Sou bonito em festa gótica

Postado em 12 de jan de 2010 / Por Marcus Vinicius

Estava perdido pelo Orkut (sim, eu ainda acesso o Orkut, podem jogar os tomates) e encontrei essa comunidade que dá título ao post de hoje.

Primeiro tive um ataque de risos, não poderia ser diferente. Depois lembrei das minhas experiências nesse tipo de festa e...ri mais um pouco!

Fui pré-adolescente na década de 80, convivi com notícias sobre o Crepúsculo de Cubatão, boate em Copacabana, Rio de Janeiro, que foi o "templo" dos darks daquela época. Todo mundo ia pra lá vestido de preto, caprichando na cara de tédio e preparado pra beber drinks com nomes como "chuva ácida" e "kamikaze" e curtir o som do Cure, Alarm, Siouxsie&TheBanshees, Bauhaus, Sisters of Mercy e demais ícones do tal movimento.

Só que "dark" era que nem jabuticaba e só existia no Brasil. Em 1987 durante uma entrevista de Robert Smith, líder do Cure, ele foi perguntado sobre como se sentia sendo um ícone do "Movimento Dark" ao que respondeu: "se me disserem primeiro o que é, eu digo se acho bom ou ruim".

Vamos usar a desculpa da falta da internet, das fontes de consulta difíceis e dar um desconto pra turma dos anos 80.

Aí vieram os anos 90 com todo aquele dance-clubber-Ibiza-colorido e, pra mim menos, aquela cena sombria-tropical ficou esquecida.

Não vou entrar aqui num chatíssimo histórico sobre essa sub-cultura, que nos levaria aos beats nos anos 40, mas se você quiser saber, veja o verbete na Wikipedia.

O fato é que no pós-anos 80, isso tudo voltou ajudado pelo assim chamado Gothic Metal, com bandas como Nightwish, Within Temptation, Sonata Arctica, entre outros e também por uma interessantíssima vertente eletrônica-industrial representada por VNV Nation, Neurotic Fish, De/Vision, Covenant e mais um monte de outros nomes desse estilo, todos mais ou menos "herdeiros" do som do Depeche Mode e do New Order.

Alguém pode me contestar, mas é assim que vejo.

Introdução superada, vamos à diversão. "Sou bonito em festa gótica", amigos, vocês já foram em alguma? Quem não for, vá! Faz bem pro ego de certa forma.

É um desfile de gente com roupas "over do over do over" que você se sentirá bem vestido e discreto mesmo que esteja usando uma fantasia de baiana de escola de samba.

Uma profusão de roupa de telinha, saias rodadas, coturnos, calças com tachas e acessórios como crucifixos e ankhs de mais ou menos 1kg e meio. Sem contar a maquiagem, bem carregada e com olhos que depois vieram a ser popularizados pela Amy Winehouse. Uma espécie de Cleópatra bêbada de boteco.

Sei que vão me chamar de preconceituoso, mas não combina um afro-brasileiro (vai lá, vamos usar o termo), no maior calorão, maquiado, tentando se fazer passar por vampiro, personagem que a literatura caracteriza pela palidez extrema, concorda?

Esqueçam "Blade", aquilo é uma aberração.

Não é que o indivíduo não tenha direito, ele tem direito a tudo, não existe "coisa de branco" e nem "coisa de preto", mas uma pessoa de pele negra emulando os "Anjos da Noite" fica tão esquisito quanto um branquelo pintado de timbaleiro.

Note: você pode curtir o som, a cena, é direito do ser humano curtir até a música ruim do Carlinhos Brown, mas não precisamos bancar esses gringos que vão pra Amazônia e voltam usando cocares de índios no aeroporto, né? Esses euro-índios são tão esquisitos quanto os afro-goths.

E o batom preto? Parece que a pessoa estava chupando um cocô há alguns minutos e apareceu pra dançar com a parede um pouquinho. (É, tem mais essa, em festa gótica tem quem dance com a parede).

Imaginou a cena? O calor saariano que faz no Brasil, pessoas com maquiagem pesada derretendo, acessórios exagerados, bocas pintadas de preto, roupas escuras (nesse calor?!) e usando sobretudos, dançando com as paredes?

O sobretudo aliás é um caso à parte. O cara desidrata ali dentro mas não tira o seu de jeito nenhum. Um puta de um calor e ele nem desconfia que os vampiros e góticos do Hemisfério Norte usam aquela peça de vestimenta mais porque lá faz frio do que para "provar uma atitude".

É como se existisse um "Movimento Indio" na Europa e eles usassem tanguinhas sob um frio de -10 graus negativos.

Claro que tem muita gente bonita. Piercings, tatuagens e um certo look sadomasô que permeiam essas festas e me agradam bastante, além de que as pessoas nesses ambientes tendem a ser mais interessantes e cultas do que a média.

