Antes que eu comece, não esqueça que até Hitler arrumou uma namorada, então por mais detestáveis que sejam as suas opiniões - achar que o funk carioca é um poema urbano, por exemplo - você também encontrará alguém que te ature.
Mas o problema é que, até que isso aconteça, vários dos seus relacionamentos serão mandados para o recall.
Sempre acreditei que nos unimos aos outros mais pelo que detestamos do que pelo que gostamos. Por exemplo, um sujeito que é mais propenso a ficar amigo de quem deteste rodinhas de violão do que de um fã dos Beatles como ele.
Isso porque o outro fã de Beatles pode pegar o violão para cantar "Hey Jude" num luau, mas quem detesta rodinhas de violão vai continuar detestando, logo, melhor ser amigo deste.
Só que nem sempre isso é tão definido. E assim como é impossível encontrar alguém que goste de tudo o que você goste, também será impossível achar quem deteste tudo o que você detesta.
Sendo assim, relacionamentos são a arte do possível.
- Hum, o que eu detesto mais? Rodinha de violão tocando Stairway to Heaven ou tocando música gospel numa estação de trem? Já sei! Vou namorar a Milena!
Mas ainda assim a coisa não é tão simples. Relacionamentos são sempre no esquema tentativa e erro mesmo e todo mundo mente e age como aquelas fotos de cheeseburgers no Mc Donald's, que parecem muito melhores do que o sanduíche é em si.
Você pode, por exemplo, conseguir ficar com a única menina da micareta que resolveu que vai casar virgem. Imagina só que azar.
No filme "Alfie, o Sedutor", o protagonista conhece uma loira, rica, linda. Resolve ficar com ela, larga a esbórnia e se tranca com a moça dias e dias no quarto (no filme eles não dizem nada a respeito, mas creio que eles saíam pelo menos para comer e escovar os dentes).
Ele está totalmente apaixonado, até que num dado momento em que vão fazer um brinde, ela quebra seu copo batendo com força no dele, e solta uma gargalhada que só posso definir como escrota.
Ali, naquele momento, o encanto termina.
O personagem do filme não curtiu a gargalhada (confesso que também tenho problemas com gargalhadas, gente que ri emitindo sons de porco não serve pra ir pra cama comigo, por exemplo), mas pode ser uma frase, uma idéia, uma teoria, qualquer coisa que mostre a pessoa além do que ela quer parecer para você.
A pessoa pode ser racista, vegetariana, fã de sertanejo universitário, eleitor do Tiririca, preferir Pepsi ao invés de Coca, não gostar de chocolate, confessar uma tara por mães de namoradas, contar que está juntando dinheiro pra uma cirurgia de mudança de sexo, enfim, não faltam incompatibilidades incontornáveis por aí.
É aquela coisa do limite, sabe? "Opa!! Pera aí! Isso também não!".
O casal acaba de transar e o cara resolve "se abrir" com ela:
- Sabe o que é? Sou nazista. Morro de tesão naquele bigodinho, por isso aliás é que me encantei com você quando te vi pelada...
Tudo bem, sei que esse exemplo foi exagerado, mas o que poderia ser pior do que um cara que sente tesão pelo bigodinho do Hitler? Talvez só mesmo alguém que realmente ache que funk carioca é um poema urbano.
É possível amar alguém mesmo que se despreze o que a pessoa pensa?
Postado em 23 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Porque o revival de uma década geralmente dura mais do que a década em si?
Postado em 21 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Já teve horas em que eu pensei que o revival dos anos 1980 fosse durar até mais ou menos 2980. E o pior é que pra quem não viveu aquela época, fica a impressão que só curtíamos Bozo, pirocóptero, ursinho blau-blau e "Como uma Deusa" da Rosana.
Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?
Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".
Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.
É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.
Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.
Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?
Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".
Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.
É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.
Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.
Milk Shake de amigos
Postado em 19 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários
Pouca coisa é tão constrangedora quanto misturar amigos.
Sei que ficou confusa a frase acima, mas você já vai me entender. Cada um de nós é um indivíduo único, mas ainda assim nos dividimos no que somos para nossa família, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, a turma da rua, o pessoal do futebol, a namorada, os filhos.
Cada um nos vê de forma diferente e terminamos agindo mesmo diferente junto de cada um deles.
Essa estranha (e na maioria das vezes despercebida) esquizofrenia social - o sujeito que é bom moço em casa, coroinha na igreja e no final de semana vira party animal - é potencial usina de constrangimentos, que geralmente acontecem quando estes grupos se misturam.
Mais ou menos como se algum amigo que treina boxe contigo te pegasse depilando o peito ou a turma do seu fã-clube do Bolsonaro te ver numa aula de dança de salão.
Misturar amigos de épocas diferentes da nossa vida também gera esse tipo de situação.
Você rersolve sair com a turma da sua pós-graduação em psicologia e encontra o pessoal da rua que você morou há uns 15 anos atrás. Pro pessoal da pós você é aquele sujeito que senta na primeira fila, leva um iPad pra acompanhar a aula e namora uma socióloga que fala francês.
