A história de uma ação de anti-marketing muito bem sucedida
Postado em 9 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários
Mas assim como tem gente que dá sorte ganhando na Mega Sena, nascendo ou, derradeira tentativa, casando, existem pessoas que fazem tudo para que sua forma de ganhar dinheiro dê errado e no final acabam dando certo (e nem estou falando de alguém que compõe algo como "Ah, Moleque!" ou a "Dança da vassoura", com versos tão poéticos quanto "me diga aonde você vai, que eu vou varrendo" e fica rico com isso).
E num sábado, num pequeno bar comandado por seu dono e único funcionário, Zé Barba, que usava um tapa-olho de pirata que nunca descobrimos se era por necessidade ou só para assustar os clientes, conheci a maior ação de anti-marketing da história (pelo menos da minha história).
- O que é aquilo naquela garrafa no canto?
- Ah, é uma merda aí que eu fiz, deixa pra lá que é um lixo.
- Mas porque você mergulhou aquela planta numa garrafa de cachaça?
- Não é planta, é boldo, e não é cachaça, é vodka, whisky, campari e conhaque. Ah sim, tem um resto de cachaça ali também.
- Porra, você saiu misturando tudo pra que?
- Tava cheio de bebida quase vazia aqui e eu quis jogar fora, fui despejando tudo naquela garrafa Pet e joguei um boldo pra ver se dava uma cor.
- E deu, uma cor de bosta.
- Foi o que eu disse no início, é uma merda.
- Mas qual é o gosto?
- E você acha que eu sou maluco de provar isso? Só ficou ali porque eu esqueci de jogar a garrafa no lixo, mas se quiser experimentar, é 10 reais.
Não arrisquei dar um gole naquilo, ainda mais tendo que pagar, mas uma semana depois, quando voltei lá (até hoje não sei porque a gente voltava naquele lugar, que ainda vendia Crush, coxinha de galinha com osso e ovo cozido colorido), fiquei assustado: o tal lixo vendia mais do que KY em casa de swing.
- Não acredito que você realmente esteja vendendo isso.
- Eu não acredito é que tenha otário que compre - disse ele, enquanto enchia o copo de um dos otários - mas esses idiotas dizem que o boldo previne a ressaca.
- Será?
- Como eu vou saber? Tenho nojo de beber isso, mas já vendi umas 10 garrafas só hoje.
Enquanto isso, um sujeito vira pra mim e diz:
- Ele só fala mal pra deixar a pessoa curiosa e acabar provando.
- Mas é bom?
- Não, é uma merda, mas eu continuo trazendo meus amigos aqui pra eles cairem nessa também...ah sim, a história da ressaca é verdadeira, você acorda bonzinho no dia seguinte.
- Acho que é porque passa mal na véspera, né?
Silêncio.
O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)
Postado em 2 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários
Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.
E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.
Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".
Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.
Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).
Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.
E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:
- Esse é o apartamento reformado?
- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?
- Embaixo do monte de entulho?
- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.
- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?
- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.
- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?
- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?
- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.
- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.
- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.
A arte de falar sem dizer nada
Postado em 28 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Tudo bem que muita gente adora ter opinião sobre tudo (o que nem é um problema), mas complica quando resolvem contar essa opinião para os outros (aí sim, geralmente vira um problema).
Defendo a censura? Não. Mas acho que se as opiniões de um cretino são mesmo tão preciosas pra ele, o sujeito deveria tratá-las como tesouros que são: trancando num cofre.
Só que, às vezes, aparece um amigo chorando as mágoas de uma dor de corno, uma aula ou reunião para a qual você não se preparou, alguém te contando um problema ou simplesmente quando querem um elogio.
Nessas horas você precisa dizer algo.
Por isso coisas como "É foda...", "Complicado...", "As pessoas são assim mesmo", "Não se pode confiar em ninguém", "Eu sei como você se sente", "Tem coisa pior do que isso", "Mulher (ou homem) é tudo igual", "O tempo cura tudo", "Nisso é melhor nem se meter", "Irado", "Super legal", "E não é que é mesmo?", entre outras, são uma forma inesgotável de falar sem dizer coisa alguma.
Seu amigo foi traído pela namorada? "As pessoas são assim mesmo, mulher é tudo igual".
Querem saber o que você acha sobre a Primavera Árabe? "Irado".
O noivo da sua amiga fugiu no dia do casamento com a tia dela? "Não se pode confiar em ninguém".
Pegaram seu chefe trancado com uma anã no depósito de limpeza? "Nisso é melhor nem se meter".
O Brasil perdeu o quarto pênalti seguido na semi-final da Copa América? "Tem coisa pior do que isso".
Alguém diz numa mesa de bar que só tem corno no Espírito Santo? "E não é que é mesmo?".
Sua amiga gorda te mostra uma foto de biquini no Beach Park? Você até queria dizer "é foda", mas solta mesmo um "Super legal".
Note que você opinou, elogiou, interagiu com seu interlocutor, demonstrou interesse e solidariedade pelo que ele te disse e no entanto não precisou dizer absolutamente nada relevante sobre o assunto.
A única situação em que isso não funciona muito bem é quando esperam um pouco mais do que simples opiniões e empatia vindas de você, como uma aula sobre Marx ou uma reunião sobre balanços semestrais.
Nesse caso também é simples, basta deixar que alguém diga alguma coisa primeiro e depois você repete tudo o que a pessoa falou rearrumando as palavras:
- Marx tinha uma concepção hegeliana da história.
E você:
- Inclusive, me permitam acrescentar, Hegel foi uma grande influência na concepção histórica marxista.
Ou então:
- Estes balanços semestrais mostram que nossa empresa pode reinvestir parte do lucro líquido em programas de capacitação.
Aí você complementa:
- Aliás, eu li na Forbes que programas de capacitação são boas opções para o investimento do lucro líquido.
No final das contas, todos vão te considerar um cara ponderado, conhecedor, estudioso e útil, porque se tem uma coisa que faz com que as pessoas te considerem um verdadeiro gênio, é você concordar com elas.
Caixa de Manzanas
Postado em 2 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.
Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.
Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.
A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".
Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.
Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.
Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.
Mas finalmente o carteiro passou, depois de longa e dolorosa espera. Tantas noites sem dormir querendo uma notícia, tanta angústia e ansiedade sem uma palavra de consolo sequer.
Mas agora o sofrimento finalmente acabara. Viu seu nome escrito e nesse momento soube que sim, era real. Não era de conto de fadas, não era uma simples ilusão de felicidade, uma promessa vazia, um pote de outro atrás do arco-íris.
Segurou com força aquele embrulho e depois o abriu correndo, rasgando apressadamente seu próprio nome escrito no papel, o coração palpitando, a respiração acelerada.
Mas a espera compensou. Não seria mais uma dessas pessoas que passam a vida suspirando, imaginando como seria se tudo fosse diferente. Se esforçara, dera o melhor de si, acreditara em seu potencial e agora a recompensa estava ali, bem diante dos seus olhos.
E mal podia acreditar ao ler palavras tão emocionantes, palavras que nem todo mundo consegue ler em uma vida inteira, talvez as mais lindas que jamais lera na sua existência:
"Designed by Apple in California".
