Eu não tenho sotaque

Postado em 27 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Quando era criança, eu jurava pra todo mundo que o carioca era o único povo que não possuía sotaque. A minha imaginação infantil jamais suspeitaria que, na verdade, eu não percebia um dos sotaques mais carregados do mundo, que é o do nativo do Rio de Janeiro, cheio de "xis", "esses" e "erres" xiados.

Foi durante uma viagem, quando me pediram entre risos e espanto que eu repetisse o pedido de um "xisssssssburrrrger", que eu entendi isso perfeitamente.

O sotaque é um dialeto domesticado.

Conhecê-lo e identificá-lo, demanda grande intimidade com o idioma. Russo pra mim é russo de qualquer jeito, ou seja, incompreensível. Mas imagine que delícia conhecer a diferença entre o russo falado em Moscou e o falado em Vladivostok. Tudo bem que a utilidade disso não é muito grande, mas você, por exemplo, eu tenho certeza que não sabe reconhecer essa diferença. Nem eu.

Quando aprendemos um idioma, no início - como todos os inícios - tudo são flores. Queremos saber como dizer coisas básicas, como expressar vontades e sentimentos. Até as coisas simples do dia a dia como comprar um pão, pentear o cabelo, fazer a barba, xingar um motorista ruim de roda são novas descobertas. Só depois disso é que o estudante do idioma escolhe o sotaque de sua preferência. É como nascer de novo, podendo escolher se vai falar como um paulista, carioca ou mineiro.
Sotaque britânico ou americano? Irlandês ou australiano? Entonação portenha ou espanhola? Se espanhola, das ilhas ou da península? Se da península, madrilenho ou catalão? E por aí vai. O sotaque é a intimidade do idioma.

Ele permite que reconhecidos se identifiquem ainda mais. Se estou viajando pelo exterior e ouço alguém falando português, em cinco segundos consigo descobrir se é baiano, carioca, gaúcho e até se gosta de funk ou é eleitor do Tiririca.

E o sotaque não está só nas palavras, está também no ritmo. Mesmo que você viva num país por anos, e domine completamente o idioma, a sua língua materna deixará nas entrelinhas do seu jeito de falar a sua impressão digital, o seu DNA. É a forma de alongar ou encurtar uma vogal, a velocidade em dizer uma sílaba, qualquer coisa, por menor que seja, e o ouvido nativo vai identificar ali o forasteiro.

Só não tente entender um japonês falando inglês. Hamburger vira "rambago" e luz (light), vira "laito".


Mas por vezes o sotaque também enfeita o novo idioma. Os portugueses, com sua pronúncia mais dura, dizem que as brasileiras falam "com açúcar" e uma latina falando inglês é definitivamente sexy, assim como uma russa falando qualquer idioma também é (talvez só por ser russa mesmo, vai saber).
 
É mais fácil você fazer uma plástica e virar a Sharapova do que se livrar dos resquícios do idioma que aprendeu desde quando te ensinaram as primeiras palavras.
 
Mas nunca esqueça duas coisas muito importantes: sim, você tem sotaque e, principalmente, antes de aprender uma língua estrangeira, procure primeiro aprender a sua, ninguém precisa de um semi-analfabeto bilíngue.

Senhoras e Senhores, por favor, fiquem de pé

Postado em 26 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

"Uma serra chamada esperança fez da mata uma oferta de paz e acolheu este povo de longe que chegou sem olhar para trás com o tronco viçoso do pinho altaneiro sobre os cereais foi subindo uma prece a Sant'Ana pela força de um braço capaz lá no alto a bandeira se inflama alcançando o horizonte sem fim de um herói exaltando a fama é a cidade de Paulo Frontin"

"Sou Goytacaz, sou Goytacaz até morrer, nosso lema é vencer, vencer, na vitória, na derrota, na alegria no amargor, sou Goytacaz sim senhor, sou Goytacaz por amor nossa camisa, Alvi-anil, tem suas cores destacadas na bandeira do Brasil, minha Campos te amo demais, por isso sou torcedor do Goytacaz, e no gramado, ninguém faz o que ele faz."

