Caixa de Manzanas
Postado em 2 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.
Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.
Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.
A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".
Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.
Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.
Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.
Programação do dia: chegada à Paris e almoço no Empório Brasil
Postado em 5 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Só que justo no seu dia de glória, quando você vai avisar para toda a sua família ficar a postos com gravadores na frente da TV para registrar o momento, e o dia que seus inimigos dirão coisas como "ah, se ainda fosse no David Letterman", você acessa o site do programa para ter o gostinho de ver seu nome ali e lê o seguinte:
- Hoje no Programa do Jô entrevista com Fulano de Tal ("Fulano de Tal" é você), com Krong, o mágico das galinhas e com o novo projeto do funkeiro MC Leopardo juto com o grupo de pagode Exaltalhança.
Um lineup de convidados assim vai te fazer sentir como se estivesse num circo de variedades. Se ainda chamassem, sei lá, o grupo de lutadoras no gel da Playboy, tudo bem, mas Krong? O mágico das Galinhas?! Galinhas? E um projeto de funkogode fusion?
Você já imagina seus inimigos rindo "Hehehehe, bem de acordo com aquele bosta...".
Não contei isso tudo só pra você pensar que eu tomei ácido ou qualquer coisa do tipo, é porque me chama atenção como certas coisas podem estragar momentos que eram pra ser mágicos para nós.
É aquela foto do seu casamento onde justo na hora de jogar o buquê aparece sua tia de calça saruel mostrando o cofre, é o sorriso com alface no dente, é o sorteio de um carro zero que você ganha mas que pelo regulamento do sorteio (que você aceitou sem saber) precisa passar um ano com o carro pintado de rosa e laranja e a inscrição "Ganhei no sorteio do Shopping das Calcinhas".
É o "mas" que sempre aparece para ferrar com a sua paciência. Como aqueles elogios cretinos que sempre vêm com um "mas" depois. Tipo "você está linda hoje, mas...essa maquiagem te deixa meio com cara de puta".
Muitas vezes essas situações são compulsórias, não tem jeito, você precisa sorrir (nem que seja um sorriso amarelo) e andar por aí fazendo propaganda do Shopping das Calcinhas durante um ano, mas o que dizer de quem procura isso?
Viajar, por exemplo. Você junta grana, compra dólares ou euros, tanto faz, marca a passagem, tira o passaporte, paga 300 taxas, enfrenta a fila do check-in, frango borrachudo e barrinha de cereal da classe econômica, fila da imigração, jet-lag, fuso horário, aí finalmente chega no seu destino e vai almoçar no...Empório Brasil?
Juro, na minha opinião quem viaja pro exterior e vai comer em restaurante brasileiro deveria ser proibido de deixar o país. É como você participar de uma promoção, ganhar um automóvel e na hora de receber o prêmio dizer "dá pra vir pintado de laranja e rosa com o nome do Shopping das Calcinhas escrito?".
Nada contra curtir seu país, nada contra quem mora (veja bem, mora) no exterior sentir saudade de um feijãozinho, uma caipirinha, um sambinha (ainda que detestasse samba enquanto morasse aqui), mas ninguém morre porque ficou 15 dias sem comer uma orelha de porco ou escutar o Exaltasamba. Sério.
E quem faz isso, na boa, se a Constituição não permitir que seja proibido de deixar o país, pelo menos merecia voltar pra cá num vôo sentado na poltrona do meio, com o mágico Krong de um lado e o MC Leopardo do outro.
Pânico de semi-desconhecidos
Postado em 13 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
- Acho que vomitei no seu pé no casamento do Thiago.
Quem acha normal falar isso? Acho que só quem também ache normal ir pro cinema usando um chapéu seletor do Harry Potter. Quando a gente encontra alguém na rua e pensa que "já viu em algum lugar", geralmente não imagina que foi no meio de uma furada.
Comparo isso a essas regressões de vidas passadas. Todo mundo que faz um negócio desses descobre que foi uma princesa egípcia, um senador romano, um guerreiro celta. Nunca vi alguém voltar contando que descobriu que tinha um empreguinho meia-boca, ia do trabalho pra casa todo dia e ainda levava corno do vizinho.
