Há um tempo li que galinhas não voam tão alto quanto urubus, mas pelo menos não comem carniça e nem são sugadas por turbinas de aviões.
Dito de outra forma, você jamais vai se espantar se um amigo seu aparecer usando ombreiras e mullet se ele sempre tiver sido chegado num visual trash anos 80. Mas com certeza você vai se espantar se um dia aquela gostosa do seu trabalho sair de férias e voltar de cabeça raspada, com uma suástica tatuada na têmpora e pedindo pra ser chamada de "João" a partir de agora.
Disse tudo isso porque outro dia a aparição na TV do vocalista e líder do Guns'N'Roses, Axl Rose, durante o show da banda no Rock in Rio, causou tanta comoção que eu pensei que ele estava torturando filhotes de coelho no palco.
Mas não foi nada disso, todo mundo no Twitter, no Facebook, nos bares, esquinas e até nas aldeias da Amazônia estavam indignados porque o sujeito ficou velho e gordo. Isso mesmo: velho e gordo. Nada de coelhos torturados, nada de sacrifício de virgens vestidas de Branca de Neve, nada de velhos travestis plantando bananeira usando saias, mas apenas o fato do Axl Rose ter envelhecido.
Quase ninguém pensou no fato de que a menos que ele fosse um mutante, um vampiro ou um Highlander, é meio que normal ele ficar velho.
Mas aí volta a história da galinha e do urubu. Alguém por acaso reclama que o Lemmy do Motörhead ficou feio, gordo ou esquisito com o passar dos anos? Não. Simplesmente porque ele nunca foi um sex symbol mesmo.
Daí a minha teoria de que não ser cool tem um lado bom. Pense no pessoal do seu colégio. Todo mundo ficou mais ou menos igual eram nossos pais (menos os que tinham pais bonitos): uns carecas, outros barrigudos, outras viraram pudins de celulite, mas a gente só se choca mesmo com quem era bonito. Os feios só mudam de feiúra e alguns até ficam melhores do que eram.
A mesma coisa com quem já foi considerado gênio. Ninguém se irrita se um imbecil resolver falar alguma imbecilidade, mas se a pessoa for conhecida pela sua inteligência, não convém de uma hora pra outra aparecer demonstrando uma "intelijença".
Por isso existe um lado bom em ser aquele em que ninguém presta muito atenção, a não ser por uma estranha habilidade de fazer esculturas usando pão de forma e pasta de amendoim.
Você pode usar pochete, pedir pra parar o churrasco e tirar uma foto da picanha pra colocar no Orkut, fazer a brincadeirinha do "pavê ou pacomê" todo santo dia (mesmo que a sobremesa seja sorvete de papaya com M&Ms), aparecer no trabalho calçando uma sandália Croc amarela e até ir na praia usando sunguinha de crochê.
E ninguém vai se espantar, você nunca foi cool mesmo.
Alguns problemas da comunicação humana quando é intermediada por computadores
Postado em 4 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários
Ter um MSN ou Facebook hoje em dia parece mais obrigatório do que ter um celular, afinal, quantas vezes você já se pegou trocando seu endereço online ao invés de um número de telefone?.
E até que estas formas de comunicação sejam abandonadas por alguma coisa que neste momento vive apenas na cabeça de um adolescente nerd em algum lugar do mundo (e vai virar moda só daqui a alguns anos), é com elas que vamos conviver por um bom tempo.
Só que o uso do computador para intermediar as comunicações humanas criou problemas que, por razões óbvias, não existiam na época do telefone.
Por exemplo: se você agora pode se esconder de certas pessoas (o que te ajuda a fugir dos chatos), também fica sujeito a cobranças do tipo "você estava online mas ficou invisível só pra não falar comigo".
Outro problema é que, se ao conversar pelo telefone, você não pode mudar a "formatação" da sua voz, em chats de internet precisa conviver com gente escrevendo em Comic Sans rosa ou Monotype lilás, além de coisas piscando, brilhando, saltando da tela e frases entremeadas de estrelas, flores, corações e cabras.
Mas se tem algo que não muda é que seja ao vivo, pelo telefone ou na internet, você ainda estará sujeito aos analfabetos funcionais, e terá que decifrar frases como "axuh ke keru i nu cinma ve o dezenho dos smurfes".
