Bons companheiros

Postado em 30 de dez de 2010 / Por Marcus Vinicius

Li recentemente que a revista médica britânica "The Lancet" publicou um ensaio que classificava a solidão como um problema de saúde pública deste século.

Pra quem nunca pensou no assunto ou se sentiu assim, solidão é aquela coisa bem parecida com a companhia de alguém que usa smartphone. Especialistas inclusive dizem que algo precisará ser feito em um curto espaço de tempo.

Afinal, sabe como é, com os avanços da medicina e da qualidade de vida nós vivemos mais, e com isso temos mais tempo para encher o saco de um monte de gente e, finalmente, terminamos sozinhos.

Tudo bem que nem todos são assim, existem os que se aturam, os que fingem se aturar, as relações por interesse e, pasme, até mesmo aquelas pessoas que ficam juntas umas das outras porque querem.

No ensaio da tal revista, a médica que escreveu o artigo relata que certa vez uma senhorinha a procurou no plantão, em plena época de festas de fim de ano, se queixando de uma série de problemas que nenhum exame conseguia detectar.

Durante a consulta a idosa acabou contando que era viúva há 20 anos, que seus filhos moravam longe e por isso ela passava longos períodos sozinha. Terminou fazendo um pedido singelo e perturbador à doutora: "você pode me dar um remédio para a solidão?".

Com certeza uma das funções das festas de Natal e Ano Novo - além do consumismo, da ingestão exagerada de comida e bebida e do endividamento do cidadão - é aguçar melancolias, medos e sensações de solidão. Como se precisássemos de eventos globais como esse para ter essa noção.


Sempre que você achar que está sozinho no mundo, pare de achar isso, tenha certeza. Tirando alguns membros mais próximos da sua família (que geralmente serão seus pais mesmo) e alguns amigos verdadeiros (que não serão mais do que um ou dois, com sorte) você está mesmo sozinho no mundo. Entenda e aceite isso e, por incrível que pareça, você será mais feliz.

Toda essa conversa me faz lembrar dessas pessoas que se recusam a ir sozinhas ao cinema. Ora, meu amigo, a atração ali é o filme, de todos os problemas que você tem na vida, ir sozinho ao cinema nem pode ser considerado um, concorda?

Jantar sozinho, andar sozinho, morar sozinho. Tudo bem que as coisas boas da vida são melhores ainda quando as compartilhamos com alguém, mas atente sempre para este verbo: compartilhar.

Uma pessoa tolhendo, criticando, reclamando e enchendo o saco não presta para nada. Pode acreditar em mim: se é impossível ser feliz sozinho, é mais impossível ainda ser feliz em certas companhias.

Talvez seja por isso que eu conheça pessoas que passam a nítida impressão de que só casaram para compartilhar a infelicidade individual. É uma espécie de repulsa à solidão infeliz, que acaba por unir infelicidades.

São aquelas uniões onde o divórcio é a coisa mais natural e alto-astral que pode acontecer.

Mas eu entendo o pavor que alguns sentem da solidão, sério. Ainda que prefira estar sozinho do que acompanhado de um cretino, sei que tem muita gente que é tão cretina que tem verdadeiro pavor até mesmo da própria companhia, daí precisa ficar rodeado de gente, não importando muito a qualidade do que o rodeia.

Isso funciona mais ou menos como é em relação à felicidade: você não precisa aprender a ser feliz, isso todo mundo nasce sabendo, você precisa é saber como lidar com a infelicidade.

A solidão funciona do mesmo jeito: viver bem acompanhado é fácil, difícil é viver bem acompanhado só de você mesmo. Amizades são muito, muito boas mesmo, mas o seu melhor companheiro será sempre você, afinal, não existe a possibilidade de "se" dar um pé na bunda.

Qualquer um que seja mais chato do que você, não serve para te acompanhar, por isso seja seu melhor companheiro, se isso for possível é claro.

