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A noite vai ser boa, tudo vai rolar...

Postado em 29 de dez. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Conhece essa música? Aquela do "trocando de biquini sem parar". Pois é, se  tocar, pelo menos pra mim, a noite já não vai ser boa, porque eu não gosto dela, mas você pode gostar e aí a história muda completamente.

Gosto é uma coisa complicada e por isso mesmo chamar alguém pra sair é uma arte, aliás, nem é uma arte, é um perigo mesmo. Você em casa, sem nada pra fazer, torcendo pro telefone tocar e o que acontece? Ele toca! Quem mandou torcer? É um amigo do seu trabalho:

- Beleza? Estou te ligando pra te convidar pra vir aqui em casa, vai rolar um pagode fundo de quintal sensacional, com mocotó e cervejinha, não aceito um "não" como resposta, hein...

Viu só? Bem feito. Estudar análise combinatória não deve ser tão pior do que o programa que você arrumou. Mas pro seu amigo pagodeiro, tenho certeza que a batucada com sopa de pata de vaca deve ser a melhor coisa do mundo. Cada um dá um pouco, fazem as compras e é só "diversão".

Aí você se pega contribuindo com R$ 20,00 para um evento que você pagaria R$ 50,00 pra não ter que ir.

O legal é que o inverso também é verdadeiro, e isso te permite uma vingança sensacional.


Vá no tal pagode, finja que está se divertindo, chame aquela prima baranga cheia de Kolene no cabelo que ele vive querendo empurrar pra cima de você de "princesa", beba a cerveja quente como se fosse um Tanqueray com tônica, até bata palminhas na hora de um dos muitos "ôôôs", "êêês" ou "láláiás".

Comporte-se como se quisesse sair dali e dar uma esticadinha num baile da "Gaiola das Popozudas". Depois de meia hora, diga pra ele que vai ali e já volta e fuja o mais rapidamente possível.

Dali a uma semana será a hora da vingança. Retorne aquele telefonema, pergunte o que ele está fazendo, elogie o churrascão e faça o convite fatal:

- Tô ligando pra te chamar pra um festival de cinmema iraniano. Vai rolar uma maratona de 8 horas de filmes sobre tapetes persa e depois da palestra do Caetano vai ter um jantarzinho num bistrô vegetariano, não aceito não como resposta, hein...

Apareça já de ingressos comprados, se instale na cadeira, espere apagar as luzes e depois de uma meia hora diga pra ele que vai ali e já volta, e fuja o mais rapidamente possível, afinal de contas, o pagodeiro que merece ficar de castigo é ele.

O lado bom de não ser cool

Postado em 6 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Há um tempo li que galinhas não voam tão alto quanto urubus, mas pelo menos não comem carniça e nem são sugadas por turbinas de aviões.

Dito de outra forma, você jamais vai se espantar se um amigo seu aparecer usando ombreiras e mullet se ele sempre tiver sido chegado num visual trash anos 80. Mas com certeza você vai se espantar se um dia aquela gostosa do seu trabalho sair de férias e voltar de cabeça raspada, com uma suástica tatuada na têmpora e pedindo pra ser chamada de "João" a partir de agora.

Disse tudo isso porque outro dia a aparição na TV do vocalista e líder do Guns'N'Roses, Axl Rose, durante o show da banda no Rock in Rio, causou tanta comoção que eu pensei que ele estava torturando filhotes de coelho no palco.

Mas não foi nada disso, todo mundo no Twitter, no Facebook, nos bares, esquinas e até nas aldeias da Amazônia estavam indignados porque o sujeito ficou velho e gordo. Isso mesmo: velho e gordo. Nada de coelhos torturados, nada de sacrifício de virgens vestidas de Branca de Neve, nada de velhos travestis plantando bananeira usando saias, mas apenas o fato do Axl Rose ter envelhecido.

Quase ninguém pensou no fato de que a menos que ele fosse um mutante, um vampiro ou um Highlander, é meio que normal ele ficar velho.


Mas aí volta a história da galinha e do urubu. Alguém por acaso reclama que o Lemmy do Motörhead ficou feio, gordo ou esquisito com o passar dos anos? Não. Simplesmente porque ele nunca foi um sex symbol mesmo.

Daí a minha teoria de que não ser cool tem um lado bom. Pense no pessoal do seu colégio. Todo mundo ficou mais ou menos igual eram nossos pais (menos os que tinham pais bonitos): uns carecas, outros barrigudos, outras viraram pudins de celulite, mas a gente só se choca mesmo com quem era bonito. Os feios só mudam de feiúra e alguns até ficam melhores do que eram.

A mesma coisa com quem já foi considerado gênio. Ninguém se irrita se um imbecil resolver falar alguma imbecilidade, mas se a pessoa for conhecida pela sua inteligência, não convém de uma hora pra outra aparecer demonstrando uma "intelijença".

Por isso existe um lado bom em ser aquele em que ninguém presta muito atenção, a não ser por uma estranha habilidade de fazer esculturas usando pão de forma e pasta de amendoim.

Você pode usar pochete, pedir pra parar o churrasco e tirar uma foto da picanha pra colocar no Orkut, fazer a brincadeirinha do "pavê ou pacomê" todo santo dia (mesmo que a sobremesa seja sorvete de papaya com M&Ms), aparecer no trabalho calçando uma sandália Croc amarela e até ir na praia usando sunguinha de crochê.

E ninguém vai se espantar, você nunca foi cool mesmo.

Porque o revival de uma década geralmente dura mais do que a década em si?

Postado em 21 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Já teve horas em que eu pensei que o revival dos anos 1980 fosse durar até mais ou menos 2980.  E o pior é que pra quem não viveu aquela época, fica a impressão que só curtíamos Bozo, pirocóptero, ursinho blau-blau e "Como uma Deusa" da Rosana.

Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?

Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".


Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.

É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.

Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.

Rock in Rio (ou não)

Postado em 11 de jul. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Recorrer já no título a algo supostamente dito pelo Caetano Veloso é apelação, mas fazer o que? O assunto merece.

Não sou crítico musical, então não possuo aquela isenção (cof-cof), conhecimento (cof-cof) ou bom gosto (cof-cof-cof) para pretender que o que vou dizer aqui é uma verdade absoluta, mas fazer o que? Eu tenho esse péssimo hábito (pelo menos no Brasil) de ter opinião, então vamos lá.

Sempre achei estranho o "Rock in Rio" acontecer em Lisboa durante muitos anos. Nada contra a pátria-ancestral, nada disso, mas porque não Rock in Lisboa? Tudo bem, os gênios do marketing me explicaram que se tratava do uso de uma marca conhecida e por isso o nome.

Aguardo ainda, é claro, o Glastonbury-Itu, o Parintins-São Paulo e a São Silvestre-Copacabana (sei que isso pode ser contestado, mas não iria perder a piada).

O fato é que finalmente o festival com o nome do Rio de Janeiro voltou ao Rio de Janeiro, o único problema é que quando resolve fazer isso, só traz o "in Rio", porque parece que o "Rock" ficou esquecido em Lisboa.

Porque vamos lá, quando vi no lineup do festival nomes como Maria Gadú, Rihanna, Cláudia Leitte, Ivete Sangalo, Monobloco, Martinho da Vila, etc, etc, juro que pensei que era o Domingão do Faustão.

Outros nomes como Guns'n'Roses, Lenny Kravitz, Frejat e Mike Patton também me passaram a impressão de que estes artistas dependem mais do Rock in Rio para viver do que a cantora Simone depende do Natal.

Nem o Metallica, o Motörhead ou o Coldplay servem para limpar muito a barra, porque estão entremeados por coisas que até são rock, mas não são, tipo NX Zero e Móveis Coloniais de Acaju.

Não sei o que houve com aqueles festivais de rock que tinham um único palco e sua principal atração era mesmo o bom e velho rock'n'roll.

Esse Rock in Rio de agora parece mais algo voltado para "world music", para pessoas "ecléticas", para quem "quer ver e ser visto", um clima meio Fashion Rio. Só falta colocarem alguma coisa de sustentabilidade no meio.

