O que você faria por...

Postado em 5 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Outro dia um cara fez uma pergunta bizarra no Twitter, era mais ou menos o seguinte: se uma zumbi gostosa como a Carla Perez te desse mole, você pegaria mesmo sabendo que é uma zumbi?  Esqueça a bizarrice de alguém pensar que a Carla Perez é gostosa e também em fazer sexo com zumbis (nessa ordem), mas esse tipo de pergunta é mais comum do que seria aceitável.

Coisas como "você comeria um prato de merda em troca de uma Ferrari?" ou "você aceitaria ser abusado pelo Mike Tyson se pudesse pegar a Jennifer Lopez depois?".

Nunca entendi direito esse tipo de relação, de associação de uma coisa boa com outra detestável - partindo do princípio de que você não gostaria de ser abusado pelo Mike Tyson, é claro, e que não aprecie "comidas" exóticas.

Isso me lembra sempre aquela famosa frase cretina que diz que "é melhor ser pobre e ter saúde do que ser rico e ser doente", como se - contrariando a realidade - só existissem pobres saudáveis e ricos doentes.

Eu prefiro ser rico - podre de rico se possível - e saudável - mais do que o Paulinho Cintura. Me recuso a entrar nesse foguetinho do Sílvio Santos.

Não troco uma câmara de ar por um Atari e nem uma meia usada por uma caixa de Playmobils.

Mas o fato é que temos verdadeira obsessão pelas pegadinhas da vida, como se a velha maldição cigana - "que você consiga tudo aquilo que desejar" - vivesse sempre à espreita.


"Quero conhecer uma loira peituda", cuidado, poderá vir um travesti.

"Quero ganhar muito dinheiro", Bú! Servirá para pagar um divórcio.

"Quero viajar pra uma praia", certeza de que vai chover o tempo todo ou então estará infestada de tubarões.

"Quero um emprego numa multinacional", vão te contratar como faxineiro.

E por aí vai.

Note bem que não defendo o tal "pensamento positivo". Na vida a maior chance é de dar merda em tudo mesmo, assim é a realidade, mas às vezes - quando você está se dando bem - é melhor aproveitar porque talvez não dure muito.

E de preferência sem fazer muitas perguntas.

Pense numa festa de ricaços, você está passando pela porta, o segurança te saúda chamando de "senhor", abre a cordinha para você passar, assim que entra te dão uma taça de prosecco, uma morena de olhos verdes aparece te chamando de "querido", senta no seu colo, te faz carinho e o Eike Batista aparece te oferecendo um cartão e dizendo pra você ligar no dia seguinte porque tem planos para você. O que você faz?

Pensa que vai levar um "Boa Noite Cinderela" da morena e que o Eike vai te pedir um boquete embaixo da mesa, grita para todos "estão me confundindo com outra pessoa!" ou aproveita a situação?

Tudo bem que o surrealismo disso tudo fatalmente terminará com o despertador tocando e você caindo da cama atrasado pro trabalho no seu empreguinho de bosta, mas e daí? Sonhar, além de não adiantar nada, também não custa nada (se adiantasse seria cobrado em dólar e por minuto).

E convenhamos: a vida não te oferece esse tipo de escolha. A realidade normalmente é o Mike Tyson, o "Boa Noite Cinderela", o prato de bosta e você no foguetinho do Sílvio Santos trocando uma coleção de gibis da Turma da Mônica por uma bóia de braço furada.

Bons Aires

Postado em 4 de nov. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Sei que puristas e ufanistas não gostarão nada disso, mas se eu fosse Tom Jobim, o "samba do avião" não seria samba, seria tango e diria que minha alma canta quando vejo o Rio de La Plata

Mas a verdade é que Buenos Aires me faz passar muita raiva.

Das suas ruas largas, suas avenidas imponentes, seus prédios de extremo bom gosto, sua gente amistosa, seus parques gramados cheios de pessoas nos finais de tarde, suas estátuas cheias de significado, a bandeira alvi-celeste tremulando, suas praças.

Detesto.

A sorveteria Freddo (que faz o melhor sorvete de limão do mundo), seus quiosques vendendo meu alfajor preferido, o Jorgito, em cada esquina, a facilidade de tomar refrigerante de pomelo sem ter que recorrer à suco de toranja ou a algum "citrus" da vida, seus bifes de chorizo de 200 quilos, suas milanesas com papas fritas, seus choripans, seus antigos restaurantes que parecem estar parados no tempo.

Não gosto.

O Clube Eros e suas sodas servidas em sifões, a Plazoleta Cortazar nos sábados à tarde, as ruas de Almagro, os diferentes e lindos Palermos: o Viejo, o Soho, o Hollywood, o Chico, sua imensa flor de metal perto do Malba e da faculdade de direito, suas moças bonitas.