Nessas horas ninguém imagina uma situação escrota, algo embaraçoso ou que faça a outra pessoa saber porque algo dentro dela dizia pra não ir lá falar com você.
- Oi, gata, sabe quem eu sou?
- Não, quem?
- Sábado passado você estava meio bêbada e eu aproveitei pra roubar seu celular na boate.
Eu sempre tive pavor de ser reconhecido por estranhos, não que isso seja sinal de timidez ou algo assim, mas porque acho que vão me confundir com outro e eu vou acabar me ferrando. Pense bem, uma gostosa jamais vai aparecer perto de mim e gritar "Hugh Jackman! Quero te dar agora!". O mais provavel que aconteça é isso:
- E aí, bróder, tranquilo?
- Err, tranquilo, tudo bem?
- Não sabe quem eu sou, né?
- Errr, não.
- Você deu umas porradas no meu irmão na micareta, agora quero ver você ser machão comigo e a minha pistola 45.
Entende o drama? E o pior é que para explicar a ele que nem sei quem é o irmão dele, teria que provar que jamais brigaria com alguém numa micareta, pelo simples fato de achar micareta coisa de retardado que não tem o mínimo bom gosto e curte ficar pulando ao som de música feita para babuínos.
No final da explicação ele se convenceria que eu não briguei com o irmão dele, mas me daria um tiro mesmo assim, afinal, ofendi a honra de chicleteiro dele.
Pânico de semi-desconhecidos é pior do que medo de barata, nada é tão incômodo quanto estar na rua e ver que alguém te observa com aquele ar de interrogação. É praticamente um duelo, quem piscar, está ferrado.
Pode ser qualquer pessoa, um ex-colega de colégio, um vizinho da sua antiga rua lá em Piraporinha, alguém que jogava RPG contigo e que vai te lembrar que um dia você já jogou RPG, um ex-professor, aquele nerd que você vivia dando pescotapa e cuecão no pré-vestibular, o tiozinho da sua locadora de vídeos que virou bomboniere, enfim, é apavorante e constrangedor.
Nessa hora você simula um toque no celular, começa a procurar coisas aleatórias na mochila, entra numa loja que vende panelas, resolve começar a ler aquele exemplar de "A Lógica da Pesquisa Científica" que estava na sua bolsa há três meses ou então muda correndo de calçada quase sendo atrolelado por um Fusca que vai buzinar fazendo o maior escândalo, chamando a atenção do objeto da sua fuga, que dá um adeusinho, se aproxima com um sorriso meio babaca no rosto e diz:
- Lembra de mim?
Gente bem humorada demais me deixa de mau humor
Postado em 15 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Nada pode ser mais anormal do que alguém que vive rindo o tempo inteiro. Não me entenda mal, não sou contra a felicidade ou, em termos mais na moda, um eudaimoniafóbico.
É que se eu não entendo quem ri de qualquer coisa e tenho um certo medo de quem ri sem motivo aparente, fico totalmente paralizado diante de alguém que nunca pára de rir. Mas não é só o riso, é uma espécie de efusividade que geralmente acompanha essas pessoas.
Um bom humor meio opressor, como se para elas não houvesse uma segunda-feira de manhã, uma reunião de última hora, um trabalho para depois do expediente, engarrafamento, impostos, multas, filas, nada.
O mundo deles é uma mistura de Disneylandia com a Noviça Rebelde.
Você está de ressaca, querendo botar para fora todas as refeições do último mês? Eles estão na boa, te chamando pra dar uma corridinha na praia. Você acabou de transar e quer dar uma dormida? Se sua namorada for uma dessas, provavelmente vai querer sair pra dançar. Você está no meio de uma briga com seu melhor amigo? O bem humorado vai se meter no meio e chamar vocês dois pra fazer uma rodinha de violão.
Uma pessoa assim é capaz de ir pra uma aula de aeróbica às 5:00 da manhã no maior pique e de sair de um exame de próstata dizendo um "até a próxima" com um sorriso no rosto. Eles me dão medo, sério.
