Esse julgamento do Mensalão serviu para muita coisa. Entre elas, soubemos que foram necessários até carros fortes para transportar dinheiro que "não existe", depois deu pra ver como um ministro do Supremo gosta de falar horas sobre assuntos que demorariam segundos para qualquer pessoa normal discorrer.
Uma simples resposta "sim" ou "não" parece ser algo impossível para nossos togados. A impressão que dá é que se alguém perguntar as horas para um desses ministros, a resposta não será 10:45, 14:30 ou um simples "meio-dia e meio", mas algo como:
- Veja bem, a amizade entre Santos Dumont e Louis Cartier fez surgir o relógio de pulso, já que Alberto não conseguia ver as horas e voar ao mesmo tempo e...
E provavelmente o sujeito que perguntou já teria saído correndo.
O problema é que nem se abstendo de acompanhar as sessões ou de se tornar ministro do Supremo você estará livre desse tipo de problema já que o que não falta por aí é gente que não sabe ser sucinta.
Você pergunta "tudo bem?" e a pessoa começa a te falar sobre o que comeu no café da manhã, o que leu nos jornais matutinos, como estava o ar-condicionado do metrô, conta que deu bom dia pro porteiro e você só não sai correndo de verdade porque os limites sociais impõem que ouça aquilo tudo, afinal, você perguntou, não é?
Conversar com pessoas assim lembra muito participar de alguma assembléia estudantil ou reunião de condomínio, nada é simples, tudo parece aquela busca por um consenso entre palestinos e israelenses.
Uma coisa é você ter conhecimento e ser uma companhia agradável, outra é ser alguém chato que precisa demonstrar sua erudição até na frente de uma banana-split.
Contar que foi um cara chamado David Strickler que teve a idéia de partir uma banana ao meio e colocar sorvete ou então começar a teorizar sobre como aquela banana separada (split) representa as partes da sua vida que são estraçalhadas pelo tempo e que dependem da doce cobertura da sociedade consumista para ter sua dor aliviada é simplesmente chato.
É como falar de vigilantes do peso num rodízio. De lasanha em academia. De surf numa reunião de nerds tipo a Campus Party, ou seja, é meio chato, inconveniente e te faz ser aquele cara que espalha rodinhas (o que nem é má idéia se for rodinha de violão).
Esse tipo de gente costuma ser como uma ópera. Vou tentar explicar melhor: ópera é bonito, ópera é algo erudito, faz você se sentir mais inteligente só por fingir que gosta (mais ainda se gostar de verdade), mas se o cara estiver numa vibe de Iron Maiden (ou Spice Girls), ópera não vai ser muito legal.
Da mesma forma, nem todo dia os outros estão afim de assistir aula gratuita sobre cultura inútil ou show de retórica hitlerista.
Sempre imagino que os roteiristas de Lost (121 episódios que pareciam 1.000), Dallas (365 capítulos) ou Os Imigrantes (459 capítulos) deviam se comportar do mesmo jeito.
Deviam chegar para tomar café da manhã e só conseguiam sair da lanchonete na hora do jantar.
Lógico que muitas vezes a pessoa usa essa falação para esconder coisas que não quer que o outro saiba.
- Em que você trabalha?
- Ah, eu trabalho com logística de processos, auxiliando na linha de montagem de peças judiciais para encaminhamento ao juiz.
- Que porra é essa?
- Eu grampeio pastas, tá bom? Eu confesso: eu gram-pei-o-pas-tas!
Ou então você conhece uma garota na boate e pergunta pra ela:
- Onde você mora?
- Ah, ali pro lado da Ponte Rio-Niterói, num lugar bem tranquilo, com meu pai, minha mãe, dois cachorros, um gato e um cajueiro no quintal, é uma rua bem legal, sabe? Nasci ali, tenho um monte de amigos, tem até uma padaria na esquina que vende um sonho de doce de leite que é uma delicia e...
- Tá bom, eu te levo em casa.
Só depois é que você descobre que ela mora em Rio Bonito, a exatos 87 quilômetros de onde vocês estão.
Aliás, esse caso praticamente me obriga a abrir um parêntese que é uma dica para viver bem: antes de dizer "eu te levo em casa" para qualquer garota que conheceu na balada, sempre pergunte "onde você mora?".
E certifique-se de que ela diga exatamente onde é ao invés de contar sobre como brincava de amarelinha na calçada.
A mesma coisa acontece na hora de decidir uma saída. Claro que democracia é uma maravilha, comunicação interpessoal é um treco muito interessante, mas precisar formar uma comissão de análise para decidir qual filme vai assistir no cinema é meio over.