Desculpe quem gostou da programação e quem já comprou ingresso pra ir, sei que algumas coisas que estarão ali tem valor e sei que tudo evolui com o tempo, mas rock pra mim é moto soltando fumaça, lama, cabeludos de casaco de couro, groupies, cerveja, gente louca vomitando no final da madrugada, etc, etc, etc.

Podem me chamar de purista, mas rock é atitude. Sou do tempo em que as mães escondiam as filhas quando algum roqueiro chegava perto delas. Hoje em dia elas as vêem com esses rapazes estilo Restart e só ficam preocupadas se eles vão pedir o vestido das moças emprestado.

Por isso mesmo eu resolvi aderir ao slogan do festival "Eu Vou" e resolvi que vou é ficar em casa (mesmo porque acho que todo mundo que curte uma micareta já comprou os ingressos, dada a velocidade com que se esgotaram).

Gosto é que nem bunda, eu sei, mas a minha não vai passar nem perto daquela cidade "do rock".

Churrasco de gato no Lago dos Cisnes

Postado em 17 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Pode reparar: você nunca vê carro rebaixado, tunado, com o porta-malas aberto tocando Mozart aos berros. É sempre funk, axé ou pagode. Mas experimente falar isso na frente desse pessoal liberal meio de esquerda que hoje em dia parece ser o modelo do brasileiro consciente e engajado.

Talvez te chamem até de nazista, afinal de contas, sabe como é, ter bom gosto e não extrair nenhum prazer de batuques e frases de duplo sentido só pode ser coisa de gente que curte um campo de concentração.

Mas o fato é que certos gostos contribuem para os estereótipos que os cercam.

- Bora fazer um quarteto de cordas de fundo de quintal amanhã?

- Quero ver, quero ver, as bailarinas fazendo plié até o chão!

- Pega a Brasília lá e liga o som pra gente ouvir um Beethoven na calçada enquanto lava os carros.

- Viu a nova dos Rolling Stones? "Ah Moo Lee Kee"?

- Passa lá em casa amanhã que a gente vai assar um salmãozinho na laje.


Essas e muitas outras são frases que dificilmente você vai ouvir por aí, simplesmente porque ainda que o pessoal gente boa, liberal e meio de esquerda diga o contrário, certas coisas não se misturam.

Carro rebaixado, com vidro fumê, porta-malas aberto e com música aos berros, tem muito mais chance de tocar Exalta Samba, Latino, Tati Quebra-Barraco ou Ivete do que tocar João Gilberto, Cole Porter, Chopin ou Muse.

E esse assunto traz à tona outro dado curioso: só música ruim toca alto, só perfume barato é forte a ponto de empestiar um vagão inteiro de metrô, só carro escrotamente tunado pertence a motoristas que dirigem como babuínos amestrados, só manifestações populares incômodas são feitas no meio da rua, caviar não frequenta laje, champanhe tem alergia à boteco e uma bailarina pode até descer até o chão, mas jamais fará isso rebolando e se comportando como se fosse um espeto de maminha servido num rodízio.

Pronto. Pode me chamar de preconceituoso agora.

Mas na minha opinião, se você acha elitista gostar de música clássica, se acha coisa de gente metida preferir ambientes silenciosos, se pensa que perfume francês é pra frescos e carros originais de fábrica não tem tanta graça quanto carros transformados em caminhões do Corpo de Bombeiros, quem tem preconceito é você. Contra o bom gosto.

Acho que você precisa pensar seriamente em deixar essa bomgostofobia de lado.

Mensagem na garrafa, mensagem na garrafa...

Postado em 10 de jun. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Você já parou para pensar em como seria estranho cantar isso por aí? Mais ainda, em como é bizarro alguém gravar um álbum, fazer sucesso e ficar mundialmente conhecido cantando isso? Pois o The Police conseguiu, bastou ficar repetindo "mensagem na garrafa, mensagem na garrafa".

Aqui no Brasil isso seria, no máximo, alguma propaganda de cerveja estrelada pelo Zeca Pagodinho.

O Kiss é outra banda que tem como grande sucesso "Love Gun", a "Arma do Amor", uma ode de Paul Stanley ao seu próprio pênis. Convenhamos: em português vira letra do Wando, se tanto.

Me desculpe pela possível visualização do pênis de um membro do Kiss (com trocadilho, por favor), OK? Apesar de você merecer dormir sem essa, o exemplo é imperdível.

Foi cantando "como uma virgem, tocada pela primeira vez" que a Madonna virou Madonna, a diferença é que ela fez isso em inglês, o que explica muita coisa.

Me pergunto se para os nativos do idioma anglo-saxão essas letras soam tão estranhas quanto soam para nós, faladores da maltratada flor do lácio.

Porque até certos nomes em inglês são estranhos, ou você acharia normal conhecer pessoas chamadas Abril, Maçã ou Cadência? Mas existem Aprils, Apples e Cadences por aquelas bandas.

Sempre curti rock'n'roll, e faço parte do time que acha difícil digerir rock em outro idioma que não o inglês, e ainda que curta um monte de coisas em português e espanhol, não adianta, as pedras não rolam com a mesma desenvoltura.


Lúcia num Céu com Diamantes e a Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta poderia até fazer sucesso assim mesmo, em português, mas não sei se os Besouros iriam muito além do Domingão do Faustão com essas letras.

Do mesmo jeito que fica estranho pagode em japonês - ainda que para o meu gosto pagode é estranho em qualquer idioma - e, apesar de todas as tentativas, fazer fusion de rock com baião e caranguejo não é muito a minha praia (com trocadilho, de novo), fazer rock em outros idiomas requer cuidado de neurocirurgião: qualquer deslize, por menor que seja, vira desastre.

Você não namora a Adriana, sua vizinha loirona que usa calça da Gang e frequenta bailes funk todo final de semana só porque ela não te dá mole, você não a namora porque ela já tem um bruta-montes com 50 cm de braço e um cordão de prata mais grosso do que correia de bicicleta no pescoço e também porque, ainda que ela quisesse alguma coisa contigo, você não aturaria quatro finais de semana seguidos ouvindo proibidões, nem mesmo por uma bunda daquelas. Não combina.

Assim são os estilos musicais e certos idiomas. Não dá pra fazer música baiana em russo só porque em Moscou não tem Carnaval, mas porque não combina e o máximo resultado que você consegue é ser exótico, talvez bizarro.

Letras de rock em português não chegam a tanto, mas letras em inglês traduzidas para o português, sim.

Ah, só pra esclarecer: sua vizinha gostosa não vai te dar mole, foi só um exemplo.

Eminem, ironia e racismo

Postado em 18 de abr. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Você conhece o Sr. Marshal Mathers? Não? Mas conhece o Eminem, né?

Goste ou não, o cara é um dos rappers mais famosos do mundo.

Confesso que não tenho muita paciência pra rap, porque a idéia de alguém falando no meu ouvido sem parar não é agradável nem para uma conversa, quanto mais para música, mas algumas canções eu curto bastante, principalmente quando rola aqueles samplers com musiquinhas melosas no meio.

Antes de mais nada, que fique claro que não misturo rap com esse funk carioca, que pra mim não é música, é lixo e tem o mesmo valor artístico de um desses filmes pornôs de motel barato.

Mas voltando ao assunto.

Um dia estava na rua, quando de repente um rádio começou a tocar "I love the way you lie", do Eminem. Estava com um pessoal nessa hora e comentei "pô, adoro essa música...".

Aí um negão - posso chamar de "negão" sem dizerem que sou a reencarnação de Hitler? - me disse:

- Tá vendo, branco curtindo música de preto.

E eu:

- Pô, cara, não tem essa de música de branco, de preto, o que for bom eu curto.

- Ah, mas rap sempre sofreu preconceito, perseguição, porque é música de gueto, de preto.

- O samba também sofreu e tem um bocado de sambista bom aí que é branco.