Me engane, por favor
Postado em 20 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários
Você está andando pela calçada e encontra um vendedor de frutas e verduras. O carrinho caprichosamente arrumado, as hortaliças devidamente pulverizadas com água para parecerem mais frescas do que uma Halls preta e até o sujeito devidamente paramentado com um chapeuzinho de palha.
É quase instintiva a pergunta "de onde vêm estas frutas?" e ele quase certamente responderá "ah, é de uma roça que eu tenho lá em Ribanceira".
É muito melhor comprar alimentos plantados pelo próprio vendedor lá em Ribanceira do que alimentos que ele pega ali na esquina e revende.
Você pode sentir o cheiro de terra pela manhã, o café e o leite quente que ele toma às 4:00 horas antes de ir pegar na enxada e cuidar da roça, o sol da manhã na sua fronte, o suor do trabalho pesado, a colheita feita junto com a esposa e os filhos e, pronto, o que era simplesmente um ramo de chicória ou um amarrado de alfaces vira um capítulo de Ana Raio e Zé Trovão.
Talvez até o verdureiro plante o que vende e traga para a cidade grande naquele carrinho, mas a maior probabilidade é que ele compre tudo num Ceasa mesmo e saia por aí revendendo. Mas como as pessoas gostam de comprar coisas com história, bem, ele que não é bobo entra na onda e faz o teatro.
Imagino o cara no final do dia tirando o chapéu, colocando uma camisa da Oakley e indo pro seu apartamento num subúrbio qualquer, tomar um choppinho enquanto ouve pagode no rádio.
Isso tudo me lembra um episódio daquele seriado Friends, quando uma das personagens resolve comprar uma mesa de centro numa dessas lojas de móveis gigantes tipo a Tok&Stok. A sua companheira de casa, mais natureba, tem verdadeiro horror deste tipo de coisa produzida em série, preferindo comprar móveis e utensílios usados, porque "eles tem história".
Quando a mesa chega, a amiga precisa inventar uma "história" para a tal mesinha e aí diz que era a mesa de um boticário, que vivia numa cidade onde queimavam bruxas ou algo assim. Quando perguntada sobre a época da mesa ela simplesmente responde "ah, de antigamente".
A natureba ainda vira e diz "consigo sentir até o cheiro das ervas medicinais que ele guardava aí, nossa, muito melhor do que aquelas horríveis mesinhas fabricadas em série". Pronto, era a história.
E tal qual quem compra verduras "da roça" ou a personagem que adorou a mesa de "antigamente", nós adoramos essas histórias.
É o hippie que vende pulseirinhas de concha mas diz que são "corais australianos" ou aquele velho telefone que o sujeito do antiquário jura que foi de uma "vizinha de Rui Barbosa".´
Funciona mais ou menos como essas réplicas chinesas de produtos famosos: compramos uma idéia e não a coisa propriamente dita.
Só que nesse caso, corremos menos risco da coisa parar de funcionar dali a uma semana.
Coé? Belezinha, bróder?
Postado em 11 de mai. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Naquele tempo, mais ou menos como funciona hoje com os smartfones, se você não tivesse pelo menos alguma peça de roupa da Redley, da Company ou da Cristal Graffiti, você não era ninguém.
E a moda faz a gente se sujeitar a coisas que depois vão depor contra nós mesmos no futuro, como usar pochetes, ombreiras e ter aturado vendedores de lojas "pra jovem". Sempre achei estranho o formato de certos programas de TV direcionados a este público, porque mesmo na época em que eu fazia parte dele, nunca vi nenhum amigo meu se comportando como os personagens e apresentadores daqueles programas.
Tudo muito frenético, alto, cheio de gírias forçadas e aquele ar de "coé, bróder" me deixavam meio nauseado. Assistia aquilo e pensava: "me dêem um tiro caso eu me comporte desse jeito sem notar".
Mas nada superava (e ainda supera) certas lojas de roupas e acessórios.
Não é porque entrou ali querendo comprar um tênis "da moda", que o vendedor precisa tratar o cliente como se ele fizesse parte desta tribo que não consegue pronunciar uma frase que não contenha "massa", "sacoé?", "véio", "doideira", "show de bola", "loucura", "neurótico" ou "bombando".
Não sei se isso consta em algum manual de instruções ou se eles encarnam um personagem quando estão ali, mas o fato é que, dependendo da loja, todos agem como um doidão de rave que acabou de ingerir 1kg de ecstasy.
Eu até acredito que seja só personagem mesmo, que eles saiam dali e desencarnem o Paulinho Cintura, e fico imaginando um cliente identificado com o "estilo" de venda ao encontrá-los na rua, numa situação normal:
- Coé, Riquinho, beleza, véio? Show te encontrar aqui, hein, mano? Vô lá na loja essa semana, valeu meu camaradinha?
- Tudo bem, cara? Sabe o que é? Eu saí lá da loja, meu nome é Ricardo e não Riquinho, isso era só um apelido escroto que me obrigavam a usar...
O resto desse diálogo você já pode imaginar.
Eu sei é que aquele tipo de tratamento "playsson" me incomodava bastante, primeiro porque eu achava exagerado e caricato, depois porque eu nunca tinha certeza se a pessoa estava fazendo aquilo pra me zuar ou não.
- Hahaha, viu que otário? Fiquei tratando ele que nem um apresentador da MTV e ele achou que estava abafando...
Já pensou se outros profissionais se comportassem assim?
O cirurgião:
- Beleza pura, Dona Odete? Tranquilex? Saca só, vou colocar uma ponte de safena neurótica na senhora, a senhora vai ficar show de bola, valew?
O diretor de criação:
- Pô, Aninha, que isso, gata! Chapuletou nessa logomarca, hein? Mandou muito! Toca aqui...
O arquiteto:
- Tiagão, mano! Firmeza aí, jão? Seguinte, aquele projeto da obra da sua casa que você pediu já tá quase pronto, segura as pontas que você vai ver como tua cachanga vai ficar doideira total!
O garçon:
- Dois espaguetes com molho de camarão pro rango e pra beber? Aí, vou dar uma idéia pra vocês que são meus chegados curtirem total, serinho, o vinho francês que chegou tá muito show, vocês vão ficar fissurados...
Tenho certeza que essa combinação meio Sérgio Mallandro, meio Evandro Mesquita é meio over em cada das profissões acima, assim como também é em qualquer outra profissão, se pensarmos bem, até mesmo na de vendedor de "loja pra jovem".
Né não, bróder?
O de sempre?
Postado em 14 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário
Sim, porque somente alguém empenhado em planejar alguma cagada exibe tanta regularidade quanto a minha, realizando quase que diariamente o mesmo metódico pedido: um vanilla latte, desnatado, temperatura kids (detesto café quente).
Só que na verdade eu faço parte do segundo tipo de pessoas que exibe este comportamento obsessivo: o dos frequentadores assíduos. Só falta me darem uma carteirinha de sócio.