Por isso quando te perguntarem que tipo de chocolate você gosta, diga apenas "Bis", "Chokito", "Kit Kat", e não comece respondendo com algo como "o cacau é um fruto...".
Passe a agir assim antes que um dia você olhe pro lado e descubra que a pessoa não fugiu, mas já está até roncando.
Argentina, tango, Freud e a verdade
Postado em 14 de ago. de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários
A Argentina é o país com o maior número de psicanalistas por habitante do mundo. Não sei bem o que isso quer dizer sobre o país do tango (talvez ser o país do tango diga muito), mas achei uma boa frase para começar um texto.
Dizem por aí que tem coisa que só Freud explica, o que além de ser verdade, ainda me ajuda a encaixar aqui a frase inicial sobre psicanalistas argentinos que é uma beleza.
E uma dessas coisas que só Freud explica é a obsessão que as pessoas desenvolveram ao longo dos séculos pelo conceito de "verdade". Veja, não estou falando de mentir sobre tudo o tempo todo, ou então de falar mentiras cabeludas, mas sobre a fixação que certas pessoas têm por dizer coisas desagradáveis só porque acham que têm obrigação de falar qualquer sentença que venha na cabeça.
Você pode dizer que um amigo seu está "acima do peso" se ele te perguntar, mas chegar do nada e mandar, aos berros, no meio da rua algo como "nooooossaaaaaa como você tá gorrrrrrrrrrrrrdo!" é escroto, ainda que o sujeito esteja pesando 100 quilos.
Falar, por exemplo, que o trabalho do outro está "uma merda", a menos que você seja o chefe e esteja pagando, é algo dito para fazer muito mais bem ao seu ego do que ao seu amigo que teoricamente "precisa saber da verdade". E é nesse ponto que Freud entra: eu vejo um tremendo egoísmo na verdade.
Falo isso porque outro dia estava pensando nessas pessoas que sentam com o marido (ou esposa) e resolvem colocar tudo em "pratos limpos" (taí outra expressão que nunca entendi, já que sempre que falam isso vai rolar mesmo é roupa suja).
O casal vive bem (de mentira), em paz (de mentira) e em certa harmonia apesar do monte de problemas que a rotina traz (isso é verdade). Tudo dentro daquele equilíbrio que só a convivência e a intimidade podem trazer.
De repente, um dos dois resolve que precisa "tirar aquele peso das costas" (e transferir para as costas da outra pessoa), "falar a verdade doa a quem doer" (melhor que doa no outro), enfim, todas essas frases que geralmente acompanham alguma grande revelação.
Aí começam aqueles diálogos rodrigueanos:
- Precisamos conversar...
- Dá pra esperar acabar o jogo?
- Não, tem que ser agora.
- Mas o que seria tão urgente que não pode esperar o Brasil cobrar o último pênalti na final da Copa do Mundo?
- É que te traí.
- Beleza, se o Ganso fizer esse pênalti eu te perdôo por ter saído por aí aforando ele com outra pessoa.
- Esse trocadilho foi uma merda.
- Eu sei, mas me deixa só ver esse pênalti?
- O Matias não é seu filho.
- É filho de quem? do Ganso?
- Tô falando sério.
- Mas eu pensei que a gente vivesse bem.
- É, mas eu te traio há uns 10 anos e não aguento mais essa pressão na minha cabeça, não aguento mais viver numa mentira, prefiro falar logo toda a verdade, acho que vai ser melhor pra nós dois.
- Se vai ser melhor porque eu estou me sentindo pior do que há uns 5 minutos?
- Bom, eu precisava dizer a verdade, estou aliviada.
- Que bom que foi legal pra você, porque eu preferiria que não saber de nada disso.
- E viver uma mentira?
- Putaquepariu,
- O que foi?
- Ele perdeu o pênalti!
- E você levou bola nas costas.
- Esse trocadilho foi pior.
- Eu sei.
Numa situação dessas, o que menos interessa é a verdade. A pessoa quer é se sentir bem e jogar o o problema pra cima do outro, "toma aí que é teu". E isso, talvez, só Freud explique.
Por essas e outras é que eu digo: a verdade pode ser um tremendo gol contra.
E sim, esse trocadilho também foi bem ruim.
Dizem por aí que tem coisa que só Freud explica, o que além de ser verdade, ainda me ajuda a encaixar aqui a frase inicial sobre psicanalistas argentinos que é uma beleza.
E uma dessas coisas que só Freud explica é a obsessão que as pessoas desenvolveram ao longo dos séculos pelo conceito de "verdade". Veja, não estou falando de mentir sobre tudo o tempo todo, ou então de falar mentiras cabeludas, mas sobre a fixação que certas pessoas têm por dizer coisas desagradáveis só porque acham que têm obrigação de falar qualquer sentença que venha na cabeça.