- Mas a burguesia adotou o samba, o rap não, ainda é coisa de favelado.

- Mas e os whiggas? Aqueles brancos americanos que se vestem e agem igual um rapper?

- Aquilo é palhaçada, pura imitação, nenhum deles sabe fazer rima.


Achei que a conversa estava ficando interessante, porque sem notar ele estava se metendo numa armadilha quase sem saída.

- Então me explica porque um dos maiores rappers do mundo é branco? Meio irônico isso, não?

- Como assim?

- Porque eu acabei de dizer que gosto de uma música do Eminem e você me disse que é som de preto, só que ele é branco e sabe fazer rima.

- Cara, ele é preto, só que nasceu com a cor errada.

Finalizei:

- Ainda bem que você não é racista, mano.

Fã é bom mas é uma merda

Postado em 18 de fev. de 2011 / Por Marcus Vinicius 18 Comentários

Tem muito artista por aí que eu não suporto, mas, na maioria das vezes, os fãs me irritam mais do que os próprios artistas.

Essas musas do axé, por exemplo. Eu acho simplesmente um pavor todo o conjunto da obra delas.

Desde as letras pobres, passando pelas rimas acochambradas até aqueles gritinhos e falsetes que me deixam arrependido de limpar as orelhas e ouvir bem, tudo ali me faz pensar que nenhum aterro sanitário está cheio o bastante sem montanhas de CDs delas ali.

Eu até acho que algum desses cantores de axé poderiam me fazer queimar a lingua e cantar uma única música que preste, só de sacanagem.

Mas o que dizer dos fãs? Ah, os fãs! Eles são mil vezes piores. Pense num trio elétrico com aquelas pessoas vestidas de cores fluorescentes e você me dará razão. O micareteiro consegue pior do que a micareta.

Quer ver como um fã consegue piorar um artista? Lembre todas as vezes em que você esteve num bar com música ao vivo, numa rodinha de violão (confesse, você já esteve em alguma) ou num show e ouviu algum cretino gritar o famigerado "Toca Raul!".

Sério. Por pior que possa ser tudo o que o Raul Seixas produziu, os fãs dele suplantaram a obra de longe. Ele ainda conseguia fazer algumas músicas e letras interessantes, já os fãs deles são praticamente todos chatos.

É como um exército de Oswaldos Montenegros berrando "Voa Condor! E toca Raul!".

A Legião Urbana é outro caso singular. Essa banda embalou a minha juventude, por mais clichê que isso possa soar (e soa mesmo). Mas os chatos de galocha que passaram a tocar, cantar e repetir frases do Renato Russo a esmo, para justificar desde carência emocional até dores de barriga me causa arrepios.

Tem artista que só de pensar nele eu já imagino os fãs, a música alta no celular (parece que só música ruim foi feita para ouvirem alto no celular), os gritinhos das adolescentes e os imbecis dormindo em porta de hotel esperando um aceno da janela e pronto, antipatizo de vez.

Fãs chatos são piores do que cupins, são mais amedrontadores do que as pragas do Egito. Destróem até o que é bom.
 
 
Pensem em Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e até no mestre Nelson Rodrigues. Tanto talento, tanta criatividade, tudo isso para terminar virando porta-voz de cretino na internet.

Cada perfil de Orkut, cada frase de MSN, cada tuitada inútil usando uma frase deles para dar lastro a lugares comuns e comportamentos imbecis me causa a mesma sensação de ver o Abominável Homem das Neves arrancar as orelhas do Coelhinho da Páscoa.

Aposto que se eles soubessem o que seria feito da sua obra, teriam virado médicos, engraxates, ladrões de banco, qualquer coisa, mas não escreveriam uma linha na vida.

Muitos artistas são bons e os fãs estragam. Mas a maioria é ruim mesmo e os fãs só pioram. Artista e admiradores se merecem totalmente. Justin Bieber está aí para provar isso.

Veja o caso dessas bandas indie. Aquelas músicas, aquelas letras, aquelas barbas, enfim, tudo aquilo acabou virando o maior catalizador de palermas desde, sei lá, a seita de Jim Jones.

A coisa é tão séria, que certas bandas, cantores, séries, livros e filmes viraram uma espécie de Medusa. Se olhar, viro estátua de sal.

Tome como exemplo a saga "Crepúsculo". Não consigo ver aquilo nem como passatempo, porque no meio dos primeiros dez segundos de filme lembro da horda de aborrecentes histéricas e do ator que faz o vampirão declarando ter alergia "às partes íntimas femininas" e penso: já doei dinheiro pra Cruz Vermelha, não avanço sinal, pago meus impostos, não preciso fazer mais esse sacrifício.

Por isso esse negócio de fama é complicado, ainda mais por ser um clube que já não é mais tão exclusivo assim. Houve um tempo em que para ser reconhecido era preciso inventar algo, curar algo ou descobrir algo, hoje em dia basta uma câmera, uma sextape, um monte de besteiras para falar ou então ficar confinado numa casa comendo, defecando e falando bobagem o dia inteiro.

Parece prudente pensar bem antes de entrar nesse negócio de fama.

Ela foi!

Postado em 12 de jan. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

A brincadeira já está até batida: eu vou no show da Amy Winehouse, mas será que ela vai?

Não me refiro às especulações mórbidas sobre o destino da cantora, mas à pura e simples disposição dela realmente entrar no palco de corpo e alma. Ontem, dia 11 de Janeiro de 2011, no Rio de Janeiro, a resposta foi sim.

Miss Winehouse dançou, sorriu, conversou com a platéia, tascou beijos em um de seus backing vocals e soltou a voz como todos ali torciam para que fizesse. Amy é magnética. Talvez seja esse o maior adjetivo que eu consiga pensar sobre ela.

Uma garota inglesa branca, franzina, com um cabelão esquisito, um rostinho pequeno, aquela maquiagem estranha, meio cambaleante (fake ou não, já que não parecia estar bêbada) e cantando músicas que parecem feitas para alguma cantora negra americana, tudo isso tinha tudo para dar errado, mas com ela não dá.

Sua presença no palco, correndo desajeitadamente, fazendo suas dancinhas engraçadas e principalmente, interpretando suas canções, dão mais do que certo, simplesmente encantam, magnetizam a platéia.

O show de abertura que antecedeu o de Amy, apenas serviu para reforçar em mim essa impressão. Janelle Monae é uma cantora performática, tem atitude, também tem um vozeirão e faz um show quase perfeito.

Mas todo o esforço de Janelle, pulando, ficando praticamente de cabeça pra baixo, trocando de figurino, dessarumando o topete a la Grace Jones e até pintando um quadro no palco, somente servem para demonstrar o tamanho do talento e da estrela de Amy Winehouse.

Ela ainda está longe de sua melhor forma, ainda esquece partes de algumas letras, ainda passa aquela estranha sensação de que pode abandonar o palco e ir embora a qualquer momento, não troca de figurino, não pinta nenhum quadro e nem precisa disso.


Basta meia Amy Winehouse para colocar as coisas nos seus devidos lugares. Ela é uma estrela - não me peçam para usar a palavra diva, porque peguei nojo depois daquela famigerada campanha publicitária de sabonete - uma cantora dessas que surgem aqui e ali com intervalo de décadas.

Quando começa a cantar, por mais clichê que isso seja (e é), o local estremece.

Algo percorre nossa pele causando arrepio. Você sente o que ela canta como se fosse um carinho, um afago ou um tapa na cara. Ouvir suas canções ao vivo é quase como entender o que se passa naquela cabeça genial e conturbada, é compreender suas dores, é se incorporar nela.

O show de 83 minutos durou tempo bastante para que ela cantasse tudo que as pessoas que estavam lá queriam ouvir, como "Rehab", "Valerie", "You know I'm no good", "Love is a unholy war", "Just Friends", "Back do Black" e as minhas duas preferidas, "Wake up alone" e "Love is a losing game".