Qual lugar, por mais pé sujo que seja, não tem seus habitués? Aqueles que já nem entram na fila (quando o lugar chega a ter filas, é claro)?
Eu e um amigo brincávamos antigamente que, toda vez que chegássemos a um lugar e o porteiro nos cumprimentasse com um "E aí? Tá sumido!" e o barman ou garçon perguntassem se queríamos "o de sempre", é porque já estava na hora de trocar de ambiente.
Atualmente nem penso mais assim, gosto que saibam o jeito que eu prefiro meu café, a cor dos sapatos que eu geralmente compro e, principalmente, que a minha Coca-Cola (pode ser Pepsi) deve ser servida exatamente como vem de fábrica: sem um fdp de um limão ali no meio.
Não me entendam mal, eu adoro limão, mas quando estou afim de um, peço que ele venha espremido e sem muito açúcar e não boiando na "água negra do imperialismo" como um náufrago da proatividade.
Sim, porque o maior exemplo de que proatividade é uma merda é essa história do limão na Coca-Cola.
Você não quer, você não pede, mas o cara acha que vai te agradar e se adianta colocando aquilo ali. Pronto, já falei demais do limão, deixe que eu volte pro que interessa.
Como a Starbucks é o único lugar que conta com essa minha fidelidade (pro resto todo sou meio "Consumidor Bruna Surfistinha"), lá eu ganho vales-café, provas das novas comidas que eles vendem e uma vez provei até o "Frapuccino Infinito", que consistiu basicamente do meu copo de Frapuccino jamais ficar vazio, com quantos refis meu estômago aguentasse.
Nem preciso dizer que virei habitué do meu banheiro naquele dia.
Ir muito nos lugares significa conhecer um pouco da vida de quem trabalha ali.
Eu sei que uma das mocinhas da Starbucks cursa administração pública, que o barista já foi gerente de estúdio de tatuagem e que eles (parêntese necessário: conheço poucos lugares onde todo mundo que trabalha ali é tão gente boa como naquela loja) adoram fechar a cafeteria e ir beber cerveja num boteco na Rua Voluntários da Pátria, religiosamente.
Provavelmente eles devem chegar lá e dizer pro garçon: traz o de sempre, chefia.
Quanto custa?
Postado em 7 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
- Pode sim, coloque preço nas mercadorias e depois me deixe em paz.
Esse diálogo nunca aconteceu (pelo menos comigo), mas em certas lojas dá a maior vontade de fazer isso.
Quem nunca passou por uma loja, viu alguma coisa na vitrine, mas a aparência luxuosa, o exército de vendedores a postos ou a carteira magra desestimulou a pergunta fatal: "quanto custa?".
Em alguns shoppings eu tenho certeza de que fazem isso como uma forma de espantar pobre, é aquele pensamento "se você precisa perguntar o preço, é porque você não pode pagar", que é intimidante, é.
Dizem que tem uma lei que obriga os estabelecimentos a colocar os preços expostos em local visível, mas em algumas lojas eu confesso que seria meio estranho. Imagina uma joalheria colocando "Colar de pérolas negras, R$300.000,00, parcelamento em 68 vezes sem consulta de crédito, quer pagar quanto?". Isso pode ficar engraçadinho nas Casas Bahia, mas para produtos de luxo realmente não pega muito bem.
Comprar um Celta ou um Palio em 48 meses é normal. Comprar um BMW top de linha desse jeito me parece o prenúncio de um oficial de justiça indo na casa do cara fazer a apreensão do possante por falta de pagamento.
Mas ruim mesmo é você perguntar o preço e o vendedor te dizer "isso aí é caro...". Porra, pera aí, você não perguntoi se era caro ou barato, perguntou quanto é. Juro que se eu fosse o Eike Batista me fantasiava de mendigo só pra entrar nessas lojas, receber uma resposta dessas e depois tirar a fantasia e dizer: "Ráááá pegadinha do milionário!".
Pode me chamar de tarado, pervertido ou o que for, mas toda vez que eu penso em vitrine, lembro daquelas virtines de Amsterdã com as mulheres se exibindo. No caso dessa história toda de expor o preço, eu imagino a situação: "duas loiras pelo preço de uma" ou então "parcelamento em 6 vezes com o serviço entregue somente no final". Será que fariam algum saldão?
E por falar em mulher, já notou como as lojas mais caras geralmente são aquelas que colocam as vendedoras mais gostosas para te atender?
Você entra, vê aquele cinto de couro maneirinho, uma morena de olhos verdes daquelas que só sorriem para você quando querem vender alguma coisa te atende, você elogia o cinto e quase chama a fivela dele de "gostosa" enquanto observa o generoso decote, até que depois de muita conversa ela te oferece uma camisa, uma calça e um chaveiro.
A calça parece meio do seu avô, a camisa é estranha, você sabe que nada daquilo está muito bem - além de que vai custar caro - mas ela fica repetindo como você está bonito, como tudo caiu bem, que nem tinha percebido como aquele cinto realçava o equador da sua cintura e mesmo que ela dissesse algo como "credo, você conseguiu ficar pior do que já era quando entrou com essa roupa de Bozo", ainda assim você sorriria agradecido.
Mulher gostosa pode ser a maior cretina que ainda assim será bem tratada por onde for. Esse é o nível de injustiça do mundo, conforme-se.
Mas você não está nem aí pras injustiças da humaninade e tudo o que consegue pensar é em como está animado com uma mulher assim te dando atenção, até que vem a broxada: R$1.899,00 pelo cinto, a calça e a camisa, o chaveiro ela diz que você vai ganhar de brinde. Uau! Se ainda fosse um passeio no provador.
Tem quem faça uma loucura inútil e garanta a comissão da morena. Eu já sou do outro time, aquele que diz que está sem cheque, sem cartão de crédito, sem nada na carteira, mas que vai sacar o dinheiro rapidinho e já volta.
Aí, só pra te fazer se sentir bem mais pobre do que é, ela responde:
- Se o Senhor quiser, posso arrumar um jeito de fazer um carnê.
Pode ficar tranquilo que o dólar não vai subir
Postado em 9 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Não sei se algum de vocês já reparou, mas planos de viagem mexem com a cotação do dólar. Comigo pelo menos é quase certeza: se eu for tentar fechar algum pacote, ainda que seja para ir ali em Buenos Aires, o dólar dispara no ato.
Tem vezes que fico observando os jornais, uma notícia atrás da outra dizendo que o "real valoriza outra vez frente ao dólar", ou que o "dólar tem recorde histórico de desvalorização no ano", mas tal qual um caçador espreitando sua presa, eu não me movo. Sei que ao menor sinal de que vou tentar viajar, tudo aquilo muda e a moeda americana sobe uns 20% em questão de 10 minutos. Não tenho tempo nem de sair do metrô que a situação cambial muda mais do que a inflação dos tempos do Sarney.
Um sujeito mais paranóico pode até pensar que isso é perseguição pessoal.
Certa vez eu queria porque queria ver os pinguins da Patagônia. Fui até a agência repetindo mentalmente "só vou pegar um orçamento, só vou pegar um orçamento", na verdade eu nem queria só pegar um orçamento, mas tentava enganar o sexto sentido que a cotação do dólar parece possuir - temo até que leia pensamentos - e ver se conseguia driblá-lo. Viu? Esse sou eu virando paranóico.
