Diga-me com quem amas, que te direi quem és

Postado em 8 de dez de 2010 / Por Marcus Vinicius

Dizem por aí que aquele que ama o feio, bonito lhe parece. Não sei se é verdade - eu particularmente acho que existe campo pra discussão aí - mas se é assim, o amor é a versão mais antiga que existe do Photoshop.

Mas se você observar atentamente, verá que as pessoas tendem a formar pares por similaridade. Óbvio que existem exceções, mas é muito comum que busquemos no outro coisas que nos aproximem.


Daí a vermos casais de gordinhos que provavelmente se conheceram em algum rodízio ou que pelo menos passarão a frequentar muitos, casais de marombados (ela parecendo uma Barbie depois da overdose de anabolizante e ele parecendo um remador de porta-aviões), roqueiros, apreciadores de óperas, mauricinhos e patricinhas, gente rica com gente rica, ou seja, pares de quase todos os tipos de pessoas que existem, menos micareteiros, porque estes geralmente gostam namoram o trio elétrico inteiro de uma vez.

Quando essa ordem é invertida, vemos grandes conflitos ou então gigantescas transformações.

Essa é aliás uma coisa que vale até mesmo para os casais mais semelhantes: a convivência de algum modo nos transforma. É praticamente impossível passar muito tempo ao lado de alguém sem adotar para si certas visões de mundo, posturas, manias. Não adianta, o ser humano emula certas características quase que naturalmente.

Seja um sotaque (experimente namorar uma gaúcha pra ver se você não vai falar pelo menos um "tchê" de vez em quando), alguma mania (dormir com 4 travesseiros, por exemplo) ou gostos particulares como passar a beber café de manhã, ir à praia num dia de sol, comer cenoura com chantilly, bem, esqueça essa, isso é só pra quem namorou algum(a) maconheiro(a). São pequenos hábitos que não possuíamos e que passam a fazer parte de nós.


Mas alguns levam esse fenônemo ao extremo, como nas gigantescas transformações que disse antes.

É o caso daquele seu amigo beberrão e notívago, que cultivava com esmero uma poderosa barriga de chopp e por algum motivo encontrou uma gatinha malhada de academia que se encantou pelas suas teorias de mesa de bar, como as "ponderações dialéticas sobre a superioridade dos tremoços sobre os amendoins na degustação da cerveja" e resolveu namorar com ele.

Meses depois você encontra o cara na rua e pensa que ele entrou naquela máquina do filme "A Mosca" e realizou uma fusão molecular com o Paulinho Cintura. O cara está sem barriga, bronzeado, com bermuda e blusa de academia, indo se preparar para correr uma maratona de 20km.

Tem também aquela sua amiga que só se alimentava com comida macrobiótica e tomava suco de gengibre na temperatura ambiente, fazia ioga 5 vezes por semana(sempre corrigindo quem pronunciava o nome errado lembrando que se fala "iôga") e dormia às seis da tarde para acordar as cinco e meia da manhã e fazer exercícios sobre o orvalho.

De repente ela viaja pra São Paulo, vai na galeria do rock, conhece alguém na galeria do rock e quando você a reencontra ela está de cabelo pintado de azul, roupas pretas, virou gótica, passou a detestar sol, passa as noites bebendo vinho com anfetaminas e lendo Edgar Allan Poe.

Mudanças são sadias quando nos acrescentam coisas e com isso não quero dizer que o sujeito beberrão que virou marombeiro se deu melhor do que a natureba que virou filhote de morcego, falo é de portas que as pessoas nos abrem, novas visões do mundo que nos cerca e novas perspectivas.

Parar de ouvir funk, de comer pele de porco todo dia no almoço ou de se vestir de Jedi para ir ao cinema com quase 40 anos são mudanças boas. Virar um babaca completo só porque sua namorada curte intelectuais existencialistas não é.

Transformações e mudanças geralmente são boas, desde que não seja nada tão radical que nos transforme num mutante. Uma coisa é absorver características de alguém, outra bem diferente é servir de Playmobil ou uma daquelas bonecas Polly, que a pessoa coloca do jeito que bem entende para "brincar".

Mudança radical, total, drástica e boa acho que só uma: casar pobre e vira rico.