Na internet também é estranho falar com gente que é chegada em escrever usando caixa alta. Sim, porque caixa alta transmite uma agressividade que nem o Anderson Silva consegue passar por conta daquela voz fina que ele tem. Alguém que escreve assim parece sempre brigar, ainda que diga algo como "GOSTO MUITO DE VOCÊ, SABIA?".
Mas o pior de tudo são aquelas conversas que não fluem. Por exemplo, você vai contra a sua vontade no aniversário da um amigo, mas para sua surpresa encontra no mesmo grupo uma garota bonita, inteligente, boa de papo.
Ela curte ufologia, leu todos os livros da Anne Rice, é fã do Morrissey e bebe Grapette. Vocês conversam por horas e trocam email para se falar depois. Só que a mediação de um computador parece que acabou com toda aquela empatia, a transformou num oficial de imigração alemão, e aquilo que parecia mágica vira algo tão inspirador e excitante quanto suco de clorofila:.
- Tudo bem? Legal falar contigo de novo, adorei nossa conversa aquele dia...
- É?
- É sim, achei você diferente do pessoal que frequenta aquela boate, você salvou minha noite.
- Porque?
- Ah, todo mundo ali é meio playboy, sabe como é, aquele negócio de rave, micareta, cordão de prata, camisa polo com suéter pendurado no ombro...
- Ah, tá...
- Você tá meio calada, aconteceu alguma coisa?
- Não.
- Bom, acho que vou voltar pro trabalho aqui, o que você acha de combinarmos um cinema qualquer dia desses?
- Blz.
- Então tá, a gente se fala, sei lá, daqui a uns 10 anos mais ou menos.
- Ok.
É nessa hora que você pensa que era bem melhor quando as pessoas apenas trocavam números de telefone (ou escreviam cartas, sei lá).
E até que estas formas de comunicação sejam abandonadas por alguma coisa que neste momento vive apenas na cabeça de um adolescente nerd em algum lugar do mundo (e vai virar moda só daqui a alguns anos), é com elas que vamos conviver por um bom tempo.
Só que o uso do computador para intermediar as comunicações humanas criou problemas que, por razões óbvias, não existiam na época do telefone.
Por exemplo: se você agora pode se esconder de certas pessoas (o que te ajuda a fugir dos chatos), também fica sujeito a cobranças do tipo "você estava online mas ficou invisível só pra não falar comigo".
Outro problema é que, se ao conversar pelo telefone, você não pode mudar a "formatação" da sua voz, em chats de internet precisa conviver com gente escrevendo em Comic Sans rosa ou Monotype lilás, além de coisas piscando, brilhando, saltando da tela e frases entremeadas de estrelas, flores, corações e cabras.
Mas se tem algo que não muda é que seja ao vivo, pelo telefone ou na internet, você ainda estará sujeito aos analfabetos funcionais, e terá que decifrar frases como "axuh ke keru i nu cinma ve o dezenho dos smurfes".
Na internet também é estranho falar com gente que é chegada em escrever usando caixa alta. Sim, porque caixa alta transmite uma agressividade que nem o Anderson Silva consegue passar por conta daquela voz fina que ele tem. Alguém que escreve assim parece sempre brigar, ainda que diga algo como "GOSTO MUITO DE VOCÊ, SABIA?".
Mas o pior de tudo são aquelas conversas que não fluem. Por exemplo, você vai contra a sua vontade no aniversário da um amigo, mas para sua surpresa encontra no mesmo grupo uma garota bonita, inteligente, boa de papo.
Ela curte ufologia, leu todos os livros da Anne Rice, é fã do Morrissey e bebe Grapette. Vocês conversam por horas e trocam email para se falar depois. Só que a mediação de um computador parece que acabou com toda aquela empatia, a transformou num oficial de imigração alemão, e aquilo que parecia mágica vira algo tão inspirador e excitante quanto suco de clorofila:.
- Tudo bem? Legal falar contigo de novo, adorei nossa conversa aquele dia...
- É?
- É sim, achei você diferente do pessoal que frequenta aquela boate, você salvou minha noite.
