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Ah, os velhos carnavais!

Postado em 23 de fev. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Quem nunca ouviu da avó ou de um tio essa frase "ah, os velhos carnavais é que eram bons!"? E dá-lhe a falar de pierrôs, colombinas, melindrosas, batalhas de confete e escolas de samba "de verdade". Só que eu tenho uma teoria: aquela época não era melhor, eles pensam assim porque eram mais novos e ainda não tinham visto tudo.

Falo isso porque cada vez que assisto a TV na época do Reinado de Momo - termo que, aliás, acaba com o glamour de qualquer monarquia - fico com a impressão de que já vi aquilo antes.

Reportagens sobre a Bahia, sobre o frevo em Pernambuco, a correria das escolas de samba para aprontar alegorias, o que comer e beber para se manter alimentado e hidratado durante a "folia", os blocos de rua, as fantasias criativas (quantas versões de um Darth Vader serão necessárias para que essa fantasia deixe de ser criativa, aliás?), tudo é rigorosamente igual ao que passou no ano anterior e no outro e no outro.

As bebedeiras, o movimento nas estradas, os engarrafamentos, os supermercados lotados (eventos que, diga-se de passagem, se unidos à varrição da casa de praia poderiam virar um enredo chamado "A Peregrinação Anual da Classe Média Praiana" ou algo assim).


Por falar em enredo, adoraria ver o que aconteceria com as escolas de samba se proibissem de falar sobre Bahia, Amazônia, África e Jorge Amado. Porque as únicas coisas que são menos surpreendentes do que esses enredos são os carros alegóricos que sempre quebram e as rainhas de bateria que passam a impressão de, juntas, possuírem um QI de 0,5.

Tenho quase certeza de que se as emissoras resolverem passar um VT de qualquer carnaval passado ao invés de transmitir ao vivo o desse ano, ninguém vai notar a diferença (exceção às escolas de samba de São Paulo, que sempre inovam falando de temas tão interessantes quanto óculos escuros, guaraná Dolly e nuggets).

O resto do Brasil não foge muito à regra. Quem não sabe que em Salvador o carnaval dura mais de uma semana, que em Olinda todo mundo passa quatro dias fingindo que adora frevo e que no final da festa o "bloco dos garis entra na avenida"?

Mais clichê mesmo só comentaristas de desfile de fantasias e entrevistadores tarados nos bailes (que sempre passam a impressão de estarem acontecendo sem cessar numa espécie de universo paralelo desde os anos 70).

E o amedrontador é saber que ano que vem vamos assistir a tudo isso outra vez, com um monte de gente se espantando como se estivesse diante de uma novidade de cair o queixo.

Não é a toa que até hoje verdadeiros exércitos de soldados do "pavê ou pacomê" repetem sem cansar a piada da Mangueira entrando.

Histórias impossíveis (tomara)

Postado em 3 de jan. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

- Pô, desculpa aí, Cisper...

- Não tem desculpa, não, mano.

E o sujeito seguia implorando por desculpas. Cisper era um sujeito famoso pela sua violência. Enforcava gatos, espancava fracotes, pendurava  vira-latas nos fios de alta-tensão e era pichador. Quer dizer, não era bom negócio se meter com aquele Chuck Norris do Tremembé.

No final, depois de muito implorar, finalmente ouviu a sentença:

- É o seguinte, mano: "tu" vai lá e escreve assim no muro "Desculpa aí, Cisper".

Falou assim mesmo, sílaba a sílaba "des-cul-pa a-í Cis-perrrrr", com forte sotaque paulistano. O pecado? O cara tinha pichado o apelido dele no mesmo muro que Cisper já tinha grafitado.