Cheguei na agência, conversei com a mocinha, consultei os preços, achei tudo muito bom (inclusive o fato de existirem datas disponíveis para o período que eu queria) e, quase a ponto de fechar o negócio, pedi que ela acrescentasse mais dois dias ao final do pacote, já que pretentia aproveitar a ida à Argentina para assistir a uma partida do Boca.
Curiosamente quando ela ia concluir a venda, o sistema ficou lento, caiu - com certeza sabotado pelas forças ocultas do câmbio do dólar - e como estava com pressa, ficou combinado que eu voltaria no dia seguinte para finalizar. Tudo bem, né?
Não. Naquela madrugada no Brasil - já dia na Ásia - milhões de japoneses resolveram espirrar ao mesmo tempo, ocorreu algum eclipse solar na China, os indianos resolveram comer carne de vaca, algum emir em Dubai resolveu doar todo seu petróleo para a caridade, nem sei, mas o dólar aumentou.
Por conta disso a viagem ficou mais cara, e eu - consumidor consciente - resolvi pesquisar em outras agências de turismo, pra ver se melhorava o preço. Só que o câmbio não perdoa, agora ele já sabia da minha intenção e continuou subindo todo dia, até que aquele preço que eu achei caro no início, virou uma bagatela depois de duas semanas.
Resumo da ópera? Desisti da Patagônia, dos pinguins e do Boca Juniors e fui em viagem para Fernando de Noronha, que é tudo o que dizem e mais um pouco, um verdadeiro paraíso na terra.
E o melhor: é totalmente livre da influência do dólar.
Cores e Consumo
Postado em 28 de jul. de 2010 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Comigo essa coisa do visual sempre influenciou muito. Quando adolescente confesso que chegava a desejar alguns discos só por causa da capa. Sabe como é, nem toda loja tinha paciência de permitir que seus clientes - ainda mais adolescentes agitados - mexessem nos delicados discos de vinil para ouvi-los, então uma capa interessante seria apenas uma capa interessante até que eu pudesse comprar o disco e ouvi-lo em casa. O problema é que às vezes o designer da capa era mais talentoso do que o músico, e me obrigava a correr para a loja e tentar a troca ou então vender aquilo por um décimo do preço em um sebo qualquer.
Mas minha relação com embalagens vem de bem antes da adolescência. Lembro que, ainda criança, ficava frustradíssimo quando ia às compras com a minha avó e ela insistia em levar para casa o creme dental Phillips, com aquela embalagem branca e o creme dental em si também branco, ou seja, mais sem graça impossível. Eu lá, doido pra levar uma "menta americana" ou um daqueles em gel fluorescente e nada.
Até que um dia consegui convencê-la a comprar um colorido. Branco e vermelho, listrado. O sabor era uma coisa abominável, mas passei semanas escovando os dentes a cores.
Mas tirando capas de discos que enganam e cremes dentais coloridos com sabor de purgante, acho que todo consumidor deveria ter o direito de escolher a cor do que vai consumir. Digo isso porque sempre que vou em alguma farmácia e vejo que o shampoo para o meu tipo de cabelo é azul, penso que os que são para outros tipos de cabelos geralmente tem cores muito mais legais.
É amarelo, vermelho, roxo, um verde geleca, tem até de duas cores. Fico no maior dilema, comprando coisas das quais não preciso porque gostei da sua cor ou do seu cheiro. Acabo dando de presente pra alguém depois, porque meu cabelo fica oleoso demais, seco demais, estranho demais. É o shampoo azul cobrando o preço da minha infidelidade.
Mas e se o cara estiver com humor para lavar sua cabeça com magenta? Eles deveriam disponibilizar cores variadas para os mesmos tipos de cabelos também.
Outras coisas não são tão complicadas como biscoitos, chocolates, iogurtes, caixas de leite. O problema é que precisam urgentemente inventar legumes e verduras com visual tão apetitoso quanto uma lata de sorvete alpino.
Cremes dentais então são uma verdadeira festa, ainda mais porque não existem "dentes oleosos" ou "dentes de raiz oleosa e ponta seca", então a escolha basicamente restringe-se ao sabor e à aparência dos produtos.
Só não fica muito bem um marmanjo passando pelo caixa com um estoque de Tandy, mas sempre tem a velha desculpa: "as crianças lá em casa adoram...".
Mal na Foto
Postado em 28 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

A Caixa Cultural ficou mal na foto.
Não é pra mim, é pra minha filha...
Postado em 18 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
Se nós homens conseguimos ir num shopping à procura de uma camiseta específica, entrar na loja, comprar a camiseta e ir embora sem dor alguma no coração, as mulheres entram sem procurar nada, compram um biquíni, uma bermuda, um par de sandálias, uma bolsa de praia, bóia de braço pros filhos e ainda saem pensando se deveriam ou não levar o guarda-sol que estava em promoção. Detalhe: tudo isso no inverno.
Agora, se for pra comprar brócolis, alface, queijo de minas e leite, elas saem do mercado exatamente com isso e a chance de um pacote de Bis ou um salgadinho pular no carrinho de compras é ínfima. Já os homens não. Homem sozinho no supermercado equivale à mulher sozinha num shopping center.
Olhe nossos carrinhos e comprove. Chocolates, guloseimas, 200 ml de azeite grego que custa o equivalente a uns 5 litros de um bom azeite comum, pistache, latinhas de cerveja, garrafas de Ice, refrigerantes, amendoins, uma pasta de dente e três maçãs pra desencargo de consciência. Um carrinho de compras assim perdido tem 99% de chances de ser de um homem. Solteiro ou casado, para desespero das esposas.
Deve ser algum resgate, sei lá. Algo que vem da época em que implorávamos às nossas mães que nos deixassem levar pacotes e mais pacotes de Skinny pra casa. Dizem que homens nunca crescem, só os brinquedos ficam mais caros, não é? Algum fundo de verdade tem nisso, afinal, até brincar de casinha custa mais depois, sem contar a despesa que significa dizer "não quero mais brincar".
Advogados de divórcio estão aí para provar o que eu digo.
Mas voltando ao supermercado, eu, por exemplo, adoro comprar produtos que só criança deveria comer. Ninho Soleil, Danoninho, aqueles mini-wafers do Bob Esponja, Toddynho. Sei que ninguém tem nada com isso, mas eu me sinto na obrigação de explicar pra mocinha do caixa que "minha filha adora comer essas besteiras...".
Detalhe: eu não tenho filha e nem filho. Tenho no máximo uma enteada que divide comigo as besteiras sempre que a mãe dela permite. Elas fazem uma troca: comer um bolo Ana Maria se antes comer dois caquis.
É mais ou menos o caso das maçãs que colocamos no carrinho, só que as maçãs geralmente ficam esquecidas até que sobrem só elas na geladeira e tenhamos que devorá-las num ataque de fome na madrugada.