- Porque?
- Ah, todo mundo ali é meio playboy, sabe como é, aquele negócio de rave, micareta, cordão de prata, camisa polo com suéter pendurado no ombro...
- Ah, tá...
- Você tá meio calada, aconteceu alguma coisa?
- Não.
- Bom, acho que vou voltar pro trabalho aqui, o que você acha de combinarmos um cinema qualquer dia desses?
- Blz.
- Então tá, a gente se fala, sei lá, daqui a uns 10 anos mais ou menos.
- Ok.
É nessa hora que você pensa que era bem melhor quando as pessoas apenas trocavam números de telefone (ou escreviam cartas, sei lá).
Até quem não deita na cama também faz a fama
Postado em 30 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Todo mundo tem sua fama.
Lutamos contra elas ou não, isso não importa, porque as pessoas vão continuar nos atribuindo características de acordo com a visão que têm de nós.
Mas de todas as reputações, as que me causam mais estranheza e curiosidade são as famas de "puta" e a de "come quieto", principalmente por serem inversamente proporcionais no sentido de sua manutenção.
Tome como exemplo uma garota que possua todas as características da popular "galinha". Fica com qualquer um, corneia o namorado com o irmão de 16 anos dele, bebe às custas de trouxas na balada, vai pra um batizado usando uma mini-saia de vinil e salto plataforma, enfim, se houvesse um check-list de elementos que identifiquem uma galinha, ela teria mais ítens conferidos do que um Boeing pronto para decolar rumo à Tóquio.
No entanto se você conversar com ela, vai pensar que é mais santa do que a sua avó.
Não gosta de falta de respeito, só sai pra dançar, nunca pegou o moleque de 16 anos (isso é fofoca da puta da ex-namorada do namorado dela) e acha a sociedade muito hipócrita por julgá-la baseada nas suas roupas (ainda que ela esteja te dizendo tudo isso nua, no motel, depois de cornear o namorado contigo).
Ela tem a fama, mas faz de tudo para negar.
Já o come quieto é diferente. Tive um amigo assim. Diferente da galinha, que deseja realmente que você acredite que ela não é galinha, ele também nega que coma alguém, que tenha ido para uma festa de arromba, que pegou a namorada do irmão mais velho quando tinha apenas 16 anos e, claro, rechaça veementemente a história que conta que ele pegou a professora de português boazuda na oitava série.
Nega tudo jurando sobre a Bíblia, a Torá e o Alcorão empilhados, mas no final dá um piscadinha pra você.
E aí é que está a diferença: ele nega, mas quer que você pense o contrário. Ele gosta da fama, ele quer a fama, mas sabe que no exato momento em que resolver abraçá-la, os outros vão começar a se questionar: "pera aí, será que esse prego fez tudo isso mesmo?".
Se ele fica quieto, ou melhor, se chega ao ponto de negar, o que todos pensarão? "Ah, o safado quer esconder o jogo".
E o amigo que mencionei acima era exatamente assim. Ele agia da seguinte maneira: comprava dois ingressos para algum lançamento do cinema, escolhia uma garota da turma e chamava pra ir com ele, dizendo que ganhou numa promoção. Se a garota aceitasse, ele chegava pra alguém e dizia:
- Vou no cinema com a Fulaninha hoje...
Era fatal a curiosidade:
- Vai pegar?
- Nada, só vou ver filme, comer pipoca e voltar pra casa...
Claro que a pessoa que ouvia pensava "vão pro motel transar com algemas e chantilly a tarde inteira".
No dia seguinte ele voltava à carga:
- Foi maneiro o filme ontem...
- Ah, vai dizer que você viu mesmo o filme? Duvido, deve ter dado uns amassos nela...
- Eu não faço nada, eu sou um otário, eu não pego ninguém.
E parecia óbvio que se ele mesmo estava dizendo isso é porque alguma coisa tinha acontecido e assim a fama se alimentava eternamente.
E como ninguém ia lá perguntar pra guria o que tinha rolado, até porque não tinha o que perguntar já que o cara mesmo disse que não tinha feito nada, todo mundo pensava "esse aí é malandro, come quieto e ainda se faz de bobo".