A Bombonera, a Praça de Mayo, os fileteos.


O microcentro e sua Calle Florida, as Galerias Pacífico, o obelisco, Puerto Madero com a ponte em formato de mulher (ainda que eu nunca tenha conseguido enxergar um corpo de mulher ali), seus ônibus decorados, seu metrô caótico que leva a toda parte, os finais de tarde ensolarados, as feiras dos finais de semana, o prazer de sentar num café e ouvir ao meu redor aquele idioma maravilhoso, falado com o melhor sotaque de todos.

Me irritam.

Simplesmente saltar do avião num aeroporto e ser recepcionado pelo frio que me faz esquecer o calor infernal do trópico, entrar num taxi preto e amarelo e sentir uma felicidade inigualável simplesmente pelo fato dos meus pés estarem sobre solo argentino.

Aí você vai me perguntar, com toda razão, qual é a parte irritante disso tudo que foi descrito hiperbólicamente como se fosse um livreto promocional de turismo.

Fácil: ir embora.

Marcus na mochila 2.0

Postado em 29 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius

Amanhã parto em uma viagem de alguns dias para a cidade que mais amo no mundo: Buenos Aires.

Sim, pode ser exagero, afinal não conheço o mundo inteiro, mas até que outra se apresente e me conquiste, ela é a cidade que mais amo, dentre todas as que já vi.


Por isso o blog ficará sem atualização até semana que vem, provavelmente na quarta ou quinta-feira, que é pra me dar tempo de curar a ressaca do passeio.

Desejo a todos um bom feriado e desde já deixo a recomendação: visitem a Argentina. É inesquecível e impossível de não voltar.

Mitos sobre ser brasileiro

O brasileiro é um povo amistoso.

Já ouviram isso em algum lugar? Eu já. E também coisas como festeiro, malemolente, hospitaleiro, simpático, caloroso. Mas será mesmo?

O brasileiro viaja ao exterior, seja para morar ou para turismo, e faz questão de permanecer isolado do resto das pessoas. "Ah, essa excursão é boa porque só tem brasileiro", "Hummm, achei um restaurante brasileiro ótimo", "Ai, que saudade de um feijãozinho", "Essa gringalhada tem aparência de quem não toma banho...". Pode perceber isso: brasileiro tem mania de andar em bando.

Sei de gente que morou em países com idiomas não tão complicados como a Espanha, a Itália e mesmo a Inglaterra e não conseguiu aprender direito a falar a língua do país. Isso porque ficam ali numa espécie de gueto. Só andam com brasileiro, só se relacionam com brasileiro, só querem falar português.

Isso é ser amistoso?

Temos um Carnaval que atrai muita gente. Mas junto com o carnaval vem a exploração sexual (até de menores), o ágio nos preços, empurra-empurra, inconveniências mil (desde passar a mão na bunda da mulher dos outros até coisas mais agressivas). Para entrar num baile carnavalesco, assistir um desfile de escolas de samba ou participar de um trio elétrico cobram valores equivalentes a quase o salário mensal do tal "povão", que teoricamente é quem faz a festa.

E o "povão", que teoricamente faz a festa, fica é do outro lado dos tapumes, do lado de fora das cordinhas, na "pipoca" do trio.

Isso é ser festeiro?

Somos conhecidos por querer levar vantagem em tudo, por quebrar todas as leis, costumes e regras do bom senso e da civilidade. Se existe uma placa pedindo que não pisem na grama, os brasileiros pisarão. Se existe um aviso pedindo para não fazer barulho, os brasileiros farão. Se existe uma roleta sem vigilância que conta com a honestidade da pessoa que por ali passa, os brasileiros trairão até a roleta. Se algo for necessário em cinco minutos, mesmo que possa fazer em dez, o brasileiro fará em quinze.

Já notaram como aqui a pergunta "tá com pressa?" é respondida prontamente com um "não, não", mesmo que a pessoa esteja indo salvar alguém da forca?


Isso é ser malemolente? Não sei, como tenho verdadeiro asco pelo termo, pode até ser que sim.

Os brasileiros, principalmente em cidades turísticas, vêem os "gringos" como um otário em potencial. Sabe como é, aquela gente estranha que tem o hábito bizarro de respeitar regras e confiar nos outros. O esperto, o malandro, o sagaz, esse não confia em ninguém, e tem sempre uma faca guardada para enfiar nas costas de qualquer um, afinal, no mundo você é "otário" ou "malandro".

Se um estrangeiro vem pro Brasil montar uma empresa, porque não cobrar tudo em dobro? Se vem passear, porque não cobrar o triplo?

Isso é ser hospitaleiro?

