Se tem uma lei que pegou no Brasil, esta é a lei das carapuças. Todo mundo age como se estivesse tentando roubar uma bala juquinha nas Lojas Americanas e de repente ouvisse uma sirene de polícia.
"É comigo? É comigo?".
Parece incrível, mas ainda que neguem, a maioria das pessoas sofre de complexo de perseguição. Todos disfarçam se dizendo tímidos, dizendo que não gostam de ninguém se metendo nas suas vidas, que não ligam pra opinião dos outros e até mandando um "Coé? O que tá olhando?" se alguém encara demais na rua.
Tudo fruto da incrível capacidade que o ser humano tem de pensar que o mundo gira ao redor do seu próprio umbigo. O sujeito que sempre acha que estão olhando pra ele, falando dele, jogando indiretas para ele, na realidade é um puta de um egocêntrico.
E sim, muitas vezes estão olhando mesmo para nós, jogando indiretas para nós e até falando mal de nós pelas costas, mas acredite: é pela mais pura e simples falta de opção. Geralmente quando falta assunto é que você começa a falar mal dos outros. Observe em qualquer mesa de bar.
O Flamengo e o Corinthians já foram discutidos à exaustão, a política nacional idem, física quântica, dialética e até novelas de TV já foram devidamente esgotados, não sobra mais nada. Aí algum dos presentes - provavelmente estimulado pelo álcool - dá a deixa:
- A Claudinha saiu com o Pedrão e disse que de "ão" ele só tem o apelido mesmo, porque quando chegaram no motel o negócio lá era uma mistura de Batom da Garoto com Lingua de Gato da Kopenhagen...
Pronto. O Pedrão virou o assunto, mas note que numa escala de interesses, ele ficou atrás do futebol, dos deputados do Congresso, de teorizações sobre o eu interior e até da novela das 6.
Perceba como se você estiver falando algo baixo com alguém, cochichando mesmo, e chegar uma terceira pessoa de repente, ela vai logo perguntar "estão falando de mim, né?".
Como se responde isso? "Sim, estamos falando que você é um babaca" ou "Não, estamos falando de um assunto mais interessante: a discografia do Oswaldo Montenegro"? Qual das duas opções ofenderia menos?
Na internet acontece a mesma coisa. Qualquer comentário feito nessas redes sociais é respondido por meia dúzia de pessoas que têm certeza absoluta de que aquilo ali foi dirigido a ela.
Se você diz que detesta aquele "pi-pi" do Nextel, surgem hordas de cretinos dizendo que você "não paga as contas deles e que eles usam Nextel o quanto quiserem". Se você diz que curte mulher inteligente, logo aparecem comentários como "Pô, sô muito intelijente, Nem, vem logo ni min que eu sei que cê tá afin".
E se for alguém da turma do Pedrão, bem, vai ficar perigoso dizer que tá afim de um chocolate.
Como ser VIP sem ser VIP
Postado em 9 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Todo mundo sabe que vivemos numa sociedade que se baseia na aparência, mas calma, não precisa parar de ler agora já imaginando que esse será mais uma defesa xarope sobre a necessidade de "valorizarmos o eu interior". Esqueça, eu posso ser cretino mas não tanto.
O fato é que nos importamos com aparência sim e a única coisa que muda são os parâmetros e os conceitos sobre uma "boa aparência". Se antes a sociedade prezava fartos bigodes e seios, hoje nos matamos nas academias como hamsters naquelas esteiras para ostentarmos a maior magreza ou o maior bíceps possível.
Imagino um dia, no futuro, os nossos tataranetos intrigados sobre como podíamos apreciar mulheres com as costas de um estivador ou homens que se depilam. Mas tudo bem, até lá eles provavelmente sentirão tesão por antenas ou coisa parecida.
E como gostamos muito mais do que algo se parece do que aquilo que é na realidade, é fácil usar esse tipo de coisa a nosso favor.
A avó de uma amiga minha tinha a maior pinta de importante. Sério, você batia o olho na velha e pensava que era uma prima da rainha Elizabeth ou pelo menos uma baronesa. Só que como não temos nobreza no Brasil, ela - esperta como boa brasileira - colocou um adesivo do Tribunal de Justiça no carro e quando passava numa blitz dizia pra quem estivesse na direção avisar que "a juíza estava com pressa".
Nunca foi parada em uma blitz sequer. Por via das dúvidas os PMs deixavam a "juíza" passar.
