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Marx no capitalismo dos outros é refresco

Postado em 3 de abr. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários


Pedrinho estava revoltado, sua raiva era tanta que ele seria capaz até de jogar seu iPhone na parede, caso ainda tivesse um. Aliás, o motivo da revolta era justamente esse: seu progenitor resolveu confiscar o mimo eletrônico, entregando-lhe um cartão para ser usado no orelhão em caso de necessidade.

Bem nascido, frequentador da trinca colégio particular-cursinho de inglês-férias na Disney, Pedrinho ficou embasbacado quando começou a ter aulas de história no Ensino Médio com o Professor Zeca, um porra louca que morou numa comunidade hippie, é socialista, filiado ao PSOL e odeia a burguesia, ainda que não dispense o salário bem acima da média que aquele colégio de burguês paga.

Nas suas aulas Pedrinho aprendeu que o capitalismo é praticamente coisa do demônio, que a burguesia fede, que a elite é insensível e que a classe média tem nojo de povo. Ficou com tanta raiva quando descobriu isso que quase pediu para deixar de ir de carro com motorista pra escola, mas desistiu quando viu como os ônibus vivem lotados e não têm nem um mísero ar-condicionado.

Em compensação colou um adesivo do PCO no pára-choques do Peugeot da mãe, já que o PSOL é muito light pro seu gosto. E tudo ia correndo desse jeito até que o pai dele resolveu dar um basta naquilo.

Acampar na praça tudo bem. Andar com aquelas roupas com aparência de que não eram lavadas desde Woodstock, OK. Mas usar o cartão de crédito para fazer assinatura da Carta Capital foi demais.
  

Só que a dolorosa perda do iPhone não foi nada comparado às privações de fazer inveja à protagonista de novela mexicana que o rapaz estava sofrendo.

O computador (iMac, claro) foi retirado do seu quarto. A TV da sala ganhou uma senha para os canais a cabo, deixando o nosso Che Guevara da Apple Store com acesso somente à Globo, RedeTV!, SBT, Band e Record, sabe como é, essas emissoras do populacho.

Seu armário foi trancado a cadeado e o informaram que teria R$50,00 para gastar em roupas e sapatos. Podia escolher uma loja de mercado popular ou um bazar de igreja, tanto faz. O ar-condicionado do quarto foi substituído por um ventilador de 30cm, que só funcionava durante 6 horas por dia, já que a energia seria racionada.

Junto com o cartão telefônico também ganhou um vale transporte com carga suficiente para metade dos dias do mês. O rapaz poderia escolher ir e voltar da escola de ônibus durante 15 dias ou fazer um dos trechos a pé.

Em casa a empregada foi instruída a só fornecer o que continha numa caderneta de racionamento, que listava uma cota mensal de 12 pãezinhos, meia dúzia de ovos, 200gr de carne moída, 100gr de sardinha, 2 latas de salsicha, um envelope de sopa de pepino em pó e um pacote de biscoito de maizena. Fora das quantidades listadas, nada mais seria fornecido.

Para terminar o pai estabeleceu que qualquer deslocamento que ele tivesse que fazer a mais de 100km de casa deveria ser autorizado previamente. Passeio na casa do avô em Campos do Jordão ou churrascos de final de semana na casa do tio em Búzios entravam nessa restrição. Um formulário com 30 páginas deveria ser preenchido com 30 dias de antecedência e a resposta seria dada em 60 dias úteis. Tal qual cubanos precisam de permissão para deixar o país, frisou o pai.
 
Não aguentando mais aquela vida de cão, ele resolveu juntar todo seu furor revolucionário e exigir sua antiga vida de volta. Expôs toda a humilhação, falta de conforto e indignidade de tudo o que estava passando e obteve como resposta uma declaração simples:

- Ué, você não é comunista? Só estou te dando a vida que você deseja para os outros.

O garoto ouviu aquilo e saiu dali correndo. Foi procurar as camisas do Che, as fotos do Fidel e os Grundrisse do Marx para botar fogo o mais rapidamente possível.

E foram felizes para sempre

Postado em 27 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Sempre achei esses finais de histórias infantis e filmes meio irritantes. Aquele monte de gente abraçada, casais se beijando, pássaros voando, o E.T. vontando para casa, os vilões se dando mal, os heróis sorrindo com o topete engomado, uma coisa meio livro de auto-ajuda, meio música da Tropicália.

Mas a verdade é que todas essas lições que os estúdios tentam passar são grandes furadas. A vida real muitas vezes se parece mais com o início dessas sequências de filme, onde o que termina bem na primeira edição o diretor resolve bagunçar na segunda.

A Rainha do Gelo volta para atormentar os bichos falantes de Nárnia, o Jason do Sexta-Feira 13 consegue fugir de dentro de um cofre no fundo do lago, alguém implanta uma mão robótica no Dath Vader e tudo começa outra vez.

Só mesmo em um filme de Hollywood é possível você entrar numa loja, conhecer um japonês que te leva para a casa dele e te bota para lavar o carro, pintar a cerca, lixar o assoalho e você sai dali faixa-preta de caratê. Se fosse nessa sua vidinha aí, isso terminaria mesmo num emprego de carteira assinada, ganhando salário mínimo, vale transporte e um PF de arroz com feijão na hora do almoço.

Afinal, alguém acredita mesmo que um sujeito milionário solteirão ficaria passeando pela rua, pegaria uma prostituda de calçadão, levaria pro seu hotel e no final casaria com ela como fez o Richard Gere com a Julia Roberts em "Uma Linda Mulher"?


Na vida real ele seria casado e contrataria uma oriental e uma africana para fazerem parte de um bacanal envolvendo ornitorrincos, corcundas, um mágico, dois equilibristas e 37 pombos mortos e no final voltaria para casa levando um presente para a esposa, contando como sentiu sua falta.

E ainda que seja comum alguém sair do cinema ou desligar a TV se perguntando "será que eles continuaram vivendo felizes naquela fazenda mesmo?", já cheguei também a imaginar coisas bem menos normais como "acho que a Cinderela abusou dos rodízios de pizza, embarangou depois do segundo filho e o príncipe virou amante da Branca de Neve, que separou do marido depois que descobriu que ele era pedófilo e tinha um caso com o Peter Pan".

Se você pudesse saber mesmo o que acontece depois que aparece o "The End" na tela, veria que os Goonies foram presos pela Capitania dos Portos por navegarem com aquele navio pirata sem autorização, que Thelma e Louise realmente se esborracharam naquele penhasco e só foram reconhecidas através de exame de DNA e que aquela turma da "Escola do Rock" montou uma banda que teve um só sucesso e ainda se desfez, depois de muitas brigas e problemas com drogas.

Isso sem contar com todos os personagens de "Se Beber Não Case", "Porky´s" e "American Pie" que estariam hospedados em alguma penitenciária federal ou então fritando hamburgers no Mc Donald's.

Talvez seja por isso que essas histórias com finais felizes façam sucesso há tanto tempo, afinal, pra ver gente se fodendo você não precisa ler um livro ou ir ao cinema, basta acordar numa segunda-feira de manhã, ir de metrô até o trabalho, voltar para casa à noite e ligar no telejornal.

Eu tive um sonho...

