Pouca coisa é tão sexy quanto uma mulher falando espanhol. Pouca coisa é tão broxante quanto qualquer um tentando falar espanhol sem saber.
E por mais que quase todo mundo goste de debochar dos que tentam, quase todo mundo também acaba tentando um dia, basta que tenha uma oportunidade. A CVC faz uma promoção de feriado, a brasileirada invade Buenos Aires ou qualquer outra cidade da América Hispânica e pronto, temos um rodízio de portunhol para todos os gostos.
Eu sou fascinado por idiomas - não que fale tantos ou fale bem os poucos que conheço - e sempre achei que é muito mais difícil aprender uma língua parecida com a nossa do que uma totalmente estranha.
Claro que o tempo que leva para alguém conseguir alguma fluência em mandarim é muito maior do que em espanhol ou italiano, mas as armadilhas são bem menores.
Se eu não sei como pronunciar "manteiga", "presunto" ou "queijo" em russo, eu vou perguntar a alguém como se fala. Mas se isso acontece em espanhol, fatalmente tento inventar.
Coisas simples como nomes de automóveis já causam confusão. Quer um exemplo? No Chile o famoso jipe Pajero se chama "Montero", porque pajero lá quer dizer "punheteiro". Agora, você já pensou chegar numa rent-a-car da vida e pedir em irretocável portunhol: "Quiero alugar un Pajero"?
A troca do verbo correto "alquilar" por "alugar" será o menor dos seus problemas.
Assim como "pegar", que em espanhol pode ter várias formas diferentes de se dizer. Primeiro porque a tradução literal de "pegar" é "colar", depois porque ao tentar dizer que vai pegar algo, pelo menos na América do Sul você vai pisar em terreno minado.
Isso acontece porque a tradução que um dicionário de espanhol daria é "coger". Só que os latino-americanos usam esse verbo para dizer que vão "trepar". Sendo assim, você jamais "coge" um ônibus e sim "toma". E quando vai pegar algo literalmente, diz "agarrar", o que em português é uma atividade preliminar do "coger" deles. Viu a confusão?
Pelado é careca, tarado é louco, chupar é encher a cara e zurdo é esquerdista (o que até soa apropriado em ambos os idiomas). Isso sem falar na já famosa palavra para designar micro-ônibus, que é "buseta".
Quase igual, né? Mas o que mata é esse "quase".
A verdade é que a regra que vale para música, esportes, jogos, artes e praticamente todas as atividades que não envolvam a exposição de dotes físicos, um padrinho rico e famoso ou a indicação de algum político, vale também para os idiomas: se você gosta de verdade, tente aprender primeiro.



