A favelagem carioca

Postado em 3 de dez de 2010 / Por Marcus Vinicius

Essa cobertura extensa da tomada do "Complexo" do Alemão pela polícia e pelas forças armadas serviu para mostrar um monte de coisas, entre elas o estado de favelização completo em que se encontra o Rio de Janeiro.

Para se ter uma idéia do tamanho do problema, apenas esse conjunto de favelas do Alemão -  que é um dentre muitos - se extende por 15 bairros da cidade, degradando o meio ambiente e emporcalhando a visão.

A cidade sempre sofreu com este problema, desde quando era capital federal e recebia trabalhadores de todo o Brasil até os dias atuais, onde o preço do metro quadrado atinge níveis inimagináveis para um lugar com tantos problemas de infra-estrutura como é o Rio de Janeiro.

Nos espaços onde hoje estão a UERJ (no bairro do Maracanã) e o Parque da Catacumba (na Lagoa Rodrigo de Freitas) antes existiam favelas. Outros locais hoje recuperados da cidade como o Planetário também eram tomados por barracos na década de 60.

A diferença é que os governos daquela época - hoje taxados de higienistas e "anti-pobres" pela indústria faveleira, porque na cabeça deles querer uma cidade mais bonita virou crime - faziam algo efetivo para diminuir o problema e achar soluções reais, que é a remoção e o reassentamento.

Hoje em dia as favelas se tornaram grande fonte de dinheiro, prestígio e votos. São associações de moradores, políticos que fazem currais eleitorais, milícias, empresas que vendem gás e outros serviços, vans e Kombis, gatos de luz, de net, de água, jogos ilegais, agiotagem e, claro, muita especulação imobiliária que se unem para garantir os seus negócios e que o Rio de Janeiro jamais se livre da montanha de barracos que enfeia o seu visual.

Dizem que não se pode tirar aquelas pessoas simplesmente, que é "obrigatório" que as coloquem em locais próximos de onde existe a favela atualmente, como se uma invasão fosse algum direito, como se um imóvel dado ou subsidiado pelo estado já não servisse para satisfazer o direito à moradia.

Uma coisa é morar, que realmente é um direito de todo cidadão, outra coisa é a localização, que é mérito.

Mora em Ipanema quem pode.

Mas como enfrentar essa indústria e esse pensamento padronizado que foi imposto à sociedade demanda riscos políticos, nossos governantes preferem se omitir e não fazer nada a respeito. E quando tentam, logo são lembrados dos prejuízos eleitorais que podem sofrer com isso.

A Lagoa da qual hoje o carioca se orgulha tanto era assim, se fosse hoje,
na era do "direito", imaginem que gracinha seria...

Afirmações e loas cretinas como "favela não é problema, é solução", "Viva a Favela!", e também filmes e outras manifestações artísticas que tentam convencer pela repetição de que aquela degradação da cidade é na verdade um bem "cultural", tudo isso junto com ONGs que vivem muito bem da graninha que arrumam defendendo a favelagem e os sempre presentes "Movimentos Sociais", fazem do Rio de Janeiro um lugar que beira a insolvência urbanística.

Suas ruas apertadas, sua geografia peculiar e o paredão de barracos que sitiam a cidade são a prova disso.

Recentemente o prefeito resolveu remover uma favela chamada "Favela do Metrô", justamente porque fica colada à linha férrea, o que por si só já seria razão mais do que justificável para remover tudo dali. Mas some-se a isso oficinas mecânicas ilegais, desmanches de veículos, carros abandonados e áreas públicas invadidas. O local seria limpo e transformado em parte do novo Complexo Esportivo do Maracanã, que sediará a final da Copa do Mundo.

Pois bem, as tais ONGs, Movimentos Sociais e a indústria faveleira já se uniram e começaram a fazer escândalo contra isso. "Não podem tirar a 'comunidade' dali", "algumas pessoas estão ali há 40 anos!","isso é uma violência!".

Quer dizer então que se eu roubar um carro e conseguir ficar com ele durante 40 anos ele passa a ser meu? Sei que o exemplo é extremo, mas tudo nessa história o é. Não podem tirar a "comunidade" porque? Porque compraram terrenos invadidos da mão dos invasores? Isso é uma "violência" porque? Porque remover pessoas de um local infestado de barracos para colocar em imóveis populares ofende o princípio básico da indústria faveleira que é "depois que invadiu, ninguém mais tira"? Até em áreas de risco comprovado a tarefa da remoção é quase impossível por conta de tanta pressão política.

E a violência contra a cidade que esse monte de favelas representa? A sujeira, a feiúra, a degradação, a informalidade? Isso tudo merece ser premiado?

