O mundo como voyeur

Postado em 11 de jan de 2010 / Por Marcus Vinicius

Cena típica: você está parado num engarrafamento, entediado, olha para o carro ao lado e uma bela moça está passando batom e fazendo caretas pro espelho ou então um sujeito com pinta de executivo corta os pelos do nariz com uma tesourinha.

Outra bem comum é alguém "perfeitamente protegido" pelas janelas do carro fechadas dançando e abanando as mãos ao som do rádio como se estivesse numa rave.

É curioso o nosso comportamento quando estamos sozinhos dentro do nosso automóvel.

Todos sabem que aquelas janelas de vidro não garantem propriamente privacidade (exceção para quem instala horríveis e bregas películas pretas, que deixam o carro com aparência de viatura do FBI tupiniquim ou carro de bandido mesmo).

Mas tirando estes que atentam contra o bom gosto, o restante dos mortais fica naquela espécie de aquário com a estranha ilusão de que ninguém os observa enquanto estão ali dentro. Ainda mais com a quantidade de câmeras espalhadas pra todos os lados.

Se isso não foi estudado ainda, aposto que o será. Porque aquele ambiente devassado nos dá tamanha ilusão de privacidade? Seriam as travas fechadas? Seriam as janelas levantadas?

Estamos parados no trânsito, o rádio só toca a "Hora do Brasil", porque não damos uma namoradinha? Aí rolam uns beijos, amassos e quando menos se espera o casalzinho vai parar no You Tube, filmado por uma dezena de celulares da galera do ônibus que estava parado ao lado.

Tem quem faça de propósito, para se exibir, mas quando não é a intenção a coisa complica e a gente fica sabendo até se a menina se lambuza ou não quando está tomando picolé.

Ou o cara tirando meleca, olha pro lado e vê aquela gatinha que estava dando mole sem ele saber até um minuto atrás olhando agora com cara de nojo.

Estava dentro de um ônibus um dia desses e o sujeito no carro parado ao lado via um DVD na telinha do seu painel e, pelo gestual que ele fazia com as mãos acariciando a braguilha da calça(tudo bem, estava fechada pelo menos), devia ser um filme erótico. Mal sabia o nosso onanista de congestionamento que ele era a atração de toda a lotação do coletivo ao lado.

Deixando exageros e brincadeiras, é engraçado esse sentimento de proteção que uma simples janela de vidro pode trazer, nos permitindo fazer solitariamente e em público certas coisas que talvez não faríamos nem na intimidade do lar.

E de acordo com o entendimento de uma leitora do blog, a Valéria, talvez isto seja fruto da nossa solidão, de um sentimento que nos diz intimamente que "ninguém liga para nós, então não presta mesmo muita atenção".

É assunto para reflexão e para lembrar sempre, até mesmo para não cairmos nessa furada: em todo lugar, sempre tem alguém te olhando.

10 Comentários:

Histórias & Estórias postou 11 de janeiro de 2010 06:48

Gostei da sua reflexão...

O que que eu noto é que, na realidade estamos todos muito sozinhos. E estamos nos acostumando a isto de uma maneira, digamos, "robótica" por acharmos que isto é natural. Daí que, um simples vidro nada significa se comparado ao que já temos dentro de nós: A certeza de que você não se interessa por mim e eu por você. Então, tanto faz o que eu faça...

Bruno Manzaro postou 11 de janeiro de 2010 07:44

"O carro te da o poder de fazer oq quiser, mesmo que errado." Frase de um amigo meu.

O carro nos da à sensação de poder e segurança, por isso quando estamos dentro, parece que nos transformamos.

Às vezes esquecemos que só entramos em um carro e não em um novo planeta.
Quando nos pegam pagando algum mico, podemos dizer como o Grande Mestre: "Ai sim, nós fomos surpreendidos, novamente."