16 Comentários:

Mauricio Carmo postou 8 de dezembro de 2010 11:23

Sopu defensor do direito dos excluídos. Até porque quando se fala em exclusão, temos que olhar para como excluimos pra depois vermos como somos exlcluidos e ver se não estamos comentendo o mesmo erro. Acho bem interessante e imparcial seu post, mas creio que isso acontece tb com outros ramos da sociedade q não o amor. Confuso? O amor é.

jaque_potter77 postou 8 de dezembro de 2010 11:24

gostei, realmente nós procuramos semelhanças nos próximos algo que nos caracterize

Maria Fernanda postou 8 de dezembro de 2010 11:29

Eu aprendi a gostar MESMO de Beatles e Machado de Assis com meu ex-namorado.
Uma das melhores coisas que eu já aprendi com alguém! =)
Por isso que eu adoro as pessoas que nos acrescentam. E eu acredito que todas tem algo a acrescentar, nem que seja uma experiência ruim que você nunca mais vai repetir.

Ando virando uma grande fã do seu blog ..parabéns!
=)

Priscila postou 8 de dezembro de 2010 11:31

adorei.
acho que sei bem como funciona essa parte de absorver características do outro. e eu durmo com 3 travesseiros.rs

Iris Lis postou 8 de dezembro de 2010 11:32

adorei seu post.
Realmente, a convivência nos torna cada dia mais parecidos com o parceiros, mas nunca podemos perder nossos traços de personalidade e caráter.

caren postou 8 de dezembro de 2010 11:51

Posso dizer, por experiência própria, que tudo o que você disse é real e verdadeiro.
Realmente, no amor ou na amizade, sempre absorvemos muito do outro. Seja uma mania, um sotaque, um gosto musical... E independente da relação que temos com o outro... as pessoas que gostamos sempre nos acrescentam algo.
Só vou dar uma ênfase na questão de mudanças e do preconceito... porque, muitas vezes, a menina que virou gótica e a menina que namora o gordinho são alvo do mesmo. Uma porque saiu dos padrões da sociedade e a outra porque namora alguém fora dos padrões de beleza que a sociedade impõe. O que é ridículo, porque as pessoas não são apenas o que se vê por fora, mas são muito mais do que não se vê, por dentro. Enfim, adorei o texto, muito bom mesmo. Great!

Isabel postou 8 de dezembro de 2010 12:43

Gosto muito das suas "figuras de linguagem". Morri de rir com a "filhote de morcego", rsss.
Devo confessar que vc já me influenciou bastante, acho que fiquei mais direitista, rsss.
Beijos

Anônimo postou 8 de dezembro de 2010 13:12

Realmente conheço muitas pessoas que mudaram radicalmente algumas para pior, outras para melhor... enfim, concordo que os relacionamentos amorosos influenciam no comportamento das pessoas. A única coisa que não está correta no seu post é o comentário sobre "micareteiros", não se pode generalizar, sou baiana, gosto de micaretas e namoro com a mesma pessoa há dois anos que sempre me acompanha.

Vinicius Alves postou 8 de dezembro de 2010 13:36

Cara...bem legal sua página.
Seus textos são diretos e interessantes.
Muito bom mesmo.

Gil postou 8 de dezembro de 2010 16:37

Como disse: Antoine de Saint-Exupéry

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Beijos...Gil.

Maysa postou 8 de dezembro de 2010 17:46

ÓTimo texto e ficando viciada também:"Dizem por aí que aquele que ama o feio, bonito lhe parece":isso aconteceu comigo a partir dos 19 anos.A beleza trouxe-me muita inveja, desconforto, medo dos mal intencionados, um estado incômodo o tempo todo sendonotada,avaliada. Passei a buscar opostos,"Quando essa ordem é invertida, vemos grandes conflitos ou então gigantescas transformações." Para não excluir, passei a excluir-me.Reinventei uma outra forma corporal, mas não assimilei sotaques nem manias dos amados, especialmente por negar-lhes a permanência. Ninguém ainda chegou a chamar-me de Feia, o que seria recebido de muito bom grado, porém resquícios ficaram, não sumiram, restaram.Só reconheço o meu mundo interior, que briga com os moldes do mundo machista e perfeito. Não fui Barbie nem Playmobil.Continuo procurando adaptar-me(por fora), ou não...