Faça um teste se quiser (não dizendo que é juíza, é claro) mas, por exemplo, chegar bem vestido num lugar "fechado para convidados" e entrar sem perguntar nada a ninguém. É grande a chance de não te pararem para dizer nada, afinal, só quem é muito importante chega sem precisar ser anunciado.
A maior prova disso acontece no ambiente de trabalho. Será que o CEO da Coca-Cola ou o COO ou CFDPPQP (sei lá quantas siglas dessas existem) de uma grande multinacional precisa usar crachá? Ora, só quem precisa ser identificado é você, que é um Zé Ninguém. Essa gente chega perto e as portas se abrem sem nem precisar dizer "abre-te sésamo".
É capaz de você ainda terminar dando entrevista no Programa do Amaury.
Fotógrafos também entram em quase tudo que é lugar. Basta um colete e uma máquina com aparência de profissional que ninguém vai saber se você é do New York Times, do Globo ou só um maluco de câmera e colete. Você corre sério risco de te colocarem pra dentro, a menos que seja um casamento de celebridades, aí você talvez leve uma surra dos seguranças especializados em amaciar carne de paparazzi.
Outra coisa que funciona é dizer que "está com a banda". Você chega numa boate ou casa de shows, vai pra entrada dos fundos, faz cara de tédio e pressa e diz:
- Oi, eu estou com a banda.
Só tome cuidado de antes ver qual a programação do dia, pra não ouvir algo como:
- Você tem certeza de que faz parte do coral de freiras?
O fato é que nos importamos com aparência sim e a única coisa que muda são os parâmetros e os conceitos sobre uma "boa aparência". Se antes a sociedade prezava fartos bigodes e seios, hoje nos matamos nas academias como hamsters naquelas esteiras para ostentarmos a maior magreza ou o maior bíceps possível.
Imagino um dia, no futuro, os nossos tataranetos intrigados sobre como podíamos apreciar mulheres com as costas de um estivador ou homens que se depilam. Mas tudo bem, até lá eles provavelmente sentirão tesão por antenas ou coisa parecida.
E como gostamos muito mais do que algo se parece do que aquilo que é na realidade, é fácil usar esse tipo de coisa a nosso favor.
A avó de uma amiga minha tinha a maior pinta de importante. Sério, você batia o olho na velha e pensava que era uma prima da rainha Elizabeth ou pelo menos uma baronesa. Só que como não temos nobreza no Brasil, ela - esperta como boa brasileira - colocou um adesivo do Tribunal de Justiça no carro e quando passava numa blitz dizia pra quem estivesse na direção avisar que "a juíza estava com pressa".
Nunca foi parada em uma blitz sequer. Por via das dúvidas os PMs deixavam a "juíza" passar.
Faça um teste se quiser (não dizendo que é juíza, é claro) mas, por exemplo, chegar bem vestido num lugar "fechado para convidados" e entrar sem perguntar nada a ninguém. É grande a chance de não te pararem para dizer nada, afinal, só quem é muito importante chega sem precisar ser anunciado.
A maior prova disso acontece no ambiente de trabalho. Será que o CEO da Coca-Cola ou o COO ou CFDPPQP (sei lá quantas siglas dessas existem) de uma grande multinacional precisa usar crachá? Ora, só quem precisa ser identificado é você, que é um Zé Ninguém. Essa gente chega perto e as portas se abrem sem nem precisar dizer "abre-te sésamo".
É capaz de você ainda terminar dando entrevista no Programa do Amaury.
Fotógrafos também entram em quase tudo que é lugar. Basta um colete e uma máquina com aparência de profissional que ninguém vai saber se você é do New York Times, do Globo ou só um maluco de câmera e colete. Você corre sério risco de te colocarem pra dentro, a menos que seja um casamento de celebridades, aí você talvez leve uma surra dos seguranças especializados em amaciar carne de paparazzi.
Outra coisa que funciona é dizer que "está com a banda". Você chega numa boate ou casa de shows, vai pra entrada dos fundos, faz cara de tédio e pressa e diz:
- Oi, eu estou com a banda.
Só tome cuidado de antes ver qual a programação do dia, pra não ouvir algo como:
- Você tem certeza de que faz parte do coral de freiras?
Porque a vingança pode ser um sorvete de menta
Postado em 7 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários
Meu sorvete preferido é menta com flocos. Você há de perguntar: e daí? Eu te respondo: não imaginei maneira melhor de começar esse texto.
Como detesto ditados populares (mesmo, me sinto mal quando preciso repeti-los no meio de uma conversa), já que apesar de significativos, fazem o que se tem a dizer parecer mais "vazio", por isso preferi dizer meu sabor preferido de sorvete do que falar que "a vingança é um prato que se come frio".
