Os blogs e a política

Postado em 5 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Ontem no Twitter levantei uma questão sobre a conveniência ou não de blogs declararem apoio a candidatos na eleição presidencial.

Não falo desses blogs a soldo que andam espalhados por aí a serviço do lulo-petismo, falo de gente séria que não tem interesse em parasitar os cofres da União e que regularmente fala de assuntos cotidianos, de política, de humor, de esportes e que naturalmente terá um candidato de sua preferência no pleito nacional.

Obtive um monte de respostas (ainda bem) e posso dizer sem inventar nenhuma estatística furada que 90% das pessoas acham que, até mesmo em nome da honestidade, um blog pode e deve anunciar sua preferência por um candidato caso realmente apoie algum deles.

Nos EUA é pratica comum dos blogs e veículos de imprensa declararem seu voto e dizerem o porque acham que essa ou aquela opção é a melhor para o país/estado/cidade.

A democracia deles tem maturidade suficiente para que isto seja feito às claras, gerando até uma curiosa contabilidade sobre qual candidato conseguiu mais apoios de veículos de comunicação.


No Brasil bem que poderia ser assim também, possibilitando dessa forma que soubessemos das preferências de nossos órgãos de imprensa a um candidato na sua manchete, e não nas entrelinhas como cinicamente ocorre.

Só acredito que todo cuidado é necessário para que não se erre na mão. Uma coisa é declarar seu apoio, dizer o porque de fazer isso, colocar até um banner ou button no seu site e pronto. Outra é transformar seu blog ou Twitter num comitê eleitoral, fazendo propaganda massiva e confundindo-se com um desses zumbis de esquina que ficam segurando bandeiras no período eleitoral.

Eu optei por declarar meu apoio quando o momento certo vier. Quero ver quem serão os candidatos, o que eles tem pra propor e aí sim, direi aqui, para todos os meus 10 milhões de leitores, qual o número que vou pressionar na urna eletrônica, convidando-os a fazerem o mesmo se for de sua vontade.

Sei que poderá contrariar alguém, sei que também contraria o lugar-comum da "isenção" ou distanciamento que as pessoas preferem manter quando o assunto é política, mas eu não posso pregar uma coisa e fazer outra. Por isso vou tentar dar o exemplo, ainda que seja somente uma pessoa no meio da multidão.

Democracia é um exercício diário, uma opção que precisa ser cultivada e que vive em constante amadurecimento, precisamos olhar sempre para a frente e nos inspirar nos modelos que dão certo há séculos.

Afinal, como já dizia Churchill naquela frase já tão batida porém verdadeira, "a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos".

Eu vi um tsunami fake no You Tube!

Postado em 4 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Estava de madrugada procurando notícias pela net afora, quando li uma bobagem típica de repórter sem pauta. Era algo como "brasileira relata que sua cama tremeu durante o terremoto no Chile". Óbvio que tremeu, o que ela queria? Que a cama levantasse e fosse pra cozinha fazer um Miojo?

Aí resolvi brincar com a notícia e tuitei que se fosse um tsunami, a repórter diria que a brasileira "acordou molhada".

Isso atiçou minha curiosidade mórbida por tsunamis e fui pro You Tube procurar vídeos que mostrassem os efeitos das ondas devastadoras.

Pois bem, o primeiro vídeo que encontrei foi, claro, de um brasileiro contando que aquele era um registro feito "algumas horas após sismo no Chile (2010) por turistas. Meu tio acabou de me enviar estas imagens de onde está hospedado em Hanauma Bay no litoral do Havaí".

O link do vídeo está disponível aqui. São imagens realmente impressionantes de uma grande onda que se aproxima rapidamente assustando as pessoas que estão na praia. Não chega a ser um tsunami devastador, mas se eu estivesse ali as pessoas me veriam cagar nas calças sem nenhum pudor.

E as esclamações de "holy crap" me deram razão e me fizeram pensar que o "tio" do sujeito, que aliás se auto-denomina muito apropriadamente de "Ascaris", fosse americano ou vivesse lá a bastante tempo. Mas isso não tem nada a ver, o que importava mesmo eram as imagens aterrorizantes do vídeo, postado em 27/02 (mesmo dia do terremoto), e que já tinha naquele momento 750.065 views e 64 comentários.