Mas pra turma da sua rua você é apenas o "Barraca", que vomitou na mesa do bolo de uma festa de debutantes e tinha a estranha mania de cuspir no seu copo de Coca-Cola só pra não ter que dar um gole pra ninguém.
Nota que rola um verdadeiro choque de "Eus"? E sempre algum cretino está ali para fazer com que seus dois "Eus" se choquem.
- Deixa eu apresentar aqui pra vocês o pessoal que morou comigo lá em Jacarepaguá: esse é o Paulinho, esse é o Marco Antônio, esse aqui é o Luciano. Esse é o pessoal que faz pós comigo.
- Porra, Barraca, nunca pensei que você conseguisse passar do 2º grau...
- Mas então, bom ver vocês, agora dá licença...
E assim como sempre tem um cretino para fazer seus "Eus" se chocarem, também sempre tem um do outro lado que fica curioso:
- Que negócio é esse de Barraca?
- Ah, ele não contou pra vocês isso não? É que a gente tinha uma professora de matemática muito boa e ele sempre ficava de pau duro na aula...sabe como é? Barraca armada?
Gargalhada geral, menos sua, é claro.
A meia hora seguinte é toda gasta com histórias sobre como você perdeu a virgindade com a empregada vesga do seu vizinho, sobre a vez em que você quase se afogou no mar e foi resgatado de helicóptero numa daquelas gigantescas puçás e sobre como ficou de recuperação em matemática, passando as férias inteiras na companhia da professora gostosa, que terminou te reprovando (daí a surpresa por você ter conseguido chegar na pós-graduação).
No final a experiência te lembra porque você resolveu estudar psicologia, já que, aos olhos dos outros, você lembra bastante um caso clínico.
Sei que ficou confusa a frase acima, mas você já vai me entender. Cada um de nós é um indivíduo único, mas ainda assim nos dividimos no que somos para nossa família, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, a turma da rua, o pessoal do futebol, a namorada, os filhos.
Cada um nos vê de forma diferente e terminamos agindo mesmo diferente junto de cada um deles.
Essa estranha (e na maioria das vezes despercebida) esquizofrenia social - o sujeito que é bom moço em casa, coroinha na igreja e no final de semana vira party animal - é potencial usina de constrangimentos, que geralmente acontecem quando estes grupos se misturam.
Mais ou menos como se algum amigo que treina boxe contigo te pegasse depilando o peito ou a turma do seu fã-clube do Bolsonaro te ver numa aula de dança de salão.
Misturar amigos de épocas diferentes da nossa vida também gera esse tipo de situação.
Você rersolve sair com a turma da sua pós-graduação em psicologia e encontra o pessoal da rua que você morou há uns 15 anos atrás. Pro pessoal da pós você é aquele sujeito que senta na primeira fila, leva um iPad pra acompanhar a aula e namora uma socióloga que fala francês.
Mas pra turma da sua rua você é apenas o "Barraca", que vomitou na mesa do bolo de uma festa de debutantes e tinha a estranha mania de cuspir no seu copo de Coca-Cola só pra não ter que dar um gole pra ninguém.
Nota que rola um verdadeiro choque de "Eus"? E sempre algum cretino está ali para fazer com que seus dois "Eus" se choquem.
- Deixa eu apresentar aqui pra vocês o pessoal que morou comigo lá em Jacarepaguá: esse é o Paulinho, esse é o Marco Antônio, esse aqui é o Luciano. Esse é o pessoal que faz pós comigo.
- Porra, Barraca, nunca pensei que você conseguisse passar do 2º grau...
- Mas então, bom ver vocês, agora dá licença...
E assim como sempre tem um cretino para fazer seus "Eus" se chocarem, também sempre tem um do outro lado que fica curioso:
- Que negócio é esse de Barraca?
- Ah, ele não contou pra vocês isso não? É que a gente tinha uma professora de matemática muito boa e ele sempre ficava de pau duro na aula...sabe como é? Barraca armada?
Gargalhada geral, menos sua, é claro.
A meia hora seguinte é toda gasta com histórias sobre como você perdeu a virgindade com a empregada vesga do seu vizinho, sobre a vez em que você quase se afogou no mar e foi resgatado de helicóptero numa daquelas gigantescas puçás e sobre como ficou de recuperação em matemática, passando as férias inteiras na companhia da professora gostosa, que terminou te reprovando (daí a surpresa por você ter conseguido chegar na pós-graduação).
No final a experiência te lembra porque você resolveu estudar psicologia, já que, aos olhos dos outros, você lembra bastante um caso clínico.
As oportunidades perdidas riem da nossa cara depois
Postado em 16 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários
Parece que o ser humano foi feito para jamais perder uma boa oportunidade de perder uma boa oportunidade.
A maior delas geralmente é a de ficar calado, mas não é a única.
Digo isso porque quase todo mundo já achou um dia que seria valorizado quando num ataque de honestidade neuro-incapacitante, resolveu confessar para o professor que copiou um trabalho na internet ou para a namorada que deu uns beijos na prima dela naquele final de festa, e no final acabou lembrando porque o ditado diz que em "boca fechada não entra mosca" e não "boca fechada não ganha um beijo de língua da Scarlett Johanson".