Mas apesar de não gostar muito desses ditados, confesso que "a vingança é um prato que se come frio" é um excelente ditado. Se juntarmos com o "apressado come cru" fica melhor ainda, um verdadeiro dois em um da sabedoria popular, queijo com goiabada, auto-explicativo.
E mesmo que eu ache que dependendo da situação a vingança não é prato frio nem quente, mas um prato quebrado na testa do cretino, é fato que um troco bem planejado, com ares de jogo de xadrez, é bem interessante e ainda por cima te faz parecer mais inteligente.
No fundo é como qualquer vingança, ou seja, ressentimento transformado em ação, mas que soa mais classudo, isso soa.
E um bom exemplo é o da ricaça argentina Corina Kavanagh. Ela era jovem, rica, bonita e susceptível ao amor como todo jovem (não necessariamente bonito). Quis casar com outro jovem, rico, bonito, susceptível ao amor, porém membro de uma família tradicional e aristocrática (aquela coisa de berço e tal), a Família Anchorena.
Os Anchorena foram contra o casamento, pois achavam a Srta Corina meio nova rica, emergente, meio Barra da Tijuca, sabe como é? Os pombinhos então não se mataram como Romeu e Julieta e nem largaram tudo para fugir juntos como Edward VIII e Wallis Simpson. Simplesmente não casaram e pronto.
Só que a Corina não levou isso muito na boa.
Ela recebeu uma herança, comprou um terreno em frente à casa da família do ex-amor e mandou erguer ali o Edifício Cavanagh, um lindo arranha-céu em art-déco com 120 metros de altura, 12 elevadores e uma única exigência: que os arquitetos o construíssem de forma a obstruir totalmente a visão que o palacete dos Anchorena tinha de uma igreja erguida pela família do outro lado da rua.
Dito e feito. Os metidos a besta perderam a vista e o Edifício Kavanagh hoje é considerado um monumento histórico nacional da República Argentina. Uma vingança que virou um belo edifício.
Pelo tempo que devia levar para planejar e construir um prédio desse tamanho na década de 30, suponho que essa vingança foi um prato frio, mas tão saboroso pra ela quanto um sorvete de menta é pra mim (talvez um pouco mais caro).
Moral da história: se um dia te sacanearem fique milionário, compre um terreno, erga um prédio e ferre com a vista da casa do cretino.
Se esse plano for meio complicado, bem, quebre um prato na cabeça dele e vá relaxar tomando um sorvete, do sabor que você preferir, é claro.
E não reclame do meu final, foi a forma que eu achei de usar "prato", "frio", dizer que a vingança é doce e dar um fim nessa história.
Como detesto ditados populares (mesmo, me sinto mal quando preciso repeti-los no meio de uma conversa), já que apesar de significativos, fazem o que se tem a dizer parecer mais "vazio", por isso preferi dizer meu sabor preferido de sorvete do que falar que "a vingança é um prato que se come frio".
Mas apesar de não gostar muito desses ditados, confesso que "a vingança é um prato que se come frio" é um excelente ditado. Se juntarmos com o "apressado come cru" fica melhor ainda, um verdadeiro dois em um da sabedoria popular, queijo com goiabada, auto-explicativo.
E mesmo que eu ache que dependendo da situação a vingança não é prato frio nem quente, mas um prato quebrado na testa do cretino, é fato que um troco bem planejado, com ares de jogo de xadrez, é bem interessante e ainda por cima te faz parecer mais inteligente.
No fundo é como qualquer vingança, ou seja, ressentimento transformado em ação, mas que soa mais classudo, isso soa.
E um bom exemplo é o da ricaça argentina Corina Kavanagh. Ela era jovem, rica, bonita e susceptível ao amor como todo jovem (não necessariamente bonito). Quis casar com outro jovem, rico, bonito, susceptível ao amor, porém membro de uma família tradicional e aristocrática (aquela coisa de berço e tal), a Família Anchorena.
Os Anchorena foram contra o casamento, pois achavam a Srta Corina meio nova rica, emergente, meio Barra da Tijuca, sabe como é? Os pombinhos então não se mataram como Romeu e Julieta e nem largaram tudo para fugir juntos como Edward VIII e Wallis Simpson. Simplesmente não casaram e pronto.
Só que a Corina não levou isso muito na boa.