Você pode dizer que um amigo seu está "acima do peso" se ele te perguntar, mas chegar do nada e mandar, aos berros, no meio da rua algo como "nooooossaaaaaa como você tá gorrrrrrrrrrrrrdo!" é escroto, ainda que o sujeito esteja pesando 100 quilos.
Falar, por exemplo, que o trabalho do outro está "uma merda", a menos que você seja o chefe e esteja pagando, é algo dito para fazer muito mais bem ao seu ego do que ao seu amigo que teoricamente "precisa saber da verdade". E é nesse ponto que Freud entra: eu vejo um tremendo egoísmo na verdade.
Falo isso porque outro dia estava pensando nessas pessoas que sentam com o marido (ou esposa) e resolvem colocar tudo em "pratos limpos" (taí outra expressão que nunca entendi, já que sempre que falam isso vai rolar mesmo é roupa suja).
O casal vive bem (de mentira), em paz (de mentira) e em certa harmonia apesar do monte de problemas que a rotina traz (isso é verdade). Tudo dentro daquele equilíbrio que só a convivência e a intimidade podem trazer.
De repente, um dos dois resolve que precisa "tirar aquele peso das costas" (e transferir para as costas da outra pessoa), "falar a verdade doa a quem doer" (melhor que doa no outro), enfim, todas essas frases que geralmente acompanham alguma grande revelação.
Aí começam aqueles diálogos rodrigueanos:
- Precisamos conversar...
- Dá pra esperar acabar o jogo?
- Não, tem que ser agora.
- Mas o que seria tão urgente que não pode esperar o Brasil cobrar o último pênalti na final da Copa do Mundo?
- É que te traí.
- Beleza, se o Ganso fizer esse pênalti eu te perdôo por ter saído por aí aforando ele com outra pessoa.
- Esse trocadilho foi uma merda.
- Eu sei, mas me deixa só ver esse pênalti?
- O Matias não é seu filho.
- É filho de quem? do Ganso?
- Tô falando sério.
- Mas eu pensei que a gente vivesse bem.
- É, mas eu te traio há uns 10 anos e não aguento mais essa pressão na minha cabeça, não aguento mais viver numa mentira, prefiro falar logo toda a verdade, acho que vai ser melhor pra nós dois.
- Se vai ser melhor porque eu estou me sentindo pior do que há uns 5 minutos?
- Bom, eu precisava dizer a verdade, estou aliviada.
- Que bom que foi legal pra você, porque eu preferiria que não saber de nada disso.
- E viver uma mentira?
- Putaquepariu,
- O que foi?
- Ele perdeu o pênalti!
- E você levou bola nas costas.
- Esse trocadilho foi pior.
- Eu sei.
Numa situação dessas, o que menos interessa é a verdade. A pessoa quer é se sentir bem e jogar o o problema pra cima do outro, "toma aí que é teu". E isso, talvez, só Freud explique.
Por essas e outras é que eu digo: a verdade pode ser um tremendo gol contra.
E sim, esse trocadilho também foi bem ruim.
Chanel Nº 5? Sim. Cheese-tudo? Não.
Postado em 9 de ago. de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário
Sempre que falamos em atração, principalmente física, o primeiro sentido que lembramos é a visão. E com certeza uma bela imagem realmente atrai, seja um derriére grande na medida certa, um peitoral definido, um olhar 43.
Mas como em relação aos sentidos que provocam seres humanos são mais ou menos parecidos com comida (estamos sempre querendo consumir alguém), inventaram até o termo apetite appeal (originado do sex appeal) para designar o frenesi que a imagem de certos alimentos provocam em nós.
E só mencionei essa mistura de gente com comida porque ela leva obrigatoriamente a falar de um outro sentido que funciona tão bem quanto a visão nesses momentos: o olfato.
Tem comida que é mais cheirosa do que é gostosa. Tem gente que é tão cheirosa, que até fica gostosa, mesmo sem ser.
Costumo lembrar das pessoas pelo cheiro, o que nem sempre é algo agradável. Houve uma época em que um técnico de telefone era toda hora chamado no meu trabalho para consertar um daqueles velhos PABX, e o sujeito realmente conseguia ter uma presença marcante.
Tão marcante que nós sabíamos que já tinha chegado quando ainda estava na recepção, tudo por causa daquele cheiro que não sei definir direito, mas era algo parecido com um bando de gambás que tomaram banho num valão e depois levaram uma cusparada de um camelo.
Por isso é que acredito que o amor vence quase tudo, menos um desodorante vencido. Este vence o amor de goleada.
