O Leviatã desgovernado

Postado em 19 de jun. de 2013 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

O inglês Thomas Hobbes é conhecido como defensor de um Estado forte. Em sua obra mais famosa, “O Leviatã”, ele discorre sobre a necessidade de um contrato entre os homens que possa livrá-los de sua própria insociabilidade.
O Estado poderoso representado pela gigantesca criatura que é o “Leviatã” surge a partir deste contrato e existe, portanto, pelos cidadãos e para os cidadãos.
Exerce assim o papel de garantidor de liberdades individuais, para que cada um possa ter “o que é seu” sem a necessidade de permanecer numa eterna luta pela vida e pelos seus direitos mais básicos.
Este Estado não surge como um promotor de igualdade, distribuidor de riqueza, facilitador de fusões de grandes negócios, patrocinador de filhos de seus funcionários. É simplesmente um garantidor de direitos, da propriedade e aplicador do poder das leis, para que “ninguém possa tomar de outro aquilo que não é seu de direito”.
Por isso mesmo é que com um pouco de paciência, poderemos observar a presença de matizes liberais na obra de Hobbes, matizes estas que se tornam ainda mais interessantes quando as pensamos em relação ao que ocorre no Brasil.
Ora, um Estado demasiadamente inchado, corrupto, ineficiente, com grupos organizados lutando entre si pelo poder dentro dele, com um saque generalizado de recursos públicos que são desviados para o bem estar particular destes grupos em detrimento do país, pode facilmente ser enquadrado como um novo estado de natureza, agindo desta vez dentro dos limites do Estado.
Uma luta de lobo contra lobo, valendo sempre a lei do mais forte, do mais influente, de quem tem mais a oferecer dentro do “toma lá, dá cá”. A impunidade para bandidos de estimação, a sensação de que “está tudo dominado”, tudo isso não é uma faceta do estado de natureza, do vale tudo, ainda que sob um verniz institucional?
Eu respondo sem medo de errar: sim.
Uma democracia é feita por maiorias, mas não somente maiorias. Um parlamento que não legisla, que não mantém uma oposição ativa e altiva, que não tem representatividade moral, não pode fazer parte de uma democracia saudável.

A distribuição de cargos, verbas, vagas em estatais são fenômenos deste estado de natureza tropical brasileiro. Basta olharmos para os Estados Unidos e vermos se conseguimos achar algo próximo de um Mensalão por lá.
É tarefa impossível, porque sem um estado corrupto, inchado, lento, desordenado e desgovernado como o nosso, o fisiologismo e a luta do homem contra o homem é quase impossível. Só o subdesenvolvimento ou a regressão democrática podem levar um país a este tipo de degradação.
Hobbes dizia que a liberdade natural é um rio que as margens e barragens que delimitam este rio são as leis e a liberdade civil.
Assim como as leis são as margens que controlam o fluxo da liberdade individual, a liberdade individual deve funcionar como a comporta que controla o fluxo do exercício do poder.
Sem isto, perdem-se limites e o Estado deixa de existir para e pelos cidadãos, passando a ser um fim em si mesmo. Não funciona mais como mecanismo de controle deste fluxo de liberdades que energize a sociedade, mas como uma onda desgovernada que termina por submergi-la neste novo e destrutivo estado natural.
Assim é o Brasil, este Leviatã desgovernado.

O indeciso

Postado em 12 de jun. de 2013 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Dizem que para ser um bom líder é preciso ouvir muito as pessoas, saber filtrar opiniões, delegar funções e escolher o que for melhor para o sucesso do trabalho a ser realizado.

Dizem também que não devemos confundir teimosia com perseverança, auto-confiança com pretensão, determinação com chatice. É tanta coisa para lembrar que fica difícil não se confundir e virar um desses tipos com personalidade bipolar, tipo o determinado-desanimado, o bem-humorado-injuriado, o corajoso-cagão.

Mas de todos um dos que podem ser mais irritantes (ou engraçados, se você não depender deles para nada) são os decididos-indecisos. Quem é danado para ser assim é governante que escuta muito o que o marqueteiro tem para dizer.

Grupos de foco e pesquisas de opinião são uma beleza, mas o cara precisa saber o que quer, antes que todo mundo comece a querer por ele. E assim é o líder indeciso.

Viciado em pesquisas de opinião, o indeciso desconfia até do próprio marqueteiro. Por isso tem dez deles. E não acredita piamente em nenhum dos 10. Assim faz o que todos eles sugerem ao pé da letra, só para garantir.

As suas ações são fáceis de identificar. Ele dirá na TV que vai construir uma ponte, mas talvez seja um túnel, ainda que não esteja descartada a idéia de substituir ambos por um aquário para shows com animais marinhos. O líder indeciso é aquele capaz de interromper todo mundo no meio de uma reunião e dizer:

- É isso!