Parece que seus dois primeiros shows - em Florianópolis e no dia anterior, na mesma arena no Rio - serviram como um aquecimento depois do longo período de inatividade e que, aos poucos, ela vai retornando à boa e velha forma. Tomara.

Torço sinceramente para isso, porque o cenário de aridez e mesmice musical merece bem mais Amy Winehouse e bem menos rappers, gostosas que cantam e bandas de moleques.

Dá vontade de dizer: se cuida, garota, nós precisamos de você.

Ela é uma artista única, sua arte é tão marcante que consegue se sobrepor até mesmo aos seus escândalos, que não são poucos. Vê-la em ação é compreender porque seu sucesso independe de bebedeiras, barracos, paparazzis, polêmicas.

Seu negócio é música, música da melhor qualidade. E ontem, ela conseguiu me fazer sentir privilegiado por tê-la assistido ao vivo e poder contar isso para sempre.

Os cretinos ainda te transformarão em indie

Postado em 21 de dez. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Descobrir qualquer coisa é muito bom, que o digam os velhos navegadores.

E o exemplo deles é perfeito para o que quero contar, afinal, eles chegaram em terras paradisíacas, de natureza exuberante, riquezas e nativas de peitos de fora e, passado algum tempo, essas terras paradisíacas viraram isso que hoje é o Brasil, ou seja, um país de natureza exuberantemente degradada, riquezas espoliadas e nativas de peito de fora.

Essa referência também lembra outro conceito que quase todo mundo gosta de repetir, o de que "antigamente tudo era melhor". Veja, não duvido, realmente é possível que antes fosse melhor do que agora (que será melhor do que depois), mas muito disso conta com dois fatores que considero primordiais: a nossa memória falha e o número infinitamente menor de pessoas que viviam no mundo.

Aquela época legal e perfeita que você tanto sente falta provavelmente era a mesma merda de hoje, só que já passou tempo suficiente para você não lembrar dos detalhes.

Outra coisa que nos leva erroneamente a pensar que antigamente era tudo melhor se deve ao fato de que existiam menos pessoas no mundo, logo existiam menos cretinos.

E assim finalmente chego onde queria: que é bom gostar de músicas, autores, filmes, lojas, restaurantes e mais um monte de outras coisas que quase ninguém conhece.

Pense naquele bistrô escondido que você achou por acaso enquanto estava perdido procurando uma livraria num bairro distante. Te serviu um sanduíche delicioso, café de primeira qualidade e ainda por cima fazia cupcakes que derretiam na sua boca.

Até que algum crítico de gastronomia foi lá, o local saiu num caderno dominical de algum jornal com um daqueles títulos medonhos como "Lugares que farão sua cabeça nesse verão" e pronto!


Você chega lá e tem uma fila. E na fila tem aquelas famílias cheias de sacolas da Casa&Video, batendo boca porque o filho preferia ir no Mc Donald´s. O sanduíche vem frio, o café fraco demais e os cupcakes acabaram, porque alguém acabou de pedir 50 para viagem pelo telefone.

E isso acontece com quase tudo. Como aquela banda que você conheceu por causa de uma ex-namorada e que vocês ouviam em ociosas tardes de sábado, mas que de repente apareceu na MTV, entrou nos Top 10 da Jovem Pan, foi remixada pelo Memê e agora toca até nas aulas de spinning da sua academia.

Ou então aquele autor bukowskiano que você assistiu numa palestra junto com outras 4 pessoas na última bienal e que de uma hora para outra - sem que você saiba ao certo porque - passou a ser citado frequentemente em perfis de Orkut e a ter frases mais repetidas por sabujos do que a Clarice Lispector.

Nada é tão bom que 200 mil fãs enchendo o saco com isso o tempo todo não tire a graça. O U2 que o diga.

É gostoso saber que certas preferências são só suas (ainda que isso não seja muito bom pra conta bancária deles), ou então compartilhadas com alguns poucos.

O que ajuda muito essa tarefa é o fato da maioria das pessoas gostar mesmo é de lixo. Caso contrário, trios elétricos é que seriam indie.

No fundo acho que não enjoo das coisas, eu não gosto mesmo é das pessoas que passam a gostar delas.

Tá bom, tá bom, eu confesso: sou um pouco indie mesmo, mas a culpa não é minha, é deles.

Ser brega...quem não é?

Postado em 11 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

Ninguém escapa da situação: você tenta ser cool, seleciona bem as músicas que escuta, procura fugir dos livros do Paulo Coelho, não lê a Caras até mesmo quando vai cortar cabelo, jamais doura pêlos com água oxigenada no verão, evita usar cordões de prata grossos e nunca passa Kolene no cabelo, mas alguma breguice te pega pelo pé contra sua vontade.

É uma questão complexa entender como alguém que curte várias coisas consideradas "legais", pode de repente soltar uma frase como "Pô, adoro aquela música do Latino".

E existe!

Quem nunca se pegou quase cometendo auto-flagelação porque não conseguia tirar a música do garçon do Reginaldo Rossi da cabeça? Um algum funk melody da Trinere ou pagodinho-trash do Belo? "Lerê, lerê, lelelelerê"? Quem nunca usou alguma roupa de bali? No desespero, vale recorrer até à Igreja Universal.

Sei que tudo é um conceito, que o que é "in" numa sociedade/época/contexto será totalmente "out" em outra  - as ombreiras e as pochetes estão aí para provar isso - mas existem coisas que são ruins hoje, seriam ontem e serão até o ano em que os humanos colonizarem Marte, como a "Dança da Tartaruga" e as sandálias Croc, que já nasceram fora de moda ou, pelo menos, dignas de um vale-vômito.

Eu, por exemplo, já enfrentei críticas severíssimas pelo simples fato achar que Nirvana é uma bosta, porque afinal isso é bem menos socialmente aceitável do que dizer "Katinguelê é um lixo". 

Assim como é meio auto-depreciante andar por aí cantarolando "eu e o namorado dela, ela e minha namorada".



Mas uma hora, acontece até com a gente.

Tenho uma amiga que é inteligentíssima, descolada, gente boa, mas se tranca no quarto de empregada pra ver a novela das oito todo dia e só sai aos sábados depois que as "cenas dos próximos capítulos" aparecem. Se alguém ligar pra ela chamando pra sair naquele horário, ela vai dizer que está terminando de digitar a monografia, que está no meio de um capítulo de "Laços de Família", que está dando banho no gato, mas jamais dirá "tô vendo novela".

Até admiro quem tem coragem de confessar isso, porque quando ouço alguém nervoso dizendo que vai pra casa "ver novela" já imagino a pessoa sendo rebatizada de Valdirene ou Maicosuelanderson.

Pode ser alguma herança genética, dos tempos em que só existia TV aberta, pode ser alguma espécie de defeito de fabricação que nos lembre que jamais devemos jogar pedra no telhado de vidro alheio, mas ninguém escapa de curtir um Luis Miguel, um velho disco do Roberto Carlos.

É por isso que tem gente por aí vendo Luan Santana, ouvindo sertanejo universitário e votando no Tiririca.

E não fale mal de ninguém que faz isso, porque aí no fundo, você sabe que também tem um telhado de vidro com insulfilm fumê pros outros jogarem pedra.

Senhoras e Senhores, por favor, fiquem de pé

Postado em 26 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

"Uma serra chamada esperança fez da mata uma oferta de paz e acolheu este povo de longe que chegou sem olhar para trás com o tronco viçoso do pinho altaneiro sobre os cereais foi subindo uma prece a Sant'Ana pela força de um braço capaz lá no alto a bandeira se inflama alcançando o horizonte sem fim de um herói exaltando a fama é a cidade de Paulo Frontin"

"Sou Goytacaz, sou Goytacaz até morrer, nosso lema é vencer, vencer, na vitória, na derrota, na alegria no amargor, sou Goytacaz sim senhor, sou Goytacaz por amor nossa camisa, Alvi-anil, tem suas cores destacadas na bandeira do Brasil, minha Campos te amo demais, por isso sou torcedor do Goytacaz, e no gramado, ninguém faz o que ele faz."