Se relacionar com alguém que não cuida muito do que exala é como conviver diariamente com aquele sujeito que esvazia vagão de metrô, sabe como é? Você está ali, quieto, jogando paciência no seu celular e de repente todo mundo começa a coçar o nariz, você verifica se não é contigo, checa se não pisou em nada na rua, até que percebe um clarão no meio do vagão lotado e nota que a fonte do desconforto é um sujeito voltando do futebol semanal com os amigos.
Claro que só perfume também pode enganar, ou você acha que todo mundo que cheira a Chanel Nº 5 é a Marilyn?
Ainda assim os cheiros definem muita coisa nas nossas vidas. Eu sempre lembro da minha infância quando sinto cheiro de feijão cozinhando. Aquilo tem cara (sim, cheiro pode ter cara) de quintal, de almoço ao meio dia e do resto da tarde para não fazer nada.
Porque você acha que, como já vi dizerem por aí, meninas param de usar Melissinha quando começam a namorar? Nada a ver com moda e sim com aquele cheiro de loja de queijo que sapatos de plástico proporciona em qualquer pezinho, por mais bonitinho que seja.
E é certamente no amor, no sexo e na gastronomia que os cheiros mais nos marcam. Quem nunca ficou alérgico a algum perfume só porque ele tem cheiro de ex-namorada? E quem nunca teve vontade de devorar alguém como se fosse um sushi (lasanha não é muito sexy) só por causa do perfume certo passado na nuca?
Sem contar que é quase impossível não capitular perante o cheiro de uma torta de chocolate recém saída do forno. Sem brincadeira. O cheiro de uma torta de chocolate com cobertura de brigadeiro é a versão olfativa de uma foto da J. Lo saindo do banho.
Mas isso nem sempre funciona. Por exemplo, por mais que você goste de bacon, duvido que sentisse atração por alguém que cheirasse a um cheese-tudo.
Isso porque nem falei de sabonetes, sachês e outras usinas de cheiros, como o lança perfume, que ainda por cima dá onda. E também as balas tipo Tic-Tac e Hall's, que muito longe de terem como principal objetivo o gosto, existem para dar uma força no cheiro do beijo.
Também é bom não esquecer que se a sua casa e o seu carro não cheirarem como uma cena de crime, isso também ajudará bastante nos seus relacionamentos interpessoais.
Por isso tanta importância com os cheiros, afinal, se somos o que parecemos, o que pensamos, o que ganhamos, definitivamente também somos o que cheiramos.
Dito isto, tente reservar uns minutos do seu dia para cuidar do rastro que você vai deixar por onde passa, já que é muito melhor cheirar que nem uma loja de shopping center (dessas que colocam essência no ar-condicionado só para prender o cliente pelo nariz) do que a uma jaula de hienas.
E não ria, tem gente que cheira a jaula mesmo e isso não é nada engraçado. Pega mal, inclusive.
Atchim.
Mas como em relação aos sentidos que provocam seres humanos são mais ou menos parecidos com comida (estamos sempre querendo consumir alguém), inventaram até o termo apetite appeal (originado do sex appeal) para designar o frenesi que a imagem de certos alimentos provocam em nós.
E só mencionei essa mistura de gente com comida porque ela leva obrigatoriamente a falar de um outro sentido que funciona tão bem quanto a visão nesses momentos: o olfato.
Tem comida que é mais cheirosa do que é gostosa. Tem gente que é tão cheirosa, que até fica gostosa, mesmo sem ser.
Costumo lembrar das pessoas pelo cheiro, o que nem sempre é algo agradável. Houve uma época em que um técnico de telefone era toda hora chamado no meu trabalho para consertar um daqueles velhos PABX, e o sujeito realmente conseguia ter uma presença marcante.
Tão marcante que nós sabíamos que já tinha chegado quando ainda estava na recepção, tudo por causa daquele cheiro que não sei definir direito, mas era algo parecido com um bando de gambás que tomaram banho num valão e depois levaram uma cusparada de um camelo.
Por isso é que acredito que o amor vence quase tudo, menos um desodorante vencido. Este vence o amor de goleada.
Se relacionar com alguém que não cuida muito do que exala é como conviver diariamente com aquele sujeito que esvazia vagão de metrô, sabe como é? Você está ali, quieto, jogando paciência no seu celular e de repente todo mundo começa a coçar o nariz, você verifica se não é contigo, checa se não pisou em nada na rua, até que percebe um clarão no meio do vagão lotado e nota que a fonte do desconforto é um sujeito voltando do futebol semanal com os amigos.
Claro que só perfume também pode enganar, ou você acha que todo mundo que cheira a Chanel Nº 5 é a Marilyn?