Postado em 13 de mar. de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Acordei num dia em que os tablóides de 0,50 centavos não traziam nenhum escândalo ou frase de duplo sentido estampados, a Luciana Gimenez resolveu fazer medicina na Universidade Estácio de Sá e abandonou seu programa de variedades, a turma do Pânico cansou de fazer sempre a mesma coisa e foi apresentar um programa sobre hermenêutica na TV Cultura e a novelinha Malhação saiu do ar, depois que um dos atores de sua primeira temporada teve o primeiro neto.

Era um Brasil diferente, o Magazine Luiza vendia estantes para livros e as crianças não entendiam como alguém um dia realmente pôde gostar de "Ai, se eu te pego", sem falar em micaretas, que hoje só podiam ser vistas no Museu do Mau Gosto, junto com uma reconstrução cenográfica da Gaiola das Popozudas.

Curiosamente, o brasileiro não ficou menos brasileiro por isso, continuava com essa tendência genética a falar alto e trazer sempre uma gargalhada histérica pronta para ser disparada a qualquer momento, mas pelo menos parou de consumir toneladas de entulho no café, almoço e jantar, o que já era grande coisa.

Tiriricas ainda passeavam pelo Congresso, afinal, velhos hábitos não morrem facilmente, mas o cidadão médio cansou de ver sempre a mesma coisa, num loop de "É o Tchan", "Rebolation", "Bonde do Vinho", "Brasil Urgente" e "A Fazenda".


Das novelas, sobrou só a das oito, mesmo assim a título de preservação do patrimônio, já que apenas senhorinhas que já passaram dos 70 anos ainda assistiam aquilo.

Diziam que foi algo que os americanos colocaram na água, alguns suspeitaram de vazamento na usina de Angra, mas o fato é que eu achei bem legal o que vi.

Mas o mais pitoresco, o que mais chamou minha atenção, foi a velha casa do BBB. Algumas pessoas moravam ali, paredes de vidro e pequenas passarelas guiavam os visitantes sobre aquele zoológico humano.

Alguns atiravam um contrato para a capa da Playboy para uma moça, que em troca fazia gracinhas dentro de uma piscina, tal qual uma foca ou um golfinho em troca de um peixe.

O impacto foi tanto, que tive que perguntar a uma daquelas pessoas que observavam o porque daquilo tudo, e a explicação mostrou que eu estava realmente sonhando:

- Sabe o que é, moço, é que a audiência do BBB caiu, ninguém mais votava em paredões, ninguém comprava o pay-per-view, então resolveram tirar o programa do ar, só que esqueceram os BBBs presos aí dentro da casa.

- Que isso, e ninguém soltou?

- Nada, o Eike Batista comprou a casa de porteira fechada, com os participantes dentro e tudo, cercou e começou a cobrar ingresso, dizem até que foi por isso que passou o Carlos Slim como o homem mais rico do mundo.

Porque fotografar comida não é um pecado capital, mas pode ser evitado

Postado em 14 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Já notou como ninguém normal chega no motel, tira foto da outra pessoa e posta no Facebook, mas curiosamente vivem fazendo isso com o que vão comer no restaurante? Basta navegar um pouco pela internet que você nota como, às vezes, tudo se parece com um "caiu na net" gastronômico.

Entre chamar os outros de porcos enquanto joga lixo no chão; alimentar, dar banho e sair por aí catando as fezes de um animal e ainda assim dizer que é seu "dono", frequentar micaretas e tirar fotos na frente do espelho do banheiro, com certeza fotografar comida seria um hábito humano passível de estudo por alienígenas. Eles se perguntariam em desespero "porque eles fazem isso, porque?".

Como não sou um E.T. (pelo menos eu acho) confesso que já caí nessa muitas vezes (ainda hoje tiro muitas fotos de comida), mas tenho procurado evitar, porque o melhor da comida é mesmo o gosto, logo em seguida vem o cheiro, a aparência ajuda, claro, mas numa foto sempre vão faltar dois dos três elementos principais do prazer da comida.

Lógico que queremos eternizar momentos, deixar uma lembrança pelo menos visual daquele gosto que pode nunca mais ser o mesmo, porque podemos não voltar mais ali, o lugar pode fechar, podem tirar aquela bomba de maracujá de linha, algum acidente com radiação pode te fazer só sentir gosto de biscoito Trakinas em tudo - seja uma picanha ou um biscoito Trakinas - mas o que explica fotos de coxinhas de galinha, mistos-quentes e pratos de arroz com feijão?


E ainda que popularizassem um cinema 5, 6 ou 7D, com cheiro e tudo - o que sempre me causa certo nojo quando penso em filmes de zumbis - não seria aquele Mc Lanche Feliz que estaria em cartaz, não é? Porque assim como ninguém compra um ingresso para assistir "Aniversário do Pedrinho 2 - O Retorno do Animador de Festas", não creio que alguém pagaria um ingresso do tal cinema com aromas para assistir "Tentativas de Bife Acebolado da Tati - A Saga do Arroz Queimado".

Assim como grandes diretores, somente grandes "chefs" apareceriam no cinema, então, continua a dúvida: pra quê fotografar comida e colocar na internet?

Some-se a isso o fato de geralmente pedirmos comida quando estamos com fome, o que torna ainda mais inexplicável essa auto-tortura de atrasar sua degustação para tirar uma foto. É como ter sede, abrir a geladeira mais esbaforido do que um pastor alemão na praia, pegar um copo d'água e dizer:

- Não, pera aí, vou tirar uma foto porque esse é um belo copo d'água.

E se você não faz isso com água, não deveria fazer com um brownie. Porque assim como aquela pessoa que você leva pro motel faria se você parasse de dois em dois minutos para tirar uma foto, se o brownie falasse, certamente ele te diria:

- Me come logo, e esquece a porra da foto pro Facebook.

A menos, é claro, que vá você, a pessoa, o brownie, um sorvete, cenourinhas americanas e uma melancia, mas aí já seria um bacanal gastrômico e uma foto seria ainda mais inaceitável.

Mulher Nota Mil

Postado em 7 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

 Muito prazer, eu sou a Tati. Mas poderia ser Júlia, Isa, Márcia e até mesmo Lu. Sou uma dessas meninas-mulher que tanto fazem sucesso em filmes e biografias de perfil de internet. Mas não só da boca pra fora, sou assim mesmo.

Falo palavrões, mas também sei dizer coisas fofinhas. Curto pop rock, heavy metal, punk. 

Como pizza, chocolate, bebo cerveja, mas tal qual essas modelos e atrizes que dão entrevista por aí, consigo manter essa minha barriga lisinha quase sem esforço.

E mesmo curtindo Ramones e Iron Maiden, eu não me visto como se fosse figurante de "Jovens Bruxas" ou de "Walking Dead". Uso roupas estilosas, não tenho uma tatuagem tosca e nem vou ao cinema num domingo à tarde usando uma coleira com spikes e batom preto.

Curto filosofia e ficção científica, mas isso não me impede de ir na praia e em festas de verdade (nada de Campus Party) e, pra ser sincera, acho que essa moda babaca de cultuar nerds é invenção dos próprios nerds, que de burros não têm nada.

Mas nem por isso curto homens bombados, com aquela pinta de Alexandre Frota depois do filme pornô. Gosto de homens que contam piadas, que curtam um filme europeu e saibam que, antes de botar de quatro e chamar de cachorra, toda mulher merece um bom oral (que retribuo com prazer e técnica apurada, diga-se de passagem).