Porque se tudo é motivo para sorrir, bem, então até um tsunami tem um "lado bom". Sei lá, pode ser exagero, mas pra mim eles são capazes de tudo, se é que são mesmo desse mundo e não uma invasão alienígena que vai nos convencer da felicidade que é ser transformado em zumbi-escravo do grande Zod.
Já eu , sujeito "péssima praça" que sou, penso bem diferente.
Eu prefiro acreditar que problemas só são oportunidades para me irritar, que devagar até o Rubinho te passa e que pra rir de problema, só se for dos outros.
Olé España!
Postado em 12 de jul. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Futebol que aliás não sai das manchetes policiais também. Seja por causa das investidas do Vágner Love em bailes funk do tráfico, seja por causa das estranhas associações do Adriano com traficantes da Vila Cruzeiro, seja por causa do goleiro-psicopata Bruno, curiosamente todos do Flamengo.
O que quer dizer o fato de todos serem do Flamengo? Nada. Só dá combustível para piadas dos adversários, de resto, nada relacionado ao clube da Gávea e sim ao nível intelectual rasteiro de 99% dos jogadores de futebol brasileiros, verdadeiros asnos com conta bancária recheada.
É o mesmo que dizer que a Holanda é o Vasco das Copas do Mundo. É um exagero e uma injustiça, porque também poderíamos dizer que a Holanda nas Copas é equivalente ao Corinthians na Libertadores, com um agravante: o Corinthians não consegue nem chegar nas finais.
Agora, o personagem marcante mesmo dessa Copa não foi o uruguaio Forlan, eleito o melhor jogador do torneio, não foi o Iniesta, o Villa, o Robben, nem mesmo o Mandela. O maior craque foi o polvo Paul, que acertou simplesmente 100% de suas previsões sobre os resultados dos jogos.
O molusco simplesmente cravou o campeão, o vice e até quem levaria o terceiro e o quarto lugar. Se estivesse num bolão, ficaria rico. Se fosse comentarista de TV, viraria lenda. Isso aliás me leva a pensar: para que tantos comentaristas falando tanta bobagem, sempre com aquele sorriso idiota na cara - os do Sportv então nem se fala - como se o telespectador fosse um idiotizado, se um polvo consegue fazer o trabalho deles melhor do que ninguém?
O polvo aliás seria um excelente substituto pro Galvão Bueno, outro personagem dessa Copa por causa do "Cala a Boca Galvão", que foi o assunto mais falado do Twitter por dias. Ele faz previsões mais corretas do que o Galvão e, como não entendemos um suposto idioma "polvês", não enche tanto o nosso saco com aquele falatório e pregação ufanista.
Mais inútil do que comentaristas de futebol no entanto são comentaristas de arbitragem, sério. Eu lá estou interessado no que diz a alínea b-336 do código disciplinar da FIFA? Alguém mais está? Sei não, aquilo pra mim é cabide de emprego pior do que esses de parente de deputado e senador. E a utilidade é mais ou menos parecida.
Assim como foi inútil o Dunga ter transformado a Seleção Brasileira numa espécie de Coréia do Norte do futebol. Fomos das orgias de Calígula em 2006 para uma espécie de Convento das Irmãs Enclausuradas em 2010.
Mas dizem que a culpa mesmo foi do Lula. Todo time que ele cumprimenta ou toca na camisa perde fragorosamente logo em seguida. Não sei se tem alguma coisa a ver, mas pra um político que adora metáforas sobre futebol e utilizar o futebol em benefício de sua popularidade, acho que seria melhor que ele passasse a se interessar por Golfe - ainda que seja coisa das "zelite" - ou então que passe a torcer pela Alemanha.
Falando de política, gol contra mesmo foi a tal candidata que assinou um programa de governo que previa ataques à propriedade, controle da imprensa e até "comissões da verdade". Só faltava prever "Campos de Reeducação" para quem não quisesse tatuar uma estrela do PT na testa daqui a uns anos.