Ainda assim os cheiros definem muita coisa nas nossas vidas. Eu sempre lembro da minha infância quando sinto cheiro de feijão cozinhando. Aquilo tem cara (sim, cheiro pode ter cara) de quintal, de almoço ao meio dia e do resto da tarde para não fazer nada.
Porque você acha que, como já vi dizerem por aí, meninas param de usar Melissinha quando começam a namorar? Nada a ver com moda e sim com aquele cheiro de loja de queijo que sapatos de plástico proporciona em qualquer pezinho, por mais bonitinho que seja.
E é certamente no amor, no sexo e na gastronomia que os cheiros mais nos marcam. Quem nunca ficou alérgico a algum perfume só porque ele tem cheiro de ex-namorada? E quem nunca teve vontade de devorar alguém como se fosse um sushi (lasanha não é muito sexy) só por causa do perfume certo passado na nuca?
Sem contar que é quase impossível não capitular perante o cheiro de uma torta de chocolate recém saída do forno. Sem brincadeira. O cheiro de uma torta de chocolate com cobertura de brigadeiro é a versão olfativa de uma foto da J. Lo saindo do banho.
Mas isso nem sempre funciona. Por exemplo, por mais que você goste de bacon, duvido que sentisse atração por alguém que cheirasse a um cheese-tudo.
Isso porque nem falei de sabonetes, sachês e outras usinas de cheiros, como o lança perfume, que ainda por cima dá onda. E também as balas tipo Tic-Tac e Hall's, que muito longe de terem como principal objetivo o gosto, existem para dar uma força no cheiro do beijo.
Também é bom não esquecer que se a sua casa e o seu carro não cheirarem como uma cena de crime, isso também ajudará bastante nos seus relacionamentos interpessoais.
Por isso tanta importância com os cheiros, afinal, se somos o que parecemos, o que pensamos, o que ganhamos, definitivamente também somos o que cheiramos.
Dito isto, tente reservar uns minutos do seu dia para cuidar do rastro que você vai deixar por onde passa, já que é muito melhor cheirar que nem uma loja de shopping center (dessas que colocam essência no ar-condicionado só para prender o cliente pelo nariz) do que a uma jaula de hienas.
E não ria, tem gente que cheira a jaula mesmo e isso não é nada engraçado. Pega mal, inclusive.
Atchim.
Moderno é não ser moderno
Postado em 7 de ago. de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário
A raça humana é uma criação estranha. Acredite no que quiser, em algum momento, alguma forma de vida se transformou (ou criou, como preferir) isso que hoje chamamos de "ser humano", ou simplesmente "homem".
Mas o fato é que já que estamos aqui, buscamos transformar nossa curta estadia nesse planeta em algo mais agradável o tempo todo. Inventamos passatempos, pratos culinários enfeitados, roupas e calçados, meios de locomoção.
E além disso, sempre buscamos aperfeiçoar o que já existe. É como se cada geração fosse uma espécie de estagiário da seguinte e tivesse que ouvir aquela conversa "não está ruim, você tem potencial" (que não deixa de ser uma forma educada de dizer "está uma merda"):
- Olha só, inventamos um HD de 1 giga, acho que ninguém nunca mais vai precisar de mais espaço do que isso!
- Aceita uma crítica construtiva?
E assim aconteceu durante toda a nossa existência.
Nossos avôs faziam barba com a navalha em uma das mãos e uma imagem de São Judas Tadeu na outra (rezando para não se cortar com aquilo e virar o 10º "scarface" na história da família). Hoje nós possuímos aparelhos de barbear com três lâminas equipadas com amortecedores e uma tira lubrificante com aloe vera (os antigos provavelmente achariam isso tudo meio gay, mas releve, afinal eles cheiravam rapé e aquilo nem ao menos dá onda).
Aos trancos e barrancos a humanidade foi melhorando tudo. Telefones, televisores, automóveis, tênis de corrida, bolas de futebol, aviões, as formas de se ouvir música (já se imaginou tendo que sair por aí carregando um quarteto de cordas na mochila ao invés de um iPod?).
Mas curiosamente alguns de nós teimam em querer fazer o tempo voltar. Nada contra viagens no tempo, que fique claro, mas se eu pudesse fazer isso com certeza seria para voltar para a 8ª Série e dar aquele beijo que eu não dei numa festinha por cagaço de levar um fora e não para jogar Atari.
Daí a dificuldade em entender esse pessoal over-fixado em velharia. Claro que o design de uma geladeira dos anos 50 é sensacional, ainda mais visto de hoje, época em que já deu tempo de "desenjoar" daquilo. Mas uma coisa é curtir o visual, outra bem diferente é comprar um eletrodoméstico de 500 quilos e que precisa de uma usina hidroelétrica particular para funcionar e colocar em casa.