Esse tipo de situação só tem uma forma de dar errado: ele chamar a galinha pro cinema.
Porque nesse caso, mesmo que ele conseguisse fazer alguma coisa, seria ela a dizer:
- Aquele lá? Não faz nada, não pega ninguém, por isso mesmo que eu fui no cinema com ele, porque gosto é de respeito...
Lutamos contra elas ou não, isso não importa, porque as pessoas vão continuar nos atribuindo características de acordo com a visão que têm de nós.
Mas de todas as reputações, as que me causam mais estranheza e curiosidade são as famas de "puta" e a de "come quieto", principalmente por serem inversamente proporcionais no sentido de sua manutenção.
Tome como exemplo uma garota que possua todas as características da popular "galinha". Fica com qualquer um, corneia o namorado com o irmão de 16 anos dele, bebe às custas de trouxas na balada, vai pra um batizado usando uma mini-saia de vinil e salto plataforma, enfim, se houvesse um check-list de elementos que identifiquem uma galinha, ela teria mais ítens conferidos do que um Boeing pronto para decolar rumo à Tóquio.
No entanto se você conversar com ela, vai pensar que é mais santa do que a sua avó.
Não gosta de falta de respeito, só sai pra dançar, nunca pegou o moleque de 16 anos (isso é fofoca da puta da ex-namorada do namorado dela) e acha a sociedade muito hipócrita por julgá-la baseada nas suas roupas (ainda que ela esteja te dizendo tudo isso nua, no motel, depois de cornear o namorado contigo).
Ela tem a fama, mas faz de tudo para negar.
Já o come quieto é diferente. Tive um amigo assim. Diferente da galinha, que deseja realmente que você acredite que ela não é galinha, ele também nega que coma alguém, que tenha ido para uma festa de arromba, que pegou a namorada do irmão mais velho quando tinha apenas 16 anos e, claro, rechaça veementemente a história que conta que ele pegou a professora de português boazuda na oitava série.
Nega tudo jurando sobre a Bíblia, a Torá e o Alcorão empilhados, mas no final dá um piscadinha pra você.
E aí é que está a diferença: ele nega, mas quer que você pense o contrário. Ele gosta da fama, ele quer a fama, mas sabe que no exato momento em que resolver abraçá-la, os outros vão começar a se questionar: "pera aí, será que esse prego fez tudo isso mesmo?".
Se ele fica quieto, ou melhor, se chega ao ponto de negar, o que todos pensarão? "Ah, o safado quer esconder o jogo".
E o amigo que mencionei acima era exatamente assim. Ele agia da seguinte maneira: comprava dois ingressos para algum lançamento do cinema, escolhia uma garota da turma e chamava pra ir com ele, dizendo que ganhou numa promoção. Se a garota aceitasse, ele chegava pra alguém e dizia:
- Vou no cinema com a Fulaninha hoje...
Era fatal a curiosidade:
- Vai pegar?
- Nada, só vou ver filme, comer pipoca e voltar pra casa...
Claro que a pessoa que ouvia pensava "vão pro motel transar com algemas e chantilly a tarde inteira".
No dia seguinte ele voltava à carga:
- Foi maneiro o filme ontem...
- Ah, vai dizer que você viu mesmo o filme? Duvido, deve ter dado uns amassos nela...
- Eu não faço nada, eu sou um otário, eu não pego ninguém.
E parecia óbvio que se ele mesmo estava dizendo isso é porque alguma coisa tinha acontecido e assim a fama se alimentava eternamente.
E como ninguém ia lá perguntar pra guria o que tinha rolado, até porque não tinha o que perguntar já que o cara mesmo disse que não tinha feito nada, todo mundo pensava "esse aí é malandro, come quieto e ainda se faz de bobo".
Esse tipo de situação só tem uma forma de dar errado: ele chamar a galinha pro cinema.
Porque nesse caso, mesmo que ele conseguisse fazer alguma coisa, seria ela a dizer:
- Aquele lá? Não faz nada, não pega ninguém, por isso mesmo que eu fui no cinema com ele, porque gosto é de respeito...