Susy postou 8 de dezembro de 2010 18:05

Nossa realmente acabei virando grande fâ do seu blog. Conheci através de um texto que a professora de produção de texto levou na faculdade pra discutirmos, no qual voce falava sobre as favelas o funk enfim, vi la no rodapé o endereço e por curiosidade entrei, desde la estou sempre por aqui. Adimiro o jeito que voce escreve apesar de eu ter um outro olhar sobre algumas coisas. mas a cada novo texto fica muito mais interessante.

mvsmotta postou 8 de dezembro de 2010 18:07

Susy,

Fiquei curioso agora (e meio com medo) pra saber o que disseram na sua faculdade sobre o que eu escrevi. rsrsrs

Beijos!

Susy postou 9 de dezembro de 2010 03:48

mvsmotta,

Na verdade foram 2 textos seus mas o que eu me recordo mesmo foi o MID Maldita Inclusão Digital. na verdade foi esse que me despertou a curiosidade pra conhecer o blog.
Bom sobre o que disseram? A maioria gostou do texto mesmo confessando que quando mais novo usava o tal do "miguxês" mas pode se dizer que foi um debate bem acalorado R.s. Enfim é uma Universidade na zona norte do Rio e fez a gente discitir questões talvez ainda não claras para algumas pessoas. seus textos sempre acrescentam algo.

Aproveitando já que acabei não comentando no post. Achei muito interessante o post sobre a Favelagem carioca.Não adianta urbanizar mesmo, nem fazer teleférico pra tapar o sol com a peneira, devia tirar todo mundo e dar moradia descente e digna, apesa que moro em uma comunidade. Não que a minha casa não seja digna mas moro por que infelizmente ainda não consegui sair mas sem dúvida não queria morar, e sinceramente acho que muita gente que se "acostuma" com essa condição também não gostaria de morar.
Bom é isso.

beijos!

mvsmotta postou 9 de dezembro de 2010 06:00

Susy,

Legal saber, espero que eu não tenha sido muito xingado. Rsrsrs

Em relação às favelas do Rio de Janeiro, o que as pessoas às vezes não entendem é que eu não sou contra quem mora lá, sou contra é a favela em si.

Penso que os que mais sofrem, além dos moradores do entorno, são as pessoas que moram dentro das favelas cariocas. Não existe espaço e nem condições físicas de oferecer infra-estrutura e serviços decentemente ali.

Tenho certeza que a grande maioria das pessoas que moram em favelas, se pudessem, não o fariam. Aquela situação é uma necessidade e, mais ainda, uma impossibilidade.

Impossibilidade delas morarem em outro lugar, dado o mercado imobiliário inflacionado e neurótico do Rio de Janeiro.

E acredito que a grande maioria não se importaria de mudar para algum lugar um pouco mais distante caso nesse lugar houvessem serviços, infra-estrutura e transportes iguais aos que o governo oferece para quem mora em bairros mais próximos ao Centro ou da Zona Sul.

Ninguém pode exigir que uma pessoa queira mudar para os cafundós do Judas, para morar numa rua de terra, com um ônibus ruim passando de hora em hora, com falta de luz, de água, de escolas, creches, enfim, com falta de quase tudo.

O correto seria essas áreas serem dotadas de toda a infra-estrutura e serviços iguais aos do resto da cidade (que se pensarmos bem já nem são grande coisa) e que as pessoas que mudassem para lá pudessem além de usufruir de tudo isso, também ter a dignidade de morar numa casa sua, numa rua asfaltada, num bairro decente e nunca mais ser taxado por ninguém de "favelado".

Mas para o governo é mais fácil (e pirotécnico) manter a atual situação, que rende votos e dinheiro para um monte de gente e também dá muito menos trabalho do que o que eu disse acima.

Um beijo e obrigado por me ajudar com sua visão de tudo,

Marcus

Isabel postou 9 de dezembro de 2010 06:21

Uau!!! Já tem texto seu sendo usado em Universidade!!!! Que "responsa", hein? hehehe

 
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