Tiana, a princesa negra

Postado em 4 de jan de 2010 / Por Marcus Vinicius

Confesso que quando li a notícia que dizia que os estúdios Walt Disney lançavam um filme com a primeira "princesa negra" em desenhos animados eu torci o nariz.

Já achei que era mais uma etapa do marco-zero afro-americano tão bem representado por Obama. Sabe como é, "o primeiro presidente negro", "o primeiro negro a sentar-se no Salão Oval", "o primeiro negro a prestar juramento como comandante-em-chefe", "o primeiro negro a fazer uma viagem internacional como presidente dos EUA", "o primeiro negro a ter seu café servido por um mordomo negro na Casa Branca", "o primeiro negro a fazer um discurso no Congresso como presidente", poderia continuar sem parar aqui, mas vamos em frente.

Pelo exposto acima, achei que este desenho era mais uma etapa do "fortalecimento" e "reparação" do orgulho de uma "raça", num mundo aonde dizem às crianças brancas e orientais, por exemplo, que "não existem raças", levando adianta esta dicotomia de valores esquizofrênica politicamente-correta-coitadista-ongueira.

É aquela velha, eterna e infinita discussão sobre uma camiseta "100% Negro" ser considerada menos afrontosa pela turma dos "movimentos sociais" do que uma escrita "100% branco".

Mas a minha antipatia pela idéia do tal desenho durou, no máximo, uns 20 minutos. Sério.

Primeiro porque a Princesa Tiana é uma graça, depois porque ela traz muito mais do que simples "reparação" para os histriônicos racialistas, ela traz inclusão para as crianças, inclusão real.

Será na tenra idade que combateremos os histéricos que defendem esse perverso sistema de cotas e onde temos a oportunidade de extirpar esse verdadeiro flagelo da divisão da sociedade em "brancos x negros", "ricos x pobres", "bons x maus" que os esquerdocanalhas adoram patrocinar sempre que tem oportunidade.

Já explico.

Tenho uma sobrinha que é filha do meu irmão com uma chinesa. Ela é uma criança linda, dessas que chamam a atenção por onde vai e é criada totalmente fora desse conceito de "diferença de raças". Brincamos com ela chamando de "chinesinha" mas ela não tem dúvida alguma de que é uma brasileira com características físicas de alguém que descende de orientais.

Parece simplório, não? Mas não é.

Quando ela vai comprar uma boneca ou ver um filme de "Princesas" e depois quer brincar com as amiguinhas, logicamente ela diz "eu vou ser a Mulan!", assim como uma menina que seja loirinha escolherá a princesa de cabelos dourados e assim por diante.

E uma criança negra? Ela não tinha quem escolher para se identificar. Agora tem. Agora ela pode ir numa loja e comprar uma miniatura de uma princesa da Disney que se parece exatamente como ela. Agora ela pode ir no cinema e dizer pras amiguinhas "Olha lá! Eu quero ser igual a Tiana!".

Dessa forma, já na infância, você garante que essa criança cresça sem complexos, tornando-se um adulto menos neurótico do que estes de hoje em dia, essa gente que exige "reparações" autoritárias que só aumentam ainda mais a fenda entre os seres humanos.

E tudo que contribuir para isso é muito bem vindo.

16 Comentários:

Rafaewh postou 4 de janeiro de 2010 07:42

Além de um Presidente Negro nos EUA, vale lembrar que em 2009 tivemos por aqui uma protagonista negra na novela das 8 (nove?!). Muita coisa hoje ainda tem de ser mudada, mais ao mesmo tempo que percebemos mudanças pra melhor não temos a certeza se isso é bom ou ruim. Por que ao invés de tentar curar as feridas do passado, não deixemos que as mesma - muitas delas já cicatrizadas - sejam simplesmente esquecidas?Por ambas as partes - se é que hoje há uma parte beneficiada ou não. Temos que entender que somos feitos da mesma carne e ossos, e estamos vulneráveis como qualquer um outro negro, amarelo, branco...
No mais, somos a mesma merda!

"Se o racismo é um sentimento preconceituoso, daquele que se julga superior, então deveria ser ele o discriminado, pois quem mais poderia ser visto em sua extrema inferioridade senão o portador de tal arrogância, entre os da mesma raça?"
Ivan Teorilang

Rinaldi postou 4 de janeiro de 2010 08:51

alma não tem cor! :)

alias, belo texto! :)

Emily postou 4 de janeiro de 2010 08:52

Post ótimo.