E todos sorriem aliviados. Ele tomou uma decisão! Só que o líder indeciso continua:


- Mas talvez não, o que vocês acham? Ou será que é melhor sim? Sim, sim, quer dizer, não. Não quero nem saber, vamos fazer e pronto! Doa a quem doer. Custe o que custar! Mas não agora. Pensando bem, vamos resolver isso amanhã, porque amanhã tenho certeza que a resposta pode ser um peremptório não.

A cidade governada por um prefeito indeciso tem um quartel de bombeiros dentro da biblioteca, porque um grupo de foco disse que queria um, mas o outro grupo disse que preferia o outro. 

E até que a idéia foi legal, já que se os livros pegarem fogo, o socorro chega rápido. O único problema são as sirenes atrapalham um pouco a leitura.

Ele também vai construir ma praça em cima de um viaduto, o que até seria uma revolução arquitetônica, caso a praça se não estivesse no meio da pista, o que além de atrapalhar o trânsito, faz com quem ninguém consiga chegar nela, já que eles esqueceram de colocar as passarelas, que por sua vez foram esquecidas nos questionários das pesquisas de opinião.


Foi um diretor de cinema indeciso que criou algo como o filme "Sharknado", que mostra tornados que sugam tubarões do oceano e os fazem voar para os céus. Tudo isso porque eles não sabia que fazia um remake de Guerra nas Estrelas ou de Lassie.

Talvez seja daí que surjam coisas como a Torre de Pisa, que um chefe indeciso mandou demolir mas desistiu no dia seguinte, ou o metrô do Rio de Janeiro, que começou como um metrô mesmo, mas depois o chefe resolveu que seria melhor fazer um trem fantasma.

Quer ver um belo exemplo de projeto executado por um chefe indeciso? Um ornitorrinco, com bico de pato e jeito de panda.

Pensando bem, gente indecisa até que pode ser bem legal.

Ou não.

A sociedade do "cale-se"

Postado em 5 de jun. de 2013 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Se tem coisa que me irrita é a "expressão militante". 

Veja bem, não é a expressão "militante", mas uma expressão qualquer que deixa de ter a sua semântica normal e passa a representar um monte de outras coisas dentro de um contexto que terminam por torná-la insuportável.

Tome por exemplo "homofobia". 

Procure num dicionário o que isso quer dizer e em nada parecerá com o que ela traz em si hoje.

Quem vai num prosaico pai-dos-burros online, encontrará: "aversão irreprimível, repugnância, ódio, preconceito que algumas pessoas, ou grupos nutrem contra os homossexuais, lésbicas e bissexuais".

Mas quando isso é transportado para a nossa realidade, vem logo à mente uma parada gay com pessoas fazendo obscenidades em via pública (chocando em nome do direito de não chocar), militantes de internet ofendendo qualquer um que ouse não repetir o mantra "gay é belo", novelas e programas de TV forçando a barra no tema, kits de educação do Haddad (o ministro da educação que achou boa idéia ensinar para crianças em idade escolar que "ser bissexual é legal porque você tem 50% a mais de chances de se divertir") e, claro, a figura controversa (e para mim xexelenta) do Jean Wyllys.



Acaba que você esquece do termo e passa a ter "fobia" da sua repetição enfadonha e vazia, que termina virando uma espécie de palavra mágica para encerrar qualquer discussão.

Tal como "racista!", o "homofóbico!" é de uma truculência digna de um cassetete da PM, de um brutamontes que agride os outros na rua por causa de sua opção sexual, de uma censura prévia.

Retira-se do interlocutor o seu direito à livre manifestação de idéias e coloca-o nas cordas, defendendo-se do que talvez nem seja, esquecendo o tema central e voltando-se para a acusação que vai fazer quem ousa discordar do "gay é belo" sentar num banco dos réus e, desesperado, dedicar-se tão somente à livrar-se da "ira dos justos".

Depois de uma experiência assim, quem ousará discordar novamente? E todo mundo segue bovinamente aplaudindo a nova sociedade da "tolerância" que, em nosso caso atual, é a sociedade do "cale-se".

Cale-se. Seja tolerante.

A constituinte exclusiva para fazer uma reforma política

Postado em 29 de mai. de 2013 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Poeminha para quem acha que fazer leis, ao invés de cumprir leis, resolve tudo:

O rei
só descobriu 
o limite da lei
quando baixou decreto até proibindo a chuva
e ao sair na rua
se espantou,

- Ué, me molhei?

Vamos para a rua! Depois pensamos no porquê

Postado em 22 de mai. de 2013 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Do lado de fora da faculdade a turma já se aglomerava na calçada do bar, todo mundo pintando os rostos, confeccionando cartazes, empunhando bandeiras vermelhas e testando palavras de ordem.

- Quem não pula, quer aumento! - Berrava uma moça de cabelos desgrenhados e saia hippie até o pé.