Depois a dita cuja, uma espécie de Felipe Melo da política, disse que não assinou nada, apenas rubricou. Primeiro não soube dizer a um jornal porque queria ser presidente, depois disse que não assinou algo que havia assinado por puro e simples desconhecimento da língua portuguesa. Eu só me pergunto: quem diz que vai votar numa coisa dessas pra presidente, tem o que contra o Brasil? É o mesmo que o Dunga deixar o Ganso em casa e levar o Felipe Melo para a África. É quase um atentado ao pudor.
Mas a eleição vem aí com força total a partir de agora, para nos incomodar mais do que as vuvuzelas, então pelo menos por enquanto vamos curtir o novo membro do clube dos Campeões Mundiais, um merecido novo sócio.
Foi uma Copa de poucos gols e de jogos entediantes, mas no final das contas venceu o time que não foi para lá testar "táticas de guerra" e nem brincar de inspetor de colégio interno na concentração. Venceu o time que simplesmente foi para jogar futebol.
E provou que esta ainda é a melhor maneira de vencer uma Copa do Mundo.
D10S
Postado em 5 de jul. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários
Maradona não armou uma equipe, armou um time de craques que poderiam ou não resolver tudo sozinhos. Dunga armou uma equipe, mas se esqueceu de que o Brasil sempre foi um time de craques, alheio à nivelação mediana que sempre permeou em outras Seleções nacionais.
O Brasil foi um batalhão fazendo ordem unida rumo a uma eliminação que representou um dano controlado. A Argentina foi um exército de Brancaleone marchando gloriosamente para o abismo. Perdeu, perdeu de maneira fantástica, épica, gigantesca. Mas que triste foi essa derrota!
Triste, mas não deprimente como a do Brasil. Foi uma derrota de gigante.
E está aí a origem da minha admiração por esse gênio indomável que é Diego Armando Maradona. Este anjo que ora voa no céu, em ares dos mais rarefeitos, ora cai até o inferno, tragado por um fatalismo digno da terra do tango.
Diego foi, para mim, o maior de todos. Desculpe quem acha que porque sou brasileiro tenho que preferir Pelé. Pelé foi um gênio em campo, não há duvida, mas Maradona tem a dose de dramaticidade e humanidade que paradoxalmente o transforma no "dios" que os argentinos tanto cultuam. Somente um "deus" passa por tantas provas, por tão humanas provas, e sai ileso, cada vez maior, cada vez mais divinal.
É por isso que eu gosto tanto do Romário, o maestro que me proporcionou assistir o Brasil vencer a primeira Copa do Mundo. 1958, 1962 e 1970 eu só vi em video-tape. Ao vivo, a cores e gritando de emoção, foi em 1994, a Copa do Romário, talvez o mais argentino dos jogadores brasileiros.Outra heresia minha? Não mesmo. Somos o país dos craques que retiram o manto da glória dos seus ombros para "dividir com o grupo e o professor", somos o país em que a genialidade para ser admirada precisa ser "humilde", somos o país que abomina que "o cara" diga que Deus apontou para ele e disse "você é o cara", como Romário declarou.
Abominamos quem se destaca, abominamos quem sabe que é bom no que faz, temos vergonha e culpa de sentir orgulho. Os argentinos não. Venceram três Mundiais a menos do que nós, mas quem os vê torcendo por sua Seleção, cantando o amor pela sua Seleção, enaltecendo seus craques, pensa que eles tem umas 10 Copas do Mundo. E por isso eles são rotulados de "arrogantes" no Brasil.
O Brasil é o país da pena. Sentimento bom aqui é pena. Admiração, orgulho, paixão, tudo é condenável, precisa de justificativa, só a pena não. Por isso o argentino, com seu orgulho por vezes até quixotesco, é a antítese do brasileiro, com sua humildade de vira-lata, como já dizia o mestre Nelson Rodrigues, com a sua falsa modéstia sempre soterrando o orgulho.
E Maradona - agora a heresia que cometo é para os argentinos - com seu futebol imprevisível, com suas jogadas de artista, com sua genialidade única, foi um jogador que muito bem poderia ter sido brasileiro, pois possui todas as qualidades do futebol pentacampeão mundial.