Jogo video game todo dia e se você quer saber, dificilmente vai me superar no GTA. Curto também jogos antigos, tipo Super Mario, Space Invaders e adoro jogar Ultimate Fighting e FIFA. Não ligo - e pra dizer a verdade até prefiro se estiver muito calor - de ficar em casa num sábado à noite, jogando, vendo seriados na TV e falando bobagem com os amigos.

Sei falar quatro idiomas e agora estou estudando chinês, mas nem por isso fico me exibindo ou esfregando na cara dos outros aquele pedantismo acadêmico que, pra falar a verdade, me enoja um pouco. Falo sobre futebol, sobre o Super Bowl, sobre teorias mirabolantes e até escatológicas,  e até sobre balé clássico.

Em relacionamentos sou equilibrada. Cuido sem sufocar, dou espaço sem parecer que não ligo. Não cobro, acredito que todo homem precisa de amigas mulheres para exercitar sua sensibilidade (e melhor que sejam bonitas, só assim sei que meu namorado tem bom gosto) e não sei porque haveria algum problema dele fazer uma viagem pela Europa sozinho. Ah sim, e não traio.

Sim, eu sei que pareço perfeita, boa demais pra ser verdade. E na realidade, sou mesmo. Não perfeita, mas boa demais pra ser verdade, muita areia pra qualquer caminhão.

Sei disso principalmente porque não sou mesmo de verdade. Sou uma invenção do autor deste texto, uma espécie de Mulher Nota Mil que só poderia existir num filme, numa biografia de perfil de internet ou aqui nessa página.

E convenhamos, se eu existisse mesmo, o que talvez não existisse seria um homem que me merecesse, muito menos você, que vive me inventando aí na sua imaginação, né?

Dos mitos e verdades sobre os mitos e verdades

Postado em 19 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Todo mundo detesta mentira. Isso é quase um cartão de visitas, seja num primeiro encontro ou na hora de elaborar uma breve descrição sobre si próprio, geralmente sempre vai haver um "sou muito verdadeiro, odeio mentiras".

Mas isso é um mito.

O fato é que ninguém suporta muito ouvir a verdade e, na maioria das vezes, ouvir uma mentira é muito mais legal. Seu amigo pode achar suas roupas ridículas, seu corte de cabelo escroto, sua voz irritante e no fundo até se perguntar porque diabos ele ainda é seu amigo, já que tudo em você o irrita, mas desde que diga que você é o cara,bem, ele vai poder continuar te pedindo cinquentinha emprestado e você vai continuar emprestando, tudo em nome da amizade.

Quem nunca deu entrevista para a TV enquanto tomava banho? Você fica ali contando como foi difícil chegar ao sucesso, como valoriza seus fãs, qual seu prato preferido e até dá dicas para iniciantes, como se estivesse no Programa do Jô ou no David Letterman.

Agora me diga: quem toma banho se imaginando preenchendo notas fiscais enquanto o chefe berra lá da sala que aquela planilha de Excel que ele te deu há 5 minutos já era para estar pronta "ontem"? Novelas, seriados e filmes de Hollywood movimentam milhões explorando esse nosso gosto pela fuga da realidade.


Se você vai numa boate junto com um amigo e não pegam ninguém, existem duas possibilidades de contar isso no dia seguinte pro resto da turma. Vocês dizem que não arrumaram nada e ainda gastaram 150 reais cada um só para terminar vomitando numa loja de conveniência às 4 da manhã, ou então fingem que acreditam que um pegou mesmo uma loira na saída do banheiro e que o outro deu uns beijos na barwoman nos fundos da despensa.

Dali a uns anos nem vocês vão saber se aquilo aconteceu mesmo ou não.

Quando alguém te mostra um trabalho, te pergunta o que você achou do novo corte de cabelo ou simplesmente diz que te ama, nunca, me deixe repetir, nunca vai esperar ouvir que o trabalho está uma merda, que o corte de cabelo ficou parecido com algum personagem do Planeta dos Macacos do qual você não lembra bem, mas sabe que não era um dos humanos, ou que você agradece muito aquele amor, mas infelizmente só pode retribuir com simpatia.

Todo mundo diz que adora verdade, mas só fica feliz quando ouve uma mentira. Caso contrário, porque uma frase como "a verdade dói" seria tão repetida a ponto de virar ditado popular?

Por isso aprenda de uma vez por todas: ninguém liga para a sua opinião, todo mundo quer mesmo é um elogio.

A hipótese Mega-Sena

Postado em 7 de nov. de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Se a Rainha Elizabeth tivesse quatro rodas e um volante, não seria a Rainha Elizabeth, seria um Rolls Royce. Ainda assim, pouca gente consegue resistir às conjecturas. Gostamos de imaginar os "ses" e os "como seria" o tempo todo.

É quase uma daquelas brincadeiras de criança onde fingimos ser o Batman, o imperador de Roma, um jogador de futebol, um piloto de Fórmula 1, bailarina, princesa, esposa de magnata russo. Depois de um tempo a gente desiste de voar usando capas, de pilotar em corridas ou de viajar para o espaço e nos concentramos em coisas mais mundanas, tipo iates, mulheres, carros de luxo, mulheres, dinheiro, mulheres.

E assim surge a hipótese Mega-Sena.

Todo mundo sabe que na realidade a Mega-Sena é um jogo de azar que nunca é ganho pelo seu colega de trabalho, pelo seu vizinho e muito menos por você, mas ainda assim cada vez que acumula um prêmio, filas de gente que acreditam que dinheiro não traz felicidade se formam na frente das casas lotéricas.


E todos fazem o mesmo exercício de masturbação mental que até os mais pessimistas, como você e eu, também já fizeram um dia: e se eu ganhasse esse prêmio? Porque tanto dinheiro assim te possibilita fazer um monte de coisas que você gosta, mas principalmente te possibilita não fazer coisas que detesta, o que, convenhamos, é muito mais legal.

Não ir a festas de fim de ano da firma, não participar de amigos ocultos, não precisar puxar papo com ninguém na hora do cafezinho, não andar de metrô, não ter vizinho de cima e nem do lado, só presenciar um engarrafamento de cima do seu helicóptero, viver preocupado com jet-lag, com os efeitos do consumo excessivo de Blue Label e caviar de beluga, coisas assim.

Mas o que eu faria mesmo é patrocinar certas invenções, como uma tecla mute pra gente chata, uma nave para transportar todos os ecochatos pro Planeta Pandora, uma máquina do tempo pra despejar todos os esquerdistas de butique num Gulag do Stalin

Agora, nem se anime muito com a hipótese Mega-Sena, porque a menos que você more no interior Piaui, do Maranhão, de Mato Grosso ou de Goiás (que é de onde sempre saem os ganhadores desse negócio), estatisticamente suas chances de ganhar alguma coisa são nulas.

O samba do Feng Shui doido

Postado em 20 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Geralmente começa com uma matrícula em aulas de dança do ventre, uma palestra num centro de macrobiótica ou um panfleto de um templo hare krishna.

De repente ela troca o nome pra Julia Fatula ou Sarah Madhava e pronto, é o que basta. Assim, sem mais nem menos, ela vira uma garota "zen". Pára de comer picanhas aos domingos, de beber cervejas às sextas e o sexo das tardes de sábado só rola se for voltado na direção de onde o sol de põe em Calcutá (e com a cama trocada por uma esteira).

