Ah, a intimidade...

Postado em 15 de jul de 2010 / Por Marcus Vinicius

Na Argentina chamar alguém de "boludo" pode ser um tratamento carinhoso ou uma ofensa. Isso não depende do tom, do momento, nada disso, depende do grau de conhecimento que temos com a pessoa.

Aqui funciona mais ou menos assim. Quantos amigos não falam com o outro iniciando a frase por um "E aí, viado?". Agora, experimente chamar um desconhecido assim para ver o que acontece.

A intimidade relativiza tudo, abranda, ou em certos casos pode piorar. É o caso de alguém permitir a uma pessoa que a chame de "você". Até este momento - dependendo do ambiente, é claro - o "você" pode soar como proximidade forçada. A partir dele entretanto, continuar chamando de "senhor" pode soar mais ofensivo do que qualquer outra coisa. É como se a pessoa estivesse desprezando a intimidade concedida.

Um amigo próximo abre nossa geladeira sem parecer que está conferindo o decote da nossa mãe, chega em nossa casa sem avisar, nos fala algumas verdades que na boca de outra pessoa soariam como ofensa, mas na dele soam como conselho. Um amigo próximo sabe até mesmo a hora de se afastar, porque entende que vamos chamá-lo caso precisemos. Nos elogia sem correr o risco de parecer um puxa-saco.

É bom ser e ter amigos assim. A intimidade é o final de semana de uma amizade. É quando podemos usar nossos chinelos o dia inteiro, deitar com os pés no sofá, passar a tarde trocando canais de televisão.

Mas como tudo, a intimidade também pode atrapalhar - e muito - um relacionamento. Claro que estou falando dos casais.

Quando conhecemos alguém, quando estamos naquelas primeiras saídas com a pessoa, não somos nós, somos o personagem que desejamos que ela goste. Nos apresentamos como um carro zero quilômetro. Pintura brilhando, tapetes limpinhos, plástico nos bancos, perfume de novo.

Conforme vamos andando pela estrada do conhecimento mútuo, jogamos os plásticos fora, andamos por algumas estradas de terra, outras enlameadas, caímos em alguns buracos, perdemos um parafuso aqui e outro ali, a gasolina chega na reserva, enfim, o que era "zero-bala" começa a ficar rodado.

Este é o momento da verdade. Alguns preferem voltar para a concessionária e escolher outro modelo mais novo, já outros ficam com aquele mesmo. Dão uma geral, fazem polimento na pintura, jogam um perfuminho nos bancos e seguem o caminho, já íntimos.

E aí mora o perigo. Ninguém arrota na frente do outro no primeiro encontro, mas dali a um ano, sim. Xixi de porta aberta não tem tanto problema, mas tirando isso, escovar os dentes e tomar banho, creio que o resto todo que se faz no banheiro é território proibidíssimo para um casal.

Até passar fio dental na frente do nosso par deveria ser proibido por lei.

Com o tempo, começam os desleixos, as negligências, aqueles sentimentos menores que surgem quando achamos que alguém "já é nosso mesmo". Por isso dizem que o cheiro mais afrodisíaco do mundo é o cheiro da "andada de fila", porque ao perceber que alguém não é assim tão "nosso", voltamos a querer agradar, a querer melhorar, tudo que for necessário para não perder.

Por isso acredito que, diferente das amizades, o segredo para um relacionamento a dois ser bem sucedido é você nunca achar que está íntimo demais do outro, não íntimo o suficiente para agir como se fosse um "colega", porque imagina uma moça chegar cumprimentando seu namorado com um "E aí, viado?".

Para ser bem sucedido num relacionamento, penso que o segredo seja cultivar uma intimidade controlada e aquele sentimento que te fez querer a pessoa pela primeira vez: finja sempre que ela ainda não é sua e que ainda precisa ser conquistada.

6 Comentários:

Ruth Steinas postou 15 de julho de 2010 10:36

Nossa, mas se todos pensassem assim estava bom !! Sem comentários, perfeito. Tanto p/ homem quanto p/ mulher.

liz_barroso postou 15 de julho de 2010 10:40

Muito bom o texto, parábens Sr. amado e odiado!

Inté ...

Anaísa postou 15 de julho de 2010 11:32

digno de sorriso...
belas verdades =)
beijos

Tuka Siqueira postou 15 de julho de 2010 11:48

Nada mais verdadeiro. Ótimo texto. Como sempre.

Raquel S Jacoub postou 15 de julho de 2010 19:02

Tenho um amigo que sempre diz que a intimidade gera promiscuidade, não se referindo ao conceito de promíscuo reprovável, mas àquilo que surge de uma mistura de tudo, sem ordem e sem critérios. E isso acabou se refletindo no seu texto, principlamente no que se refere aos relacionamentos, digo, casais.
Nada contra tomar banho juntos, se esse banho estiver inserido no contexto das preliminares, mas escovar os dentes, passar fio dental, 01, 02,etc...etc...etc...não dá!!! Esse tipo de 'critério' tem que haver, porque ultrapassa o conceito de intimidade e adentra o da privacidade, que não dá para ser compartilhada. Mas, acredite, há quem pense que fazer todas essas coisas acima, tão só nossas, de portas abertas faz parte do 'viver a dois' ...Fazer o que, né???

Cléo postou 16 de julho de 2010 05:42

Concordo com tudo isso, Marcus, mas há uma coisa a mais, pensando positivamente, no meu caso: tenho amigos que posso contar nos dedos. E entre os 3 que possuo (olha a quantidade!!) está meu marido...Amigo verdadeiro, messsssmo, é aquele que quando falam mal de você, até mesmo em segredo, como uma fofoca, ele não acredita de modo algum e ainda te defende. Porque ele conhece realmente o amigo que tem....E voltando à intimidade, tem que ter criatividade, né gente!E não confundir intimidade com falta de respeito... Bj, ô bonito!

 
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