Você ainda precisa comer muito menos quilo pra virar elite...

Postado em 20 de dez de 2010 / Por Marcus Vinicius

Nada é mais classe média pequeno-burguesa do que um restaurante de comida a quilo ou um rodízio.

Mas a repetição acabou convencendo grande parte dessa classe média de que ela é uma elite, uma casta de eleitos que é invejada e combatida pelas esquerdas sensíveis, politicamente corretas, ecológicas e de calcanhar rachado.

Bobagem. Se você compra qualquer coisa parcelada, precisa trocar marchas do carro e come em restaurante a quilo, pare de babaquice, você não faz parte de elite nenhuma.

Num país de miseráveis como o Brasil, você pode até ser privilegiado, mas aqui até quem tem um Fusca de certa forma já é.

A classe média adora levar a família para almoçar, pisar naquelas lajotas engorduradas e encher um prato do tamanho de um sombrero mexicano com os mais variados tipos de comidas.

Essa aliás é outra característica da ostentação kitsch muito característica desses lugares: servem churrasco, feijoada, sushi e paella como se estivesse servindo sopas, saladas, peixes, carnes e sobremesas.

Os que se consideram mais finos evitam misturar feijão com strogonoff (outra iguaria que é a cara da classe média), mas a maioria entope o prato com picanhas e sushis mesmo.

Procurar uma vaga no estacionamento do shopping, dirigindo o carro alienado ao banco, para comprar as almofadas da sala do novo apartamento financiado em 30 anos não é coisa de elite.

Imagina o Eike Batista ou o Antônio Ermírio numa fila da Tok&Stok, comprando uma mesa de fórmica para a casa de praia, parcelando a compra em seis vezes sem juros. Consegue? Nem eu.

A casa de praia é outra dessas coisas que define bem a elite verdadeira dessa elite neurolinguística.

O verdadeiro membro da elite vai para Angra ou para o litoral paulista de helicóptero. Fica em alguma casa numa ilha ou praia deserta, não descasca nem a laranja do suco que toma no café da manhã. Quando sai do iate depois de passar o dia nadando, vai almoçar na filial do mesmo restaurante que frequenta no Leblon ou nos Jardins, ao preço de um aluguel por refeição.


A elite neurolinguística - aquela que repete tanto pra si que é elite, que acaba acreditando - enfrenta quilômetros de engarrafamento, pára no meio do caminho para comer pastel ou polenta, chega por uma rua de terra na casa de praia fechada há uns quatro meses - desde o último feriado - e ainda precisa tirar o pó de tudo, colocar os mosquiteiros nas janelas, limpar a mesinha de fórmica que comprou na Tok&Stok ou no Makro e lavar os pratos Duralex comprados no supermercado depois de almoçar.

Aí pergunto outra vez: você imagina o Nelson Piquet ou o Luciano Huck separando lençóis e fronhas velhos para deixar na casa de praia ou então acordando às sete da manhã para ir pra fila da única padaria do balneário comprar o pão pra tomar café antes de ir pra praia?

Você imagina o Sarney ligando para uma pizzaria ou algum herdeiro do falecido Roberto Marinho chegando atrasado no escritório porque teve que esperar a entrega das Casas Bahia?

A classe média não odeia pobre, tem é medo da pobreza. Rico também não odeia pobre, só esquece que eles existem.

A classe média tem orgulho do seu smartphone com plano de dados, rico tem uma secretária para fazer suas ligações (mesmo se estiver na praia).

A classe média compra viagra, rico coleciona amantes.

A classe média usa pulseirinha VIP, rico é VIP sem pulseirinha.

A classe média tem sonhos de consumo, rico consome.

E caso reste alguma dúvida, responda rapidamente: crédito ou débito?

Respondeu? Então você não é elite.

7 Comentários:

Jéssica Fontella postou 20 de dezembro de 2010 08:17

Simplesmente a pura realidade =D
Muito bom !

Caio postou 20 de dezembro de 2010 08:30

hahaha pra ser rico e preciso ter nascido rico. senao, sera so um pobre que "venceu na vida". Sou rico graças a Deus

Pands postou 20 de dezembro de 2010 08:39

Podem dizer que não tenho ambição, tenho o pensamento limitado ou qualquer coisa do gênero, mas não receio em dizer que dessa elite citada no texto eu jamais quero fazer parte. Claro, dinheiro é muito bem vindo, mas se acompanhado de toda essa formalidade, dessa forma insossa de se viver, acho que não preciso de tanto dinheiro assim. Frases como 'não descasca nem a laranja do suco que toma no café da manhã' é que me fazem ter cada vez mais certeza do que afirmo. Tem coisa mais gostosa do que viajar com amigos, pegar a estrada, chegar na casa de praia empoeirada, fazer aquela bagunça, se virar pra preparar uma refeição improvisada de última hora.. ? Prefiro viver assim, do meu jeito, mas viver. Antes isso do que ter o bolso cheio de grana a ostentar e ser privado das coisas essenciais que ela não pode comprar.

Jubarulho postou 20 de dezembro de 2010 10:19

Há tempos não comento, mas estou sempre por aqui. É que esse foi demais!!!

Faço parte da galera q pega estrada e tudo o mais q vc falou, infelizmente.

Pq, na boa? Se eu pudesse, preferiria ir pra praia com a galera sim, mas de helicóptero, fazer a bagunça toda, mas sem ter que arrumar depois e comer bem, muito bem, sem ter que ficar fazendo vaquinha pra cerveja que acabou... Ah! cerveja, esta, que foi transportada no meu carro q ficou parecendo rebaixado de tanto peso, só pq lá embaixo ela é mais cara...

Enquanto isso: crédito, por favor.

Silvia postou 20 de dezembro de 2010 11:11

"SÓ um pobre que venceu na vida"? Pois nascer pobre, trabalhar, lutar para conseguir suas coisas, dar valor ao que tem porque suou para conseguir possui MUITO MAIS VALOR do que nascer rico, ter tudo de mão beijada e viver essa vida surreal descrita no texto. O rico inteligente, nascido nessa condição ou proveniente das classes mais desfavorecidas valoriza o que tem, trabalha e não ostenta nem esbanja. Comentários como esse só podem sair da boca de um filhinho de papai que nem sabe o que está falando.

Adriana Lima postou 21 de dezembro de 2010 09:44

Ok, estou um dia atrasada, mas não poderia deixar de comentar esse post pq é muito bom! Principalmente o final, em que você esclarece muito bem quem é rico e quem não é.
Eu sempre consigo ler nas entrelinhas do que você escreve (não sei se é essa sua intenção), e acho que, ao contrário do que o pessoal comentou anteriormente, sobre ser pobre com orgulho ou dar valor a quem subiu na vida, nós, a "classe média", temos é que parar com essa babaquice de achar que podemos mais do que outros. Realmente, sempre vejo umas fulaninhas que ficam todas imponentes só pq estão com uma bolsa Luis Vitton, mas detalhe: dentro do Metrô lotadão, e provavelmente a compra foi parcelada em 10X! Rico mesmo nem sabe o que é transporte coletivo...

Letícia postou 21 de dezembro de 2010 11:25

"A elite neurolinguística - aquela que repete tanto pra si que é elite, que acaba acreditando..."
Sensacional! Fazia muito tempo que não ria tanto, meus parabéns =)

 
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