Sabe o que essa história tem que eu jamais esqueci? Simples: nesse mundo de absurdos inacreditáveis, nunca descobri se era ou não verdade. Me foi contada pelo primo de um amigo que era tão valentão que se fosse num bairro mais pobre, tirava o tênis e saltava do carro descalço por medo de ser roubado.
Mas foi um desses casos que a gente ouve e fica pra sempre na memória, que vai acrescentando detalhes. Hoje, pra mim, o Cisper já é um cara meio mulato, que usa boné, nem forte e nem fraco, mas com um bigodinho de meter medo. O cara que fazia o pedido falava fazendo biquinho quando pronunciava o "Cis" de "Cisper" e a conversa se deu numa rua cheia de concreto e vazia de árvores, meio escura, no meio da fumaça da noite de um subúrbio de São Paulo.

É incrível como nossa mente consegue imaginar o inimaginável e tornar real.

Outra história quem me contava era um colega de escola. Dizia que conheceu um garoto de 3 anos chamado João Gabriel. O que teria de especial o pentelho de 3 anos? Simples: já nasceu falando.

Aliás, falando só não. Já nasceu chamando o médico que deu-lhe a palmada de filho da puta, a enfermeira de gostosa e o resto da molecada do bercário de "bando de filhos da puta". Com 1 ano já tinha cabelo no peito e no suvaco, com 2 já tinha voz grossa e aos 3, idade que o meu amigo o conheceu, ele disse assim para uma professora tentava fazer com que ele cantasse "atirei o pau no gato":

- Vou cantar essas babaquices não,  vai à merda.

Foi inevitável a minha mente imaginá-lo tal qual fez com o Cisper.

Meio gorducho, cara de mau-humorado (com pinta de membro da família daquele ditador norte-coreano, só que sem os olhos puxados), cabelo no suvaco (claro) e jeito de que poderia me dar um chute nas canelas a qualquer momento.

Torci sinceramente para que nenhum vazamento nuclear não noticiado tenha realmente produzido tal figura, afinal, era impossível existir uma criança assim.

Mas caso eu estivesse errado, de uma coisa eu tinha certeza: João Gabriel é filho do Cisper. Nem precisa fazer exame de DNA.

Sampa

Postado em 7 de dez. de 2009 / Por Marcus Vinicius 21 Comentários

Voltei à rotina.

Depois de alguns dias passeando na tal "Terra da Garoa", volto à "Cidade Maravilhosa" com uma constatação: pode fazer um sol danado em São Paulo e o Rio continua bonito, mas longe de ser maravilhoso.

Temos aqui engarrafamentos proporcionalmente tão monstruosos quanto.

Mas não é esse o assunto, hoje quero falar sobre a cidade em que não nasci, mas pela qual me apaixono mais e mais a cada visita.

São Paulo não é para pessoas rasas, isso é fato.

Apreciá-la requer um olhar que transponha a sua grandeza, o seu caos, a sua multidão de rostos indo e vindo e penetre nas suas nuances. Causa espanto para quem tem a sorte de possuir este olhar como esta cidade grandiloquente em tudo pode ser tão intimista, detalhista, minimalista.

Cafés, sorveterias, livrarias, recantos, um simples banco no Parque Trianon e a refrescante sombra de suas árvores, as esquinas, as pequenas galerias, os achados.

Seu mapa sinuoso é um mapa do tesouro, de vários tesouros, basta que se procure.

Sabores, cores, histórias e recantos de uma cidade que, para quem assim como eu aprecia sensações, é um dos melhores lugares do mundo.

Pude rever a sua Rua Augusta, que tão paulistana como é, não se contenta em ser "normal" e dependendo do referencial, tem duas subidas e duas descidas.

Cada uma guardando tesouros, como uma pequena loja que vende lindos e deliciosos cupcakes, a Sotto Zero e seus sorvetes ali há tanto tempo, a Galeria Ouro Fino e seus doidões de butique, as Alamedas e a Oscar Freire, que possuem quase todos os prazeres que o dinheiro pode comprar.

Para os demais prazeres, basta ir "pro outro lado", com seus bares, casas noturnas, puteiros e teatros. De um lado, a Estados Unidos e na outra ponta a praça Roosevelt, no meio disso tudo, o mundo. Nada poderia ser mais perfeito para definir uma rua.

São tantos assuntos, que acho que voltarei a falar sobre a cidade algumas vezes aqui, porque ela não merece um texto, uma crônica, uma poesia e nem um livro, essa cidade merece uma enciclopédia dedicada só a ela.