A arte de falar sem dizer nada
Postado em 28 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários
Digamos que cada pessoa tem um Caetano Veloso vivendo dentro de si (ou não). Seja como for, é incrível a pressão que jogam em cima de nós para ter alguma opinião sobre quase qualquer assunto.
Tudo bem que muita gente adora ter opinião sobre tudo (o que nem é um problema), mas complica quando resolvem contar essa opinião para os outros (aí sim, geralmente vira um problema).
Defendo a censura? Não. Mas acho que se as opiniões de um cretino são mesmo tão preciosas pra ele, o sujeito deveria tratá-las como tesouros que são: trancando num cofre.
Só que, às vezes, aparece um amigo chorando as mágoas de uma dor de corno, uma aula ou reunião para a qual você não se preparou, alguém te contando um problema ou simplesmente quando querem um elogio.
Nessas horas você precisa dizer algo.
Por isso coisas como "É foda...", "Complicado...", "As pessoas são assim mesmo", "Não se pode confiar em ninguém", "Eu sei como você se sente", "Tem coisa pior do que isso", "Mulher (ou homem) é tudo igual", "O tempo cura tudo", "Nisso é melhor nem se meter", "Irado", "Super legal", "E não é que é mesmo?", entre outras, são uma forma inesgotável de falar sem dizer coisa alguma.
Seu amigo foi traído pela namorada? "As pessoas são assim mesmo, mulher é tudo igual".
Querem saber o que você acha sobre a Primavera Árabe? "Irado".
O noivo da sua amiga fugiu no dia do casamento com a tia dela? "Não se pode confiar em ninguém".
Pegaram seu chefe trancado com uma anã no depósito de limpeza? "Nisso é melhor nem se meter".
O Brasil perdeu o quarto pênalti seguido na semi-final da Copa América? "Tem coisa pior do que isso".
Alguém diz numa mesa de bar que só tem corno no Espírito Santo? "E não é que é mesmo?".
Sua amiga gorda te mostra uma foto de biquini no Beach Park? Você até queria dizer "é foda", mas solta mesmo um "Super legal".
Note que você opinou, elogiou, interagiu com seu interlocutor, demonstrou interesse e solidariedade pelo que ele te disse e no entanto não precisou dizer absolutamente nada relevante sobre o assunto.
A única situação em que isso não funciona muito bem é quando esperam um pouco mais do que simples opiniões e empatia vindas de você, como uma aula sobre Marx ou uma reunião sobre balanços semestrais.
Nesse caso também é simples, basta deixar que alguém diga alguma coisa primeiro e depois você repete tudo o que a pessoa falou rearrumando as palavras:
- Marx tinha uma concepção hegeliana da história.
E você:
- Inclusive, me permitam acrescentar, Hegel foi uma grande influência na concepção histórica marxista.
Ou então:
- Estes balanços semestrais mostram que nossa empresa pode reinvestir parte do lucro líquido em programas de capacitação.
Aí você complementa:
- Aliás, eu li na Forbes que programas de capacitação são boas opções para o investimento do lucro líquido.
No final das contas, todos vão te considerar um cara ponderado, conhecedor, estudioso e útil, porque se tem uma coisa que faz com que as pessoas te considerem um verdadeiro gênio, é você concordar com elas.
Tudo bem que muita gente adora ter opinião sobre tudo (o que nem é um problema), mas complica quando resolvem contar essa opinião para os outros (aí sim, geralmente vira um problema).
Defendo a censura? Não. Mas acho que se as opiniões de um cretino são mesmo tão preciosas pra ele, o sujeito deveria tratá-las como tesouros que são: trancando num cofre.
Só que, às vezes, aparece um amigo chorando as mágoas de uma dor de corno, uma aula ou reunião para a qual você não se preparou, alguém te contando um problema ou simplesmente quando querem um elogio.
Nessas horas você precisa dizer algo.
Por isso coisas como "É foda...", "Complicado...", "As pessoas são assim mesmo", "Não se pode confiar em ninguém", "Eu sei como você se sente", "Tem coisa pior do que isso", "Mulher (ou homem) é tudo igual", "O tempo cura tudo", "Nisso é melhor nem se meter", "Irado", "Super legal", "E não é que é mesmo?", entre outras, são uma forma inesgotável de falar sem dizer coisa alguma.