Papos cabeça, frases desconexas, cabala-vodu-tarô-zoroastrismo.

Se você diz que está com calor, ouve como resposta algo como "o equiíbrio dos chacras transcedentais precisa estar em harmonia com a existência do arhat". E pensar que você só queria uma cerveja gelada.

Mas o problema é que não foi apenas sua reclamação sobre o tempo que gerou aquele ataque-zen, qualquer coisa que você diga recebe como resposta uma lição, uma moral da história, uma frase sobre aceitação-privação-sublimação-reinvenção de alguma coisa, desde a vontade de comer um chocolate até pisar num cocô de cachorro na rua.


Você passa a viver na companhia de um cruzamento de Paulo Coelho com Baby Consuelo.

Sem contar a transformação da casa dela numa filial do Mundo Verde. Os móveis são arrumados de acordo com o que algum livro de feng shui mandou, o que terminou colocando a mesa de jantar no banheiro social e o sofá na área de serviço, sem contar os incensos, a música indiana, as estátuas de Budas, Ganeshas, os cristais e até um boneco do Batman vestido com roupa de árabe.

Pedir um simples milk shake vira um suplício:

- Vamos tomar um milk-shake?

- Procure a resposta nas vibrações do entorno do seu bodhisattva...

- Tá, baunilha ou Ovomaltine?

- Habib, o seu eu te dirá isso na hora certa.

- Caralho, pelo menos me diz se quer grande, médio ou pequeno?

- Na verdade prefiro um suco de clorofila.

E assim coisas stress, carne vermelha, rock pesado e fast food passam a fazer quase tanta falta quanto o ar que você respira (sem controle de respiração e nem Yoga, porque você está de saco cheio disso).

Não é à toa que namorar uma economista do mercado financeiro ou uma caixa de banco fã do Iron Maiden passou a ser sua obsessão.

Se não der, que seja pelo menos uma gerente do Burger King.

A arte de falar sem dizer nada

Postado em 28 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Digamos que cada pessoa tem um Caetano Veloso vivendo dentro de si (ou não). Seja como for, é incrível a pressão que jogam em cima de nós para ter alguma opinião sobre quase qualquer assunto.

Tudo bem que muita gente adora ter opinião sobre tudo (o que nem é um problema), mas complica quando resolvem contar essa opinião para os outros (aí sim, geralmente vira um problema).

Defendo a censura? Não. Mas acho que se as opiniões de um cretino são mesmo tão preciosas pra ele, o sujeito deveria tratá-las como tesouros que são: trancando num cofre.

Só que, às vezes, aparece um amigo chorando as mágoas de uma dor de corno, uma aula ou reunião para a qual você não se preparou, alguém te contando um problema ou simplesmente quando querem um elogio.

Nessas horas você precisa dizer algo.

Por isso coisas como "É foda...", "Complicado...", "As pessoas são assim mesmo", "Não se pode confiar em ninguém", "Eu sei como você se sente", "Tem coisa pior do que isso", "Mulher (ou homem) é tudo igual", "O tempo cura tudo", "Nisso é melhor nem se meter", "Irado", "Super legal", "E não é que é mesmo?", entre outras, são uma forma inesgotável de falar sem dizer coisa alguma.

Seu amigo foi traído pela namorada? "As pessoas são assim mesmo, mulher é tudo igual".

Querem saber o que você acha sobre a Primavera Árabe? "Irado".

O noivo da sua amiga fugiu no dia do casamento com a tia dela? "Não se pode confiar em ninguém".

Pegaram seu chefe trancado com uma anã no depósito de limpeza? "Nisso é melhor nem se meter".

O Brasil perdeu o quarto pênalti seguido na semi-final da Copa América? "Tem coisa pior do que isso".

Alguém diz numa mesa de bar que só tem corno no Espírito Santo? "E não é que é mesmo?".

Sua amiga gorda te mostra uma foto de biquini no Beach Park? Você até queria dizer "é foda", mas solta mesmo um "Super legal".



Note que você opinou, elogiou, interagiu com seu interlocutor, demonstrou interesse e solidariedade pelo que ele te disse e no entanto não precisou dizer absolutamente nada relevante sobre o assunto.

A única situação em que isso não funciona muito bem é quando esperam um pouco mais do que simples opiniões e empatia vindas de você, como uma aula sobre Marx ou uma reunião sobre balanços semestrais.

Nesse caso também é simples, basta deixar que alguém diga alguma coisa primeiro e depois você repete tudo o que a pessoa falou rearrumando as palavras:

- Marx tinha uma concepção hegeliana da história.

E você:

- Inclusive, me permitam acrescentar, Hegel foi uma grande influência na concepção histórica marxista.

Ou então:

- Estes balanços semestrais mostram que nossa empresa pode reinvestir parte do lucro líquido em programas de capacitação.

Aí você complementa:

- Aliás, eu li na Forbes que programas de capacitação são boas opções para o investimento do lucro líquido.

No final das contas, todos vão te considerar um cara ponderado, conhecedor, estudioso e útil, porque se tem uma coisa que faz com que as pessoas te considerem um verdadeiro gênio, é você concordar com elas.

A mulher do vizinho também tem TPM

Postado em 26 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Ainda que pareça o contrário, se o seu vizinho beber whisky falsificado também vai ter uma dor de cabeça dos infernos igual a você, se arrepender igual a você e prometer que nunca mais vai beber na vida, igual a você.

Adoramos admirar a vida dos outros, isso é um fato, mas também é um fato (dos grandes) que a mulher do vizinho também tem TPM, também fica com dor de cabeça e inclusive dorme de calça jeans de vez em quando.

O outro pode ter uma vida tão chata quanto a sua, tão mediana, monótona e cheia de preocupações, ainda que, visto daí de onde você está, pareça que até o ato de passar fio dental é mais interessante quando não é você que precisa fazer.

Bom mesmo é ser o vizinho, o cara da mesa do lado, o sujeito passando lá fora.

Sim, porque a menos que você tenha visto a pessoa passar por alguma merda muito grande, como, sei lá, enviar sem querer o arquivo "noivinhas_profundas.jpg" anexado num email que deveria conter uma planilha de Excel pro chefe, geralmente a vida dela parecerá mais fácil e interessante do que a sua.

O outro não deve procrastinar trabalhos (já que o trabalho dele é muito mais interessante do que o seu), não deve perder a hora de manhã (muito menos ter um despertador que ganhou de presente do chefe e que berra "acorda vagabundo" com a voz da Dercy Gonçalves), nunca pega um ônibus lotado (que nem você pega todo dia, ainda que saia de casa uma dia às 9:00, outro às 10:00 e já tenha tentado até sair ao meio-dia) e jamais precisa fazer dieta.

Se faz dieta, come uma salada muito mais apetitosa, um brócolis com gosto de picanha nobre e com certeza só bebe mate sem açúcar porque acha muito mais gostoso do que uma Coca-Cola geladinha.

Geralmente ele ganha mais (e se não ganhar mais, vai ser capaz de fazer muito mais coisas com o pouco que ganha do que você) e sempre, sempre é um outro que acerta na Mega Sena (o que ajuda a manter sua paranóia).