Ela recebeu uma herança, comprou um terreno em frente à casa da família do ex-amor e mandou erguer ali o Edifício Cavanagh, um lindo arranha-céu em art-déco com 120 metros de altura, 12 elevadores e uma única exigência: que os arquitetos o construíssem de forma a obstruir totalmente a visão que o palacete dos Anchorena tinha de uma igreja erguida pela família do outro lado da rua.
Dito e feito. Os metidos a besta perderam a vista e o Edifício Kavanagh hoje é considerado um monumento histórico nacional da República Argentina. Uma vingança que virou um belo edifício.
Pelo tempo que devia levar para planejar e construir um prédio desse tamanho na década de 30, suponho que essa vingança foi um prato frio, mas tão saboroso pra ela quanto um sorvete de menta é pra mim (talvez um pouco mais caro).
Moral da história: se um dia te sacanearem fique milionário, compre um terreno, erga um prédio e ferre com a vista da casa do cretino.
Se esse plano for meio complicado, bem, quebre um prato na cabeça dele e vá relaxar tomando um sorvete, do sabor que você preferir, é claro.
E não reclame do meu final, foi a forma que eu achei de usar "prato", "frio", dizer que a vingança é doce e dar um fim nessa história.
A estatização do Canecão foi um show...de incompetência.
Postado em 5 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários
No Brasil falar em privatização pega mais mal do que dizer que o Maradona foi melhor do que o Pelé.
Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".
Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.
Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.
Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".
Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.
Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".
Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".
Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.
No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.
Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".
O Canecão assim foi tomado das mãos dos "porcos capitalistas" para ser transformado nisso nisso aí: mais um exemplo do porque o poder público não existe para controlar telefonia, TV a cabo, lanchonetes, aeroportos, carrocinhas de pipoca e nem casas de show.
As ratazanas que hoje moram no que foi o velho Canecão também devem detestar privatizações.
Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".
Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.
Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.
Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".
Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.
Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".
Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".
Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.
No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.
Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".
O Canecão assim foi tomado das mãos dos "porcos capitalistas" para ser transformado nisso nisso aí: mais um exemplo do porque o poder público não existe para controlar telefonia, TV a cabo, lanchonetes, aeroportos, carrocinhas de pipoca e nem casas de show.
As ratazanas que hoje moram no que foi o velho Canecão também devem detestar privatizações.
Caixa de Manzanas
Postado em 2 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários
Nunca entendeu direito a fixação dos filmes antigos pela chegada de carteiros.
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.
Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.
Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.
A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".
Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.
Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.
Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.
Mas finalmente o carteiro passou, depois de longa e dolorosa espera. Tantas noites sem dormir querendo uma notícia, tanta angústia e ansiedade sem uma palavra de consolo sequer.
Mas agora o sofrimento finalmente acabara. Viu seu nome escrito e nesse momento soube que sim, era real. Não era de conto de fadas, não era uma simples ilusão de felicidade, uma promessa vazia, um pote de outro atrás do arco-íris.
Segurou com força aquele embrulho e depois o abriu correndo, rasgando apressadamente seu próprio nome escrito no papel, o coração palpitando, a respiração acelerada.
Mas a espera compensou. Não seria mais uma dessas pessoas que passam a vida suspirando, imaginando como seria se tudo fosse diferente. Se esforçara, dera o melhor de si, acreditara em seu potencial e agora a recompensa estava ali, bem diante dos seus olhos.
E mal podia acreditar ao ler palavras tão emocionantes, palavras que nem todo mundo consegue ler em uma vida inteira, talvez as mais lindas que jamais lera na sua existência:
"Designed by Apple in California".
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.
Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.
Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.
A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".
Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.
Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.
Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.
Mas finalmente o carteiro passou, depois de longa e dolorosa espera. Tantas noites sem dormir querendo uma notícia, tanta angústia e ansiedade sem uma palavra de consolo sequer.
Mas agora o sofrimento finalmente acabara. Viu seu nome escrito e nesse momento soube que sim, era real. Não era de conto de fadas, não era uma simples ilusão de felicidade, uma promessa vazia, um pote de outro atrás do arco-íris.
Segurou com força aquele embrulho e depois o abriu correndo, rasgando apressadamente seu próprio nome escrito no papel, o coração palpitando, a respiração acelerada.
Mas a espera compensou. Não seria mais uma dessas pessoas que passam a vida suspirando, imaginando como seria se tudo fosse diferente. Se esforçara, dera o melhor de si, acreditara em seu potencial e agora a recompensa estava ali, bem diante dos seus olhos.
E mal podia acreditar ao ler palavras tão emocionantes, palavras que nem todo mundo consegue ler em uma vida inteira, talvez as mais lindas que jamais lera na sua existência:
"Designed by Apple in California".
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