E oportunidades perdidas nos perseguem para o resto da vida. Você consegue esquecer o seu aniversário de casamento (supondo, é claro, que você não tenha se arrependido de não ter entrado num avião para a China ao invés de entrar na Igreja naquele dia), mas não esquece aquela garota que te deu mole na 6ª Série e você preferiu ir jogar War com seus amigos ao invés de tentar perder a virgindade aos 12 (e não aos 19 como foi de fato).
E por falar em 6ª Série, lembro que o The Cure veio dar um show no Rio de Janeiro quando eu estava na escola e eu acabei brigando com um amigo (fizemos as pazes depois, mas nunca mais a amizade foi igual) porque ele me pediu para comprar ingressos pra irmos juntos e, em cima da hora, desistiu do show para jogar uma pelada.
No lugar dele, jamais esqueceria o show que não fui (e acabou sendo histórico) por causa de uma bosta de um jogo de futebol na quadra da escola.
Suponho isso porque vivi coisa pior por causa uma bolsa de estudos que ganhei para passar três meses na Inglaterra quando tinha 16 anos.
Imagine só, terra dos Smiths, da realeza, dos Beatles, do Fish&Chips e até dos deliciosos pudins de rim, mas tinha um problema: era nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março e eu não queria "perder" o verão.
Resultado: não fui.
Coisas assim me fazem pensar que certas decisões da nossa vida deveriam ser tomadas por uma comissão. Sério, você reuniria umas 4 ou 5 pessoas que fariam um debate e depois tentariam te convencer do que é melhor naquele momento.
Caso a conversa não funcionasse, estariam liberados para te dar uma surra com cabos de vassoura.
Porque no final das contas, hoje nem consigo lembrar o que fiz naquele verão, e só posso imaginar tudo o que teria feito caso tivesse embarcado no avião da British Airways.
E essa oportunidade perdida volta e meia aparece pra rir na minha cara (e quando descobre que eu passei a detestar verão, calor, Carnaval, etc), ela não só ri, como gargalha. E com razão.
Umas vassouradas não seriam tão ruins assim.
A maior delas geralmente é a de ficar calado, mas não é a única.
Digo isso porque quase todo mundo já achou um dia que seria valorizado quando num ataque de honestidade neuro-incapacitante, resolveu confessar para o professor que copiou um trabalho na internet ou para a namorada que deu uns beijos na prima dela naquele final de festa, e no final acabou lembrando porque o ditado diz que em "boca fechada não entra mosca" e não "boca fechada não ganha um beijo de língua da Scarlett Johanson".
E oportunidades perdidas nos perseguem para o resto da vida. Você consegue esquecer o seu aniversário de casamento (supondo, é claro, que você não tenha se arrependido de não ter entrado num avião para a China ao invés de entrar na Igreja naquele dia), mas não esquece aquela garota que te deu mole na 6ª Série e você preferiu ir jogar War com seus amigos ao invés de tentar perder a virgindade aos 12 (e não aos 19 como foi de fato).
E por falar em 6ª Série, lembro que o The Cure veio dar um show no Rio de Janeiro quando eu estava na escola e eu acabei brigando com um amigo (fizemos as pazes depois, mas nunca mais a amizade foi igual) porque ele me pediu para comprar ingressos pra irmos juntos e, em cima da hora, desistiu do show para jogar uma pelada.
No lugar dele, jamais esqueceria o show que não fui (e acabou sendo histórico) por causa de uma bosta de um jogo de futebol na quadra da escola.
Suponho isso porque vivi coisa pior por causa uma bolsa de estudos que ganhei para passar três meses na Inglaterra quando tinha 16 anos.
Imagine só, terra dos Smiths, da realeza, dos Beatles, do Fish&Chips e até dos deliciosos pudins de rim, mas tinha um problema: era nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março e eu não queria "perder" o verão.
Resultado: não fui.
Coisas assim me fazem pensar que certas decisões da nossa vida deveriam ser tomadas por uma comissão. Sério, você reuniria umas 4 ou 5 pessoas que fariam um debate e depois tentariam te convencer do que é melhor naquele momento.
Caso a conversa não funcionasse, estariam liberados para te dar uma surra com cabos de vassoura.
Porque no final das contas, hoje nem consigo lembrar o que fiz naquele verão, e só posso imaginar tudo o que teria feito caso tivesse embarcado no avião da British Airways.
E essa oportunidade perdida volta e meia aparece pra rir na minha cara (e quando descobre que eu passei a detestar verão, calor, Carnaval, etc), ela não só ri, como gargalha. E com razão.
Umas vassouradas não seriam tão ruins assim.
Porque estamos virando turistas japoneses
Postado em 14 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários
De repente todo mundo parece um turista japonês.
Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.
Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.
Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?
Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".
Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.
Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.
Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.
E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.
Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.
Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.
Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.
É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.
Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.
Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.
Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?
Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".
Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.
Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.
Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.
E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.
Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.
Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.
Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.
É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.
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