Bom, curioso que sou, continuei procurando vídeos mais antigos de tusunamis, até que cheguei nessa compilação, que trazia imagens do tsunami que em 2004 devastou a Ilha de Sumatra.

Estou lá inocentemente me abastecendo de imagens e informações na rápida teia da grande rede quando, opa! Pera aí! Eu acho que vi um gatinho, quer dizer, eu acho que já vi essa onda aí antes...

Deja vu de You Tube? Não.

Quando o vídeo de Sumatra estava em 3:39, percebi que o espertalhão que colocou o vídeo enviado pelo seu "tio" utilizou um outro vídeo do tsunami de 2004 para enganar 750.065 inocentes (não chamarei de idiotas porque fui um deles) que acessaram sua página do You Tube.

Aí embaixo estão destacados detalhes dos dois vídeos e a incrível semelhança entre eles (clique nas imagens para que aumentem):


Vídeo do Espertalhão

Vídeo de 2004

Pensei: ou este barco, aquela árvore e a rede de volei são turistas muito azarados mesmo, a ponto de estarem presentes em dois tsunamis ocorridos em locais diferentes, ou então o tal micróbio (Ascaris) honrou o seu nome e conseguiu a atenção tão desejada através do primeiro tsunami fake da história da internet.

Isso me leva a concluir que: continuar desconfiando mesmo quando vemos a imagem na nossa frente é saudável nestes tempos de digitalização total e que sempre tem um pentelho (nesse caso específico, o pentelho fui eu) que vai pegar sua mentirinha.

E finalmente, tinha que ser brasileiro, né?

O samba do frasista doido

Postado em 3 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Confesso que adoro uma frase de efeito. Uma boa amiga, professora inclusive, observou que sempre procuro terminar meus textos com uma máxima. Admito: não consigo imaginar melhor conclusão.

Antes, quando não possuia um blog, tinha menos paciência para ler o dos outros. Simplesmente não era o tipo de leitura que me interessasse e o caráter extremamente pessoal dos blogs contribui muito para isso. Ainda sou um viciadinho da boca de fumo da "informação isenta". Menos, mas ainda.

Também sou admirador de grandes frasistas, Chesteron, Nietzsche, Reinaldo Azevedo (o livro de máximas dele é deliciosa leitura), alguns políticos da antiga como Tancredo e Brizola, enfim, aonde estiver uma boa frase, estarei lá oferecendo a ela meu milk-shake de admiração e inveja negra chocolate.

Frases como "O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso"¹. Ou ainda "Há mais simplicidade no homem que come caviar por impulso, do que naquele que come nozes por princípio"². E ainda "Não confio em religião mais nova do que o meu whisky"³, são demolidores exemplos de que o mínimo pode destruir uma biblioteca inteira se for bem calibrado.

Uma boa máxima é a formiga no piquenique da estupidez convencionada.

Olha só, criei uma. :P

Mas há que se ter cuidado com elas.

Outro dia entrei num blog, que não vou dizer o nome para não pensarem que é ataque pessoal, de um cara que é brilhante, mas brilhante mesmo, um excelente frasista. Tem cada coisa ali que é de tirar o chapéu.

Mas...eu com os meus "mases", existem excelentes textos com frases perfeitas e textos de merda cheio de frases excelentes. É aquela coisa que causa coceiras em todo mundo que gosta de ler e criar frases: cunhei uma! E agora? Coloco aonde?

Não, não vou enfiar onde vocês pensaram, mas o dilema é real.

Quando, o que é pouco usual, a frase não nasce na usinagem do texto, a gente fica louco pra usá-la em algum lugar e corre o risco de soar como "A recompensa esta no fazer. Não é possível fazer um bom negócio com uma pessoa ruim, os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam porque o hábito é o melhor dos servos, ou o pior dos amos. As pessoas não sabem o que querem até você mostrar a elas. Leia os meus lábios".

Esse samba do frasista doido aí em cima conta com coisas ditas por Warren Buffet, Emmons, Clarice Lispector, Picasso, Charles Schulz e Bush pai. Como se nota, não tem nenhum Zé Ninguém aí no meio e no entanto o resultado é um lixo quando mal encaixado.