Achou bizarro um texto iniciado com os hinos do município de Paulo de Frontin - interior do Rio de Janeiro - e do Goytacaz - clube de futebol do interior do Rio de Janeiro, respectivamente? Imagine então minha reação ao ouvir esses dois hinos ao vivo e a cores, na voz de dois primorosos cantores de churrasquinho de esquina (churrascaria já seria demais).

Junto com a graça do Marcos Mion, pombo bebê, político honesto e os neurônios da Geisy Arruda, juro que pensava que ninguém também conseguiria provar a existência desses dois hinos, mesmo se quisesse. Mas aconteceu.

Uma noite de terça ou quarta-feira na gélida Nova Friburgo, algumas cervejas e copos de vinho a mais e um velho amigo, campista de peso e medida, resolveu cantar o hino do "Goyta". Na hora eu não sabia se ele estava inventando aquilo, criando letra e música naquele exato momento, mas depois conferi e descobri que existe pelo menos um brasileiro que sabe mesmo o hino do Goytacaz.

Anos mais tarde fui pendurar uma toalha na área de serviço e de uma janela distante pude ouvir um vizinho cantando algo que parecia uma antiga marchinha de carnaval (o ritmo era dele). Concluí no entanto que na época das velhas marchinhas os costumes ainda não permitiam que se colocasse a expressão "tronco viçoso" nem mesmo numa música carnavalesca, e entendi que era o hino de uma cidade.

Conto isso tudo porque certas situações conseguem fazer nossos parâmetros de vergonha alheia e desconforto terceirizado se ampliarem consideravelmente. Imagine que tirando a parte sentimental que uma lembrança da faculdade pode ter, um bar cheio de gente e um cara cantando o hino de um clube de futebol do interior em altos brados é algo que me faz voltar sentir o sangue subir para a testa.

Ele lá, completamente bêbado, entoando seu amor pelo Goytacaz e as pessoas em volta olhando com aquela cara de "WTF???". E eu tentando remediar, dizendo pros outros "ele bebeu um pouquinho...ele é campista...vamos embora pelo amor dos céus?".


O caso do vizinho é mais grave, porque ele é um desses fãs de rodinhas de violão. Não sei se vocês conhecem algum - é quase tão difícil não conhecer algum cantor de rodinha de violão quanto é difícil conhecer alguma gostosa da Playboy, e essa é uma das injustiças da vida - mas eles geralmente se acham Oswaldos Montenegros ou Rauls Seixas injustiçados pelo sucesso, como se os originais fazerem sucesso já não fosse injustiça suficiente.

Sendo assim, eles cantam alto. E cantam alto para platéias imaginárias. E como não se contentam com suas platéias imaginárias fazem questão de cantar alto para conquistar platéias compulsórias, como a velhinha da janela sobre a praça, como os vizinhos dos andares próximos e, porque não, as áreas de serviço que dão para as janelas dos seus banheiros.

Por isso, o mesmo vizinho que já me presenteou com dez versões diferentes de "Andança" e com interpretações meteóricas e bombásticas - dessas de atravessar a parede - de "Faroeste Caboclo" (que eu carinhosamente chamo de "O Hino dos Chatos") e "Eduardo e Mônica" (que carinhosamente chamo de "Os Progenitores dos Chatos"), me deu o prazer de conhecer o hino de Paulo de Frontin, cantado entre guinchos e agudos de Gal Costa.

Moral da história? Simples: rodinha de violão é um saco, não existe talento não reconhecido (na maioria das vezes ele é apenas irreconhecível), e se você for de Nhamundá, Cabrobó, Nhecolância ou torcedor do Kaburé, por favor, não precisa cantar os hinos, basta me dizer que eles existem que eu juro que acredito.

Eu ainda prefiro o Axl Rose

Postado em 30 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Quando eu era criança os rádios de pilha tinham um acessório chamado "egoísta", que consistia basicamente de um único fone de ouvido que a pessoa colocava para ouvir as músicas sozinho.

Um pouco depois apareceu o Walkman, que já permitia que o cara gravasse suas músicas preferidas em fitas cassete. Estes já contavam com fones de ouvido duplos, tipo desses que um DJ usa e, em seguida, veio o Diskman que obrigava o sujeito a andar com um saco de pilhas de tanto que gastavam. Mais ou menos nessa época os fones começaram a diminuir, porque passou a ser "mico" usar aquelas duas orelhas gigantes na rua.

E enfim chegou o iPod e suas imitações. O fone cobiçado passou a ser o "in ear", um treco que vai enfiado (opa!) no canal (opa!) auditivo (ahhh, bem!) da pessoa.

Os fones agora voltaram a crescer, mas isso não importa, o que importa após essa extensa intrudução é como se comportam as pessoas quando usam um desses fones, ligados a qualquer um desses aparelhos.

A turma do "egoísta" era mais discreta, primeiro porque era em um ouvido só e depois porque programação de rádios AM não é lá algo muito animado, mas já padeciam de problema que dura até hoje, que é a surdez do fone de ouvido.


Você fala com a pessoa e ela responde um "QUE???", repete o que tinha pra dizer e ela e a resposta é "AHHH, PODE IR SIM!", detalhe: você tinha perguntado as horas. Isso pra não falar de quando é você que está usando o fone e começa a gritar sem perceber, até que o interlocutor passe a fazer aqueles gestos de "fala baixo", te fazendo tirar o fone às pressas, mas ainda a tempo de ouvir seu último urro, seguido do silêncio geral em torno. Sério, são segundos que podem durar bastante.

Aliada à surdez, tem a empolgação com a música que está tocando. Você está na calçada, voltando do trabalho e de repente começa a tocar aquela música que te lembra o primeiro beijo na sua primeira namorada. Você acha que ninguém te ouve, aliás, nem você se ouve e então pensa que está apenas balbuciando, mas com certeza aquela menina que parece que sorri para você está na verdade rindo de você, porque talvez seja a melhor imitação do Pato Donald cantando Elvis que ela já viu.

Outro caso sério é quando, dependendo do ritmo, você pensa que ninguém perceberá se acompanhá-lo com movimentos do corpo.  Em segundos você estará fazendo fazendo papel ridículo tocando guitarra no próprio antebraço e  inventando passinhos, virando a partir desse momento o "doido da academia" ou então o "doentinho do curso de espanhol".

Irritante também é o cara que apesar de usar fones acredita que aquela bolha sonora particular o protege de ser um mala. Nessa hora ele subverte toda a função do fone de ouvido que é restringir o alcance do que está tocando aos ouvidos de quem o utiliza e coloca o som no volume máximo, o que não permite que as pessoas ouçam claramente o que está tocando mas enche o ambiente próximo com aquele barulho que mistura uma frigideira e um pneu de carro furado, algo próximo de um "tsss tsss tsss tsss".

Mas o mais degradante certamente é quem se acha, ainda que inconscientemente, um artista injustiçado. Coloca rock'n'roll pra tocar, vai correr na praia e de repente, protegido da sua própria voz desafinada pelos fones, vira o Gene Simmons ou o Axl Rose,  repetindo todos os agudos e sons guturais que tem na música, cantando num palco imaginário para uma platéia formada por criancinhas assustadas, velhos preocupados com "o problema das drogas" e vira-latas que correm atrás de motos e malucos.

Na boa, grito por grito, ainda prefiro os do Axl Rose.

De um alienígena para o outro: "humanos são cruéis, expõem os medíocres na TV"

Postado em 17 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 14 Comentários

Ontem foi o dia da entrega dos prêmios do Video Music Brasil - VMB 2010 - promovido pela MTV.

Soube do prêmio por conta do Twitter, que faz questão de reverberar qualquer lixo até que suas ondas cheguem aos mais distantes grotões. Peça a um usuário do Twitter brasileiro para replicar um pedido de ajuda e você ouvirá piadas. Peça ao mesmo usuário para replicar uma piada idiota e ela chegará até Marte.