As contas dele são menores, o cartão de crédito nunca manda a fatura e o banco sempre esquece de cobrar juros. O Fusquinha que ele anda é melhor do que o seu carro (ainda que ele seja uns 20 anos e pareça uns 30 anos mais velho) e aquele cheese-bacon que ele manda pra dentro na Kombi da esquina não vem com gordura suficiente para lubrificar o motor do Fusca.

Os casamentos que ele vai são mais legais e até os engarrafamentos dele são divertidos, sem contar que você já cogitou entrar pra Amway e pra Herbalife que nem ele, afinal, visto daí aquelas reuniões parecem ser o maior barato.

E de repente até a idéia de rebaixar seu carro, colocar um daqueles sonzões de trio elétrico e sair por aí que nem o seu vizinho ouvindo funk nas alturas não parece tão ruim.

Não, não. Pensando bem esse aí aquele vizinho do outro lado, o que você acha tão escroto que preferiria reencarnar como uma poltrona do meio de avião do que ser que nem ele.

Mas não tenha dúvidas: por mais que sua vida pareça monótona e regular, alguém está de olho nela (menos, é claro, aqueles que preferem reencarnar como um microfone de karaokê, a ter que viver como você um dia).

Porque estamos virando turistas japoneses

Postado em 14 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

De repente todo mundo parece um turista japonês.

Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.

Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.

Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?

Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".

Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.

Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.


Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.

E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.

Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.

Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.

Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.

É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.

Vai que é sua, Saci!

Postado em 12 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Se tem uma lei que pegou no Brasil, esta é a lei das carapuças. Todo mundo age como se estivesse tentando roubar uma bala juquinha nas Lojas Americanas e de repente ouvisse uma sirene de polícia.

"É comigo? É comigo?".

Parece incrível, mas ainda que neguem, a maioria das pessoas sofre de complexo de perseguição. Todos disfarçam se dizendo tímidos, dizendo que não gostam de ninguém se metendo nas suas vidas, que não ligam pra opinião dos outros e até mandando um "Coé? O que tá olhando?" se alguém encara demais na rua.

Tudo fruto da incrível capacidade que o ser humano tem de pensar que o mundo gira ao redor do seu próprio umbigo. O sujeito que sempre acha que estão olhando pra ele, falando dele, jogando indiretas para ele, na realidade é um puta de um egocêntrico.

E sim, muitas vezes estão olhando mesmo para nós, jogando indiretas para nós e até falando mal de nós pelas costas, mas acredite: é pela mais pura e simples falta de opção. Geralmente quando falta assunto é que você começa a falar mal dos outros. Observe em qualquer mesa de bar.


O Flamengo e o Corinthians já foram discutidos à exaustão, a política nacional idem, física quântica, dialética e até novelas de TV já foram devidamente esgotados, não sobra mais nada. Aí algum dos presentes - provavelmente estimulado pelo álcool - dá a deixa:

- A Claudinha saiu com o Pedrão e disse que de "ão" ele só tem o apelido mesmo, porque quando chegaram no motel o negócio lá era uma mistura de Batom da Garoto com Lingua de Gato da Kopenhagen...

Pronto. O Pedrão virou o assunto, mas note que numa escala de interesses, ele ficou atrás do futebol, dos deputados do Congresso, de teorizações sobre o eu interior e até da novela das 6.

Perceba como se você estiver falando algo baixo com alguém, cochichando mesmo, e chegar uma terceira pessoa de repente, ela vai logo perguntar "estão falando de mim, né?".

Como se responde isso? "Sim, estamos falando que você é um babaca" ou "Não, estamos falando de um assunto mais interessante: a discografia do Oswaldo Montenegro"? Qual das duas opções ofenderia menos?

Na internet acontece a mesma coisa. Qualquer comentário feito nessas redes sociais é respondido por meia dúzia de pessoas que têm certeza absoluta de que aquilo ali foi dirigido a ela.

Se você diz que detesta aquele "pi-pi" do Nextel, surgem hordas de cretinos dizendo que você "não paga as contas deles e que eles usam Nextel o quanto quiserem". Se você diz que curte mulher inteligente, logo aparecem comentários como "Pô, sô muito intelijente, Nem, vem logo ni min que eu sei que cê tá afin".

E se for alguém da turma do Pedrão, bem, vai ficar perigoso dizer que tá afim de um chocolate.

Surfista maneiro, adolescente de comercial

Postado em 15 de ago. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Outro dia um amigo meu disse que não entende porque o Facebook traduziu o seu botão "like" (aquele que sinaliza quando uma pessoa gosta de algo que vê no perfil de outra) como "curtir" ao invés de "gostei".

Esse "curtir" fica parecendo propaganda de leite achocolatado, com um monte de adolescentes dizendo de maneira forçada coisas como "curti muuuito essa manobra meeeeu".

Isso me fez pensar no porque de todo adolescente de comercial soar assim, como diria, tão idiota mesmo.

Porque apesar de parecer impossível, jovens em propagandas parecem ainda mais retardados do que na vida real, afinal de contas, quem vira pra um amigo e manda coisas como "noooossa, que rrrampa irada caaaaara!"?

Sério, ninguém que não tenha sido exposto à radiação acorda de manhã e solta um "mãe, quero devorar um sucrilhow"?

É um fenômeno, aliás, que não é só restrito à adolescentes e comerciais de TV. Quase todo filme, seriado, novela ou coisas do gênero sempre mostra gangsters, surfistas, lutadores, universitários, etc, de uma forma, no mínimo, constrangedora.

Eu sempre lembro dos personagens do filme "Menino do Rio" ou do seriado "Armação Ilimitada" , todos surfistas que só falavam coisas como "auê, brother!" ou "nuossa, que onda chocante!". Ainda era criança na época, mas já ficava imaginando se para surfar bem era preciso fazer lobotomia ou algo assim.


Mais ou menos como pobre/favelado ou bandido/favelado de filme, que não acerta uma concordância, quase como se isso fosse uma imposição genética e também não consegue dizer uma frase sequer que não contenha um "caralho" ou "porra", ainda que o contexto não permita tal construção.

- Bom dia, tudo bem, porra?

- Bom dia, caralho!

- Quer pão com manteiga ou sem manteiga? Porque não tem mais nada pra comer.

- Sem manteiga, caralho.

Não dá pra levar a sério, nem sob a mira de um revólver cenográfico.

Bizarros também são esses diálogos de teatro ou filmes de época que colocam todo mundo falando na terceira pessoa, como se Romeu e Julieta fossem pular do alto de uma árvore a qualquer momento e distribuir veneno para a platéia.

Certa vez conheci uma garota que falava assim, na vida real. É sério.

Imagine como era esquisito até o osso ouvir coisas como:

- Ligue-me mais tarde, estarei na festa do Fulano, se fores, avisa-me.

Uma vez quase respondi :

- Claro, guardarei o número de vosso telefone com zelo na minha algibeira.

Mas tudo bem, enquanto eu não falar que nem adolescente de comercial, estou mantendo a dignidade.

Já fui a Nova York, claro, mas sou mais assim, de esquerda

Postado em 13 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Um fenômeno estranho acontece com seres humanos, não sei se em todo o mundo, mas em boa parte do mundo que eu conheço, que é a nostalgia de coisas que passaram e, algumas, até de um período que o próprio nostálgico nem viveu, mas "sabe" que era muito bom.