E no caso desses blogs acontece isso aí mesmo: são frases excelentes salteadas por piadas internas, epifânias mal explicadas, incongruências e, finalmente, o vício do qual muitos blogueiros formam fila pra consumir tal qual bêbados em loja de destilados: a brevidade textual.

Em nome da tal concisão, os textos terminam de repente. Acho que o cara está lá escrevendo e pensa "Xiii, passei do limite de palavras/frases/parágrafos que o Manual do Aspirante a Problogger preconiza, tenho que terminar já".

Aí lemos algo como "Então eu estava no supermercado, com meu carrinho de compras abarrotado de besteiras nada saudáveis e aquela gata usando roupa de ginástica começou a me dar mole. Fiz uma piadinha dizendo que eram compras pro meu irmão gordo que estava em casa jogando Wii, ela riu e me chamou pra tomar um açaí com clorofila e na cama, fumando um cigarro pensei: melhor trepada da minha vida".

Passam da azaração ao pós-coito com a velocidade de um coelho literário.

Isso aliado a frases bem feitas, porém desconexas, transforma qualquer texto numa verdadeira prova de resistência para se chegar até o final. Preciso voltar duas, três vezes para tentar entender e no fim, bem, no fim não tenho tempo nem de gozar direito já que, como o tamanho dos meus textos demonstra, eu prefiro tudo um pouco mais devagar.

É isso. Terminou. De repente e sem frase de efeito.

1. Nietzsche, 2. Chesteron, 3. Reinaldo Azevedo

O ateu praticante

Postado em 2 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 19 Comentários

Como diziam os antigos, é "batata", basta um desastre natural, algum avião cair, um terrorista explodir uma lanchonete, chover mais de 10 dias seguidos ou fazer seca mais de 30 que logo aparecem os ateus e agnósticos com sua pregação anti-deus.

Por mais esquisito que possa parecer usar o verbo "pregar" em relação a estas pessoas, o exagero e a licença poética nesse caso são quase obrigatórias, porque o que leio de vez em quando assemelha-se muito no fanatismo e na repetição enfadonha ao que esses pastores evangélicos fazem na TV, com a diferença de que uns falam de "deus" sem parar, buscando arrumar uns trocados e outros falam da não-existência deste, procurando impor seu ponto de vista.

Tanto uns quanto os outros são chatos de doer.

Tem aquele sujeito que qualquer coisa que você fale com ele, desde sua dor de cabeça até algum amor não correspondido, e ele atribuirá tudo a "deus". Todos os caminhos levarão a Roma.

Outros são aqueles evangélicos que antes de serem somente evangélicos são anti-católicos. É um tal de "idólatra" pra cá e "papa-hóstia" pra lá que concluímos que sem um antagonista de respeito, eles nem seriam tão religiosos assim.

Existem ainda os que acreditam em Deus, este sim merecendo a maiúscula que tanto incomoda os ateus, mas o fazem quase in pectore, não importunando ninguém com sua crença, praticando-a na intimidade e nos momentos oportunos e que lhe são reservados, não enchendo a paciência de outrem com isso.

Estes são bem menos "fanáticos" e chatos do que o ateu praticante.

Este se pudesse e não fosse totalmente contra os seus princípios ergueria até uma igreja para adorar o seu não-deus. Quem frequenta e lê constantemente o Twitter vai se deparar com vários deles por lá, com sua pregação anti-credo.

"Aonde estava deus na hora do terremoto do Haiti?", "Porque deus não matou o terrorista antes da bomba explodir?", "Rezem e peçam frio ao invés de comprar ar-condicionado, afinal, deus não existe?", "O seu deus gosta mais de suecos do que de senegalezes, já que uns são ricos e outros miseráveis?", "Porque tanta doença no mundo se existe um deus bom por aí?".

Não vou entrar aqui em explicações ou justificativas religiosas, bíblicas para todas estas questões, que são válidas e qualquer um tem todo o direito de fazer, mas na realidade quem as faz repetidamente não questiona nada, apenas lança perguntas retóricas que "provam seu ponto".

O objetivo aí não é esclarecer e nem debater, é rotular aqueles que preferem crer que exista um Deus de "idiotas", "ignorantes", "teimosos" e colocar-se acima desses reles mortais, apresentar-se como detentor de uma verdade e um segredo maiores até do que os supostamente escondidos nos arquivos do Vaticano.