O grande "x" da questão é que infelizmente não inventaram comprimidos que sirvam como sessões de 40 minutos de aeróbica, 100 abdominais ou duas semanas de dieta. E também não inventam uma alface com gosto de lasanha ou um canelone com as mesmas propriedades nutricionais de duas folhas de rúcula.
Aí além de compras de criança precisamos nos tratar que nem criança, é um tal de "vou comer essa caixa de Bis se antes almoçar arroz, feijão, peito de frango e salada", senão me coloco de castigo.
Farmácia com "Ph"
Postado em 14 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Basta uma ida à qualquer farmácia que encontramos ali um pequeno museu de marcas que sobreviveram à maioria dos seus primeiros usuários. Seiva de Alfazema, Minâncora, Leite de Colônia, Rhum Creosotado, pastilhas Valda, Gumex, Brylcreem, Furacin, Maravilha Curativa do Dr. Humphreys, Emulsão de Scott.Comprando como se não existisse o amanhã
Postado em 21 de mai. de 2010 / Por Marcus Vinicius 14 Comentários
A resposta vem no piloto automático, esteja eu numa loja de roupas, numa sapataria, num sexshop, onde for, e quase nunca muda: "Obrigado, só estou olhando". Dessa vez era uma livraria e apesar de me ouvir dizer aquilo a mocinha continuou ali atrás de mim.
Olhei de rabo de olho e resolvi fazer um teste. Andei pra um lado, andei pro outro lado e ela me seguia como se fosse uma vendedora da Amway. Vou um pouco mais pra longe de onde ela me abordou e então resolvo encará-la mais fixamente. Dou um sorriso, ela corresponde e fala "Está procurando algum livro em especial?". OK, você venceu.
"Você por um acaso teria 'A Cabra Vadia' do Nelson Rodrigues aí?" ela responde "Nelson Rodrigues? Não, mas tem um que está saindo pra caramba, o “Diário secreto de uma ex-BBB”, da Fani, conhece? Aquela do 'U-hu Nova Iguaçu' ? ".
"Não, não conheço, mas obrigado mesmo assim".
Saio dali rapidamente antes que ela me atire algum livro do Paulo Coelho na nuca e curioso com o que teria pra contar a tal Fani, autora de tão lapidado diamante da língua portuguesa.
Quantas vezes entramos em alguma loja e somos abordados por vendedores? Uns usam essa tática pitbull que leva o cliente a pensar que vai ser linchado no estacionamento do shopping se não comprar nada.
Mas outros são mais espertos, eles nos seduzem da melhor forma que um ser humano pode ser envolvido: ouvindo mentiras a nosso respeito. Não sei se vocês já pararam pra pensar, mas eles sorriem, dizem o que queremos ouvir, a loja geralmente tem um perfume irresistível no ar que faz com que as roupas fiquem ainda mais desejáveis.
Você chega e pede pra ver o conjunto de três pares de meias que está em promoção, pretende aposentar aquelas meias furadas que a sua namorada tanto fala mal. Aí a vendedora lança a pergunta fatal "O que acha de ver umas blusas pra combinar com as meias?".
Porra, blusa pra combinar com meia? Mas antes que você diga que não ela já aparece com três camisetas na sua frente e pra sua danação uma delas é maneira pra caramba (normalmente será a mais cara das três). Você coça a cabeça pensando "Putz, essas meias vão ficar caras...", mas experimentar não custa nada, então você se dirige ao provador já pensando nas desculpas que dará pra não ter que levar nada que ultrapasse seu magro saldo bancário.
A moça aproveita que você ficou balançado pela blusa e te oferece uma calça, um tênis todo vermelho que é incrivelmente bonito e uma bermuda, afinal, ela deve pensar que você pode decidir viajar assim que sair do shopping e desse jeito nem vai precisar fazer as malas.
Experimenta item a item e gosta de tudo, mas está decidido a não ceder à tentação do consumista que mora dentro de você.
Só que a blusa que parecia maravilhosa na mão da vendedora fica melhor ainda com você dentro dela. O espelho fica repetindo "Vai chamar atenção das mulheres, hein..." e você sai dali convicto de que se não comprar aquilo nunca mais vai pegar ninguém enquanto o Corinthians não vencer uma Libertadores.
Resolve chutar o balde, mas aí lembra da fatura do cartão, da viagem que quer fazer e começa a inventar desculpas pra si mesmo até que vira pra mocinha e diz "Olha, é linda a blusa, mas eu tô quebrado esse mês".
"Mas eu posso parcelar pra você em 2 vezes no cartão e até em 4 no cheque e você ainda leva um porta-óculos para moto de brinde". A empolgação volta, você tira o talão e ainda leva um cinto de lambuja. Todos sorrindo, te oferecendo coca-cola, cafezinho e você lá, fazendo a transfusão de boa parte do seu salário atual e futuro pra conta bancária deles.
Quando sai da loja está com aquela adrenalina consumista correndo nas veias e o perfume que eles espalham no ambiente ainda está no seu nariz.
E é nessa hora que você geralmente lembra que não precisava de mais uma bermuda, que aquele par de tênis vermelho não combina com nada, que a calça vai precisar de bainha e que nem moto você tem pra usar o tal porta-óculos que te deram de brinde.
O Alpino de beber
Postado em 13 de mai. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários
Comprei, levei pra casa e fiquei maravilhado com o gosto. É diferente de um Toddynho ou Nescau Fast, mas lembra bastante o chocolate Alpino. Cheguei até a comentar no Twitter, e achei graça até, porque foi só mencionar o tal produto que recebi uma saraivada de comentários dizendo que eu fora enganado, que aquilo não era Alpino coisíssima nenhuma, que era golpe da Nestlé.
Me senti um um idiota completo depois dessa, mais ou menos como um fã do Marcos Mion, e resolvi pesquisar na internet o porque de ter sido enganado tão facilmente.
Procurei e descobri que fizeram a bebida usando produtos que dão sabor similar ao Alpino, alguns até usados na fabricação do chocolate em si, e que o fabricante inclusive avisava isso no rótulo.
Mas não foi o bastante, as pessoas queriam na verdade chocolate derretido dentro de uma garrafinha. Ninguém pensou na impossibilidade disso, como se fosse fácil manter um chocolate em estato líquido só esperando alguém resolver bebê-lo.
E a história tomou proporções surreais quando li na Folha que o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), o Ministério Público e o Procon entraram em cena para apurar a "enganação" que o consumidor estaria sofrendo.
Eu até admiro o interesse de tantos órgãos públicos no assunto, afinal, depois que prendemos o último dos corruptos, depois que executamos o último dos chefões do crime organizado, erradicamos o trabalho e a prostituição infantil, eliminamos as sobretaxas, abusos e práticas leoninas de concessionárias de serviços públicos e bancos, nossas instituições ficaram sem muitas funções e puderam então se dedicar a tarefas tão complexas quanto ser a "polícia do leite".
Mas ainda assim é um exagero. Tem que diga que achou o gosto ruim, nada a ver com o Alpino chocolate. Respeito e acredito nisso, mas eu gostei e o rápido sumiço das prateleiras sempre que o produto chega mostra que muita gente também gostou.
