e os quatro ou cinco ou dez filhos de João, José ou Chico jamais poderiam estudar.
Ele não acha esse o melhor trabalho do mundo, mas o que mais ele poderia fazer? Poderia ser pedreiro, poderia ser servente, poderia ser office-boy, poderia ser frentista de algum posto de gasolina, poderia ser balconista de padaria, lavar carros, aparar grama, porteiro não poderia ser, porque não sabe ler e nem escrever muito bem. Gari também não poderia, porque exige segundo grau completo e João só estudou até a quarta-série.
Só não poderia virar bandido, porque isso ele não queria ser. Não porque se achasse muito melhor do que eles, mas porque sabia que seria preso. Sabia também que no Brasil é gente como ele que acaba morto ou na cadeia e, sabe como é, ele tinha cinco filhos para criar. Não é tanta coisa como dez filhos, mas já dava um trabalho danado, um trabalho quase tão grande quanto se fossem seis.
Aliás, João está preocupado por conta disso. É que Joana, que poderia ser Maria ou Josefa, acha que está grávida outra vez. Não é que não goste de ser pai, pelo contrário, é uma das poucas alegrias verdadeiras que tem na vida, mas é que criar cinco já é uma complicação.
Ainda mais porque o posto de saúde quase nunca tem médico disponível e, quando tem médicos não tem remédios, quando tem remédios não tem enfermeiros, quando tem enfermeiros não tem como fazer exames e, se por algum milagre, um dia tiver médicos, remédios, enfermeiros e exames, estará tão lotado que João terá que esperar tanto que, quando finalmente chegar sua vez de ser atendido, quer dizer, a vez de Joana, alguma coisa já estará em falta de novo.
Essa preocupação está acabando com o dia de João, mas ele não se desespera muito porque sabe que se não fosse a gravidez de Joana, seria a bronquite do filho mais velho ou quem sabe a greve na escola do mais novo, ou então o preço do feijão, da passagem, o vale que terá que pagar no final do mês ou o carnê de prestações que usou para comprar um aparelho de TV, para assistir o futebol no Domingo e para Joana ver as novelas durante a semana.
Vida de João não existe sem preocupação, pensava ele quase rindo da rima criada quase sem querer.
Mas neste mês especialmente João tinha uma outra preocupação, maior do que todas as outras. Este era um mês diferente, porque é um mês que só acontece muito de vez em quando, de quatro em quatro anos. João queria chegar logo em casa, porque junto com os amigos da rua iria enfeitar o lugar onde moravam com bandeirolas verdes e amarelas, pintar o asfalto esburacado com caricaturas de jogadores da Seleção e combinar o churrasco que fariam no dia do jogo de estréia na Copa do Mundo.
Acordar de madrugada naquele mal servido subúrbio, pegar o ônibus lotado para trabalhar como faxineiro numa escola que, se pudesse ter freqüentado, jamais teria que ser faxineiro, a incerteza da chegada de mais um membro da família que ele terá que amparar sozinho, já que ninguém mais parece ligar para eles, os preços, a vida, nada disso tinha importância naquele momento, o que importava agora era enfeitar sua rua, se reunir com os amigos, assistir a Seleção.
O que importava agora era que o técnico não deixasse o craque de fora, escalasse o time com a ofensividade e a arte que se espera do futebol brasileiro e que, no fim daquelas sete partidas de Copa do Mundo, o Brasil pudesse sair campeão mais uma vez.
Aí João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, poderá encher o peito de ar e gritar a plenos pulmões: eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!
Não sei com que orgulho, não sei com que amor.
O mito da remoção das favelas
Postado em 8 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 17 Comentários
O mesmo relevo exótico que presenteou o Rio com uma beleza natural que encanta qualquer um, também cobrou seu preço com a falta de espaços urbanos e com a utilização deste relevo para um processo de favelização que terminou por roubar em muito esta mesma beleza.
Já falei disso aqui antes. Favelas são não apenas bolsões de miséria, sujeira, áreas sujeitas ao avanço do crime a reboque da ausência do estado. Favelas são horrorosas esteticamente. Substituem-se árvores e vegetação nativa por barracos, vielas, biroscas, lixo.
A tal regra que impede a construção acima da "Cota 100"(acima de 100 metros) é jogada no mesmo lixão que os restos de comida dos barracos, com os ratos passeando por cima.