Achou bizarro um texto iniciado com os hinos do município de Paulo de Frontin - interior do Rio de Janeiro - e do Goytacaz - clube de futebol do interior do Rio de Janeiro, respectivamente? Imagine então minha reação ao ouvir esses dois hinos ao vivo e a cores, na voz de dois primorosos cantores de churrasquinho de esquina (churrascaria já seria demais).

Junto com a graça do Marcos Mion, pombo bebê, político honesto e os neurônios da Geisy Arruda, juro que pensava que ninguém também conseguiria provar a existência desses dois hinos, mesmo se quisesse. Mas aconteceu.

Uma noite de terça ou quarta-feira na gélida Nova Friburgo, algumas cervejas e copos de vinho a mais e um velho amigo, campista de peso e medida, resolveu cantar o hino do "Goyta". Na hora eu não sabia se ele estava inventando aquilo, criando letra e música naquele exato momento, mas depois conferi e descobri que existe pelo menos um brasileiro que sabe mesmo o hino do Goytacaz.

Anos mais tarde fui pendurar uma toalha na área de serviço e de uma janela distante pude ouvir um vizinho cantando algo que parecia uma antiga marchinha de carnaval (o ritmo era dele). Concluí no entanto que na época das velhas marchinhas os costumes ainda não permitiam que se colocasse a expressão "tronco viçoso" nem mesmo numa música carnavalesca, e entendi que era o hino de uma cidade.

Conto isso tudo porque certas situações conseguem fazer nossos parâmetros de vergonha alheia e desconforto terceirizado se ampliarem consideravelmente. Imagine que tirando a parte sentimental que uma lembrança da faculdade pode ter, um bar cheio de gente e um cara cantando o hino de um clube de futebol do interior em altos brados é algo que me faz voltar sentir o sangue subir para a testa.

Ele lá, completamente bêbado, entoando seu amor pelo Goytacaz e as pessoas em volta olhando com aquela cara de "WTF???". E eu tentando remediar, dizendo pros outros "ele bebeu um pouquinho...ele é campista...vamos embora pelo amor dos céus?".


O caso do vizinho é mais grave, porque ele é um desses fãs de rodinhas de violão. Não sei se vocês conhecem algum - é quase tão difícil não conhecer algum cantor de rodinha de violão quanto é difícil conhecer alguma gostosa da Playboy, e essa é uma das injustiças da vida - mas eles geralmente se acham Oswaldos Montenegros ou Rauls Seixas injustiçados pelo sucesso, como se os originais fazerem sucesso já não fosse injustiça suficiente.

Sendo assim, eles cantam alto. E cantam alto para platéias imaginárias. E como não se contentam com suas platéias imaginárias fazem questão de cantar alto para conquistar platéias compulsórias, como a velhinha da janela sobre a praça, como os vizinhos dos andares próximos e, porque não, as áreas de serviço que dão para as janelas dos seus banheiros.

Por isso, o mesmo vizinho que já me presenteou com dez versões diferentes de "Andança" e com interpretações meteóricas e bombásticas - dessas de atravessar a parede - de "Faroeste Caboclo" (que eu carinhosamente chamo de "O Hino dos Chatos") e "Eduardo e Mônica" (que carinhosamente chamo de "Os Progenitores dos Chatos"), me deu o prazer de conhecer o hino de Paulo de Frontin, cantado entre guinchos e agudos de Gal Costa.

Moral da história? Simples: rodinha de violão é um saco, não existe talento não reconhecido (na maioria das vezes ele é apenas irreconhecível), e se você for de Nhamundá, Cabrobó, Nhecolância ou torcedor do Kaburé, por favor, não precisa cantar os hinos, basta me dizer que eles existem que eu juro que acredito.

Acabe com a alegria de um mala: concorde com ele

Postado em 25 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Eu já achei que para gostar do Schwarzenegger não dava pra gostar também do Stallone (mais tarde descobri que ambos são tão bons quanto os dois amendoins que cada um carrega no lugar do cérebro), que se gostasse de Smiths não poderia gostar do Iron Maiden, que se preferisse praia deveria detestar ir para a montanha. Depois cresci, parei de acreditar que a Xuxa usava Monange e aprendi que cada um gosta do que quiser, até mesmo axé music, desde que longe de mim, é claro.
Tem quem pense que uma opinião, pra valer alguma coisa, deve ser única. Algumas pessoas se receberem uma concordância imediata ou se ninguém cuspir a sopa quando dizem uma de suas verdades, saem dali frustradíssimas, reavaliando toda a sua existência.