Maradona é um gênio atemporal, mundial, um verdadeiro deus do futebol. Ele poderia ser titular em cada uma das grandes seleções que fizeram história. Seja a Hungria de Puskas, a Holanda de Cruyff, a França de Zidane, o Uruguai do Maracanazzo, a Alemanha de Beckenbauer, sejam todos os Brasis campeões. E no entanto ninguém jamais ousaria dizer que ele não é o mais argentino de todos, a personificação da força do futebol daquele país.
Belo, forte, glorioso e trágico, como um legítimo tango argentino, como uma tragédia grega, verdadeiramente digna de um deus do Olimpo. El D10S, Diego Armando Maradona.
Ópio do Povo
Postado em 27 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
E assim João, que poderia ter qualquer outro nome, acorda de manhã bem cedo para pegar um ônibus lotado, que daria no mesmo se fosse um trem lotado ou uma lotação ilegal e lotada, para chegar na hora no colégio particular onde trabalha como faxineiro, um colégio desses que os filhos dos ricos estudam e os quatro ou cinco ou dez filhos de João, José ou Chico jamais poderiam estudar.
Ele não acha esse o melhor trabalho do mundo, mas o que mais ele poderia fazer? Poderia ser pedreiro, poderia ser servente, poderia ser office-boy, poderia ser frentista de algum posto de gasolina, poderia ser balconista de padaria, lavar carros, aparar grama, porteiro não poderia ser, porque não sabe ler e nem escrever muito bem. Gari também não poderia, porque exige segundo grau completo e João só estudou até a quarta-série.
Só não poderia virar bandido, porque isso ele não queria ser. Não porque se achasse muito melhor do que eles, mas porque sabia que seria preso. Sabia também que no Brasil é gente como ele que acaba morto ou na cadeia e, sabe como é, ele tinha cinco filhos para criar. Não é tanta coisa como dez filhos, mas já dava um trabalho danado, um trabalho quase tão grande quanto se fossem seis.
Aliás, João está preocupado por conta disso. É que Joana, que poderia ser Maria ou Josefa, acha que está grávida outra vez. Não é que não goste de ser pai, pelo contrário, é uma das poucas alegrias verdadeiras que tem na vida, mas é que criar cinco já é uma complicação.
Ainda mais porque o posto de saúde quase nunca tem médico disponível e, quando tem médicos não tem remédios, quando tem remédios não tem enfermeiros, quando tem enfermeiros não tem como fazer exames e, se por algum milagre, um dia tiver médicos, remédios, enfermeiros e exames, estará tão lotado que João terá que esperar tanto que, quando finalmente chegar sua vez de ser atendido, quer dizer, a vez de Joana, alguma coisa já estará em falta de novo.
Essa preocupação está acabando com o dia de João, mas ele não se desespera muito porque sabe que se não fosse a gravidez de Joana, seria a bronquite do filho mais velho ou quem sabe a greve na escola do mais novo, ou então o preço do feijão, da passagem, o vale que terá que pagar no final do mês ou o carnê de prestações que usou para comprar um aparelho de TV, para assistir o futebol no Domingo e para Joana ver as novelas durante a semana.
Vida de João não existe sem preocupação, pensava ele quase rindo da rima criada quase sem querer.
Mas neste mês especialmente João tinha uma outra preocupação, maior do que todas as outras. Este era um mês diferente, porque é um mês que só acontece muito de vez em quando, de quatro em quatro anos. João queria chegar logo em casa, porque junto com os amigos da rua iria enfeitar o lugar onde moravam com bandeirolas verdes e amarelas, pintar o asfalto esburacado com caricaturas de jogadores da Seleção e combinar o churrasco que fariam no dia do jogo de estréia na Copa do Mundo.
Acordar de madrugada naquele mal servido subúrbio, pegar o ônibus lotado para trabalhar como faxineiro numa escola que, se pudesse ter freqüentado, jamais teria que ser faxineiro, a incerteza da chegada de mais um membro da família que ele terá que amparar sozinho, já que ninguém mais parece ligar para eles, os preços, a vida, nada disso tinha importância naquele momento, o que importava agora era enfeitar sua rua, se reunir com os amigos, assistir a Seleção.