Chega a ser incrível que nessa altura do campeonato ainda seja preciso explicar para as pessoas que gosto é algo pessoal e cada um encara de forma diferente. Na minha opinião enganação é venderem suco de soja e dizerem que aquilo tem sabor de qualquer outra coisa que não seja uma meia suada ou a tal "ração humana", que até no nome mostra que gostar daquilo é coisa de animal.
Mas o assunto já virou polêmica e a discussão rendeu 354 comentários num blog que trouxe o assunto para a internet, o que me dá a certeza de que o Brasil jamais vai dar certo.
Você consegue reunir centenas de pessoas para ver um acidente, para ouvir as bobagens de um comediante stand up, pra discutir se o sabor do Alpino Fast é ou não uma enganação, mas não junta meia dúzia pra ir no Congresso dar uma surra num deputado ou senador daqueles.
E nessa levada qualquer um vai poder processar uma editora porque colocou a Geisy Arruda na capa de uma revista sobre Boa Forma ou então alguma revista de música se colocar uma banda de axé nas suas páginas centrais.
E note que quando fazem isso eles nem colocam um aviso do tipo "Nesta revista contém uma pessoa feita com todos os ingredientes de uma mulher gostosa, porém apenas similar" ou então "são instrumentos, são notas musicais, tem até um palco, mas é apenas algo similar à música".
Isso é mais enganação do que o Alpino Fast.
Procura-se a Coca-Light
Postado em 6 de mai. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Mas o fato é que depois de uma certa idade, nosso metabolismo fica menos rebelde e nos obriga a cortar calorias, caso contrário colecionaremos quilos a mais.
Daí a opção pelos refrigerantes Diet ou Light. Não vou mentir pra você: o gosto não é igual. Parece muito com o açúcar, mas quem disser que é igual não sabe a diferença entre um iPhone e um HiPhone.
Mas já é alguma coisa, então eu que sou fã de Coca-Cola, aderi à Coca Light. Mas um dia apareceu a Coca Zero, com gosto bem mais parecido com açúcar, um rótulo estiloso e a mesma promessa de eliminar o peso na consciência e na balança.
Até que recebi uma dessas correntes de internet, mais ou menos parecida com as que nos avisavam sobre os riscos de cobras e escorpiões em brinquedos do Mc Donald´s, de pessoas abduzidas na fila do Mc Donald´s que acordavam sem um rim ou dos assaltantes que marcam os carros das pessoas no Drive Thru do Mc Donald´s para nos roubar depois.
Como se nota a partir desses alertas repassados de email em email, as propriedades alimentícias da comida do Mc Donald´s são o menor risco que um cliente pode estar sujeito ali.
Mas essa tal corrente curiosamente não falava do Mc Donald´s e sim da Coca Zero. O texto em questão avisava que ao invés do aspartame usado na Coca Light, a Zero utilizava entre seus edulcorantes o ciclamato de sódio, que seria uma substância cancerígena proibida nos EUA, no México e em mais alguns países nos quais a Coca Zero utilizava outro produto adoçante na sua fórmula. Diziam que o ciclamato só era utilizado no lugar do aspartame porque seria bem mais barato.
Até na Venezuela, pasmem, o ciclamato foi proibido, ainda que eu ache que eles deveriam proibir outras coisas igualmente letais por lá, como o Hugo Chávez, por exemplo.
Fui pesquisar mais sobre o assunto e encontrei uma lista de produtos divulgada pelo FDA, órgão de saúde pública dos EUA, chamada "Generally Recognized as Safe (GRAS)", traduzindo seria algo como "reconhecidos como seguros". Nesta lista o ciclamato aparece com a seguinte observação: "Sodium cyclamate - NNS, ILL - Removed from GRAS", quer dizer, ele não é considerado seguro para consumo nos EUA.
Não sou repórter, mas fui atrás do tal "outro lado da história" e encontrei um comunicado da Coca-Cola dizendo que o ciclamato é liberado para consumo em mais de 50 países, inclusive na União Européia, e que só foi proibido nos EUA devido a testes realizados com ratos na década de 1970, onde os roedores receberam quantidades equivalentes a 700 latas de refrigerante por dia e que estudos posteriores provaram que o ciclamato não era uma substância perigosa.
Avisavam ainda que nos EUA já há um pedido para reaprovar o ciclamato e que este está sob revisão da FDA.
Até aqui, mais um boato internético desvendado, não é? Não. A parte que ainda ficou me incomodando foi a que dizia que a opção pelo ciclamato se devia a este ser mais barato.
Pensemos: mais barato, mais lucro. Qual empresa não gosta disso? E qual o problema se alguns clientes vierem a morrer por conta disso depois? Os valores pagos em indenizações sempre serão infinitamente menores do que os lucros.
Só que tudo isso pode não passar de teoria da conspiração levantada por um blogueiro sem assunto numa sexta-feira entediante. Mas um último dado que me deixa ainda mais desconfiado é o sumiço da Coca Light do mercado.
Pra quem já bebeu as duas, é fácil diferenciar seu gosto. Cada uma tinha seus clientes fiéis e ninguém brigava com ninguém tal como sunitas e xiitas. Porque então a Coca-Cola resolveu dar um sumiço na Cola Light?
Seja em shoppings, lanchonetes e até alguns supermercados, ela sumiu. Você encontra a tal Coca Zero ou então no máximo uma tal Coca Light Plus que vem numa lata menor e com preço igual ou até maior.
A boa e velha Coca Light sumiu do mercado por uma "estratégia de marketing" da empresa. Estratégia que obriga a pessoa que quiser continuar consumindo os refrigerantes da companhia, que diga-se de passagem é dona de uma fatia de mercado imensa no Brasil, a optar pela tal Coca Zero que usa um adoçante suspeito e barato.
Não sei o que você pensa disso, mas eu desconfio muito quando uma empresa resolve me oferecer um produto que diz ser tão bom quanto outro mas que tem um custo bem menor para eles. Afinal, por mais respeito que essa empresa possa ter por mim, não sou ingênuo e sei que a parte do meu corpo que ela preza mesmo é o meu bolso.
O cliente prefere ter razão quando tem razão
Postado em 12 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários
Como também sou prestador de serviços sei que existem clientes que quase não valem o lucro que dão.
Mas tem gente por aí que se esforça para desagradar seus clientes de uma forma inesquecível. Não adianta ter instalações modernas, treinar os funcionários para tratarem todos por "senhor/senhora" e ignorar o fato de que, às vezes, o cliente também tem razão. Sim, porque certos estabelecimentos parecem funcionar ao contrário do tal ditado.
É sintomático, você vai reclamar de algo, solicitar alguma correção na forma como estão te tratando e ouve aquele famigerado "claro, senhor, eu entendo, mas a política da empresa...". Quer dizer, a "política da empresa" está acima de leis, códigos e o principal: do cliente.
Dois casos que vivi ilustram bem isso.