É uma espécie de indie ideológico, bem assemelhado a uma madame de boutique com pavor de encontrar alguém usando um vestido igual por aí. O problema desse tipo de postura é que você acaba indo da direita de Hitler à esquerda de Che Guevara em uma frase, buscando sempre o espanto do interlocutor.

Porque o que diferencia uma opinião polêmica de uma polêmica pura e simples, é que no caso da primeira a pessoa que a emite nem sempre se diverte com isso. Ser chamado de "reacionário", "preconceituoso", "inconveniente" ou mesmo "de mal com a vida" não é necessariamente uma coisa legal. Só que você não vai deixar de dizer o que pensa só por medo de ouvir essas coisas, então precisa defender sua posição, argumentar e fazer o que existe de pior, que é tentar convencer um cretino de alguma coisa.


Porque o idiota puro e simples tem uma disposição que o cretino não tem, que é a de mudar de opinião. Você chega pra ele, conta que o céu é azul e depois de alguma dúvida ele aceita isso. O cretino não, ele sabe que o céu é azul, mas continua dizendo que não é só para irritar, para provar um ponto ou mesmo só pela diversão de criar polêmica.

E é aí que entra a grande diferença da opinião polêmica para a polêmica. O polemista vai chegar no meio de flamenguistas e declarar: "o maior time de futebol do mundo é o Vasco!". Se o alarido não for alto o suficiente ele ainda vai completar: "e o segundo maior é o Fluminense!". Se a coisa ainda assim for meio tranquila, tipo, se ele não conseguir pelo menos levar com um copo de chopp na cara, ele completa: "e tem mais, o América tem a maior torcida!".

O compromisso do polemista com a realidade geralmente é nulo, o que importa é encher o saco mesmo.

Se ele estiver em São Paulo, falará mal da poluição. Se estiver no Rio, vai dizer que só tem vagabundo na praia. Se for para um show de rock, será fã de sertanejo universitário e por aí vai.

A frase mais deliciosa para um polemista dizer é "não concordo". Não interessa se você estiver defendendo, sei lá, a cura da gripe, ele vai querer ouvir e defender o outro lado. Será advogado do vírus.

A melhor maneira de lidar com esse tipo de gente é concordando com elas. Acredite: não tem nada mais frustrante para um cretino do que alguém concordar com ele.

- Sou a favor de aterrarem o rio Amazonas!

- Concordo! E o Pantanal também!

- Aí eu não concordo...acho que o Pantanal podia virar uma espécie de parque aquático.

- Verdade, você tem razão, bem melhor...

- Mas aterrar não seria má idéia...matar todos aqueles peixes.

- Verdade, pra que peixes?

- Pô, você tá me confundindo!

- Concordo contigo!

É tiro e queda. Pra lidar com um chato, só sendo duas vezes mais chato do que ele.

Férias (de novo), por favor!

Postado em 22 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Não disponho de dados científicos, mas tenho quase certeza de que depois de quedas abruptas do mercado de ações, honra perdida por samurais e tédio em suecos endinheirados, a depressão pós-férias é uma das maiores causas de suicídio no mundo.

Férias são aquilo que nos mantém vivos nos demais 11 meses do ano. Numa realidade ideal, nos pagariam para trabalhar um mês e o restante nos dariam de folga, mas se a realidade fosse ideal não existiriam as guerras, a fome, a peste, as novelas da Globo, reality shows e nem livros do Paulo Coelho.

Elas servem para que recarreguemos nossas baterias, reavaliemos nossa rotina, arrumemos dívidas em dólares no cartão de crédito e também tiremos 3.789 fotos que nem nós mesmos vamos ver uma a uma.

Mas a verdade mesmo é que nunca precisamos tanto delas quanto no momento em que terminam.

Porque pense bem: você está no seu trabalho, admirando a bela visão de uma planilha de Excel, o cara da mesa ao lado assobiando um pagodinho que ouve no fone de ouvido, no seu email chega mais um Power Point enviado por aquele antigo colega de escola que pretende se candidatar a vereador e manda mensagens de incentivo com músicas do Oswaldo Montenegro de fundo cinco vezes ao dia.

