A verdade

Postado em 19 de jul de 2010 / Por Marcus Vinicius

Quem nunca foi chamado ou chamou alguém de "dono da verdade"? Curiosamente todos querem ser donos dela, mas poucos querem estar realmente perto dela.

Você tem dúvida? Porque então existem frases como "a verdade dói" ou então "encare a verdade de frente"? Encarar de frente como se ela fosse um pitbull raivoso que precisa ser levado pro canil? Costumo dizer que a melhor forma de colecionar desafetos é dizer somente a verdade.

A mentira é um cobertor no frio, um ar-condicionado no calor, uma maquiagem, um peito de silicone. Pode não ser real, a verdade pode estar na garoa, no calor escaldante, nas rugas de expressão, no peito caído, mas não há dúvida alguma de que a mentira geralmente é bem mais agradável.

O problema, como tudo, é o excesso. Uma coisa é um par de peitos de silicone, outra coisa são peitos, lábios, bunda, nariz, coxas, testa, cérebro de silicone. Uma coisa é uma pequena mentira, uma white lie como chamam os americanos, outra coisa é passar a vida mentindo até sobre a marca de creme dental favorito.

Crianças são cruéis ao extremo. Se você estiver com mau hálito elas dirão. Se estiver com catarro na franja também. Se for vesgo, desgrenhado, gordo demais, magro demais, elas dirão. Qualquer defeito que você tenha será prontamente denunciado pelo pequeno indicador e pela voz infantil. E os pais vão brigar com ela por isso. "Não se diz isso!", "O que é isso? Cadê o respeito? Peça desculpas agora!".

Ensinamos que ela deve pedir desculpas por dizer a verdade. Mas não é a verdade que todos querem? Sempre? Alguns dirão "Ah, mas isso é questão de não ser inconveniente". Ué? Mas o certo não é "sempre dizer a verdade"?

As convenções sociais estimulam a mentira, ou melhor, domam a verdade. Por isso eu digo: ela é supervalorizada. Se não fosse, porque ameaçamos os outros dizendo "vou te falar umas verdades!"?

Talvez o mais correto seja dizer que valorizamos nosso direito de optar por saber. Pode parecer doideira - e é - mas é que ainda não inventaram uma palavra que descreva o que eu penso quando falo sobre isso, seria alguma coisa entre a verdade e a negação, algo como "olha, você quer mesmo que eu te diga?" e você responde "A verdade? Não, diga a (aqui entraria a palavra nova)" que seria a verdade até onde ela não doa.

É o caso desses casais que frequentam swing e o marido prefere só assistir. Tipo, socialmente ele seria "corno", mas como "corno" é o cara traído e ele está ali presente - e consentindo - tecnicamente ele não é corno. Só que ele não sabe se caso não permitisse as aventuras da esposa, ainda assim seria. Conseguem captar a sutil diferença? Qual seria "a verdade"? Ele seria corno de qualquer jeito? Não tem como saber, porque ele estacionou no meio do caminho, onde estaria a tal palavra que não existe.

E isso vale para tudo. Para a namorada que pergunta pro namorado "acha que eu estou gorda?" e quer ouvir algo como "eu acho sua bunda grande linda" ou para o marido que pergunta para a esposa "o meu é o maior que você já teve" e ela responde "a maioria dos meus namorados tinha um do tamanho de um batom", esquecendo de mencionar o "Stallone Cobra" que ela namorou antes de conhecê-lo.

A verdade é: todos só querem "a verdade" até o ponto em que ela não machuque. A partir daí, ela vira outra coisa. Vira ofensa, inconveniência, excesso de sinceridade, vingança, etc.

É assim que eu penso. E não ouse me chamar de "dono da verdade", a menos que seja de mentira.

10 Comentários:

@twittuka postou 19 de julho de 2010 11:08

Você é mesmo genial. A tal palavra que não existe entre a verdade e a verdade que não doa é o que realmente queremos ouvir. Achamos sempre que temos o direito de dizer "umas verdades" pra alguém, mas quando alguém resolve nos dizer "umas verdades" também, pulamos fora, nos sentimos ofendidos. Taí, compartilho dessa "sua" verdade.