Somos, e isso não tem como negar, um povo em sua maioria rude. Seja pela educação precária, seja pela violência das grandes cidades, mas isso é um fato. Se uma porta de trem ou metrô abre, as pessoas são capazes de pisotear uma velhinha de 80 anos para conseguir um lugar sentado. Se alguém distribui qualquer coisa de graça (até saquinhos de bosta enfeitados), as pessoas não organizarão uma fila, afinal, fila é coisa de otário. As pessoas vão organizar uma espécie de "bolo doido", com empurrões, tapas, puxões de cabelo, xingamentos e mais o que você puder imaginar. Seja por um punhado de ouro, seja por um saco de bosta.

Quem acompanhou o Pan Americano de 2007 se lembra, vaiaram não só o presidente da república - um bufão ridículo, que merece vaia, mas que ali representava a nação, ainda que ele mesmo esqueça disso - como também vaiaram delegações visitantes, hinos, atletas e o que você mais puder imaginar.

Uma verdadeira demonstração de como o brasileiro é hospitaleiro, não? Não.

Por fim, seja onde for, é fácil descobrir um grupo de brasileiros. Eles falam alto, gritam, mexem em tudo - mesmo se avisos pedirem o contrário - fazem inconveniências, pensam que estar em algum lugar "a passeio" ou mesmo temporariamente, lhes tira a obrigação de ter um mínimo de educação.

Tudo que é tipo de comportamento incômodo e excessivamente expansivo é creditada ao fato do brasileiro ser "caloroso".

Sei que não são todos, antes que algum pentelho politicamente-correto-meio-termo venha me dizer que estou generalizando, mas são muitos, um número que aliás é bem acima do aceitável. Concluo que o brasileiro não precisa de muito para ser um povo melhor. Precisa apenas ser menos amistoso, festeiro, malemolente, hospitaleiro, simpático, caloroso.

Já será o bastante.

Schadenfreude nos outros é refresco

Postado em 28 de out. de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Se alguém de repente me dissesse essa palavra, eu não conseguiria nem pronunciá-la de volta, apenas diria "isso aí e a sua mãe também!". Mas acima de tudo sou um curioso e a Wikipédia não deixa quase nenhuma informação faltar, então descobri que "schadenfreude" é uma palavra de origem alemã usada também em outras línguas para designar o sentimento de alegria ou prazer pelo sofrimento ou infelicidade dos outros".

Todo mundo adora falar mal de "inveja", mas não conheço uma pessoa que não faça tudo na vida para que os outros a invejem. Porque convenhamos, uma das melhores coisas do sucesso é poder esfregá-lo na cara de um monte de gente que já tentou nos sacanear no decorrer da vida.

E isso é normal, se você sente tudo isso, saiba que você não é pior do que o seu vizinho, no mínimo você é igual a ele.

Assim como o mérito. Óbvio que conquistar as coisas e saber que suas vitórias são fruto do seu esforço é uma beleza, mas contar com a sorte também é uma maravilha. Por isso não entendo quando perguntam pra alguém se "quer ganhar tudo no mole" ou se "quer se dar bem" e a pessoa não responde logo com a verdade: sim, quero.


Meu amigo, tenha certeza: até bolacha em boca de velho se pudesse não escolheria sofrer. Porque logo você teria que fazer isso?

E dentre todos os sentimentos ditos egoístas - quem não é egoísta em sã consciência? - um dos quais o ser humano mais se penitencia é o "schadenfreude".

Não digo a graça de ver alguém se ferrar pura e simplesmente, que com certeza é meio doentia, mas o sentimento de "justiça" que nos domina quando, por exemplo, aquele cara que, além de dar em cima da sua mulher, ainda tem a petulância de ser mais bonito e mais rico do que você é pego na cama com o jardineiro e todo mundo fica sabendo. Entende?

Tem gente que veio ao mundo a passeio. Não adianta lutar contra essa realidade se você veio ao mundo como camareiro. Tente subir na vida, chegar a gerente, a diretor, mas esqueça a suíte presidencial. Outras pessoas não, mesmo que elas façam tudo errado, tudo acaba dando certo.

É como aquele seu amigo cafajeste, que estava de porre no carnaval e ficou com uma loirinha mais bêbada do que ele que dormia em cima de uma saco de lixo. Ele foi zuado por toda a turma na ocasião, mas hoje é casado com a loirinha, que por acaso é filha de um milionário paulista que arrumou pra ele um cargo no qual em troca de ganhar 10 mil reais por mês, ele não precisa fazer nada.

Até unha encravada num cara desses já lava nossa alma, não adianta negar. E se não adianta, porque tentar? Tem vezes que sim, ver alguém se ferrar nos dá prazer, e enquanto isso não ocupa uma parte do nosso tempo maior do que aquela que gastamos tentando nos dar bem na vida, tudo bem.

Senão você ainda acaba tendo que rir é de si mesmo.
 
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