A moral da história aqui, é que esse tipo de gente é tão fundamentalista, ainda que vários destes termos sejam teoricamente inaplicáveis a ateus, que agem como inquisidores da Idade Média, como Mulás emitindo suas fatwas condenando Deus e os que acreditam nele à morte intelectual e, talvez, até mesmo de fato.

Consideram-se tão "iluminados" quanto os pastores evangélicos televisivos ou padres do Século XIII, condenando os que escolhem ter religião a uma espécie de "inferno", onde no fim sobrará o vazio de ter acreditado em algo que eles acreditam não existir. Notam a ironia?

No final das contas, aquela prática de cada um cuidar da sua vida fica mais uma vez esquecida e agora além de temer que minha campainha toque e seja alguma Testemunha de Jeová querendo me vender revistas, precisarei olhar com cuidado pra ver se não é algum ateu-praticante querendo me converter à sua não-religião.

Quem eu seria se não fosse quem sou?

Postado em 1 de mar. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Eu adoro misto-quente com Toddynho. Também não troco um milk-shake de Ovomaltine por nada (de beber, é claro) nesse mundo. Gosto de fazer batida de morango com vodka e leite condensado e o cachorro-quente do Geneal é quase irresistível pra mim.

Estudei em vários colégios diferentes, mas o que mais me marcou foi o Gama Filho, onde dançava quadrilha em Julho, participava da Feira de Ciências em Setembro e morria de saudades quando entrava de férias em Dezembro, ainda que não admitisse isso nem sob tortura.

Minha praia predileta no mundo dos mortais (porque Fernando de Noronha está no paraíso) é a de Tabatinga, em João Pessoa, e o nome da minha primeira namorada é Fernanda.

Coisas assim, bobas, nos definem durante a vida. São nossos gostos, hábitos, manias, opiniões que vão construindo aquela pessoa pela qual as outras chamam e conhecem quando referem-se a nós.

Uma das minhas eternas viagens, razão deste texto hoje, é imaginar como eu seria caso fosse americano, francês, japonês, australiano, russo...

Essa sensação apareceu quando a internet se popularizou de vez e transformou o mundo que outrora era imenso em um ovo de codorna que a gente cruza num clique.

Leio blogs e textos de pessoas de diversos países que consiga entender o idioma e me encantam suas memórias da infância, da juventude e da vida adulta recente. Seus hábitos, gostos e coisas que consideram imprescindíveis para tornar seus dia-a-dias mais doces.

Sei que é impossível viver mais de uma vida de cada vez, mas adoraria saber como deve ser observar nossa mãe preparando um bentô pra q levarmos pra escola; relembrar paqueras e namorinhos na "Paris Plage",que a cada verão ocupa as margens do rio Sena; ter uma primeira namorada russa chamada Kalinka (com quem tomaria meu primeiro porre e veria uma "kalinka" pela primeira vez na vida); relembrar idas com o meu pai nas férias a Sydney ou a alguma caçada no Outback (sim, no Outback australiano você precisa matar sua comida antes dela ir pro prato) ou olhar num velho álbum os meus tempos de High School, vanilla coke e Taco Bell.

Quem sabe eu não torceria pra algum time de rugby, não jogaria lacrosse ou me interessaria tanto por sumô a ponto de saber quem é Asashōryū Akinori e achar um absurdo que num longínquo canto da América do Sul, as pessoas prefiram falar de Kaká, Ronaldinho, Adriano e achem que lutador mesmo é o Mike Tyson.

E tenho até medo de imaginar qual seria meu prato predileto caso eu fosse chinês, por exemplo.

Loucuras e brincadeiras à parte, isso prova ser imperativo buscarmos sempre viver tudo o que pudermos ao máximo.Porque notem que nesse tempo todo aí eu nunca supus que seria pobre (porra, tô fora...prefiro ser brasileiro remediado do que francês descamisado), mas também nunca pensei em ser rico, famoso ou coisa do tipo.

O que importa são as experiências, as amizades e tudo aquilo que nos ajuda a ser quem somos, o resto é só um veículo para chegarmos a estes lugares.
 
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