Seu amigo foi traído pela namorada? "As pessoas são assim mesmo, mulher é tudo igual".
Querem saber o que você acha sobre a Primavera Árabe? "Irado".
O noivo da sua amiga fugiu no dia do casamento com a tia dela? "Não se pode confiar em ninguém".
Pegaram seu chefe trancado com uma anã no depósito de limpeza? "Nisso é melhor nem se meter".
O Brasil perdeu o quarto pênalti seguido na semi-final da Copa América? "Tem coisa pior do que isso".
Alguém diz numa mesa de bar que só tem corno no Espírito Santo? "E não é que é mesmo?".
Sua amiga gorda te mostra uma foto de biquini no Beach Park? Você até queria dizer "é foda", mas solta mesmo um "Super legal".
Note que você opinou, elogiou, interagiu com seu interlocutor, demonstrou interesse e solidariedade pelo que ele te disse e no entanto não precisou dizer absolutamente nada relevante sobre o assunto.
A única situação em que isso não funciona muito bem é quando esperam um pouco mais do que simples opiniões e empatia vindas de você, como uma aula sobre Marx ou uma reunião sobre balanços semestrais.
Nesse caso também é simples, basta deixar que alguém diga alguma coisa primeiro e depois você repete tudo o que a pessoa falou rearrumando as palavras:
- Marx tinha uma concepção hegeliana da história.
E você:
- Inclusive, me permitam acrescentar, Hegel foi uma grande influência na concepção histórica marxista.
Ou então:
- Estes balanços semestrais mostram que nossa empresa pode reinvestir parte do lucro líquido em programas de capacitação.
Aí você complementa:
- Aliás, eu li na Forbes que programas de capacitação são boas opções para o investimento do lucro líquido.
No final das contas, todos vão te considerar um cara ponderado, conhecedor, estudioso e útil, porque se tem uma coisa que faz com que as pessoas te considerem um verdadeiro gênio, é você concordar com elas.
A mulher do vizinho também tem TPM
Postado em 26 de set. de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
Ainda que pareça o contrário, se o seu vizinho beber whisky falsificado também vai ter uma dor de cabeça dos infernos igual a você, se arrepender igual a você e prometer que nunca mais vai beber na vida, igual a você.
Adoramos admirar a vida dos outros, isso é um fato, mas também é um fato (dos grandes) que a mulher do vizinho também tem TPM, também fica com dor de cabeça e inclusive dorme de calça jeans de vez em quando.
O outro pode ter uma vida tão chata quanto a sua, tão mediana, monótona e cheia de preocupações, ainda que, visto daí de onde você está, pareça que até o ato de passar fio dental é mais interessante quando não é você que precisa fazer.
Bom mesmo é ser o vizinho, o cara da mesa do lado, o sujeito passando lá fora.
Sim, porque a menos que você tenha visto a pessoa passar por alguma merda muito grande, como, sei lá, enviar sem querer o arquivo "noivinhas_profundas.jpg" anexado num email que deveria conter uma planilha de Excel pro chefe, geralmente a vida dela parecerá mais fácil e interessante do que a sua.
O outro não deve procrastinar trabalhos (já que o trabalho dele é muito mais interessante do que o seu), não deve perder a hora de manhã (muito menos ter um despertador que ganhou de presente do chefe e que berra "acorda vagabundo" com a voz da Dercy Gonçalves), nunca pega um ônibus lotado (que nem você pega todo dia, ainda que saia de casa uma dia às 9:00, outro às 10:00 e já tenha tentado até sair ao meio-dia) e jamais precisa fazer dieta.
Se faz dieta, come uma salada muito mais apetitosa, um brócolis com gosto de picanha nobre e com certeza só bebe mate sem açúcar porque acha muito mais gostoso do que uma Coca-Cola geladinha.
Geralmente ele ganha mais (e se não ganhar mais, vai ser capaz de fazer muito mais coisas com o pouco que ganha do que você) e sempre, sempre é um outro que acerta na Mega Sena (o que ajuda a manter sua paranóia).
