NO-vela

Postado em 6 de jul de 2010 / Por Marcus Vinicius

Não sei se admiro ou se tenho pena de quem realmente gosta de assistir novelas, sério, porque desde que me entendo por gente as histórias são as mesmas, só mudam os personagens e os artistas que os representam.

É um núcleo de ricos, um bairro de pobres, alguns personagens de ligação entre os dois universos, uma empregadinha gostosa (que pode ser substituída por uma secretária gostosa ou uma manicure gostosa), a heroína, a vilã, o galã, o coroa esperto que traça alguma gatinha mais nova, a gravidez por interesse e assim por diante.

Sei que dirão que tudo na vida é assim, repetitivo, e que essas situações são a matéria-prima de todas as histórias já contadas nos livros, teatro e cinema. Concordo. Mas nenhum deles leva meses se repetindo na TV, só para terminar e começar a contar a mesma história toda outra vez, apenas sob nova roupagem.

Porque se pensarmos bem, é assim que funciona. Saem os árabes, entram os orientais. Saem os filhos do sol nascente, entram os italianos (italianos aliás são uma espécie de Wilson Grey das novelas, volta e meia - quando você menos espera - eles aparecem de novo). Sai a turma do "dio mio!", entram os indianos. Saem os indianos, entram os ciganos, e por aí vai.

O problema é que se você se distrair um pouco é capaz de pensar que o cigano Igor vai aparecer de repente no meio de uma novela de italianos ou que o José Mayer vai aparecer fazendo o papel que sempre faz, ou seja, o de José Mayer.

Não consigo entender como alguém consegue acompanhar essa mesmice toda desde os tempos da Janete Clair até hoje. Antes eu compreendia, afinal estávamos afundados até a cabeça no charco da TV Aberta. Você que me lê - e que não nasceu na época em que se amarrava cachorro com lingüiça - fique sabendo que tínhamos estas excelentes opções de canais televisivos: TVE, Globo, Manchete, Bandeirantes, SBT e Record.

Sim, assim como sou da época em que as únicas coisas que funcionavam depois das 22:00 eram latido de cachorro e padres que davam a extrema-unção, também sobrevivi ao tempo em que somente existiam seis canais de televisão.

Aí você podia assistir animações com massinha na TV Educativa, novelas na Globo, imitações de novelas da Globo só que com gente pelada na Manchete, programas de auditório na Bandeirantes (que ainda não tinha abreviado o nome para Band), Bozo e Sílvio Santos no SBT e a Record, bem, desde aquela época ninguém assistia a Record.

Isso explica porque as produções mais caprichadas e os atores e atrizes canastrões da Globo faziam tanto sucesso, tanto quanto as madeixas grisalhas do Cid Moreira. Mas diferente do Cid, que hoje só aparece de vez em quando para falar "Miiiisteeeer Êmeeeeee" ou "Jaaaabulaaaaaaaani", as novelas continuam aí, em 4 horários diferentes. E o que me choca não é nem que elas existam, afinal, onde mais aquele monte de falta de talento iria trabalhar? No cinema? O impressionante é que ainda tem quem as assista.

Com tantos canais fechados e com as TVs por assinatura cada vez mais baratas, é como optar por andar de Chevette quando se pode comprar, pelo menos, um Celtinha.

Aqueles atores recitando diálogos decorados meia hora antes, com a expressividade de uma esponja de lavar louças, aquele monte de gente que só presta para rechear as edições da "Caras" e da "Quem" (antigamente era a revista "Amiga") me deprime.

Só não me deprime mais do que fã de novela declarado, desses que não perdem um capítulo e aderem às modas lançadas nos folhetins televisivos. Porque sei que não é um sentimento bonito, mas eu acho um pavor quem usa bordões de novela, tipo "inshala","hare-baba","ma che!!!","cada mergulho um flash", etc.

Com tanta porcaria nova pra ser cultuada, vamos pelo menos aposentar as antigas.

8 Comentários:

Renally Rodrigues postou 6 de julho de 2010 09:45

Prezado senhor Motta,
Dividimos a mesma náusea declarada no que se refere às novelas...Se existe algo mais irritante que uma novela é alguém que vê novela. E o pior é que quem assiste sempre acha que todo mundo tem o mesmo (mau)gosto, de repente até comentam contigo: "ah, você viu aquele fulano da novela ontem?" Que novela? De repente você se sente uma larva de cocoon, um ser de outro planeta porque não sabe quem é o fulaninho da novela...
Rá... eu não vejo novela, mas adoro os bonecos de masssinha do outro canal...

@bocadelata postou 6 de julho de 2010 09:53

Na realidade sou adepto do No-TV, em janeiro desse ano me mudei em função do meu trabalho e só trouxe a minha roupa. Aluguei um Ap mobiliado mas sem TV, ou seja são 6 meses vivendo sem TV e sua programação enlatada.
Não sinto falta alguma afinal existe a internet...

@bocadelata postou 6 de julho de 2010 09:57

Ah Só esqueceu de mencionar as pobres crianças que quando nascem são ''abençoadas'' com nomes de personagens.

Denise postou 6 de julho de 2010 11:00

Ahahaha, lendo você falando sobre os canais de TV aberta lembrei dessa época também.. Somos da época em que TV nem controle remoto tinha, aí deixávamos na Globo e deixava lá, tínhamos preguiça de levantar pra mudar de canal... Pior que era sofrível a programação mesmo...ehehehe. Se bem que.. TV a cabo também tem dia que pelo amor.. Repetem programas de mil oitocentos e bolinha... Triste!
Mas as novelas são repetecos mesmo.. Pior que nunca fui de assistí-las, e até hoje sou vista como um ET, as pessoas ficam comentando de fulano, beltrano, ciclano e eu fico com cara de paisagem.. Depois eu descubro que é o fulano da novela X.. Vixe maria!

sarinhapk postou 6 de julho de 2010 11:39

De acordo...Na minha opinião, os telespectadores de novelas, são pessoas que gostam de viver uma vida que não é deles...

Isabel postou 6 de julho de 2010 12:18

vc fala das novelas e eu me pergunto como o Faustão consegue sobreviver tanto tempo na TV. Tudo isso pra mim é perda de tempo, pois não tem nada pra me acrescentar. Aliás, eu tb sou da época em que depois de determinado horário da noite, só se via as barras coloridas na tela... ;)
Beijos

Ana Clara Lima postou 6 de julho de 2010 20:22

Vc me surpreende! Texto bacana,centrado,leve e com uma pitada de humor.
Concordo contigo sim. E creio que a programação brasileira aliena de certa forma e estimula mais o povo a ter preguiça de ler e estudar.
Vc é um fofo1
Bjks!
Ana Clara Lima

Danielle postou 6 de julho de 2010 20:59

só tenho uma coisa a dizer: AMÉM para tudo que você disse.
AHUDAHHUHSUADHUHDUS

 
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