Uma vez fui ao UCI, complexo de cinemas na Barra da Tijuca, para assistir a um lançamento qualquer. Por um acaso, esse lançamento presenteava quem comprasse o ingresso com um CD. Comprei meu ingresso, recebi o brinde e fui fazer hora dando um passeio.
Perdi (ou sabe-se lá se algum deputado tirou do meu bolso e nem senti) o meu ingresso. Mas ainda tinha o CD em mãos.
Fui para a entrada e comuniquei ao bilheteiro, que chamou o gerente. Minha argumentação era simples: se cada pessoa comprava uma entrada e recebia um CD, e eu possuía o CD, com certeza eu havia comprado o bilhete.
Muito educadamente o barnabé da iniciativa privada (neste caso, uma privada mesmo) me disse que eu poderia muito bem ter comprado o ingresso, dado a outra pessoa e agora estar ali tentando entrar no cinema sem pagar.
Respirei fundo, tentando não mandá-lo para Brasília ou pro Maranhão, e disse a ele que era simples resolver o impasse: bastava ver no computador quantos ingressos foram vendidos e quantas pessoas entraram, se sobrasse um, com certeza era o meu, o idiota na sua frente que ele acusava de trambiqueiro.
Aí veio a pá de cal: entendo, senhor, mas é a política da empresa não deixar entrar sem ingresso.
Uau! O energúmeno não entendeu que não me deixaria entrar "sem ingresso" e sim que me deixaria entrar após eu comprovar que comprei um mas perdi o ticket de papel. Fui embora dali para não atirar o sundae que tinha em mãos no meio do focinho de asno do rapaz e acabar perdendo a razão, e no dia seguinte liguei para a assessoria de comunicação do Grupo UCI. Nada. Solução zero.
Jurei nunca mais voltar ali. Sei que sou apenas um, mas o meu suado dinheirinho eles jamais veriam outra vez. Isso já tem uns nove anos e até aqui, promessa cumprida.
Uma outra vez fui ao Estação, outro cinema mais "cult" aqui do Rio. Mesma coisa, comprei e perdi os ingressos. Não tinha o tal DVD. Fui à bilheteria e nem precisei de gerente, falei a mesma coisa: poderia ver se não sobra um?
Sobrava. Porém a sessão já tinha começado, porque entre procurar o ingresso e resolver isso com eles, levou um tempinho.
Problema? Não. Solução.
A própria funcionária da bilheteria me disse "você(note que o famigerado "senhor" ficou de fora) pode escolher um outro filme ou eu te dou outro ingresso para uma sessão mais tarde". Eu não podia ficar mais tempo ali, porque tinha outro compromisso.
Problema? Novamente não. Solução.
Ela: "tudo bem, eu vou te dar um vale-ingresso que você pode usar em qualquer cinema do Grupo Estação, para qualquer sessão".
Note que não fui chamado de "senhor" nem uma vez, mas ao contrário de quem me chamou de "senhor" umas 30, eles não me trataram como moleque e sim como "senhor" mesmo.
O Estação é muito arrumadinho, mas nem de longe tem o luxo do UCI, mas pergunto: de que servem tantas paredes bonitas, pisos brilhantes, salas com som de 800 canais e filmes em 20 dimensões se o tratamento dispensado ao cliente é pior do que num botequim?
Resultado? Nesses nove anos em que nunca mais pisei no UCI, devo ter assistido uns 200 filmes no Estação, geralmente levando alguém junto. Pode não ser nada, mas pra mim é muito, e pra quem vive de exibir filmes para as pessoas deveria ser também.
O problema das franquias
Postado em 7 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Mas não é para falar sobre os prós e contras de se tornar franqueado ou franqueador que toquei nesse assunto, é para observar essa modalidade sob a nossa ótica, a do consumidor.
Outro dia eu entrei numa das muitas franquias da temakeria Koni Store . Aliás, temakerias são uma das três coisas que mais existem aqui no Rio, ao lado de favelas e lojas de frozen yogurt.
Pedi o temaki "salmon skin", que vem com a pele do peixe empanada, e tive uma surpresa desagradável já na primeira mordida. No lugar do salmão e do nori (alga que envolve o temaki) crocante com que estava acostumado, veio um peixe frio e uma alga mais mole do que biscoito de maizena guardado aberto.
Ainda tentei heroicamente encarar aquela refeição, mas terminei jogando aquilo no lixo de tão intagável que era, mais ou menos como faço com aqueles jornais que a Igreja Universal distribui na rua, e arrependido de não ter ido em algum Mc Donald's mesmo.
Vamos combinar aqui que se um cliente entra no seu restaurante, teoricamente um estabelecimento que serve comida de boa qualidade, e sai dali pensando que teria sido melhor comer num fast food, algo muito grave está acontecendo.
Ocorre que uma coisa é cuidar da qualidade em uma pequena temakeria em Ipanema ou de um conjunto restrito de filiais. Outra coisa bem diferente é manter aquele mesmo padrão de sucesso em dezenas de franquias espalhadas por todos os lugares imagináveis.
Seja qual for o ramo, mas principalmente o de alimentação, o sabor precisa acompanhar a fama da marca. Gostem ou não do Mc Donald´s, da Domino's Pizza ou qualquer outra grande cadeia mundial dessas, é um fato que comer um Whooper numa cidadezinha do Wyoming, em Tóquio ou na Barra da Tijuca será uma experiencia igual. O gosto, pro bem ou pro mal, não se altera.
Mas quando um restaurante mais estiloso como o Koni ou uma loja como a Yogoberry, que são voltados a um público um pouco mais exigente começam a se expandir, eles precisam manter a mesma atmosfera de esmero e classe que levou sua marca ao sucesso. Não adianta só o visual da loja acompanhar o padrão, o sabor e o cuidado com a qualidade da comida precisam ser iguais.
É frustrante ver essas lojas aderirem à venda dos famigerados "combos", aquela coisa popularesca de "escolha pelo número e leve mais do que você precisaria comer".
Isso é um dos sintomas de empobrecimento da experiência do cliente. Ao invés de criar sabores, de apresentá-los e oferecê-los, opta-se pela massificação, pela padronização que rouba o brilho.
Sei que o objetivo de qualquer negócio é lucro, é expansão, mas fica a idéia de que franquias são excelentes para vender produtos que já vem prontos da fábrica, para lanchonetes que já tem seu cardápio nivelado pelo mais básico que possa existir (não precisa faculdade de gastronomia para vender hamburgers ), mas nunca para produtos que exijam um cuidado um pouco maior do que jogar um punhado de batatas no óleo fervente e esperar ficar pronto pra jogar sal.
Pizzaria por email
Postado em 24 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários
Dia desses caiu uma chuva de cachorro beber água em pé, como dizia a minha avó, transformando o Rio de Janeiro numa lagoa.
Bom, isso não é lá grandes coisas, já que se 5 homens urinarem juntos numa esquina a cidade já alaga, mas foi uma senhora aventura voltar pra casa no meio de bolsões d'água, correntes, tsunamis causadas pela passagem dos ônibus, engarrafamentos, pessoas usando buttons "Perca Peso Agora! Pergunte-me Como" e o medo dos arrastões, mas cheguei são e salvo graças a algumas contra-mãos em ruas menos alagadas.