Anônimo postou 11 de janeiro de 2010 07:45

Isso acontece com frequencia também nos elevadores dos condomínios, sejam residenciais ou comerciais. São cenas hilárias com as quais nos deparamos diariamente...
Mas hj em dia é assim, algumas pessoas até sabem que estão sendo observadas, mas pensam: "Cuide da sua vida, que da minha, eu cuido"!
Parabéns pelo blog!
Abs

Carla Azevedo postou 11 de janeiro de 2010 07:55

A vida privada alheia sempre gerou curiosidades, tanto que ultimamente a entrada na "intimidade" é autorizada pelos reality shows como Big Brother. Pro outro lado, a exposição através da internet etc, deixaram nossa privacidade bastante aberta à "espiadinha" alheia. No carro, como foi colocado no blog é interessante mesmo, é como se aquele espaço fosse um universo ä parte, um cantinho de práticas narcisistas, onde supostamente o outro esta "fora"...mas não está (risos)! Merece uma atençao maior de algum estudioso do comportamento humano. Interessante a sua postagem.

B. postou 11 de janeiro de 2010 07:55

Tenho naturalmente este impulso voyeurista e já vi cenas bem interessantes observando. As mais safadas sempre me agradam mais, é claro. Como não posso negar que o oposto, um certo exibicionismo, também é extremamente excitante. O perigo de poder ser visto é algo extremamente estimulante.

Também acho que isso é fruto da solidão, estar em um coletivo (onde não estamos necessariamente acompanhados apesar do fato de estar em um mesmo ambiente com pessoas) ou no próprio carro, e observar a vida pela janela. Estranho quando analizado dessa forma, natural quando vivenciado diariamente. Sequer percebemos...

Gilaberte postou 11 de janeiro de 2010 08:50

Eu sempre defendi a tese de que "quanto mais preso, mais livre", na razão inversa de que quanto menos liberdade exterior há para nos tirar, mais liberdade interior temos para exercer.
Acho que é isso que acontece dentro dos carros.
E isso me lembrou uma frase da Mafalda, personagem de quadrinhos do argentino Quino, quando perguntaram se ela gostava do calhambeque feio do pai: "É o único carro em que o importante continua sendo quem está dentro".
Abraços e parabéns pelo Blog

Milady postou 11 de janeiro de 2010 09:08

Acho que quando fechamos vidro e ligamos a música entramos num mundo imaginário onde não existe o lá fora. Ainda mais quando há alguma coisa a ser feita. Eu, por exemplo, às vezes termino mesmo a maquiagem no carro. Normalmente só o batom, mas já houve dias de ter que passar o lápis e o rímel tb, de tão atrasada. E o trânsito aqui em Brasília é bem mais rápido que no Rio! rsrsrs Faço e não me importo dos observadores, porque gosto de observar também! Mas já faço isso em qualquer lugar mesmo. Observar pessoas é um esporte interessante! :-)
Engraçado, mas parece que algumas pessoas tem a sensação ao entrar no carro que entram num quarto e estão fechadas entre quatro paredes podendo fazer o que quiserem!

Danielle Paolinelli postou 11 de janeiro de 2010 09:26

Reflexão interessante... Acredito que condizente com a verdade de todos: "estamos sós mesmo em meio a multidão". Então pode ser que "estar só" seja um estado de espírito. Mesmo sabendo-se observado o indivíduo está em êxtase, sozinho ...Protagoniza cenas cômicas, nojentas, assustadoras. Enfim o que ele acha é que quem está de fora assistindo devesse aproveitar esse tempo e entrar no transe também!

Scarlett Neves postou 11 de janeiro de 2010 13:17

Relacionando... acredito que as pessoas gostam de se fechar num "mundinho" e achar que suas ações não estão sendo vistas. Mas na questão do carro, acho que é pura utopia as pessoas verem no carro, com vidros fechados, um lugarzinho em que elas fazem o que querem e ninguém fica sabendo. Mas com certeza é hilário ver essas "pérolas" dentro de seus carros, agindo sem perceber a observação alheia.

Abraços
Scarlett Neves

Solange Baumer postou 11 de janeiro de 2010 13:30

Como moro praticamente no centro da minha cidade (a uns 5 minutos de bike),e não tenho carro,não sou a vítima dessas observações.Mas quando vez ou outra saio com uma vizinha,adoro observar a naturalidade com que os motoristas ficam cutucando o nariz.Só falta fazer bolinha e fazer lançamento a distância (Éca!).
Mas realmente acabamos nos habituando a naturalidade como se ninguém nos observásse pelo excesso de gente nas ruas.Quando na verdade,tem sempre alguém de olho...

 
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