O que importava agora era que o técnico não deixasse o craque de fora, escalasse o time com a ofensividade e a arte que se espera do futebol brasileiro e que, no fim daquelas sete partidas de Copa do Mundo, o Brasil pudesse sair campeão mais uma vez.
Aí João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, poderá encher o peito de ar e gritar a plenos pulmões: eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!
Não sei com que orgulho, não sei com que amor.
Cornetando as vuvuzelas
Postado em 17 de jun. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Mas como a chateação é uma espécie de bilheteria da diversão, a Copa da África cobrou seu preço através das vuvuzelas, aquelas cornetas de plástico que sopradas sozinhas fazem uma espécie de barulho que deve se assemelhar a uma vaca parindo um filhote de elefante, e juntas a um enxame de abelhas de Itu.
No estádio, milhares de pessoas soando o instrumento sem parar transformam em tarefa hercúlea assistir um jogo de futebol. Jogadores já reclamaram, jornalistas já disseram que atrapalha as transmissões, os turistas que foram assistir à Copa compram protetores auriculares para abafar o barulho, mas a FIFA diz que não proibirá a entrada da corneta porque faz parte da "cultura e tradição africanas". Talvez a intenção seja aquecer o comércio local, vendendo vuvuzelas de um lado e protetores contra vuvuzelas do outro.
Brincadeiras a parte, esse argumento cultural é uma falácia, já que o famigerado instrumento só surgiu na África na década de 1990, um sofisma ridículo que parte do princípio de que qualquer coisa que seja "tradição local" deva ser necessariamente boa.
É algo tão insuportável que alguns meios de comunicação avaliam formas de modificar os ajustes do som das transmissões para diminuir o barulho que vem da torcida, tudo isso por causa da "cultura local" defendida pela FIFA.
Estudos mostraram que uma única vuvuzela durante 22 segundos já excede o limite de decibéis permitidos para locais de trabalho, agora imagine 10, 15, 20 mil delas sendo soadas simultaneamente durante 90 minutos ou mais. É desagradável e inconveniente, a ponto de um shopping da cidade sul-africana de Bloemfontein banir o sopro das cornetas, espalhando adesivos contra as vuvuzelas.
Numa primeira vista pode parecer exagero, mas vamos combinar, uma pessoa que acha "divertido" soprar essa coisa medonha sem parar sofre mesmo de toda a falta de senso crítico necessário para tocar a corneta até dentro de um shopping.
Como disse muito bem o colunista Augusto Nunes, é uma "rendição ao primitivismo". Um instrumento de tortura desses sendo elevado a ícone cultural e os cantos das torcidas, os "Ahhhs!" e "Uhhhs!" no quase-gol, os apupos, os gritos dos jogadores, as palmas, os ensurdecedores silêncios das derrotas, a contagiante alegria das vitórias, o grito de "Gol", tudo isso soterrado sob o som monótono desse desagradável instrumento de tortura musical, na verdade, anti-musical.
Torcer sem sofrer riscos de lesões auditivas é coisa de "elite". Quem é do "povão" e respeita "diferenças culturais" precisa gostar de aporrinhação, barulho, dor de cabeça e, de preferência, algum problema de saúde depois, ainda que seja de saúde mental.
Nos estádios, ao invés das torcidas, um enxame de abelhas inconvenientes. Resta torcer para que a cacofonia dos campos sul-africanos fique apenas na memória da Copa de 2010 e não seja exportada para outros países, inclusive o Brasil, que sediará a Copa de 2014.
E o meu medo é justamente esse, porque tudo o que não presta "pega" no Brasil e sendo assim, aposto que a vuvuzela tem tudo pra "pegar" também. Sabem só o que não pega aqui? Alfabetização e esclarecimento.
Dunga, convoca o Romário!
Postado em 11 de mai. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
Mas tenho certeza que muita gente vai xingar o Dunga por mim, prefiro falar de um assunto mais agradável. Outro dia meu amigo @luckfaber me chamou no MSN pra falar da participação do Romário num programa de TV. Comentou comigo sobre como era bom vê-lo em campo, o gênio da grande área, e como era melhor ainda ouvi-lo falar fora do campo.