As contas dele são menores, o cartão de crédito nunca manda a fatura e o banco sempre esquece de cobrar juros. O Fusquinha que ele anda é melhor do que o seu carro (ainda que ele seja uns 20 anos e pareça uns 30 anos mais velho) e aquele cheese-bacon que ele manda pra dentro na Kombi da esquina não vem com gordura suficiente para lubrificar o motor do Fusca.
Os casamentos que ele vai são mais legais e até os engarrafamentos dele são divertidos, sem contar que você já cogitou entrar pra Amway e pra Herbalife que nem ele, afinal, visto daí aquelas reuniões parecem ser o maior barato.
E de repente até a idéia de rebaixar seu carro, colocar um daqueles sonzões de trio elétrico e sair por aí que nem o seu vizinho ouvindo funk nas alturas não parece tão ruim.
Não, não. Pensando bem esse aí aquele vizinho do outro lado, o que você acha tão escroto que preferiria reencarnar como uma poltrona do meio de avião do que ser que nem ele.
Mas não tenha dúvidas: por mais que sua vida pareça monótona e regular, alguém está de olho nela (menos, é claro, aqueles que preferem reencarnar como um microfone de karaokê, a ter que viver como você um dia).
Adoramos admirar a vida dos outros, isso é um fato, mas também é um fato (dos grandes) que a mulher do vizinho também tem TPM, também fica com dor de cabeça e inclusive dorme de calça jeans de vez em quando.
O outro pode ter uma vida tão chata quanto a sua, tão mediana, monótona e cheia de preocupações, ainda que, visto daí de onde você está, pareça que até o ato de passar fio dental é mais interessante quando não é você que precisa fazer.
Bom mesmo é ser o vizinho, o cara da mesa do lado, o sujeito passando lá fora.
Sim, porque a menos que você tenha visto a pessoa passar por alguma merda muito grande, como, sei lá, enviar sem querer o arquivo "noivinhas_profundas.jpg" anexado num email que deveria conter uma planilha de Excel pro chefe, geralmente a vida dela parecerá mais fácil e interessante do que a sua.
O outro não deve procrastinar trabalhos (já que o trabalho dele é muito mais interessante do que o seu), não deve perder a hora de manhã (muito menos ter um despertador que ganhou de presente do chefe e que berra "acorda vagabundo" com a voz da Dercy Gonçalves), nunca pega um ônibus lotado (que nem você pega todo dia, ainda que saia de casa uma dia às 9:00, outro às 10:00 e já tenha tentado até sair ao meio-dia) e jamais precisa fazer dieta.
Se faz dieta, come uma salada muito mais apetitosa, um brócolis com gosto de picanha nobre e com certeza só bebe mate sem açúcar porque acha muito mais gostoso do que uma Coca-Cola geladinha.
Geralmente ele ganha mais (e se não ganhar mais, vai ser capaz de fazer muito mais coisas com o pouco que ganha do que você) e sempre, sempre é um outro que acerta na Mega Sena (o que ajuda a manter sua paranóia).
As contas dele são menores, o cartão de crédito nunca manda a fatura e o banco sempre esquece de cobrar juros. O Fusquinha que ele anda é melhor do que o seu carro (ainda que ele seja uns 20 anos e pareça uns 30 anos mais velho) e aquele cheese-bacon que ele manda pra dentro na Kombi da esquina não vem com gordura suficiente para lubrificar o motor do Fusca.
Os casamentos que ele vai são mais legais e até os engarrafamentos dele são divertidos, sem contar que você já cogitou entrar pra Amway e pra Herbalife que nem ele, afinal, visto daí aquelas reuniões parecem ser o maior barato.
E de repente até a idéia de rebaixar seu carro, colocar um daqueles sonzões de trio elétrico e sair por aí que nem o seu vizinho ouvindo funk nas alturas não parece tão ruim.
Não, não. Pensando bem esse aí aquele vizinho do outro lado, o que você acha tão escroto que preferiria reencarnar como uma poltrona do meio de avião do que ser que nem ele.
Mas não tenha dúvidas: por mais que sua vida pareça monótona e regular, alguém está de olho nela (menos, é claro, aqueles que preferem reencarnar como um microfone de karaokê, a ter que viver como você um dia).
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