E sempre que uma remoção, ainda que mínima, é tentada, logo aparecem as ONGs, os defensores da favelização, a justiça garantindo liminares, os demagogos de plantão e toda sorte de gente interessada em manter aquela chaga aberta na cidade.
Aí quando ocorre um temporal, tudo desaba e as pessoas são vitimadas, essa mesma gente corre para perguntar porque o poder público nada faz, como é que aquela situação foi permitida. Há mais de 50 anos, após outro temporal que também destruiu a cidade, alguns urbanistas elencaram diversas soluções para que o Rio de Janeiro amenizasse seus sofrimentos com as chuvas.
Entre limpeza e canalização de rios, ampliação do sistema de captação das águas e outras sugestões, estava a remoção total das favelas e o reflorestamento das encostas. No entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas existia um desses amontoados de barracos. Esta foto mostra como era a área antes da remoção.
Imagine como seria um dos cartões postais da cidade hoje se aquela favela ainda estivesse ali. Infelizmente esse tipo de ação parou. A demagogia e a busca do voto fácil não só fizeram com que sucessivos governos deixassem de combater essas invasões como passassem a estimulá-las.
Invadem uma área, constróem barracos, destróem a natureza, alguns fazem gato de luz, de net, de água e no final são premiados com a posse do terreno e com algum PAC, que vai urbanizar (leia-se maquiar) todo aquele caos incorrigível e ainda ganham internet Wi-Fi grátis de brinde.
A solução verdadeira, que é a remoção total e reassentamento em outras áreas da cidade, é satanizada por todo lado. "Vão morar aonde?", "Vai botar essa gente toda em que lugar?".
Ora, amigos. Com certeza não será em Ipanema, no Leblon e nem em Copacabana. Mora nesses lugares quem pode. Eu mesmo não moro em nenhum desses bairros assim como muita gente que não quer arcar com os custos da habitação ali também não.
Mas nem por isso levantei um barraco à beira-mar, na esperança de darem posse depois.
E assim tem que ser com quem mora nas favelas. Vão morar aonde podem, aonde há espaço. O poder público, se fosse sério, colocaria transporte público de qualidade nesses locais de reassentamento e a mobilidade estaria garantida, assim como a qualidade de vida de toda a cidade.
Não são soluções fáceis, é claro. Mas são bem menos custosas do que as vidas que se perdem de vez em quando nesses desabamentos, vidas perdidas para se defender posições coitadistas, para perpetuar essa política e essa visão "faveleira" de urbanismo.
Vidas trocadas por votos.
Mais um temporal pára o Rio de Janeiro
Postado em 6 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
Pra começar, no Rio só faz frio mesmo durante uns três dias e 12 horas por ano. No resto do tempo a cidade se divide entre o calor infernal e a chuva torrencial. Sabendo disso, todo carioca sabe que seu guarda-roupa precisa de menos agasalhos e mais galochas.
Quem vier morar no Rio de Janeiro deve ter em mente que de três coisas ele jamais escapará: suar feito um maratonista queniano mesmo que caminhe a passos de tartaruga, molhar seus pés nas águas fétidas de alguma enchente durante um temporal e ouvir a infame piadinha de "ver a Mangueira entrando" quando chega o Carnaval.
Se eu sei disso e certamente o prefeito da cidade (por prefeito entenda-se qualquer indivíduo que já ocupou ou ainda ocupará este cargo nos últimos e nos próximos 20 anos) também sabe.
Como no Rio o calor é tão inevitável quanto guardadores de automóveis e bailes funk, melhor então que o alcaide se preocupe com as chuvas. E não acho que a presença do prefeito na imprensa dizendo platitudes como "não tentem atravessar ruas alagadas" ou "não saiam de casa se o seu carro não for anfíbio" seja uma ação efetiva contra o caos que se instala.
Desde que Getúlio Vargas ouvia discos da Xuxa todo mundo sabe que a Praça da Bandeira alaga quando chove. Desde que a Praça da Bandeira existe ela é a principal via de ligação entre a Zona Norte da cidade e o Centro. Dessa forma, sempre que chove estas duas partes da cidade ficam isoladas uma da outra.