Ainda recordo a véspera da Copa de 1994 e o clamor nacional pela sua convocação. O Brasil aos trancos e barrancos nas eliminatórias até que na última partida, contra o Uruguai, o teimoso da vez Carlos Alberto Parreira resolve ceder (não ao clamor, mas ao medo de não se classificar) e convoca aquele que sem dúvida alguma era o melhor jogador em atividade no mundo.
Show naquela partida, show na Copa, 24 anos de fila terminavam e ninguém duvidava: aquela era a vez do Romário. Naquele futebol burocrático da Seleção de 94, ele foi o lampejo de genialidade, de arte, de leveza.
Não me entendam mal! Eu não desprezo aquele time como fazem os "comentaristas" esportivos. Pra mim aquela foi a melhor Seleção Brasileira que eu já vi, simplesmente porque foi a primeira que eu vi ser campeã e que tirou da nossa boca o gosto amargo das derrotas de 82, 86 e 90. Foi por ela que vibrei em frente a um aparelho de televisão no quisque Viajandão, na Barra da Tijuca, o mesmo que o Romário ia pra jogar futvolei.
Mas o time de 94 não teria sido o que foi sem o seu craque, sem o seu futebol objetivo e refinado e sem a sua personalidade única.
E é aí que Romário se distancia anos luz dos jogadores que foram seus contemporâneos e dos que o sucederam. Ele é um cara verdadeiro, sem essa falsa máscara da humildade e do "coletivismo" que nivelam tudo por baixo.
"Não fui eu que ganhei nada, foi o grupo". Mas pera aí! O time fez 20 gols no campeonato e você foi responsável por 19! "Não sou melhor do que ninguém, o grupo e o professor é que são importantes". Assim falam os bagres de hoje em dia, que se não são totalmente bagres com a bola nos pés, são verdadeiros pernas de pau quando abrem a boca.
Ele não. Romário teve a ousadia de dizer que Deus apontou o dedo para ele e disse "você é o cara!". Todo mundo tem direito de achar isso, afinal das contas, todos nós vencemos uma luta contra alguns milhões de outros espematozóides, mas quem tem coragem pra dizer isso? O Baixola tinha e ainda tem.
Suas histórias e suas frases antológicas provam isso.
"Se eu for à Copa do Mundo, deve ser pelo que estou fazendo, não por aquilo que fiz. E por isso penso que é normal que eu vá, já que agora sou o melhor."
"Estou com 72 quilos, sim, e daí? O elefante é gordo, mas quando tem incêndio na floresta ninguém ganha dele na corrida"
"Parar? Nunca! Quando vejo em campo esses garotos de 19, 20 anos... Eles são muito ruins. Aí eu penso: não vou parar de jogar tão cedo"
Não consigo imaginar nenhum desses jogadores robotizados dos dias de hoje tendo cojones para dizer nada disso aí em cima.
E isso nos traz de volta a essas convocações do Dunga, nessa Seleção sem graça e tão contestada que o Brasil possui atualmente. Essa opção pelo "coletivo", pela "aplicação", pelo "sacrifício" é explicada pelos tipos de jogadores que existem. Uns, ruins de bola porém dedicados, os populares carregadores de piano. Outros que são bons de bola, mas verdadeiros vagabundos, moleques no que diz respeito à postura profissional.
Faltam, jogam mal, prejudicam suas equipes e acham que isso é "malandragem". Eis aí a grande diferença entre essa turma da bebedeira e da balada e o Romário: ele ia pra noitada sim, tinha um monte de mulheres no pé, chegava tarde nos treinos, mas quando entrava em campo resolvia a parada. Foi artilheiro do Campeonato Brasileiro com 39 anos. Ele funcionava.
E ainda que não jogue mais, ainda que não tenha condições físicas para entrar em campo como em outras épocas, bem que o Dunga podia convocá-lo para, quem sabe, a sua presença lembrar a todos ali, inclusive ao próprio Dunga, do porque o Brasil ser Brasil no futebol.
A diferença entre humildade e falsa humildade é essa: uma distingue o vencedor, a outra o apequena.