Débora Vasconcellos postou 19 de julho de 2010 12:11

caramba, adoro os seus posts. Esse texto falou sobre tudo que penso. A grande conveniência da sociedade. Falando em sinceridade odeio aqueles q ficam falando "Fale a Verdade na Minha cara" nunca aguenta u.u por isso falo "Fale só até onde é conveniente para mim" UHSHUAHUSAUHSUH

fii postou 19 de julho de 2010 12:11

Parabéns! Texto magnífico.

Pekena postou 19 de julho de 2010 12:17

Adoro suas reflexões, são bem interessantes. Enquanto a esta é algo que nos debatemos no nosso cotidiano e que normalmente gera muitas consequências e na maioria más.
Porque por mais que a verdade seja algo necessário para nossa própia evolução quase nunca sabemos aceita- la e sim critimos muito bem os outros. Esquecemos que erramos e quando nos "põem na reta" raramente "digerimos" com facilidade.

Gustavo Ca postou 19 de julho de 2010 12:42

Se me permite, reproduzo aqui um micropoema que postei no Twitter já faz um tempo:
Há em nossa sociedade
Um fato que muito me admira:
Ao invés de duras verdades
Preferem-se lindas mentiras.

Pois é. Mas não tinha pensado nessa versão da verdade que vai só até onde queremos ouvir, como uma verdade alternativa.. É isso mesmo o que acontece, a verdade com uma maquiagem bem bonita, que não deixa a parte "feia" aparecer.

Mari Cordeiro postou 19 de julho de 2010 13:18

Existem muitas perguntas que são feitas para serem respondidas com mentiras. Isso é fato.
Por experiência própria, quando se fala muito a verdade, você começa a ser visto como uma pessoa grossa. Injusto isso.
Enquanto não existe essa tal palavra que procura, te aconselho usar o silêncio. É sempre uma boa saída. No máximo, podem pensar que você é bobo. Mas lá dentro todas as verdades estão sendo berradas.

Anaísa postou 19 de julho de 2010 14:14

Dói e machuca, e se não são todas, muitas vezes é necessária! Bendita verdade...
adorei

Anônimo postou 19 de julho de 2010 19:47

Você falou tudo. Ninguém gosta de quem fala o que realmente pensa. Mas as pessoas ficam maravilhadas com pessoas que são sempre simpáticas e sempre chamam os outros por apelidos carinhosos, mesmo sabendo que quando virarem a esquina vão fazer chacota de você, mas o que vale é ouvir o que agrada e ser paparicado. Chamam essas pessoas de educadas. Já quem diz o que pensa é sempre chamado de grosso e mal educado, independente da forma como essa verdade seja dita. Confesso que tenho medo de pessoas que chamam os outros por apelidos carinhosos, sempre bem humoradas e felizes.

André Luís postou 19 de julho de 2010 21:14

Eu bem sei, dizer a verdade é a melhor forma de criar inimigos.
A verdade pode ter muitas faces, a minha verdade pode não ser a sua. Verdades absolutas são poucas. E esta é a “mais pura verdade”.

Jubarulho postou 23 de julho de 2010 17:23

Sei que estou atrasada, mas não podia deixar de postar isso... É que esse seu post me deixou muito feliz! Feliz de saber que tenho amigos de verdade!

Há umas semanas aconteceu uma coisa chata na minha turma de amigos e foi justamente por causa de umas verdades que eu tenho o hábito de dizer e, diga-se, sem nenhum tato! Digo diretamente.

Ao ver que a merda foi tamanha, escrevi no meu blog um desabafo, dizendo, inclusive, que eu estava em busca do meu silêncio, pois ainda não adquiri maturidade o suficiente pra dizer a verdade somente até certo ponto, como vc disse!

E foi aí que meus amigos me repreenderam!!! Ouvi de todos eles que a Ju que eles amam é essa que fala a verdade nua e crua, doa a quem doer!

Pô, to feliz pra caralho! Se eu tenho a minha volta pessoas que me querem como eu sou, sem me acharem grossa ou injusta, é pq realmente tenho AMIGOS.

 
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