O ar-condicionado ataca sua rinite, mas lá fora o calor é de quase 40º. Seu chefe está meio de mau humor e por isso mandou bloquear o msn, falta pouco para o meio-dia mas você sabe que o maior evento do seu almoço será conseguir pescar três camarões no bobó do restaurante a peso.

Já na volta do almoço aquela boazuda do jurídico passa por você tentando tirar um pedaço de carne do dente com uma folha de papel e aí que você tem certeza de que ela não pretende mesmo jamais te dar mole. A feiosa da recepção vem e te oferece uma Hall´s preta e, piscando o olho, diz que é uma "delícia beijar com essa bala na boca", depois passa o engraçadinho do DP avisando em tom de brincadeira que "vai cochilar embaixo da mesa pra desgastar a feijoada". Detalhe: ele faz essa mesma brincadeira contigo todos os dias há três anos.


Nesse momento o seu relógio toma um Lexotan e começa a contar os minutos como se fossem horas. A parte da tarde é um lixo pior do que a da manhã e a secretária do chefe lixando as unhas e passando acetona só não é mais deprimente do que a maravilhosa experiência de voltar para casa pegando metrô lotado e engarrafamento, para depois comer a sobra da pizza de anteontem e comprovar em campo que a programação da TV é um lixo.

Você dorme já assustado com o barulho que o despertador fará na manhã seguinte, despertador que se fosse honesto tocaria a marcha fúnebre ou então teria uma voz dizendo: "Que merda, hein, amigão...mas já que não tem jeito, vamos lá...".

Sai de casa atrasado, e o medo do esporro e do trabalho acumulando na mesa quase te faz acreditar que você realmente quer chegar logo no seu escritório. O metrô lotado, ônibus entupido ou engarrafamento infernal te levam para mais um dia igualzinho ao de ontem, isso é claro se tudo correr bem e você não tiver que fazer hora extra.

Tudo o que te mantém vivo durante essa verdadeira "prova do líder" são aqueles 30 dias em que você pode viver livre do peso excruciante da rotina. Você está olhando pela janela, pensando se pula ou se joga a gordinha do planejamento que já te perguntou quatro vezes sobre a mesma planilha só hoje, mas a visão destes 30 dias te salva.

E quando eles finalmente chegam, passam mais rápido do que aquela sua primeira transa, quando você finalmente conseguiu perder a virgindade encostado na lixeira da garagem do prédio da sua ex-namorada, a mesma que depois te traiu com um primo chamado Guido que morava em São Paulo.

Já no avião, voltando pra casa, você lembra do seu dia a dia, do pessoal do seu trabalho, das perguntinhas cretinas que vai ouvir como "e aí? animado pra começar tudo de novo?" e algo soa fundo na sua mente, tão alto quanto os saltos da vizinha do andar de cima que te acordam toda noite, religiosamente às 3:00 da manhã:

Você precisa de férias. De novo. Urgentemente.

Diálogo surreal com um ex-amigo

Postado em 21 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

Eu estava caminhando na rua na hora do almoço, meio sem o que fazer e, de repente, ouço uma voz conhecida me chamando:

- Marcus Vinicius!

Olhei e vi, mais gordo, um antigo amigo de infância, aliás, um amigo da adolescência que já não encontrava há anos. Continuava moreno de praia como se ainda pegasse onda e menininhas do mesmo jeito que "na nossa época". Cheio de tatuagens - acho que até com mais algumas do que tinha - e o mesmo jeito "praiano" de falar.

- E aí, rapaz, quanto tempo!

- Pois é, Marcus Vinicius - não sei porque, ele sempre me chamava pelo nome composto - andei sumido mesmo...

- Trabalhando muito? Mudou de estado?

- Não, estava preso.

Já olhando em volta disfarçadamente à procura de alguma câmera escondida de um programa desses de pegadinha, duvidei dele:

- Ahh, deixa de bobagem, sério, o que você andou fazendo?

- É sério, Marcus Vinicius - lá vinha ele com o nome composto de novo - eu estava preso há quatro anos.