Eu não assisto a MTV. Nada contra quem assiste, mas já foi o tempo em que era um bom canal para conhecer algumas coisas novas, ver programas moderninhos e ouvir um som legal. Hoje a MTV é uma espécie de caixa de som daqueles rappers americanos medonhos, dessas cantoras que gritam mais do que uma gralha epilética - estilo Beyoncé -  e de artistas medíocres do cenário pop musical brasileiro.

Quero dizer que todos são medíocres? Não. Mas que os medíocres são os que mais sobressaem. Se pensarmos bem, esse mundo pop nacional é formado basicamente por alguém que é filho de alguém, esposa ou marido de alguém, deu pra alguém ou comeu alguém. Novamente digo: pouca coisa escapa.


Não vou citar nomes, para não parecer que é pessoal, mas basta ler a lista de indicados e vencedores do Video Music Brasil ou mesmo do Prêmio Multishow que você entenderá o que digo. Bandas representantes desse estilo homo-retartado-colorido de rock, cantoras mirins, artistas que estão há 20 anos fazendo a mesma coisa - entenda-se: sem criar um sucesso novo desde quando ainda existia o Banco Nacional - e uma imensa profusão dos "filhos de quem", "maridos de alguém", "ex-namoradas de fulano".

Por isso eu digo que se um alienígena captasse por acidente as ondas da MTV, provavelmente diria para outro "como esses terráqueos são malvados, eles pegam os toscos, os desprovidos de talento, os medíocres e expõem ao ridículo na TV, como que para todo mundo ver aquilo e fazer questão de ser diferente, um verdadeiro horror!".

Porque a grande parte do jet set cultural brasileiro é bom mesmo para encher revistas de fofoca, aparecer em novelas para o populacho, encantar os idioteens, cantar músicas ridículas ou fazer cópias-pirata do que já existe lá fora, de cultural mesmo não tem quase nada.

Existem exceções? Claro! O Brasil possui artistas valorosos, gente que produz trabalhos de qualidade indiscutível, mas estes geralmente estão fora dessas premiações.

Razão pela qual o alienígena poderia não estar de todo errado.

Ela desprezou o meu pendrive

Postado em 13 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

Não sei quantos anos você tem, mas se tiver efetivamente vivido alguma coisa dos anos 80 - e não esse famigerado revival que parece que vai durar outros 80 anos - provavelmente você já gravou alguma fita cassete para alguma garota de quem estivesse afim.

Se você não fosse bonito demais, rico demais ou famoso/interessante demais, só o que te restava para tentar causar alguma boa impressão era o seu bom gosto musical (supondo que a menina acharia bom). O processo envolveria separar todos os seus discos, ouvir algumas faixas, organizar aquilo tudo de forma a dizer o que você queria, ou seja "te quero com limão", só que se equilibrando na linha tênue que separa o bonitinho do piegas, o sugestivo do tarado, o disponível do "pelo amor de deus, me namora!".

Por isso mesmo era fatal que nas minhas fitas entrasse alguma dos Smiths, Dire Straits, Simple Minds e Cure. Colocar James Taylor jamais, pois seria um forte sinal de desespero.

Todos nós selecionávamos bem quem iria receber essas fitas. Eu mesmo devo ter gravado apenas umas cinco ou seis durante a minha vida. Não oferecíamos aquilo para qualquer um, era quase como dizer "olha como você é importante, escolhi dentre as músicas que mais gosto as que me lembram você".


Algumas vezes funcionava, mas outras vezes não e ela preferia ficar com o playboy que pegava o Escort XR3 do pai emprestado para dar voltar no quarteirão sábado à tarde. Era uma sensação chata desprezarem sua fita.
Só que o tempo passou e as velhas fitinhas cassete sumiram do mapa, tal qual o talento do Paulo Ricardo e do RPM. Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas em seu lugar os CDs graváveis fizeram a festa. Passamos a gravar CDs para os outros, mas certamente já não tinha a mesma graça e nem era tão exclusivo.

Gravar as fitas exigia que ouvíssemos as músicas uma a uma, que voltássemos atrás para remover alguma faixa que comprometesse o resultado, era um trabalho mais artesanal do que selecionar pastas e arquivos e bancar o incendiário apertando uma tecla "burn!".

Mas até isso ficou para trás. Os toca-fitas de automóveis - que já não tocavam mais fitas há tempos -passaram a dispor de uma entrada USB para colocarmos um pendrive e os CDs lentamente também vão se tornando peça de museu. Pendrives não são mais absurdamente caros e dessa forma podemos colocar ali uns 2GB de música, o que equivaleria, sei lá, a umas 200 fitas cassete, em questão de minutos

O problema é que nem sei se as pessoas ainda fazem isso atualmente, presentar outros com músicas. Com tantos recursos, como por exemplo gravar um Vlog imitando o Bozo e falando mal de Crepúsculo e colocar no You Tube, escrever uma tuitada e pedir para 200 amigos passarem adiante dando RT, fazer uma montagem de vocês dois e colocar no Facebook torcendo para ela dar um "like" .

Mas se você ainda for old school e quiser tentar o velho método das fitinhas cassete, agora basta colocar o pendrive no seu computador, arrastar pastas e arquivos e entregar para a outra pessoa. O problema é o estoque de trocadilhos medonhos que isso pode criar, como "enfia meu pendrive na sua porta USB?", que já fica parecendo letra de funk.

E funk definitivamente não entrava nas minhas fitas.

Tudo bem, mas quanto custa pra ele se calar?

Postado em 3 de set. de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Em minha opinião couvert artístico é aquela taxa que te cobram por um show que geralmente você pagaria o dobro para não ter que ouvir. Pronto. A frase de efeito inicial está lançada para servir de abertura para a história que determina o porquê. Poderia ser mais de uma história, afinal por onde quer que você vá se divertir e conversar com alguém haverá um barzinho com música ao vivo para estragar seus planos.

Sinceramente não imagino alguém dizendo assim "vamos à churrascaria tal que tem um excelente cantor?". Aliás, até imagino, só que não pra mim. Quem me conhece há mais do que cinco minutos sabe que esse tipo de proposta equivale a me perguntar se eu quero realizar um exame de próstata num sábado à tarde, "só por diversão".

Mas certa vez fui num restaurante mexicano acompanhado da minha ex e de um casal de amigos. Era um restaurante que eu já freqüentava fazia um tempinho e que servia enchiladas, tamales, tacos e guacamole maravilhosos. Só que nesse dia eles resolveram incrementar o serviço contratando um cantor para fazer um estranho show guitarra-violão.

Se fosse só isso já seria um porre, mas o cara resolveu apresentar um rock-baião-psicodélico fusion de arranhar até ouvido de morcego. E nós ficamos ali na mesa realizando aqueles diálogos típicos de bar com música ao vivo, onde ninguém se entende:

- Muito legal o último filme do Woody Allen, né?

- O que tem o Spielberg?

- Não, eu disse Woody Allen, você mencionou o judeu errado.

- Ahh! Eu também acho muito errado esse negócio de anti-semitismo.

Isso sem contar aquele monte de "Ois?" e "Heins?" que éramos obrigados a soltar entre um guincho que a guitarra grunge dele produzia e um de seus gritinhos de Ney Matogrosso. Mas nada está tão ruim enquanto o artista não resolve tornar ainda pior contando piadinhas infames e pedindo para que cantem junto com ele.



Se a cacofonia permitisse que organizássemos nossos pensamentos, com certeza em pouco tempo chegaríamos à conclusão de que aquilo não estava divertido, mas nem pensar direito nós conseguíamos, até que nosso subconsciente nos levou a pedir a conta, numa bela demonstração do instinto de sobrevivência do ser humano.


E quando a conta chega, vem o choque. Cada um de nós deveria pagar a módica quantia de 15 reais pela honra de ser importunado durante mais ou menos duas horas e, talvez, pela indigestão que as quesadillas e nachos musicais causariam.

Chamei a proprietária do local e o diálogo foi bastante interessante:

- Tudo bem? Olha, acho que tem um erro aqui, nossa conta veio com R$ 60,00 a mais.