"Temos que entender que somos feitos da mesma carne e ossos, e estamos vulneráveis como qualquer um outro negro, amarelo, branco..."

Somos o que pensamos e fazemos.

Isabel postou 4 de janeiro de 2010 08:54

A Tiana é mesmo uma graça, mas só se tornou princesa ao se casar com um príncipe. No filme ela era filha de uma costureira pobre, trabalhava de garçonete e sonhava ter seu próprio restaurante. Mas tudo bem, já é um começo, rs.
Mas um ponto importante que vc tocou é essa história de querermos recuperar desesperadamente todos os anos de preconceito que os negros sofreram, e acabamos criando situações estranhas, como a da camisa que vc citou. Se um branco sair na rua com uma blusa escrito "branco é lindo" (como tem o "black is beautiful") é capaz de ser linchado e ainda ser acusado de racismo. Chamar de macaco, nem pensar (pode chamar de girafa, lontra, esquilo ou qualquer outro bicho). Como vc mesmo me disse, é o preconceito no mundo animal, rs. Sem falar nessa lei de cotas nas universidades, que os próprios negros deveriam ter vergonha dela. Enfim, esse é um assunto que dá pano pra manga!
E voltando ao assunto das princesas, por que elas são sempre lindas e magras? Tá na hora de ter uma princesa gordinha, rsss....
Beijos

twitter.com/juridicoo postou 4 de janeiro de 2010 08:56

Interessante a leitura e mais interessante ainda a proposta genial de se acabar com o estigma de que não se pode ter um "idolo" negro(a) na infância..corroboro com sua idéia e bom post!
Abraço!

mvsmotta postou 4 de janeiro de 2010 09:01

Isabel,

Você tocou num ponto simplesmente perfeito! Porque não uma princesa gordinha? Porque não uma que não seja tão linda?

Afinal, basta olhar a família real britânica para vermos que nem toda princesa é necessariamente linda. Rsrsrs

Muito boa mesmo a sua idéia!

Marcus

m4f14g1rl postou 4 de janeiro de 2010 09:14

Sinceramente, não é a primeira vez que a Disney sai do convencional loirinha de olhos azuis.. Já teve no desenho o Corcunda de Notre Dame.. a Esmeralda que era uma mega morena e cigana, nada convencional.
Pocahontas éra índia
A Lilo de Lilo e Stich também tem um rosto bem diferente do comum..
Ja não era sem tempo de ter uma princesa negra, mas não por ser negra, e sim por sermos muito diversos, com belezas diferentes e nossas crianças querem se identificar. Histórias diferentes, rostos diferentes..
Quanto a todo o resto, cotas, racismo etc, eu vou como Michael Jackson diz na Musica Black Or White : não vou perder meu tempo sendo uma "cor"

@hannahrangel

o que é Sobrecomum? postou 4 de janeiro de 2010 10:05

Bela história essa da princesa negra. E essa garotinha querendo ser a Mulan... que coisa maravilhosa poder se ver na tela do cinema.

Sobre o preconceito racial no Brasil é a coisa mais ridícula que existe. Sempre que vejo as cotas nas universidades, comerciais e novelas me sinto humilhado. Não importa que cor eu tenha, não posso aceitar a presença de um negro e um oriental em todos os comerciais tentando me convencer que isso é inclusão.

A cor de pele predominante nas ruas é a morena e só vejo na televisão o branco e o negro como se fosse um jogo de xadrex.

Nina postou 4 de janeiro de 2010 11:23

poxa, que legal! eu ainda não vi o filme, mas seu post só aumentou ainda mais a minha vontade. é excelente que todo tipo de pessoa, sem estereótipos, ter uma referência. não tem nada de anormal em ser gordinho, moreno, chinês, mulato, japonês... acho que essas coisas só fortalecem mais o quanto a diversidade pode ser usada pra nos entreter e enriquecer culturalmente. mto bom :)

Dani Rodrigues postou 4 de janeiro de 2010 11:29

Concordo com sua sutil e precisa observação sobre a identificação da criança negra com a "personagem". Contudo, duvido que os produtores conseguiram ter sensibilidade para fazer essa leitura. Infelizmente, a motivação deve ter sido o medíocre e hipócrita discurso de dar "espaço a todos os povos e raças". Mesmo discurso que elegeu o demagogo do Obama que, até agora, mesmo correndo o risco de estar fazendo uma análise precipitada, avalio como uma das maiores farsas da história.

mvsmotta postou 4 de janeiro de 2010 11:30

Dani,

Não duvide: Obama é uma farsa.