Em "Meia Noite em Paris", o Woody Allen fala sobre isso muito bem. O protagonista é um roteirista que se lamenta por não ter vivido na capital da França durante os anos 20, considerados por ele como a "era de ouro". Só que quando finalmente conhece uma estudante de moda que viveu nesse período (não pergunte como, veja o filme), ele descobre que, para ela, a "era de ouro" não estava nos anos 20, período que considerava "chato e sem criatividade", e sim na Belle Époque.

Cada um nostálgico daquilo que não viveu.

Tudo isso não faz muito bem, afinal, não devemos desprezar tanto o tempo em que vivemos, ainda que eles sejam muitas vezes desprezíveis.

Mas até aqui só falei de arte, da Belle Époque, da Paris de artistas e filmes. O que dizer então de pessoas que sentem nostalgia por Gulags, expurgos, guerrilheiros e ditadores barbados fazendo discursos de 8 horas?

Nunca entendi muito bem o esquerdista de butique. Na verdade até entendo, mas confesso que não engulo muito.

Todos preocupados com a justiça social, com o direito à propriedade de quem invadiu terrenos em favelas, com os quilombolas, os oprimidos, os discriminados e, claro, o aquecimento global.

Nada contra acabar com a fome do mundo, diminuir desigualdades, respeitar diferenças, blá blá blá.

Mas esse pessoal  é o mesmo que dá um chilique se ouve uma piada que considera "racista" ou "homofóbica" mas declara em pleno almoço de domingo que adoraria ver "Bush e toda a sua família serem mortos numa jaula de javalis".

É um povo intelectualizado mas que prefere ler uns resumos na Super Interessante do que se debruçar sobre um livro, senão pode faltar tempo pra ir beber um ice na loja de conveniência com a turma do condomínio.


Curtem uma sandália de couro, um forró pé de serra e são completamente "de raiz", tudo pra justificar o hábito de fumar um baseadinho de vez em quando, já que a maioria só pisou no Nordeste quando foi num resort em Porto de Galinhas ou no Carnaval em Porto Seguro.

São comunistas roxos, possuem toda a obra de Marx pronta para ler no iPad, mas ainda não conseguiram passar da primeira linha, porque preferem usar o tablet pra ver os episódios antigos de Gossip Girl.

Admiram Cuba e fazem questão de repetir para qualquer um que ouse chamar o regime castrista de ditadura que "não existem crianças de rua e nem analfabetos" na ilha. Esquecem do resto, mas o que é o "resto" para alguém que acha Che Guevara um herói, ainda que ele executasse pessoas por motivos tão sérios quanto roubar um pedaço de pão?

É um pessoal assim, meio de esquerda, pero no mucho sabe? Eles não chamariam o moleque de rua que eles defendem quando rouba o dinheiro de uma aposentada para tomar banho na piscina da casa deles, por exemplo.

E entre um período em Miami (o mais perto que já chegaram de Havana) e uma missão dos Médicos Sem Fronteiras para combater doenças na Somália, eles não hesitam em levar seu espírito revolucionário ao encontro do Mickey Mouse, com um pulinho para compras em Nova York se possível.

Já estudaram fora, moram em bons bairros, possuem todos os bens de consumo que o dinheiro pode comprar, falam inglês, francês e quando resolvem entrar pro mercado de trabalho, arrumam logo uma bolsa do governo ou um trabalho numa ONG, mas no entanto detestam elite e chamam todo mundo de "burguês".

Sua vontade de mudar o mundo é tanta, que não hesitam em participar de eventos do Facebook e de campanhas pelo Twitter. E sentem que o mundo capitalista treme nas bases quando lê coisas como:

"Ianques go home! Morte à #Burguesia! Proletários: uni-vos! - 

Só mais uma coisinha...

Postado em 3 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Certas pessoas simplesmente não sabem a hora de parar. Você pode fazer o maior sucesso na festa de final de ano da sua firma contando nove piadas sobre loiras, mas na décima provavelmente você ficará over e o chefe do departamento pessoal vai começar a se perguntar porque foi mesmo que ele te contratou.

Saber a hora certa de parar é uma arte, é geralmente o que separa você daquela gafe monumental ou de ser o "tio de final de festa", que fica perambulando entre as mesas tentando tirar a bisavó de alguém pra dançar.

Gente que não sabe parar é como o sujeito que lança sempre aquele comentário residual, que ele crê ser a cereja no bolo, mas que na verdade é a azeitona que faz a empada ficar indigesta.

- Nossa gata, será que você não tem coração?

- Tenho, porque?

- E porque não entrega ele pra mim?

- Nossa, que lindinho!

- Então aproveita e mostra esses peitões também.

Notaram como começou mal, sem nenhuma razão plausível acabou dando certo (mulher tem dessas coisas), mas piorou no final?

Só que nesse caso o único prejudicado será ele mesmo (a menos que esteja numa maré de sorte e termine o diálogo vendo mamilos), mas por vezes esse comportamento atinge outras pessoas também.

É o que acontece naquela aula de hermenêutica erudita clássica aplicada, que começou pontualmente às 7:30 da manhã e se arrasta, sem intervalos, até mais ou menos umas 2 da tarde.


Aquele CDF da sua turma já discutiu, opinou e levantou dúvidas sobre Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e até sobre aqueles alemães que quase ninguém consegue pronunciar o nome como Schleiermacher, Weishaupt, Eschenmayer, Weischedel e Chucrute.

 Todo mundo já deu aquela forcinha pra engrandecer o debate, já citaram todos os termos apropriados para encher lingüiça nesse tipo de ocasião, desde "lúdico" até "dialético", passando por "conceito", "metafísica" e, claro "data venia", mas parece que nada disso adiantou para abreviar a conversa.

Quem estava com fome, já comeu todo o seu estoque de Mento's, quem é fumante, já roeu até a unha do dedão do pé, a bateria do último iPhone disponível para ler notícias ou jogar Plants vs Zombies terminou faz uns 15 minutos e nada, nada parece dar a entender que aquela tortura vai terminar.

Até que chega o momento em que o professor diz as palavras que você mais esperou ouvir na vida depois de "eu te amo" e "promete que se doer você tira?", que são "para concluir...".

Algo dentro de você parece viver novamente, o castelo da Disney, a fada Sininho e os fogos de artifício aparecem sobre a imagem de um gráfico que está projetada no quatro e finalmente você vai se livrar daquela sensação de que seu cérebro está sendo devorado por Smurfs zumbis.

Mas enquanto você começa a guardar suas coisas na mochila para sair correndo dali o mais rapidamente possível, algo mais aterrorizante do que gás de mostarda ataca seus sentidos. O seu colega CDF levanta a mão, vira pro professor e diz:

- Eu acho que antes de ir embora a gente poderia discutir esse último tópico sob uma ótica nietzscheana, a menos que o pessoal não esteja muito interessado na aula.

Nesse momento você entende perfeitamente porque certas pessoas preferem virar homens-bomba.

Eminem, ironia e racismo

Postado em 18 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Você conhece o Sr. Marshal Mathers? Não? Mas conhece o Eminem, né?

Goste ou não, o cara é um dos rappers mais famosos do mundo.

Confesso que não tenho muita paciência pra rap, porque a idéia de alguém falando no meu ouvido sem parar não é agradável nem para uma conversa, quanto mais para música, mas algumas canções eu curto bastante, principalmente quando rola aqueles samplers com musiquinhas melosas no meio.