- Não, é o couvert artístico.

- Mas como assim? Eu não pedi essa música, na verdade essa música me incomodou durante todo o jantar e pra falar mais a verdade ainda, essa música é tão ruim que eu pagaria R$ 120,00 para não ter que ouvi-la, por isso não vou pagar R$ 60,00 por essa experiência infernal que vocês me proporcionaram.

- Olha, para o seu governo todos estão pagando sem reclamar e em segundo lugar, o músico, que por sinal é meu filho, é muito bom e você não deve entender nada de música para falar assim dele.

- Seu filho? Porque você então não paga os R$ 60,00 pra ele? E condicione isso a ele usar o dinheiro pagando uma aula de música, porque ele entende tanto de música quanto eu.

- Vou fazer uma coisa, não precisa mais pagar o couvert e eu agradeceria se o Senhor não voltasse mais aqui.

- Isso é fácil de você conseguir, basta dizer que ele vai tocar aqui todo dia que com certeza eu nunca mais volto.

E não voltei. Não por medo da música ruim, mas porque vai que ainda por cima eles resolvessem cuspir no meu chilli.

A dança do tamanduá brasileiro

Postado em 23 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Não sei se era do seu tempo, mas quem viu o filme "Namorada de Aluguel", clássico dos anos 80, com certeza vai se lembrar da "dança do tamanduá africano", protagonizada pelo personagem de Patrick Dempsey.

Na cena, ele tenta impressionar uma garota com uma dança que aprendeu na TV, pensando que estava assistindo uma aula de dança comum, quando na verdade estava vendo o National Geographic. O mais bizarro é que ao ver aquela estranha dança sendo feita pelo cara que está saindo com a garota mais popular da escola (ninguém sabe até então que ela foi para para isso), todo mundo no baile começa a imitá-lo, fazendo o mesmo papel ridículo sem imaginar que aquela dança era na verdade parte de um ritual da África.

Não são raras as vezes em que estou em alguma festa ou boate e me lembro disso. Mas há uns dois anos a coisa tomou proporções surreais, quando fui convidado para uma festa de "gipsy punk", isso mesmo, "punk cigano". Na época era modinha no Rio de Janeiro e fui lá conferir.

A tal fusão de estilos nem me assustou tanto, visto que depois do "samba reggae" e do "samba rock", qualquer cruzamento de "cruz credo" com "deus me livre" pra mim é normal.

Chegando na festa, o que me impressionou de cara foi a certa quantidade de caras usando bigodes ao estilo Bill Butcher (personagem de Daniel Day Lewis em "Gangues de Nova York), bigodes aliás bem parecidos com o do líder de uma das bandas cultuadas do estilo. Mas a coisa ficou mais interessante ainda.


Em uma das salas do local onde estava rolando a festa, tocava uma espécie de música folcórica do Leste Europeu, uma mistura de forró, polka e quadrilha de festa junina. E, aí sim, a coisa ficou surreal, porque a tal sala estava entupida de gente, formando rodinhas, dançando aquela ciranda da Cortina de Ferro e levantando as perninhas como se simulassem um Cancan dos Balcãs.

Nada contra, afinal, se a pessoa quiser fazer a dança do siri no meio da praça ao meio dia o problema é dela, mas me faz pensar que o brasileiro é um dos maiores "marias vai com as outras" que existem no mundo.

E nem pense em tomar essa crítica como "defesa da cultura nacional", porque não é nada disso. Sou partidário da idéia de que quanto mais batuque existe num país, menos saneamento básico está disponível. O que espanta na verdade é que se aquela dancinha estilo quadrilha de festa junina fosse efetivamente quadrilha de festa junina, pouca gente "descolada" ia achar "descolado" dançar.

Mas como é um lance trazido pela onda "gipsy punk balcânica", vale até dançar cancan-balalaika-carimbó.

Tenho pra mim que alguns gringos tem essas idéias mais ou menos assim "Já sei! Vou pegar uma dança estranha e exótica, misturar com música folclórica da minha terra, inserir umas batidas eletrônicas e uma guitarra distorcida e ir vender lá no Brasil, eles compram qualquer idéia mesmo!".
Sei que outros países também sofrem com esse problema, mas talvez seja em menor escala, e também não é problema meu. Mas o Brasil com certeza está no Top 3 desse mimetismo cultural, certeza.

Não que aqui já não exista um grande estoque de lixos como rebolation, axé e funk, mas não custa nada importar mais alguns, não é mesmo? Por isso qualquer dia não se espante se ver por aí a "dança do tamanduá brasileiro".

E pior, vai arrumar um fã-clube extenso.

Já chega, né!?

Postado em 4 de ago. de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Se você é susceptível e não gosta de ver alguém falando fortemente mal dos outros, pode ir direto pros comentários e me chamar de elitista, mau-humorado, antipático e mais quantos outros adjetivos conseguir pensar. Eis uma boa trilha sonora para isso:

Vim, tanta areia andei. Da lua cheia eu sei. Uma saudade imensa... Vagando em verso eu vimVestido de cetimNa mão direita, rosasVou levar...Olha a lua mansa...(me leva amor)Se derramarAo luar descansaMeu caminhar..(amor) Meu olhar em festa...(me leva amor)Se fez felizLembrando a serestaQue um dia eu fiz(por onde for quero ser seu par)

Ao ouvir esses versos cantados por mesas compridas cheias de pessoas em alguma chopperia de subúrbio ou bairro de new riches - a.k.a. Barra da Tijuca - a primeira coisa que me vem em mente é "PQP, isso já deu o que tinha que dar!".

Sei que é legal cantar músicas conhecidas a plenos pulmões, mas existe um estoque de músicas por aí que já está tão batido que se fosse leite teria virado coalhada. O que dizer de rodinhas de violão e aquele maldito, famigerado e asqueroso "Toca Raul!"? Sério, será que nenhum compositor, músico, ET ou bot do Google consegue criar alguma música nova para ser tocada em volta da fogueira ou da rodinha estraga-festa?

Mas quem dera fosse só isso. Pode ser no Rio, em Manaus, São Paulo e talvez até Milão e Berlim (brincadeira), se você sair num sábado à noite e for num Baile de Debutantes, Bar Mitzvah, festa de criança, casamento, aniversário de 23, 32 ou 66 anos, vai se deparar com pérolas da MPB - leia-se Música Porcaria Brasileira - que muitas vezes nem nasceram como porcarias, mas que a repetição nauseante durante sábados e sábados seguidos no decorrer de décadas transformou em lixo.

Afinal, quanto será necessário para um ser vivente enjoar de cantar "Descobridor dos Sete Mares", "Whisky a Go-Go", "País Tropical", "Fio Maravilha" ou "Taj Mahal" e se dar conta de que essas músicas já encheram o saco?

Costumo dizer para as pessoas que eu conheço "posso estar em casa num sábado à noite, mas podia ser pior, eu poderia estar com um monte de gente bêbada e suada em volta de mim, sem pegar ninguém e cantando a plenos pulmões 'Não quero dinheiro, só quero amar'".

Porque, convenhamos, ficar num playground ou salão de festas ouvindo músicas da época do mouse de bolinha não passa nem perto da minha idéia de diversão e já faz certo tempo que cantar "Que país é esse?" e responder em corinho "é a porra do Brasil!" não é algo transgressor, ousado ou engraçado para mim.

São tantos clichês e situações batidas - sem trocadilhos com a bebida - que eu só posso creditar o sucesso e a longevidade dessas canções ao estado de bebedeira total que as pessoas que as cantam se encontram durante essas festas. Tem música que é quase da mesma idade do "Parabéns pra você", é contemporânea do brigadeiro e com certeza é mais velha do que o famigerado "Com quem será..."

Não fosse assim, qual seria a razão de, em pleno 2010, uma pessoa ainda abrir os braços e entoar como se fosse a última novidade do pedaço algo como "é a vida! é bonita e é bonita! No gogó!" já com os pés descalços, colocando seu "lado bamba" pra fora?