Fazia tempo que não visitava São Paulo, mas pude lembrar bem porque gosto tanto dessa terra. Ela desperta paixões porque possui um pouco de todos nós, um pouco do que trazemos dentro de nós, a beleza, a feiúra, a doçura, a violência, o caos e a paz.

São Paulo é um pouco da vida, cada curva revela uma surpresa e cada retorno ou cruzamento que viramos, pode revelar coisas muito belas ou muito feias, mas todas extremamente verdadeiras.

Problemas, todos os tem, não seria diferente por lá.

Mas poucos lugares no planeta possuem tantos antídotos para os males da rotina quanto o antigo Povoamento do Pátio do Colégio, essa minha querida São Paulo de Piratininga, que um dia ainda me concederá intimidade suficiente para chamá-la simplesmente de "Sampa".

Qual ladrão você prefere?

Postado em 18 de nov. de 2009 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, resolvi que sairia de casa no meio da madrugada rumo a uma festa na boate Pista 3 (do Grupo Matriz), em Botafogo, aqui no Rio.

Noves fora o total desrespeito à lei anti-fumo e ao direito que todos tem de não respirar substâncias potenciamente mortais, apenas pelo prazer de alguns aspirarem e expirarem fumaça, e alguns pentelhos bebados jogando cerveja para o alto, o que me incomodou mesmo naquela noite foi outra coisa.

Como eu moro no Catete e resolvi tirar o carro da garagem para não virar refém do péssimo sistema de transportes do Rio de Janeiro (isso na Zona Sul, imagina no resto da cidade), pude observar uma discrepância curiosa no caminho de mais o menos 15 minutos que percorri entre um bairro e outro: a proporção inversa da quantidade de policiais e viaturas na rua à quantidade de radares e pardais, sempre alertas, para meter a mão no bolso do sujeito que passe dos 50km/hr ou que avance algum sinal de trânsito (semáforo para os paulistas).

Ainda que o Rio seja uma cidade dominada pela violência, com bandidos cada vez mais cruéis e bestiais, o mesmo poder público que é incapaz de garantir um transporte de massa decente e uma segurança mínima ao cidadão, é o que o pune caso ele, por exemplo, cruze um sinal vermelho para não ser ameaçado com uma arma.

Foram 15 minutos de trajeto, uns 3 ou 4 pardais em sinais, mais uma meia dúzia de radares controlando o limite de velocidade e uma, isso mesmo, uma viatura da Polícia Militar, fazendo um lanche em um desses postos de gasolina 24 horas.

Digo isso porque não esbarrei com nenhuma barreira da "Operação Lei Seca", que aproveita o ensejo de combater quem bebe e dirige e fiscaliza também o pagamento do IPVA, as lanternas, faróis e mais qualquer outra coisa que possa gerar multa, reboque e bastante transtorno para o pobre coitado que seja parado ali.

Sem contar as ruas esburacadas, mal iluminadas, dignas de uma pocilga de cidade.

Polícia para proteger? Nem pensar. "Choque de Ordem" que retire das ruas os flanelinhas que infernizam o cidadão? De jeito nenhum! Uma sincronização de sinais de trânsito para que os engarrafamentos não sejam ainda mais insuportáveis? Pra que?!

O poder público é eficiente mesmo quando se trata de multar, rebocar, punir, infernizar. Tudo, claro, para a "nossa proteção", segundo eles mesmos dizem.

Operação Lei Seca e Choque de Ordem tem o tempo todo. Operação "Asfalto Liso" e "Estacione em Paz" isso ainda estou pra ver.

Só resta uma dúvida: será que se a pessoa cruzar o sinal e ainda assim seu carro levar um tiro, ela ganha desconto na multa ou no IPVA, pelo menos? Duvido muito.

Neste paisinho de muitos deveres e punições e quase nenhum direito, o que sobra no final é a escolha entre ser roubado pelo ladrão no meio da rua ou pelos ladrões nos palácios.
 
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