Televisores velhos, rádios velhos, fico esperando o dia em que alguém vai inventar de sentir saudade do telefone de disco (se é que já não tem). Revelar um filme e descobrir que queimou 34 das 36 fotos era uma sensação tão deliciosa que desde que surgiu a câmera digital eu nunca mais tirei uma foto sequer com uma analógica.
E ainda assim existem clubes de pessoas que se reúnem para tirar fotos com câmeras analógicas(!), russas(!), de plástico(!!!).
Tudo bem, rola aquele romantismo, aquela sensação de conquista advinda da dificuldade. Mas o engraçado é que nunca vi ninguém pedindo a volta da virgindade obrigatória pra casar (ou do Orkut).
Ombreiras, pochetes e mullets ainda estão na fase da desintoxicação, mas temo pelo que pode acontecer com eles no futuro caso algum fashionista resolva lançar um olhar 43 para algum desses fantasmas da moda do outono-inverno/primavera-verão passados.
Um descolado de hoje em dia anda num Fusca, usa suspensórios e blusas xadrez, gosta de chapéu de feltro, óculos da Audrey Hepburn, tira fotos usando uma Lomo, ouve música em fita cassete, consulta as horas em relógio de bolso e, não duvido, faz barba com navalha (mas sem a imagem de São Judas Tadeu, já que agora a moda é ser "ateu").
Quer dizer, faz a barba quase toda, porque ainda tem a obrigatória presença do bigode, que faz todo mundo ficar meio com a cara do tio do KFC. Tenho certeza que até Hitler rasparia o próprio bigode se conhecesse essa modinha. (sério, ainda não me conformei com essa do bigode).
Vou até parar por aqui.
Mas o fato é que já que estamos aqui, buscamos transformar nossa curta estadia nesse planeta em algo mais agradável o tempo todo. Inventamos passatempos, pratos culinários enfeitados, roupas e calçados, meios de locomoção.
E além disso, sempre buscamos aperfeiçoar o que já existe. É como se cada geração fosse uma espécie de estagiário da seguinte e tivesse que ouvir aquela conversa "não está ruim, você tem potencial" (que não deixa de ser uma forma educada de dizer "está uma merda"):
- Olha só, inventamos um HD de 1 giga, acho que ninguém nunca mais vai precisar de mais espaço do que isso!
- Aceita uma crítica construtiva?
E assim aconteceu durante toda a nossa existência.
Nossos avôs faziam barba com a navalha em uma das mãos e uma imagem de São Judas Tadeu na outra (rezando para não se cortar com aquilo e virar o 10º "scarface" na história da família). Hoje nós possuímos aparelhos de barbear com três lâminas equipadas com amortecedores e uma tira lubrificante com aloe vera (os antigos provavelmente achariam isso tudo meio gay, mas releve, afinal eles cheiravam rapé e aquilo nem ao menos dá onda).
Aos trancos e barrancos a humanidade foi melhorando tudo. Telefones, televisores, automóveis, tênis de corrida, bolas de futebol, aviões, as formas de se ouvir música (já se imaginou tendo que sair por aí carregando um quarteto de cordas na mochila ao invés de um iPod?).
Mas curiosamente alguns de nós teimam em querer fazer o tempo voltar. Nada contra viagens no tempo, que fique claro, mas se eu pudesse fazer isso com certeza seria para voltar para a 8ª Série e dar aquele beijo que eu não dei numa festinha por cagaço de levar um fora e não para jogar Atari.
Daí a dificuldade em entender esse pessoal over-fixado em velharia. Claro que o design de uma geladeira dos anos 50 é sensacional, ainda mais visto de hoje, época em que já deu tempo de "desenjoar" daquilo. Mas uma coisa é curtir o visual, outra bem diferente é comprar um eletrodoméstico de 500 quilos e que precisa de uma usina hidroelétrica particular para funcionar e colocar em casa.
Televisores velhos, rádios velhos, fico esperando o dia em que alguém vai inventar de sentir saudade do telefone de disco (se é que já não tem). Revelar um filme e descobrir que queimou 34 das 36 fotos era uma sensação tão deliciosa que desde que surgiu a câmera digital eu nunca mais tirei uma foto sequer com uma analógica.
E ainda assim existem clubes de pessoas que se reúnem para tirar fotos com câmeras analógicas(!), russas(!), de plástico(!!!).
Tudo bem, rola aquele romantismo, aquela sensação de conquista advinda da dificuldade. Mas o engraçado é que nunca vi ninguém pedindo a volta da virgindade obrigatória pra casar (ou do Orkut).