Mas a crítica aqui é ao exagero, a essa coisa de macaquear trejeitos e roupas, passar do tom na maquiagem ou exibir cortes de cabelo que mais parecem feitos por um jardineiro epilético, enfim, a quem se torna um personagem de si mesmo, o que também é muito comum.

Por isso a sua chance de sentir-se lindo em festa gótica é tão grande.

Esse post faz parte do sorteio que estou realizando. Faça seu comentário e concorra a um calendário 2010. :)

17 Comentários:

Nina postou 12 de janeiro de 2010 06:32

hahhaha muito divertido seu post. o "legal" é ver que mesmo com tais ondas passando, ainda tem gente que continua assim. sol rachando, de coturno e blusa preta. as vezes atraem olhares de estranheza, mas o mais importante é saber respeitar uma cultura, mesmo ela sendo bizarra. hahaha a gente se sente mais "normal" assim!

Sra. Carambola postou 12 de janeiro de 2010 06:39

Vc sintetizou o que eu digo sempre: Quer gostar da banda, goste. Mas isso não te obriga a sair fantasiado de morceguinho deprimido.
O bom é que, na maior parte dos casos, o primeiro emprego sério, faculdade e responsabilidade obrigam o trevinhas a vestir camisa branca, cortar o cabelo ensebado, tirar os 28 piercings do rosto e aprender a ser gente.
Os que sobram são só os bobos da corte.
Como algumas pessoas dessa comunidade aqui, ó:

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=4895254

Kátia postou 12 de janeiro de 2010 06:40

kkkkkkkkk
Putz, fiquei até com vontade de ir em uma festa desssas....só pra me matar de rir! E com certeza irei lembrar das suas observações ;)
Tenho q dizer q adoro os seus textos...inclusive os do twitter!

Bjos

lucy postou 12 de janeiro de 2010 06:44

esqueci os dados: lucy - e-mail: lucineidebr@hotmail.com

Muito interessante e reflexivo o seu ponto de vista.
Minha mãe NUNCAAAAA deixou eu curti "ser gótico"......como você comentou sobre o Blade (concordoooo muito!!!), para minha mãe é uma aberração o fato de sermos "diferentes" dos que nos cercam.
Não que estejam errados, e que tenha preconceito....apenas....são diferentes e chamam atenção mais pelas roupas e costumes do que pela ideologia.
!!!!!!!

Suely postou 12 de janeiro de 2010 06:46

Adoro seus posts porque são inteligentes, bem humorados, absurdamente irreverentes e muito contestadores.
Jardineiro epiléptico foi a melhor definição de todas!!! Amei!!!
Eu sou tão desligada de tribos que curto as músicas sem nem identificar o cantor ou a banda... Só identifico os nacionais, e, mesmo assim, às vezes me confundo...
Não perca a sua veia literária irreverente, é muito bom passar por aqui, sempre.

Scarlett Neves postou 12 de janeiro de 2010 06:59

Rindo muito aqui...
Ótimo post!
Realmente o orkut está com uma reputação...
Até hoje não fui ainda em festas góticas, mas posso tentar imaginar. Aqui em JF, se vê muitos góticos, em todos os lugares. E acredito que eles não tem de exagerar só para demonstrar o gosto deles. Será que preciso sair de preto e carregada de maquiagem só para eu mostrar para os OUTROS que eu gosto de Rock??!! Claro que não, a certeza dos nossos gostos tem que estar dentro da gente, não precisamos nos expor! O sol fortíssimo, e um gótico de sobretudo?! Simplesmente querendo provar seus gostos através de suas roupas!

Concordo sobre esta utopia de criar um personagem ideal para si.

Marcus abraços,
mais uma vez parabéns pelo post.
Seu blog é excelente!!!

Scarlett Neves

F r ø y l a n d postou 12 de janeiro de 2010 07:13

Há muito tempo não existe uma festa gótica interessante em sp, por aqui a maioria destes eventos é promovido por um grupinho desorganizado e incompetente chamado 'gothznewz'. Antigamente tínhamos o Madame Satã, tão odiado por uns e tão amado por outros, pessoalmente na época em que frequentava este tipo de lugar eu não achava que o bar era perfeito, mas hoje sinto saudades. De qualquer forma é mais uma sub cultura que perdeu seus ideais e hoje é composta por pessoas que simplesmente querem ser diferentes, mas sem o mínimo de "conteúdo".

Abraços,

Carla Azevedo postou 12 de janeiro de 2010 07:53

Ainda curto bastante o som de outrora. Você falou do Depeche, nossa, era fitinha confirmada no meu "3 em 1"..heheheh!!
Agora, em relaçao aos modelitos usados na época, acho engraçado uma coisa: Varias pessoas que estudaram comigo, eram da tribo dark ou bicho grilo, etc, hj estão "patricinhas" e/ou "engomadinhos" saindo do forum com seus clientes...engraçado...mas é assim mesmo, é fase de busca da identidade ne!!
Mas que o som ouço até hoje...ahhh, eu ouço!!