Com certeza a vida é bonita, mas pode ficar muito mais se não for tão repetitiva. Pronto, agora pode chamar a "Veraneio Vascaína" pra me prender.

Os Silvas

Postado em 19 de abr. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Sou da época em que ainda se vendia discos de vinil. Aliás, sou da época em que ainda existiam discos de vinil e eles eram vendidos até em supermercados. Pode parecer incrível hoje com os mp3, iPods e o escambau, mas houve um tempo em que ao lado de tomates, abacaxis e iogurtes podíamos comprar discos.

E foi numa segunda-feira (nunca mais me esqueci) que comprei meu primeiro disco dos Smiths, uma cópia do "Hatful of Hollow". Cheguei em casa, coloquei o disco na vitrola (essa frase me faz sentir com uns 100 anos) e fui tomado por verdadeiro choque.

Não, não foi um bom choque. Meus ouvidos acostumados até então a ouvir sons de pré-adolescente como heavy metal acharam aquilo um horror. Joguei o disco atrás do armário (isso mesmo, minha raiva era tanta que eu joguei atrás de um armário) e esqueci ali.

Até que um dia, bendito dia, resolvi dar uma segunda chance a ele. Tirei a poeira acumulada, coloquei pra tocar e quando os fortes acordes de "William, It Was Really Nothing" começaram parecia que a poeira tinha feito algum milagre naquilo tudo, porque o choque foi outro. Foi algo mais para "Meu Deus, como eu vivi até hoje sem ouvir e sem gostar disso?".

O que mudou? Com certeza foi ouvir Smiths querendo conhece-los e não procurando mais um Twisted Sister da vida, que a partir daquele momento ficou relegado eternamente à condição de rock farofa.

As faixas foram passando e "What Difference Does It Make?" levou até "This Charming Man", "How Soon Is Now?", "Heaven Knows I´m Miserable Now", "Girl Afraid"...era literalmente um mundo novo se abrindo para mim.

Comecei a comprar seus discos com a compulsividade que minha mesada permitia, como que para comprovar que o milagre se repetiria. Sempre se repetiu.

Minha segunda aquisição foi um "Meat Is Murder", que se não é o melhor disco deles, com certeza seria o melhor de qualquer outra banda que não seja os Smiths. Só a presença de "That Joke Isn't Funny Anymore" e da faixa título já fariam a carreira de muito artista por aí.

Até que veio "The Queen is Dead". Amigos, todas as faixas ali reunidas formam, na minha opinião, o melhor disco que qualquer ser vivo já fez em todos os tempos.

Não existe ali nenhuma música que não diga algo sobre aquilo que vivemos no momento, independente do nosso humor, não existe nada que não seja brilhante, esmerado e feito com o capricho e a inconsequência de quem nem imagina estar entrando para a história.

São músicas eternas, o que não é pouco, mas acima de tudo são músicas atemporais. Daqui a 100 mil anos, se algum alienígena chegar ao planeta Terra e encontrar em alguma capsula do tempo um reprodutor de músicas com "The Queen is Dead" nele, este extra-terrestre dirá: "é o melhor disco que quaquer ser em todas as galáxias ja fez".

Naquele tempo não existia a facilidade de hoje, então só consegui o primeiro disco dos Smiths, chamado simplesmente "The Smiths", bem mais tarde. Igualmente genial. É impossível determinar apenas baseado na qualidade do som qual é o primeiro ou o último trabalho deles.

Só para você, que está aqui lendo um cara falar de sua banda favorita, ter uma idéia,
"Reel Around The Fountain" e "You've Got Everything Now", que são obras-primas, estão nesse disco de estréia.

Isso quer dizer que eles não evoluíram? Pelo contrário. Quer dizer que a diferença entre o formidável e o perfeito é tênue e foi nessa linha que caminharam.

Em 1987, junto com "Strangeways, Here We Come", veio a notícia do fim da banda. Posso dizer que o sentimento que me tomou foi o vazio, juro. Foi como se algo que era "meu" por direito estivesse sendo tomado.

"A Rush and a Push and the Land Is Ours", "I Started Something I Couldn´t Finish", "Paint a Vulgar Picture" vieram naquele presente de despedida. Mas foi difícil ouvir tudo aquilo sabendo que não viria mais nada depois.

No mesmo ano desse fim abrupto ainda chegaram por aqui duas coletâneas de singles até então inéditos no Brasil, "Louder Than Bombs" e "The World Won't Listen", que trazia "Panic", "Ask", "Asleep", "Unloveable", "Half a Person", "Strech Out and Wait" e "You Just Haven´t Earned It Yet, Baby", uma verdadeira covardia musical.

Em 2000 Morrissey veio ao Brasil pela primeira vez. Eu estava lá, quase sem acreditar que era ele ali na minha frente, cantando antigas e novas canções. Lá pelas tantas, alguém levantou um cartaz com a frase "What Took You So Long?" ("Porque você demorou tanto?").

Ele leu, sorriu e respondeu "Porque nunca tinham me chamado!". Ninguém acreditou, mas não conheço uma única pessoa ali presente que não tenha pensado "Se é assim, então volte amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã!".

Entre letras acidamente irônicas e avassaladoramente melancólicas escritas por Morrissey, entremeadas pelo dedilhado inimitável e melodioso da guitarra de Johnny Marr, eles embalaram amores, dissabores, tristezas e alegrias de muita gente. A bateria de Mike Joyce e poderoso baixo de Andy Rourke, que não eram músicos menores, terminaram sendo coadjuvantes de tanta genialidade, mas coadjuvantes de luxo.

Os Smiths conseguiram tanto porque eram universais em sua "britanicidade". A escolha deste nome simples, "Os Silvas" numa tradução livre, as roupas básicas que usavam, o culto zero à imagem, temas como amor, rejeição, dificuldade para se "encaixar" na sociedade, enfim, eles eram pessoas comuns fazendo música para pessoas comuns.

Daí o estrondoso sucesso e a legião de fãs que até hoje não se conformam com seu fim.

Deixaram todos órfãos, mas pelo menos com uma senhora herança.

Cranberries - 28/01/2010 - Rio de Janeiro

Postado em 29 de jan. de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Quase como todo mundo conheci os Cranberries na época em que "Linger" virou sucesso mundial. Tenho alguns CDs deles em casa, mas sempre os tive na conta das bandas que considero apenas "OK", nunca tendo muita loucura por eles.

Curto algumas das suas músicas que até estão no meu iPod (sabe como é, "músicas iPod worthy"), mas até então eles não seriam um grupo de rock que me tiraria de casa para assistir a um show.

Até há pouco tempo.

A minha namorada curte mais, então me chamou pra ir com ela ver os "Mirtilos" e eu topei. Cheguei no estacionamento do Via Parque (local onde fica o Citibank Hall) sem muitas espectativas, até que o show começou...

Bom, a moça e os caras me conquistaram com mais ou menos 1 minuto e meio de apresentação. Primeiro porque eles tem pegada. Sim, aquela coisa que algumas bandas possuem e outras não e que faz toda a diferença num show ao vivo.

Mandaram ver em sons mais calminhos como a já citada "Linger" e também "Ode to my Family", "When you're gone"(essa que coloquei no vídeo aí que eu filmei), Free to Decide e também nas porradeiras como "Salvation", "Zombie" e "Promises".

O fato é que os Cranberries sabem tocar ao vivo (talvez daí seu longo tempo de estrada) e sua vocalista, Dolores O'Riordan, comanda o espetáculo com muita, mas muita simpatia mesmo, chegando até a descer do palco e caminhar entre alguns eleitos durante uma canção.

Quando saí, estava me sentindo leve, feliz, realizado, e estes sentimentos são característicos de um show memorável. Somente um show assim deixa o espectador com essa sensação no final.

E como disse no início, apesar de gostar do som, até ontem os Cranberries não eram uma banda que me tiraria de casa para assistir a um show deles.

Até ontem.

 
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