Ombreiras, pochetes e mullets ainda estão na fase da desintoxicação, mas temo pelo que pode acontecer com eles no futuro caso algum fashionista resolva lançar um olhar 43 para algum desses fantasmas da moda do outono-inverno/primavera-verão passados.
Um descolado de hoje em dia anda num Fusca, usa suspensórios e blusas xadrez, gosta de chapéu de feltro, óculos da Audrey Hepburn, tira fotos usando uma Lomo, ouve música em fita cassete, consulta as horas em relógio de bolso e, não duvido, faz barba com navalha (mas sem a imagem de São Judas Tadeu, já que agora a moda é ser "ateu").
Quer dizer, faz a barba quase toda, porque ainda tem a obrigatória presença do bigode, que faz todo mundo ficar meio com a cara do tio do KFC. Tenho certeza que até Hitler rasparia o próprio bigode se conhecesse essa modinha. (sério, ainda não me conformei com essa do bigode).
Vou até parar por aqui.
Eu fui, todo mundo não foi
Postado em 2 de ago. de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário
Nem tudo o que dizemos é o que queremos dizer. O melhor exemplo disso é quando chamamos alguém de "filho da puta".
Ora, nesse momento você pode ter a intenção de dizer qualquer coisa. Que o sujeito é um cretino, um canalha, um calhorda, um caloteiro e para não ficar só em adjetivos iniciados pela letra "c", vacilão, sacripanta, ordinário, imagine qualquer coisa, e quase tudo vai caber no "filho da puta".
Só o que não cabe é um insulto à progenitora do indivíduo em questão. Jamais queremos falar algo sobre a mãe do cara e isso é um fato tão certo quanto o dele provavelmente ser mesmo um filho da puta. Seja xingando o juiz no estádio, lendo notícias do Congresso, nunca uma senhorinha fazendo crochê ou bolo de chocolate é a ofendida, mas sempre o filho dela.
Mas essa não é a única coisa que falamos sem pensar bem no significado (ou com outra intenção bem diferente do que o significado possui). Não estou falando de figuras de linguagem mais explícitas tipo "fica frio" ou "não esquenta", mas de frases que, levadas ao pé da letra, nos fazem parecer meio malucos.
Duas delas que sempre me deixam com vontade de rir são "todo mundo vai" e "não tem ninguém aqui".
Quando ouço alguém dizer "todo mundo vai", é impossível não pensar "vai o cara, o único amigo dele, um estranho que não tinha o que fazer e viu o evento no Facebook e o resto das pessoas da rua que nem sabem quem ele é".
Porque o "todo mundo", ainda que não queira dizer "todas as pessoas do mundo", não consegue nem mesmo chegar perto de todas as pessoas que você conhece.
Digo isso não em tom de reclamação, mas até de alívio, porque já se imaginou junto com o pessoal da república da sua faculdade, do seu ensaio do coral na Igreja, da sua antiga turma de escoteiros, a galera do surf, suas tias, suas avós, aquele sujeito que te zuava no colégio, o jornaleiro, o seu barbeiro, a depiladora que faz sua sobrancelha sem ninguém saber e mais todas as pessoas do seu mundo reunidas num só lugar, numa festa?
Só a imagem de um skatista com a cueca aparecendo chamando sua tia pra dançar ao som do coral já serve para desestimular qualquer simpatia pela experiência. Não tem como e nem por que "todo mundo" ir num lugar. Pro seu bem.
O outro termo engraçado é o "não tem ninguém aqui".
Digamos que você saia numa sexta-feira e vá para um bar. Você chega lá e não encontra nenhum conhecido, mas pelo menos um garçom vai estar ali, o que já elimina o "ninguém". Mas OK, sabemos que quando a gente diz isso queremos dizer "não tem ninguém que eu conheça aqui", só que ainda assim (e apesar da conotação que sempre damos) isso não é de todo ruim.
Se não tem "ninguém conhecido" no lugar, pelo menos o seu chefe não está ali. Nem a sua sogra. Nem aquele sujeito que te zuava no colégio. Não ter ninguém conhecido ali elimina seu vizinho chato, o zelador do seu prédio que vive reclamando do lixo que jogam fora da lixeira, aquele coroa que vai no seu barbeiro sempre que você está lá e assobia "Voa Canarinho Voa" e músicas do Molejo durante todo o processo em que faz barba, cabelo e bigode.
Não ter ninguém ali elimina o pessoal que só fala de novela o tempo todo. Elimina também gente que só fala de política o tempo todo, ou de futebol, ou papos cabeça, enfim, elimina todos os chatos que você conhece.
Além disso, esse fato faz com que todas as pessoas que estão ali sejam, pelo menos teoricamente, novas. Não tem ex-namorada, ex-amigo e nem aquele seu velho amigo skatista e ex-maconheiro que agora virou cantor de sertanejo universitário e vive te convidando pra participar de uma roda de violão com os sucessos de Chitãozinho e Xororó em ritmo de axé.