9 Comentários:

Julie postou 30 de dezembro de 2010 06:48

Muito bom! Adorei =)
Mais como você disse,o dificil é 'aprender a viver sósinho' .. Se todas as pessoas praticassem isso,talvez o mundo 'menos pior' ;D

Anônimo postou 30 de dezembro de 2010 06:50

Adorei!!!
Eu sou adepta "daquela velha frase": "Antes bem só do que mal acompanhada" rs
A pessoa que amadurece sabe aproveitar seus momentos de solidão e ir ao cinema, ao teatro, tomar café, jantar, vaajar, ir onde bem quiser!
Apoio!
O modo direto de escrever tá ótimo :-)
@Simonecamaleoa

Vanessa postou 30 de dezembro de 2010 06:58

Você escrve muito bem. Talvez já tenham lhe dito isso antes.
Muito interessante o que escreveu e concordo não só com o que li neste post como em vários outros seus.
Abraço, Vanessa

Maria Fernanda postou 30 de dezembro de 2010 06:59

Concordo com tudo!
Eu, como filha única, apesar de sempre ter tido muitos e muitos amigos, acabei tendo que aprender a me bastar. Hoje gosto demais de ir ao cinema sozinha, ir almoçar sozinha, enfim, esse tipo de coisa. Nada melhor do que um tempo só pra voce, no meio de tanta gente.
Aliás, eu sempre achei que filhos únicos tem mais chance de serem independentes. Eu mesma percebo isso. Todos meus amigos que tem família grande, com muitos irmãos etc, tem pavor de fazer qualquer coisa sozinhos. Cresceram nesse ambiente de muita gente, muito movimento e não conseguem ficar sem isso.

Lógico que muita solidão, como a da velhinha, deve ser desesperador. Mas um pouquinho de solidão, principalmente se for usada pra refletir e aproveitar a si mesmo, faz bem a qualquer um!
Adoro o blog, beijos!

Gustavo Ca postou 30 de dezembro de 2010 09:30

É como escreveu Fernando Pessoa, "se te é impossível viver só, naceste escravo."

Anônimo postou 30 de dezembro de 2010 10:00

Gostei do texto, mas considero as festas de Natal e Ano Novo justamente as épocas em que as pessoas não ficam sozinhas. Discordo quanto a essa epocas aguçarem as sensações de solidão de alguém.

Quanto a outra possibilidade de ser impossível de "se" dar um pé na bunda, também discordo. Quantas vezes já não me fudi sozinho rs?

Anônimo postou 30 de dezembro de 2010 11:26

moço, parabéns pelo texto... dá para pensar e puxar uma reflexãozinha.

Muito bacana, vou voltar para ler mais coisas.

valeuu

@veleiro (by twitter)

Susy postou 30 de dezembro de 2010 13:03

Texto ótimo como sempre.

Tenho que concondar com a MARIA FERNANDA ai em cima que comentou exatamente o que tbm penso sobre os filhos únicos.
Não sei se isso é mal de filho único ou eu que me basto as vezes mesmo.

Lógico que como voce citou estar em boas companhias é divertido, mas
ficar sozinha é tão bom, conversar consigo mesmo( mesmo algumas pessoas dizendo que é loucura falar sozinho rs)mas ter um tempo pra si mesmo é sempre bom

ir ao cinema sozinho é ótimo, queria sinceramente saber qual o bloqueio que as pessoas tem com isso.

Mas enfim, mais um post super bacana.

Maysa postou 31 de dezembro de 2010 09:00

Antes de mais nada, ao meu atual escritor preferido, e como escreve bem,FELIZ ANO NOVO! Sozinho ou bem acompanhado, de preferência não escutando axés, pagodes e sertanejos (sei que você tem bom gosto)...
Mais um texto que mexe com a gente, e como eu fujo de gente já nem sei mais o que seja solidão...
Concordo que fim de ano é tempo de melancolia, mas a gente "guenta"...
Cada vez você escreve melhor e se torna mais intimista. Bravo!
Bjos Angela

 
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