Tipo, nessa hora o que você diz? "Foi bom pra você?", ou então "É verdade o que contam sobre a hora do sabonete?" ou ainda o fatídico "Preso por quê?", mas não precisei perguntar nada disso, já que ele estava ávido por compartilhar suas memórias do cárcere comigo:

- Fui pego com maconha, sabe? Era mais de um quilo, mas como eu tenho cara de playboy o juiz me enquadrou em posse e me mandou passar quatro anos na cadeia.

- Que chato, cara, nem sei o que dizer...

- Nada, Marcus Vinicius, fica de boa. Olha, descobri que presídio não é isso que dizem, sabia? Lá dentro eu tinha cigarro, bebida, maconha, pó e até mulher se quisesse, é quase igual aqui fora.

Uau, mal posso imaginar as semelhanças, mas ele não deixou minha mente divagar muito tempo, continuando:

- Descobri que sou é do crime mesmo, é outra coisa, outra liberdade. Não tenho patrão, relógio de ponto, nada...

E eu pensando "Mas e as grades? E as algemas? E os 'corretivos' dos meganhas?", só que ele continuava, sem parar, olhos brilhando:

- Depois que saí fui morar com outros dois amigos cadeeiros que nem eu, a gente está devagar, mas sabe como é, né? De vez em quando pinta alguma coisa...

E eu desconfortável, sem saber se aquela simples conversa já me enquadraria no código penal ou não, tentei me despedir:

- Olha, prazer te encontrar, bom ver que você está bem, que tem sucesso no seu campo profissional...

- Ahh, que isso, Marcus Vinicius! Já tá indo? Poxa, faz tanto tempo, me deixa pelo menos te pagar um cachorro-quente ali naquela barraquinha, em nome dos velhos tempos...

- Não, tudo bem, pode deixar...

- Que nada! Lembra uma vez que a gente estava voltando da praia e você me pagou um sanduba? Pois é, tô devendo até hoje, pronto, chegou a hora de pagar...

- Nem lembrava disso, não precisa...

-Pô, cara, desse jeito você vai me ofender...


Avaliei que não seria bom negócio contrariar alguém que se apresenta orgulhosamente como "cadeeiro", então resolvi acompanhá-lo até a tal barraquinha de cachorro-quente. Chegando lá, ele já foi logo intimando:

- Ó, prepara dois cachorros-quentes no capricho aí, pra mim e pro meu camarada aqui. Enche isso de batata-palha, maionese, cebola e não esquece do ovo de codorna...

Ficamos ali comendo - quer dizer, ele comendo, eu tentando engolir o sanduíche o mais rapidamente possível - e quando terminamos virei pra ele e disse:

- Cara, agora eu preciso ir mesmo, tenho que voltar pro trabalho, sabe como é...

E ele:

- Tá vendo? Por isso que eu não tenho patrão...

Virou pro cara do cachorro-quente e pediu a conta. O diálogo que se seguiu foi uma das situações mais surreais que passei na vida:

- São cinco reais, chefia...

- Cinco reais? Pois é, deixa eu te contar...eu briguei com a minha mulher hoje, cheguei atrasado no trabalho, meu chefe me mandou embora...

E tirando um revólver de uma pochete - dois crimes: a pistola e a pochete - continuou:

- Estou aqui duro, só com esse berro no bolso e doido pra dar um tiro em alguém...mas diz aí, quanto eu te devo mesmo?

- Nada não, patrão, é por conta da casa...

- É assim que eu gosto!

Me deu um tapinha no ombro, se despedindo:

- Viu só, Marcus Vinicius? Não preciso nem de dinheiro e nem de carteira assinada...

- É, vi...então, obrigado pelo cachorro-quente que você acabou de assaltar do cara, foi um prazer, viu?

Ele riu e antes de ir embora caminhando pela calçada ainda disse:

- Vê se não some, hein, Marcus Vinicius!

- Pode deixar! - Eu disse, já pensando que teria que mudar de cidade.

Voltei até a barraquinha de cachorro-quente e paguei os cinco reais ao pobre sujeito, me desculpando e dizendo que não tinha nada a ver com aquilo.

Voltei para o trabalho pensando em como esse mundo é louco, e como a minha mãe estava coberta de razão quando dizia que passar as tardes na praia com aqueles vagabundos não ia me render nada na vida além de histórias pra contar.

Bem, ela estava certa e ainda por cima o cara agora me deve dois sanduíches.
 
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