Mas tal qual falam do petróleo em alto-mar, sei que enchentes e alagamentos de cidades mal cuidadas também são patrimônio da União, então não contei novidade alguma até aqui. A novidade vem agora.
Nesse dia cheguei em casa fulo da vida com a minha noite de sábado natimorta devido a transformação da cidade em Atlântida e também com a fome de quem passou duas horas no meio do caos tentando percorrer um trajeto de meia hora.
Recorri ao prato oficial do sábado à noite, que é a pizza delivery. Comecei ligando pro Mister Pizza (aqui no Rio é conhecida) e as entregas estavam suspensas por causa da chuva. Resolvi então procurar outras que não tivessem motoqueiros de açúcar e consegui em outra pizzaria bem conhecida, a Parmê, o curto prazo de três horas para a entrega.
Como eu ainda queria comer a pizza vivo e não precisar de uma sessão espírita para isso, preferi não esperar morrer de velho em casa aguardando a iguaria e comecei a procurar na internet (que ainda bem, funcionava, mesmo com a chuva) e encontrei uma chamada Dona Celeste, que possui um site com aparência da internet 1.0, porém bem simpático.
Eles possuem um campo onde é possível pedir pizza por email. Olhei, ergui as sobrancelhas e "só de sacanagem" resolvi mandar o email encomendando uma. Sério, em uma noite normal eu já acharia surpreendente a pizza chegar, mas naquela noite específica me parecia coisa de ficção científica.
Continuei procurando e não encontrava nenhum lugar que pudesse me ajudar. O pessoal do Twitter me dava incentivo, dizendo coisas como "Nessa chuva?Você nunca vai conseguir!", até que meu telefone tocou e era a "Dona Celeste" (já fiquei íntimo), avisando que meu pedido já estava a caminho.
Senti a súbita necessidade de me desculpar com eles com bastante ênfase. Disse pra moça que eles estavam de parabéns, que eu jamais imaginei que aquele pedido por email fosse sequer recebido por eles, ao que ela me respondeu com um "inclusive hoje, devido à chuva, só estamos recebendo pedidos por email".
Coisa chique a Dona Celeste, não é?
Como sou da época em que as únicas coisas que funcionavam depois da meia-noite eram latido de cachorro e padre pra dar extrema-unção, isso pra mim foi uma surpresa mais do que agradável.Aprendi a confiar mais em serviços simples oferecidos na internet e não deixo de me perguntar: porque outras empresas não fazem o mesmo? Com a mesma rapidez, eficiência e esmero da Dona Celeste? Tudo foi rápido, indolor e o melhor de tudo: sem nenhum gerúndio em toda a conversação.
A propósito: a pizza estava deliciosa, virei freguês.
Metrô Rio, o trem que engarrafa
Postado em 26 de jan. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Quem anda de metrô diariamente no Rio de Janeiro provavelmente já ouviu essa frase dita por aquela mesma voz feminina que passa a viagem inteira nos dando ordens, "Ceda o lugar", "Não ande com a mochila nas costas", "Respeite o 'Carro das Mulheres'", "Ajude os idosos", "Vá para o meio do carro", "Não segure as portas", etc, etc.
Se você não anda diariamente também ouvirá, porque é praticamente impossível usar o serviço e não ficar preso entre uma estação e outra nesse bizarro e escandaloso "engarrafamento" de trens.
Outro adicional que a concessionária de Daniel Dantas (que cobra uma das passagens proporcionalmente mais caras do mundo) te oferecerá são as paradas bruscas, duas, três e até mais por viagem, dependendo da distância que você percorra.
Mas tudo isso seria fichinha caso o Metrô Rio não tivesse se esmerado nos últimos meses para avançar ainda mais no seu padrão de (não) qualidade. Some-se a estes problemas citados outros como plataformas entupidas de gente devido ao aumento do intervalo entre os trens, a consequente superlotação das composições e, cereja no bolo, o calor infernal que passou a fazer dentro delas porque o ar-condicionado não funciona direito.
Eles dizem que é porque esse sistema de ar foi feito para refrigerar trens que andam sob a terra (duh) e que como a Linha 2 do metrô carioca é toda sobre a superfície, o ar-condicionado não suporta o calor.
Estranho por duas razões muito simples:
- Isso não acontecia antes, mesmo na Linha 2.
- Esse calor infernal também vem como brinde para quem usa a Linha 1, toda debaixo da terra como um bom metrô pede.
E aí? E aí nada. O que temos é o "diretor de relações institucionais" do Metrô Rio, senhor Joubert Flores, dizendo que não é bem assim e que tudo isso vai melhorar, um dia, mas só a partir de 2011 que é quando começam a chegar os novos trens que eles compraram.
Este senhor é, como bem lembrou o Artur Xexéo em sua coluna semanal, uma espécie de ilusionista que trabalha para a concessionária. A plataforma está entupida de gente e ele é capaz de dar uma entrevista ali mesmo dizendo que tudo está dentro do limite. Algum jornalista pega um termômetro e registra 35º dentro de um vagão e ele declara que "o ar-condicionado está funcionando muito bem". Os atrasos são constantes e irritantes, mas ele diz que "tudo funciona somente com pequenos atrasos".Talvez seja mesmo uma questão de ponto de vista. Talvez a culpa seja mesmo dos usuários que ao invés de pensarem na temperatura dentro dos trens como "sauna gratuita", na superlotação do sistema como "oportunidade de fazer novas amizades" e nos constantes atrasos como "excelente hora para pensar na vida", ficam aí reclamando de barriga cheia porque tem o privilégio de pagar uma passagem que custa R$2,80 (e todo ano sobe, sem falha, sem atraso, sem precisar esperar 2011) para usufruir de um serviço de bosta.

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É curiosa essa relação do metrô com o carioca, como também lembrou o Xexéo, porque tínhamos orgulho dele. Sobre a terra continuávamos a ser uma cidade caótica, infernizada pela informalidade e pela ilegalidade, favelizada, suja, abandonada pelos governos que sucediam-se no seu método de abandono, mas debaixo da terra tudo corria bem.
O metrô era limpo, rápido, confortável, pontual, enfim, era tudo o que não se espera do Rio de Janeiro.
Hoje, esse estranho sistema de concessões no qual o Governo do Estado constrói estações e extensões e entrega para uma empresa privada (mal) administrar nos presenteia com tudo que já vemos em cima: caos, desrespeito, desconforto, atrasos, preços altos.
Até uma estranha modernização dos trens que já existem me parece fora da realidade, já que está substituindo os assentos de fibra de vidro atuais por uns estofados, totalmente inadequados para um serviço de transportes que nos finais de semana fica cheio de banhistas, voltando da praia encharcados de água do mar. Sem contar um visual horroroso digno de pastelaria de chinês que algumas estações ganharam após uma reforma visual inútil.
E nessa crônica diária de degradação da assim chamada "Cidade Maravilhosa", o metrô é apenas mais uma dentre tantas coisas que os cariocas terão para sentir saudades de um passado cada vez mais distante.