Antes de mais nada, que fique claro que não misturo rap com esse funk carioca, que pra mim não é música, é lixo e tem o mesmo valor artístico de um desses filmes pornôs de motel barato.

Mas voltando ao assunto.

Um dia estava na rua, quando de repente um rádio começou a tocar "I love the way you lie", do Eminem. Estava com um pessoal nessa hora e comentei "pô, adoro essa música...".

Aí um negão - posso chamar de "negão" sem dizerem que sou a reencarnação de Hitler? - me disse:

- Tá vendo, branco curtindo música de preto.

E eu:

- Pô, cara, não tem essa de música de branco, de preto, o que for bom eu curto.

- Ah, mas rap sempre sofreu preconceito, perseguição, porque é música de gueto, de preto.

- O samba também sofreu e tem um bocado de sambista bom aí que é branco.

- Mas a burguesia adotou o samba, o rap não, ainda é coisa de favelado.

- Mas e os whiggas? Aqueles brancos americanos que se vestem e agem igual um rapper?

- Aquilo é palhaçada, pura imitação, nenhum deles sabe fazer rima.


Achei que a conversa estava ficando interessante, porque sem notar ele estava se metendo numa armadilha quase sem saída.

- Então me explica porque um dos maiores rappers do mundo é branco? Meio irônico isso, não?

- Como assim?

- Porque eu acabei de dizer que gosto de uma música do Eminem e você me disse que é som de preto, só que ele é branco e sabe fazer rima.

- Cara, ele é preto, só que nasceu com a cor errada.

Finalizei:

- Ainda bem que você não é racista, mano.

Reze um Terço e faça 30 abdominais

Postado em 28 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Chegamos na época em que uma barriguinha define o caráter. O sujeito pode ser PhD em física quântica, ter lido toda a obra de Platão e ainda salvar bebês na África, porque se ostentar uma barriga de chopp, será reconhecido simplesmente como "o sedentário".

Quem nunca viu um anúncio de emprego pedindo "boa aparência física"? Isso no tempo da nossa avó serviria para eliminar homens com brinco na orelha e mulheres de bigode, mas atualmente nada é mais importante do que a sua forma.

Recorremos a revistas sobre exercícios e dietas com mais voracidade do que um talibã lê o Alcorão.

Alguém acima do peso, no entendimento de uma grande maioria, só pode ser preguiçoso, sem auto-estima, sem um pingo de disciplina e sem o menor controle sobre suas vontades. Certamente deve ser um péssimo profissional, desleixado e frustrado por não conseguir nada melhor na vida.

Obesidade é quase uma folha corrida, um prontuário.

Ninguém gosta de feiúra, é claro, tudo o que nos atrai é belo. Mas o exagero produziu esta aberração onde o maior filho da puta do mundo (ou a maior filha da puta) tem grande chance de ser tomado por "gente boa", "bom profissional" e "de bem com a vida" só pelo fato de possuir uma barriga chapada.


Sair então virou um suplicio. Como pedir batatas fritas num primeiro encontro? Ou então comer uma torta de chocolate na frente da namorada que acabou de pedir palmitos, broto de feijão e suco de clorofila?

Alimentação espartana é uma bosta, mas aparentemente aguça a libido.

Alguém pediu catupiry na pizza? Já sei! Deve ser fã do Maluf e do aquecimento global, gente fina mesmo só pede torrada light com cottage e quando quer fazer uma extravagância come pizza de rúcula em massa integral de taioba.


As academias viraram uma espécie de templo, quase uma obrigação social.

Quando você diz para um colega de trabalho que mais tarde "vai malhar" ou que vai "correr 10 quilômetros no Sábado", está querendo mostrar que não é um desses degenerados que tira a noite só para o lazer num cinema ou o final de semana para uma praia com cervejinha.

Cuidar da saúde é bom, lógico. Uma alimentação baseada em leitão a pururuca com bacon no rolete vai te levar para um cateterismo com menos de 40 anos, mas o exagero também é detestável.

Nem só de coxinhas de galinha e torresmo é feita a vida, mas fugir de vez em quando da cenoura no vapor não é nenhum pecado mortal.

Por falar em pecado, já imagino até um padre abrindo a janelinha do confessionário e encontrando ali uma mocinha aflita:

- Padre, me salva do inferno, por favor!

- Mas o que houve?

 - Eu pequei! comi alfajor!

- Você foi gulosa e comeu a caixa inteira, minha filha?

- Claro que não, né, Padre, eu não quero ficar uma baiaca igual a Martinha do 302, comi só meio alfajor, mas depois corri pra aula de Power Yoga e fiz duas horas de Spinning.

- Mas isso não é nada demais...

- É sim, padre, eu estou me sentindo a maior das pecadores, por favor, me ajude!

- Tá bom minha filha, eu te perdôo, reze um terço e vai ficar tudo bem.

- Padre?

- Sim, minha filha?

- Posso fazer umas abdominais também?

Arara no bafo

Postado em 25 de mar. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

No final do ano eu fui num almoço de confraternização -daqueles em que todo mundo que se detesta o ano inteiro finge que foi tomado pelo espírito de Natal só pra comer de graça - realizado numa dessas churrascarias que cobram o rodízio em arrobas de boi gordo.

Acostumado com praças de alimentação e restaurantes a quilo, confesso que cheguei lá munido da mais prosaica das ambições: várias fatias de picanha sangrando, daquelas que você espeta o garfo e ouve o boi mugindo.

Só que depois que os pãezinhos de queijo regulamentares foram embora, os garçons começaram uma espécie de safari gastronômico.

- Uma fatia de picanha de javali, Senhor?

- Aceita um quitute de avestruz?

- Essas coxas de marreco estão especiais, o Senhor deseja provar?

- Capivara?

De uma hora pra outra eu achei que estava no Serengueti e que a qualquer momento me ofereceriam iscas de Leopardo ou Babuíno a passarinho. O que aconteceu com as coxas de frango,  os corações de galinha e a picanha maturada argentina? Viraram coadjuvantes.

Soube que já existem churrascarias finas que servem jacaré e tatu. Não confirmei a informação, mas não duvido.


Foi difícil não lembrar daquelas reportagens sobre a China e seus espetos de escorpião e sopas de inseto que passavam durante a Olimpíada de 2008. A diferença talvez seja que lá isso é hábito, aqui é excentricidade.

No meio do almoço, já rindo daquela profusão de excentricidades, resolvi entrar na brincadeira e dar uma sacaneada no garçon. Mas antes que eu perguntasse se tinha caldo de arraia eles interromperam meu almoço pedindo gentilmente que eu fosse embora.

Calma, não me expulsaram literalmente de lá, mas todo mundo sabe o código para quando querem que a gente vá embora do restaurante, né? É mais ou menos quando chegam perto de você e perguntam "O Senhor deseja mais alguma carne em especial?".

É uma senha para dizer: "E aí? Vamos pagar a conta e liberar a mesa?".

Respondi:

- Vocês tem arara no bafo?

E ele:

- Como?

- Arara no bafo, é uma delícia, comi lá em São Paulo.

- Por enquanto não temos, mas vou falar com o gerente e na próxima vez que o Senhor vier talvez já tenhamos alguma novidade.

