É na forma desta imensa parede gelada que o Chile dá boas vindas a quem o visita. Mas diferente do que se poderia imaginar, os chilenos estão longe de ser um povo frio. São amistosos, generosos, solícitos e pacientes - até mesmo com o meu parco espanhol coalhado de sotaque argentino - o qual quase todos corrigiam e diziam "passe um ano no Chile e fale como um de nós". Quem me dera poder passar um ano entre eles.
A outra "parede" que impressiona é a de bandeiras nacionais. Não estamos numa Copa do Mundo, não tem nenhum evento esportivo mundial significativo do qual os chilenos estejam participando, mas ainda assim os carros, lojas, praças e casas exibem a bandeira nacional com tanto orgulho quanto o que eles mostram ao falar de seus maravilhosos vinhos, do seu excelente churrasco e até mesmo o porque de preservarem nos prédios que circundam o palácio presidencial de La Moneda as marcas de tiros do golpe que instalou Augusto Pinochet no poder.
Essa aliás é outra característica dos chilenos: não renegar nada do seu passado e compreender que tudo ocorreu para que eles chegassem onde estão hoje, até mesmo uma ditadura militar de alto custo em vidas, mas que tirou o país do subdesenvolvimento.
O acidente e o resgate dos mineiros presos na mina San José - eu estava lá quando a perfuratriz chegou ao abrigo, possibilitando o início do resgate - certamente contribuiu para o aumento do nacionalismo, mas dava pra notar que era algo mais, que aquilo faz parte do jeito de ser deles.
Em suas largas ruas e alamedas, Santiago se espalha aos pés da Cordilheira, que domina sua paisagem. Como em toda metrópole o povo é apressado, os carros passam rápido e o trânsito das 17:00 horas apesar de falar castellano incomoda tanto quanto se falasse com sotaque paulista ou carioca. Mas ao invés de voltar para casa com medo da violência, os chilenos vão para uma infinidade de bares, cafés, centros comerciais e boates.
Conheci o "Pátio Bella Vista", uma espécie de shopping a céu aberto cheio desses bares e lojinhas, com um movimento que nos finais de semana não acaba antes dos primeiros raios de sol. Conheci a "chicha", uma bebida feita a partir da fermentação da uva, que me disseram ser como a mulher chilena: aparentemente doce e inofensiva, porém escondendo uma verdadeira diaba por dentro. A mulher não sei, mas a chicha realmente me nocauteou.
Sou um apaixonado pelo idioma espanhol - que no entanto ainda não domino perfeitamente - e as moças falando com aquela língua entre os dentes ficam um charme, tal como uma policial - que eles chamam de "paquitas" - me ensinando como chegar à avenida Merced. Vocês não imaginam como esse "Merced" fica bonitinho hablado por ellas. É verdadeiramente um prazer para mim passar dias tendo a língua de Cervantes como meu idioma oficial. Lojas, padarias, farmácias, sorveterias, livrarias, tudo com a tecla SAP acionada. Uma delícia.
Delícia aliás que é uma palavra até tímida para descrever os bifes de 200 metros de altura que eles servem e o seu sanduíche nacional, o Barros Luco, um amontoado de filés cortados na fina espessura de uma fatia de mortadela, cheios de queijo e que não por acaso era o favorito de um ex-presidente, que acabou batizando o sanduíche.
Fui até Valparaíso e Viña Del Mar - que aliás foi fundada por um português - e, como não poderia deixar de ser, molhei meus pés no Oceano Pacífico, como se nunca tivesse visto o mar na vida.
Voltei para o Brasil com um pedaço do meu coração naturalizado chileno definitivamente. A imagem das praças gramadas de Santiago, cheias de gente deitada sob as árvores nos finais de tarde nunca mais se apagará na minha mente, assim como a lembrança do adorável povo chileno.
Povo que não merece certas visitas, como a de uma brasileira que fazia um barraco numa panaderia porque cismou que a mocinha do caixa tinha que entender o português raivoso dela. Na cabeça da "sujeita", como ela era turista todo mundo tinha que se esforçar para entende-la e não ela, visitante num país estrangeiro, é que tinha obrigação de dar o seu jeito.
Ainda virou pra mim, como que pedindo aprovação, e disse: "sou turista, eles tem que se esforçar pra me atender, não é?", ao que, envergonhadíssimo, respondi:
- Perdon, no comprendo.
Desculpa mesmo, mas naquela hora nunca fui tão chileno.