E tome urbanização, teleférico, maquiagem, porque isso tudo dá voto e perpetua a dinheirama que essas "comunidades" fazem girar diariamente. Solução mesmo que é bom, nada.

E o Rio de Janeiro, que um dia já foi realmente a tal "Cidade Maravilhosa", segue na sua triste sina de violência, caos urbano e descida da ladeira.

8 Comentários:

martacadelinha postou 3 de dezembro de 2010 07:53

Concordo com vc, q a favelização é um problema. Mas falta vontade política de acabar com isso. Agora q a porta está arrombada eles querem colocar cadeado! O Brasil conforme eu já disse, é um país q mata o boi para acabar com o carrapato. Nunca, nunquinha, eles (os políticos), vão abrir mão desse grande curral eleitoral.

Michelle postou 3 de dezembro de 2010 08:24

Gostaria de te parabenizar pela coragem. Dificilmente as pessoas dizem coisas que no fundo querem dizer, mas não é politicamente "correto". Semelhante, ao desejo que todos tiveram enquanto assistiam aqueles bandidos fugindo pelo alto do morro.

Michelle postou 3 de dezembro de 2010 08:24
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel postou 3 de dezembro de 2010 08:43

Já li outros textos seus sobre favela e sempre aplaudo em pé, e sei como é difícil defender esse ponto sem ser acusado de uma série de barbaridades. Quando vejo fotos do Rio antigo dá até pena de ver no que ele se transformou. Às vezes dá raiva, mas muitas vezes é tristeza mesmo, já que é a cidade que faz parte da minha história de vida.
Bjs
PS: ninguém ainda te chamou de "paulista recalcado"? rsss

assino mamãe… postou 3 de dezembro de 2010 09:08

Parabéns! Vc colocou o dedo na ferida!
Isso que está claro para a maioria das pessoas com alguns neurônios funcionando, é a pedra de toque da governança ordinária que se assenhoreou do Brasil!
O bom hj é ser pobre e ficar na fila com as mãos estendidas à espera das benesses!
Aqui em SP, em terrenos invadidos e propensos a enchentes e desabamentos, qd sofrem as tragédias, as pessoas fazem fila para esperar o "bolsa-aluguel".
E não acham que 400 reais chega não! Invadem prédios particulares e qd são despejados tb fazem jus ao bolsa aluguel, imagine vc!
E eu aqui, que pago impostos e financio essa barbada toda, se minha casa cair vou para o olho da rua sem direito a bolsa alguma…
Entendeu o funcionamento?
Está em implantação neste país um sistema socialista que tira dinheiro da classe média (não dos ricos, nem dos pobres, muito menos dos políticos e governantes) para financiar toda e qualquer barbaridade que passe na cabeça dos populistas. Aonde isso vai nos levar ninguém sabe e nem se importa.
É o caos!

Karina postou 3 de dezembro de 2010 09:22

Como foi dito no filme "Tropa de Elite 2", tudo isso porque "o sistema é foda" e isso tudo faz parte do "sistema".
Se candidata, que eu voto em você, sou sua fã!

Marise postou 3 de dezembro de 2010 09:46

Como cidadã carioca, "carioca da gema", assito com muita tristeza a degradação da minha cidade.
Sou obrigada a concordar que de "maravilhosa" ela só tem alguns traços, como aquela senhora com mais idade e que não se cuidou.
A gente vê que um dia foi bonita, mas está bem longe de ser agora.
Tomara que toda esta movimentação em torno do " Alemão", resulte em alguma coisa concreta e útil para a cidade.
Beijos

Rodrigo postou 3 de dezembro de 2010 11:55

Ótimo texto. Não vi nenhum comentário contra. Esperava mais polêmica nesse texto.
Mas, eu concordo também. Apesar de achar que é meio difícil remover aquele monte de gente das favelas. Imagine você, milhares de pessoas sendo obrigadas a desapropriar de "suas" humildes residências pelas quais lutaram 40 anos pra "conquistar". Seria uma bagunça danada. Pra onde iriam essas pessoas? Eles estão errados, claro. Mas estão ali porque realmente não há possibilidade de se viver em outros lugares (há aqueles que tão por pura safadeza mesmo... mas a grande maioria é resultado da deigualdade social e má distribuição de renda desse negócio que chamamos de país) São seres humanos né... ali eles fazem a sua história, são fincadas as suas raízes... a maioria sente orgulho e não quer sair da cidade onde nasceu... é complicado.
O governo não quer causar uma euforia em massa. Se tivessem controlado desde o início...

 
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