Pobres das araras...

Faça uma pose: vogue! (Ou o dia que o mundo da moda resolveu sacanear o resto do mundo. Ou vice-versa)

Postado em 24 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Carlo Armenfeld era um estilista muito famoso. Meio italiano, meio sueco, neto de judeus e com um bisavô comanche, ele era rico, poderoso, capa de todas as revistas de moda mais badaladas que existem, possuía lojas em Tóquio, Paris, Roma, Milão, New York, Rio de Janeiro, Ibiza e, claro, Duque de Caxias.

Ele havia chegado ao ápice de todo estilista com sua marca: ser pirateado na China e vendido em todas as feirinhas de subúrbio que se prezem. Só aí ele teve certeza de que atingira a excelência.

Um dia, no auge da glória, entediado durante mais um desfile de biquinis no Fashion Rio - essa embaixada da moda e da futilidade encravada como uma unha no pé rachado do subdesenvolvimento - Carlo teve uma idéia: iria sacanear todo mundo.

Porque não? Ele já tinha vestido a Madonna, já tinha desenhado uma saia de espigas de milho para a Lady Gaga, já havia criado um vestido de noiva para alguma princesa de segundo escalão das monarquias remanescentes da Europa e, claro, já tinha vestido algumas atrizes na entrega do Oscar.

Precisava inovar e entendeu que a sacanagem seria sua inovação.

Pra começar resolveu só contratar modelos gordas. Mas entenda, não valia considerar gordas pessoas com aparência de que não são viciadas em heroína e se alimentam fazendo fotossíntese, ele queria algo mais pra rodízio de pizza mesmo. Começou a expor suas roupas entre culotes, celulites e estrias.

Só que ainda assim as pessoas poderiam fazer ajustes e diminuir aqueles manequins 40, 42, 46 para tamanhos mais afeitos ao mundo da moda, como, sei lá, 32, 33. Decidiu então desenhar roupas bregas.

Ombreiras, pochetes, calças bag. Tudo voltava com força total, tal qual um surto de gripe espanhola.


Mas isso se restringia apenas às passarelas e Carlo queria mais. Começou a plantar notas em colunas sociais e revistas "fashion" dando conta de que agora só era "in" quem comesse feito um porco.

Batatas fritas, bacon, sorvetes, filés gigantescos acompanhados de bastante molho de gorgonzola, quanto mais gordice você fizesse à mesa, mais estaria em sintonia com Milão, Paris, Tóquio, bla, bla, bla.

Tomar sopa fazendo barulho e comer frango com as mãos então era coisa assim, só pra uma Gisele Bundchen, que a esta altura estaria gordíssima, pesando, sei lá, uns 63 quilos.

A cartada final se deu quando Carlo, usando sua influência de grande anunciante, convenceu editores de revistas semanais a publicarem entrevistas fajutas com alguns médicos dizendo que bom mesmo era se alimentar com sódio, açúcar, gordura trans e todos os tipos de carboidratos possíveis.

Os doutores discorriam alegremente sobre as benesses do creme de chantilly, da pasta de amendoim e da picanha mal passada com gordura.

As pessoas mal podiam acreditar no que acontecia. Tudo aquilo que antes "não podia", agora não só era permitido como ainda por cima passara a ser cool. Bobs no cabelo, sungas de crochê, pulseirinhas hippie e até as sandálias Croc conseguiram sua redenção.

Tudo corria conforme ele tinha pensado quando decidiu que iria sacanear o mundo, só faltava escolher a data onde anunciaria aquele 1º de Abril de Itu.

E Carlo só teve a certeza de que sua obra estava completa quando, passeando pelos camarins de um de seus desfiles de moda,, onde apresentaria sua nova coleção de calças saruel-corsário, viu uma modelo escondida num canto, morrendo de medo de ser pega.

Ela comia nervosa uma folha de alface, engolindo tudo de uma vez antes que alguém a pegasse com a boca na botija e sua fama escorresse pelo ralo.

Associada Júnior do Setor de Calçados, reportar rotina 3

Postado em 4 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Eu estava numa dessas lojas de departamento que vendem desde cuecas até bicicletas, passando por chocolates, DVDs, brinquedos e talvez até um ou outro deputado, quando escutei o aviso sinistro:

- Associada Júnior do Setor de Calçados, reportar rotina 3.

"Reportar rotina 3", essas palavras ficaram se repetindo na minha mente enquanto eu tentava imaginar o que seria a tal rotina 3. Pensei em tudo, desde bombas de fabricação caseira até "cliente surtado com machado na seção de video-games" ou "coroa desgovernada sem roupa na seção de cama, mesa e banho", mas no fim conclui que deveria ser algo tão sem graça quanto ligar para o telecheque ou passar algum cartão de crédito.

Nunca entendi direito essa mania que certas empresas - tudo bem, quase todas - tem de criar nomes difíceis para coisas simples. Talvez seja para dar uma enfeitada num trabalho sem graça, para criar um jargão que mantenha o cliente sempre às escuras, tomado de uma reverência que só se tem com o desconhecido.

Creio que ficar sentado esperando que alguém "finalize o procedimento A-2" seja uma aventura muito mais tensa do que simplesmente esperar que tirem fotocópias da sua identidade, daí essa fixação por termos que apenas enfeitam o que é comezinho.

Ainda lembro quando telefonei para uma agência de turismo para confirmar um orçamento e ouvi a mocinha me perguntar, solene:

- Quantos PAX, Senhor?

Mais tarde fui avisado que "pax" é a sigla para "passageiros". Tudo bem que isso economize oito letras e talvez padronize internacionalmente o termo, mas eu precisava ter contato com isso porque mesmo?

Outra cousa que me deixa intrigado é a mania de criar novos nomes para trabalhos tão antigos quanto as anáguas ou o rapé. Empregada doméstica assim vira "secretária do lar", balconista vira "atendente" e funcionário vira "associado".


Nestes ainda se compreende a intenção de conferir mais importância ao cargo, mas o que dizer do bom e velho cabeleireiro ter virado "hair stylist", a recepcionista se transformar "hostess" e quase todo mundo passar a ser "designer" ou "personal" alguma coisa.

É desgner de piscina, de sofás, de almofadas, de jardins, de banheiros, de jóias (pobre do velho ourives).

E tem também o personal trainner (verdade seja dita, este, pelo menos, é o original), personal-stylist, personal-fritador de pastéis, personal-engraxate, enfim, tem personal para tudo. Tem até um personal-shopper, que se encarrega de fazer compras pra você (talvez quem precise de um desses nunca se casou e deu um cartão de crédito pra esposa).

Se você estiver desempregado, não se preocupe, você sempre poderá dizer que é DJ ou que "tem projetos em andamento" ou algum curso ou "consultoria" pra fazer.

Já alguém que teve algum sucesso, mesmo que breve, em qualquer atividade (vale ex-BBB, deputado cassado, ex-amante de jogador de futebol), pode ganhar dinheiro dando palestras. Sempre existirá um idiota disposto a ouvir o que outro idiota tem para dizer sobre algum assunto idiota.

Mas a grande verdade é que se o segredo do sucesso é fazer o que se ama, deveriam nos pagar para dormir, viajar e ir à praia, afinal de contas, seria genial passar 11 meses de férias e depois negociar a venda de 15 dias de trabalho com o chefe.
 
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