Só quem te enche o saco e pode estar ali é aquela operadora de telemarketing que liga todo sábado de manhã com uma incrível oferta do cartão Visa.
Mas aí não tem problema, porque você não vai conseguir reconhecê-la já que nunca viu sua cara e, de mais a mais, não tem ninguém ali mesmo, você está sozinho, vai que ela é gatinha...
Ora, nesse momento você pode ter a intenção de dizer qualquer coisa. Que o sujeito é um cretino, um canalha, um calhorda, um caloteiro e para não ficar só em adjetivos iniciados pela letra "c", vacilão, sacripanta, ordinário, imagine qualquer coisa, e quase tudo vai caber no "filho da puta".
Só o que não cabe é um insulto à progenitora do indivíduo em questão. Jamais queremos falar algo sobre a mãe do cara e isso é um fato tão certo quanto o dele provavelmente ser mesmo um filho da puta. Seja xingando o juiz no estádio, lendo notícias do Congresso, nunca uma senhorinha fazendo crochê ou bolo de chocolate é a ofendida, mas sempre o filho dela.
Mas essa não é a única coisa que falamos sem pensar bem no significado (ou com outra intenção bem diferente do que o significado possui). Não estou falando de figuras de linguagem mais explícitas tipo "fica frio" ou "não esquenta", mas de frases que, levadas ao pé da letra, nos fazem parecer meio malucos.
Duas delas que sempre me deixam com vontade de rir são "todo mundo vai" e "não tem ninguém aqui".
Quando ouço alguém dizer "todo mundo vai", é impossível não pensar "vai o cara, o único amigo dele, um estranho que não tinha o que fazer e viu o evento no Facebook e o resto das pessoas da rua que nem sabem quem ele é".
Porque o "todo mundo", ainda que não queira dizer "todas as pessoas do mundo", não consegue nem mesmo chegar perto de todas as pessoas que você conhece.
Digo isso não em tom de reclamação, mas até de alívio, porque já se imaginou junto com o pessoal da república da sua faculdade, do seu ensaio do coral na Igreja, da sua antiga turma de escoteiros, a galera do surf, suas tias, suas avós, aquele sujeito que te zuava no colégio, o jornaleiro, o seu barbeiro, a depiladora que faz sua sobrancelha sem ninguém saber e mais todas as pessoas do seu mundo reunidas num só lugar, numa festa?
Só a imagem de um skatista com a cueca aparecendo chamando sua tia pra dançar ao som do coral já serve para desestimular qualquer simpatia pela experiência. Não tem como e nem por que "todo mundo" ir num lugar. Pro seu bem.
O outro termo engraçado é o "não tem ninguém aqui".
Digamos que você saia numa sexta-feira e vá para um bar. Você chega lá e não encontra nenhum conhecido, mas pelo menos um garçom vai estar ali, o que já elimina o "ninguém". Mas OK, sabemos que quando a gente diz isso queremos dizer "não tem ninguém que eu conheça aqui", só que ainda assim (e apesar da conotação que sempre damos) isso não é de todo ruim.
Se não tem "ninguém conhecido" no lugar, pelo menos o seu chefe não está ali. Nem a sua sogra. Nem aquele sujeito que te zuava no colégio. Não ter ninguém conhecido ali elimina seu vizinho chato, o zelador do seu prédio que vive reclamando do lixo que jogam fora da lixeira, aquele coroa que vai no seu barbeiro sempre que você está lá e assobia "Voa Canarinho Voa" e músicas do Molejo durante todo o processo em que faz barba, cabelo e bigode.
Não ter ninguém ali elimina o pessoal que só fala de novela o tempo todo. Elimina também gente que só fala de política o tempo todo, ou de futebol, ou papos cabeça, enfim, elimina todos os chatos que você conhece.
Além disso, esse fato faz com que todas as pessoas que estão ali sejam, pelo menos teoricamente, novas. Não tem ex-namorada, ex-amigo e nem aquele seu velho amigo skatista e ex-maconheiro que agora virou cantor de sertanejo universitário e vive te convidando pra participar de uma roda de violão com os sucessos de Chitãozinho e Xororó em ritmo de axé.
Só quem te enche o saco e pode estar ali é aquela operadora de telemarketing que liga todo sábado de manhã com uma incrível oferta do cartão Visa.
Mas aí não tem problema, porque você não vai conseguir reconhecê-la já que nunca viu sua cara e, de mais a mais, não tem ninguém ali mesmo, você está sozinho, vai que ela é gatinha...
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