Não é possível que um país que tem a criatividade para produzir tantos mensalões e impostos diferentes não consiga imaginar uma solução viável para a Praça da Bandeira. Garanto que a população não se importaria caso essa solução fosse superfaturada tal qual a Cidade da Música do César Maia, que sozinho mandou na cidade por uns 17 anos e nada fez contra os problemas causados pelas chuvas.
Todo mundo sabe que bueiro entupido vira alagamento. Todo mundo sabe que casa construída em encosta de morro, bah vamos parar com esse "politicamente correto" e dizer favela mesmo, todo mundo sabe que as favelas desabam na cabeça dos próprios favelados quando chove, qualquer indivíduo com mais de 10 anos de idade conhece todos os pontos críticos em dias de chuva da cidade onde mora, e como é que um prefeito sabendo disso tudo, nada faz?
Digamos que a dinheirama que vai ser gasta para promover 15 dias de Jogos Olímpicos e construir estádios e arenas que depois virarão criadouro de mosquito da dengue fosse usada para algo um pouco mais útil como, por exemplo, garantir que os cidadãos não gastem 5 horas para voltar para seus lares caso chova mais de 30 minutos na cidade. Não seria mais inteligente?
Mas quem disse que político brasileiro é inteligente? Eles são é espertos, o que é bem diferente, ainda que pareça igual. São todos medalha de ouro em pilantragem.
Pelo menos uma obra eu já vejo concluída para a tal Olimpíada 2016: basta rezar para chover bastante que o Parque Aquático estará ali, prontinho para as competições de "fuga do engarrafamento", "salve-se quem puder" e "desafio à leptospirose".
Votar adianta?
Postado em 5 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Só que a última eleição municipal me ensinou uma amarga lição: distância aliada à um gigantesco engarrafamento pode acabar com seu dia. Sendo assim, resolvi facilitar o cumprimento do meu "dever cívico" e agora votarei na minha esquina. Bem melhor, né?
Mas essa história comezinha não é a razão de prender vocês aqui lendo minhas aventuras eleitorais, é só o tal "gancho" pra falar do assunto que realmente interessa.
Enquanto aguardava na fila do TRE, uma senhora puxou assunto comigo. Ela estava ali pra pagar umas 2 ou 3 multas eleitorais por não ter comparecido ou justificado ausência em pleitos anteriores e me disse uma coisa que, de tão chocado que fiquei, não consegui nem esboçar aquela reação-fake de simpatia: "Eu nunca vou votar, meu filho. Não tenho ânimo para ir lá escolher esses ladrões, prefiro que os outros decidam por mim".
Notem que o grifo é proposital. Ela prefere que alguém que ela nem conhece decida por ela quem vai mexer na política de impostos que afeta o seu bolso, que defina salários que afetarão os seus rendimentos, que decida qual escola vai receber verba ou não, se a violência deve ser combatida prioritariamente e de que forma, se a favelização é problema ou solução, aonde vai o asfalto, se políticos ladrões serão responsabilizados em Comissões de Ética, etc, etc, etc.
Mas aposto que ela (e/ou muitos que pensam igual a ela) não tiveram a menor preguiça de opinar e/ou votar em algum dos paredões do Big Brother Brasil.
Eu sei que a qualidade e o caráter da nossa classe política desestimula o cidadão honesto, que trabalha, que tem mais o que fazer da vida e não quer nenhuma boquinha a se envolver ou se interessar muito sobre esses assuntos.
Mas também sei que a política existe obrigatoriamente em qualquer sociedade e que a classe política estará presente independente de nossa vontade ou não.
Dessa forma, cada vez que uma pessoa comum, séria, limpa, desiste de se informar sobre a política, esse espaço deixado por ela obrigatoriamente será ocupado por algum pilantra, que não terá o menor pudor de utilizá-lo para lesar a totalidade da sociedade.
Saber quem é o deputado em quem você votou, saber o que os candidatos aos mais diversos cargos propõem, guardar promessas, optar por aquele que melhor representará os valores da ética e, principalmente, da democracia, é uma forma de participar e de influir sem precisar necessariamente envolver-se com máquinas partidárias.
A opção do avestruz, que enterra a cabeça num buraco e espera que os outros resolvam tudo por ele, além de idiota é perigosa, porque não se esqueça: se a sua cabeça estiver enterrada num buraco, provavelmente suas nádegas estarão apontando para cima, sujeitas a qualquer coisa que vier.