O restante respondia:

- Quem não pula, quer aumento, quem não pula, quer capitalismo, quem não pula, fica parado!

Só de entoarem esses cantos eles sentiam que o mundo começava a mudar magicamente . Alguém sugeriu que se abraçassem e cantassem a Internacional Socialista, mas um barbudinho de boina cubana disse que era melhor não.

- Ainda não, companheiros, não queremos assustar o povo revelando tudo ainda. Vamos por partes, primeiro é a indignação contra os vinte centavos de aumento na passagem!

Falou isso sem perceber que a confusão na porta do bar impedia que o faxineiro da faculdade e a tia da cantina passassem pela calçada, obrigando os dois proletários a andar no meio da rua, sob risco de serem atropelados por algum dos carros oficiais que passavam por ali indo para a inauguração de mais um estádio superfaturado construído para a Copa do Mundo.

Aqueles vinte centavos de aumento foram a gota d'água! O STF sendo loteado por advogados de defesa do PT, a Petrobras servindo de cabide de emprego para a companheirada e cobrando pelo litro da gasolina um valor que alimentaria uma família da Somália por um dia, os passaportes diplomáticos dos filhos do Lula, as escolas formando idiotas úteis esquerdopatas justamente como sonhou Paulo Freire, dentistas queimados por menores que são tratados como moleques travessos, um salário mínimo vinte vezes menor do que ganha um parlamentar, os monopólios das empresas de ônibus, os roubos das empreiteiras, enfim, o Brasil como o Brasil é, nada disso serviu para que aqueles revolucionários de calça jeans surrada, bolsinha peruana a tira-colo e óculos de John Lennon tomassem uma atitude, mas os vinte centavos, sim, aquilo ali é um absurdo!

O "primeiro passo" é a redução da passagem. Os passos seguintes são o "passe livre" e a derrubada do sistema. Não interessa que qualquer ser com polegares opositores saiba que não existe almoço grátis, uma das metas é um transporte "público, gratuito e de qualidade", o que basicamente é o mesmo que entrar numa churrascaria rodízio e pedir uma picanha de camarão vegetariana.

Marx morreu há bem mais de 100 anos, os países que adotaram suas teorias entraram em colapso há mais de duas décadas, sobrando apenas algumas ilhas de miséria e repressão, o marxismo, enfim, morreu há bastante tempo.


O problema é que os marxistas continuam todos por aí, lutando contra a história.

Mas a revolução não tem tempo a perder com bobagens como a lógica e os fatos, então todos os universitários ali presentes vão para a rua berrar contra o "sistema" e depois entrar nas redes sociais para xingar o Arnaldo Jabor, o Lobão, o Reinaldo Azevedo ou o William Bonner, com mais ódio e bile escorrendo do que jamais mereceram brasileiros respeitáveis como José Dirceu, José Genoíno ou Delúbio Soares, fora a Rose. Fora o resto.

Mensalão, uma PEC tolhendo o poder de investigação do Ministério Público, taxações que transformam a prestação de serviços e venda de produtos com qualidade Brasil custarem preços que não custam nem com qualidade Europa, artistas consagrados, como diria o Morgenstern, "rouanetizando" a grana dos nossos impostos, o "tudo" sucateado no país, nah, não interessa dar nomes aos bois, a turma reunida ali na frente do bar vai para a rua berrar "contra tudo isso que está aí", de forma "apartidária", desde que se exclua desse "todo" tudo o que realmente faria diferença.

Inflação? Coisa da mídia. Corrupção? Preocupação da "classe média" puritana. Impostos que nos obrigam a trabalhar meses para sustentar um paquiderme ineficiente estatal? Coisa de elite que hoje tem raiva porque os pobres podem comer, afinal, nada causa mais alegria em ricos do que a fome dos pobres.

Esqueça iates, jatinhos, viagens, hotéis de luxo, banquetes. Bom mesmo é ver os outros passando fome. Deve ser por isso que em Cuba e na Coréia do Norte existe tanta gente que os marxistas tupiniquins torcem para continuar se alimentando com uma dieta que faria um hamster emagrecer.

Mas vamos para a rua quebrar tudo porque as passagens aumentaram 20 centavos. Tudo aumenta (só quem efetivamente faz a compra do mês, ao invés dos pais, sabe disso), mas a preocupação agora é passar a tesoura nesses 20 centavos e depois passar a foice no sistema.

A martelada na "burguesia" fica para o segundo tempo.

O fim do monopólio garantido pelo Estado para as linhas de ônibus seria o método mais seguro para melhoria da qualidade do serviço e redução do preço das passagens, mas a turma na porta do bar não quer saber disso, eles querem é mais Estado, pedem mais Estado, sonham com mais Estado.

Tudo isso enquanto protestam contra o Estado.

Texto inspirado no inspirador texto do Flávio Morgenstern, disponível aqui: https://www.facebook.com/flaviom/posts/10201360884013975
 
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