Beijos!

Marcus

Solange Baumer postou 4 de janeiro de 2010 11:32

O comentário está perfeito.Tem um poema de J.G.de Araujo Jorge,que fala que por dentro temos o mesmo sangue vermelho,e as mães o mesmo leite branco.Então a parte de fora é mero detalhe.Pessoas ruins existem de todas as cores e formas,e seu instinto é interior.E sim,as crianças tem papel fundamental,principalmente quando bem encaminhadas no que diz respeito a tratar o semelhante como igual.Nem vou falar de cotas,pois acho isso uma burrice descabida.A inteligência,a capacidade parece que ficou em segundo plano.
Mas a Tiana com certeza será mais uma febre entre as meninas.

Victor Regis postou 4 de janeiro de 2010 15:13

e que venha o primeiro príncipe bi-curioso fã de livros e cinema =)

Clau Finotti postou 5 de janeiro de 2010 10:10

É preciso lembrar que há bem pouco tempo sequer haviam bonecas que não fossem loiras de olhos azuis.

Será que nós estamos evoluindo a ponto de achar normal ser diferente?

Adoro !!!

lotusme postou 5 de janeiro de 2010 11:45

A princípio era realmente impossível não relacionar a notícia da primeira princesa negra dos monumentais estudios Disney com a "Obamamania" que tomou conta do mundo em 2008 e 2009.
Confesso que fui assistir o filme com um profundo receio dos esteriótipos que poderiam aparecer mas ainda assim torcia por ele,pois tenho que admitir que foi frustrante,como garota e negra,não ter nenhum personagem em quem me espelhar na época.Chegando ao cinema tive uma surpresa maravilhosa com um filme muito além de qualquer discussão de raças.Na verdade nem me lembrava dessa discussão no decorrer do longa,foi perfeito!Uma retomada à esquecida animação 2D em grande estilo,com um errinho ou dois no que se diz ao andamento e apresentação dos personagem,que eu achei meio apressado e o vilão que talvez seja assustador demais para os pequenos,mas acredito que tenha sido com certeza um dos melhores filmes do ano.Quanto a princesa negra em termos de personalidade até agora foi uma das mais revolucionárias de todas.A Disney simplesmente aproveitou o momento,pelo menos para mim demorou.Mesmo agora já "crescidinha" virei fã,antes tarde do que nunca...

ass:lotusme

Lidia Angela postou 11 de julho de 2011 14:42

Uma vez eu estava na loja do meu namorado aqui na Italia e uma menininha linda estava com um livrinho de historia em q a protagonista era Tina, a princesa negra de walt Disney. A menininha olhou seu livrinho e depois me olhou. seus olhinhos brilhavam e ela sorriu pra mim. se aproximou e me disse: penso q essa e vc! E linda né? Vc é uma princesa? Fiquei surpresa e feliz e meu namorado respondeu: "sim ela e a minha princesa". A menininha me olhava com admiraçao e respeito. qdo a mae dela acabou de comprar o q precisava a menininha se despediu de mim com um abraço e disse q etava feliz em conhecer uma princesa.
Fiquei feliz e mq lembrei q qdo pequena as menininhas brancas da minha idade nao queria q eu brincasse com elas e qdo podia participar da brincadeira podia fazer so a empregada ou a pobre. Ate na escola algumas professoras nao me aceitavam muito e nao eram contentes por eu ser uma aluna inteligente e com personalidade forte e eu era a unica negra em uma escola de "nivel A". era como se eu nao tivesse o direito de estudar em uma boa escola por causa da cor da minha pele. Ate qdo tentei entrar pro bellet do municipal fui discriminada e uma das prof. de dança qdo disse q tbm queria participar da seleçao pra entrar pra escola de Ballet me disse q eu devia lavar roupas de madame e dançar samba. Lavar rroupas de madame nao lavei mas dancei samba com sapatilhas de ponta. me acho linda, nao tenho problemas com pessoas de nenhum lugar do mundo e sou cosmopolita.Tenho dois filhos lindos q pensam como eu. Amo ser negra e sou uma princesa. pelo menos as crianças aqui me veem como tal. Lindo né? Obrigada walt disney!

 
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