Solange Baumer postou 12 de janeiro de 2010 07:57

Como minha adolescência foi justamente nos anos 80 sei bem do que vc falou...dark,The Cure,etc.A gente que éra mais normalzinho,chegava a sentir que éra a gente o estranho no ninho,emboraas baladas fossem um mix de estilos e não direcionados apenas para uma tribo.
Meu filho de 14 anos por enquanto não foi atraído pra nenhuma loucura juvenil dessas!Veremos até onde dura...

Aline Rafaela postou 12 de janeiro de 2010 10:23

Engraçado mesmo o post. Pessoas naquele sol de rachar com maquiagem, coturno e sobretudo. E outra coisa, concordo com o "pessoas nesses ambientes tendem a ser mais interrantes e CULTAS do que a média." Isso é verdade.

Mile Reis postou 12 de janeiro de 2010 10:50

KkkKkk...Motta, que comédia!!! Aqui em Brasília tem muita gente sem noção assim... O pior é que além de ser muito quente, aqui em Bsb é muuuito seco...E mesmo assim, dale gente de sobretudo!!
O pior é a "misturada de estilos" numa única pessoa: cabelo Rastafari, temperamento de emo, voz de sertanejo, atitude de roqueiro e por aí vai...

Zecaman postou 12 de janeiro de 2010 11:47

Ótima essa. Eu também, nos anos 80, frequentava uma tal de Any 44 na Bela Cintra, aqui em sampa. Eram os primórdios do movimento Gótico. Fantástico! Me deu até um deja vú.

Denise postou 12 de janeiro de 2010 11:50

uhahuahua Eu lembro de você comentando sobre essas festas no IRC yuhu! :P
Eu, como cresci na 'roça', não tive oportunidade de curtir essas festas nos anos 80, além do que, era uma pirralhinha, acho que nem entraria :P
Mas putz, tem gente que é bizarra mesmo. Eu acho maquiagem carregadíssima um horror. Imagino aquilo tudo derretendo e borrando pela cara.. Tosquérrimo :P
Acho que qualquer exagero é um saco. Curtir é uma coisa, ser caricato é outra.. Mas tem maluco pra tudo né hehehe
bjs

zambof5 postou 12 de janeiro de 2010 12:48

muito engraçado o post.

o brasileiro precisa aumentar sua auto estima e parar de copiar as coisas que lhe aparecem. ñ qro meter esse papinho de valorização, mas é que porra chega de ser influenciado, vamos influenciar o mundo com o maracatu afrociberdélico de chico science, com os grafites dos gêmeos, com o nosso estilo de vida tropical guerreiro de enchentes, alagamentos, secas e falta de dinheiro, vamo ensinar ao mundo a ser feliz assim como nós somos no meio do caos.

Gabriela Bueno postou 12 de janeiro de 2010 14:42

ASHASUH eu ja fui nessas festas, baladas, e eu sempre acreditei que era linda mesmo naquele povo HUASUH...mas é muito comédia, me sinto livre no meio deles, não é igual rave, que tem aquela pegação, cada um ta ali pra curtir a própria vibe... não sei explicar 'só sei que foi assim' rs! beijos, ótimo texto! ri muito, ainda mais com o 'dançar com a parede' kkk! enfim beijos

Danilo B. postou 12 de janeiro de 2010 20:15

Isso é culpa da moda. A moda nos faz parecer idiotas depois de alguns anos quando vc vê fotografias antigas.

Eu nunca tive um estilo, sempre tentei chamar menos atenção possível, mas nos anos 90 eu cultivei um bigodinho ridículo que me faz querer queimar todas as minhas fotos antigas. Hahahaha

Mas como vc disse, o problema é o exagero.

Eu achava os emos tão estilosos quanto os clubbers no começo, mas conforme foi ficando popular, começou a ficar ridículo. Com piercings é a mesma coisa. Tatuagens, idem. De 10 amigas que eu tenho, por exemplo, 8 tem uma estrelinha tatuada em algum lugar do corpo (até minha mulher tem). Nada contra o desenho, tudo contra a falta de criatividade e o desejo de ser igual.

As pessoas querem ser diferentes sendo iguais. E esse é o problema da moda: torna todos pateticamente iguais, quando deveria fazer o contrário.

Danielle Paolinelli postou 31 de janeiro de 2010 11:33

Interessantíssimo... O pior é que, tem pessoas que fazem parte do movimento, se caricaturizam (boa essa palavra, hein?!), fantasiam, suam a camisa...e não têm a menor idéia do por quê que fazem tudo isso! Como antes mencionado pelo interessante vocalista do Cure, Robert Smith. Lembrando essa época, devo salientar que algumas dessas bandas marcaram bem minha adolescência!!! Eu ainda amo Cure, Smiths e cia ltda!

 
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