O chato em sociedade

Postado em 16 de jul de 2010 / Por Marcus Vinicius

Você está numa festa, digamos que de casamento, quieto no seu canto, observando os decotes e os tomaras-que-não-caia - porque tem uns que é preferível que sejam colados com Super-Bonder - copo de bebida na mão e contando os minutos para que o abandono estratégico do local não seja reparado.

Só que antes de possivelmente repararem sua saída, acabam reparando a sua presença.

E o chato não faz por menos, ele age como se você fosse o único conhecido que ele tem na festa. Até criei uma teoria que especula sobre o fato dos chatos não conhecerem nem os donos da festa, só conhecem você, porque não saem do seu lado o tempo todo.

Deve existir alguma firma que alugue esses personagens. Você contrata o buffet, escolhe as toalhas de mesa, a doceira que fará as guloseimas que serão atacadas pelos convidados, o bolo, os arranjos florais, a música ambiente, enfim, tudo aquilo que compõe um casamento.

Até que os nubentes tem um estalo: esqueceram do padre, dos bem casados e dos chatos!

E lá vão eles providenciar o que faltava. E quem se ferra é você, que vai aturar o chato do seu lado a noite toda.

- E aí, como vai a família? Sua avó, como vai?

- Morreu...

- Nossa, que chato...que surpresa desagradável.

- Mas já tem 10 anos que ela morreu.

- Ahhh, faz tempo que não nos vemos mesmo, acho que desde a época em que você namorava aquela gorda...como era o nome dela?

Entendem o que eu digo? A conversa com o chato vai mal até que piore.

- Mas e aí? Ainda trabalha como advogado?

- Nada, larguei aquela vida, hoje tenho uma livraria.

- Eu sabia que isso ia acontecer! Você nunca levou muito jeito para advogado, lembro de ter comentado isso com o Júnior, lembra do Júnior? Pois é, você não se dava muito bem com ele, né? Então, ficou milionário e casou com aquela gorda que você namorava, só que agora ela ficou gostosa, tá melhor que a Larissa Riquelme. Mas quem diria, hein, você trabalhando como jornaleiro...

- Não é banca de jornal, é livraria.

- Ah é, mas tanto faz, brasileiro não lê nada mesmo...

Nesse momento você deseja que te assaltem, que te joguem algo pesado, que venham te oferecer um kit da Herbalife, qualquer coisa para se ver livre do chato.

Mas essas agruras fazem parte de viver em sociedade. Casamentos, batizados, chás de bebê, amigos-ocultos, tudo isso que nos leva de volta à aldeia, ao social, a tudo que nos difere de animais, não é? Talvez. Observe o comportamento de convidados de uma festa diante de uma mesa de bombons e repita sem rir que somos diferentes de animais.

Felizmente os noivos cortam o bolo e partem para sua noite de núpcias - aquela noite especial em que até as nossas tias sabem que vamos fazer saliências - e você pode ir embora em paz, sem fazer desfeita a ninguém.

Vira pro chato e diz:

- Bom, chegou a minha hora, preciso ir para casa regar minhas samambaias...

- Samambaia? Ainda solteirão?

- Não, separado.

- Mas não virou boiola não, né? Brincadeira! Olha, foi um prazer te encontrar, viu? Espero que a gente não fique assim tanto tempo sem se ver de novo.

- Se eu não ganho na MegaSena, porque iria passar o resto da vida sem nunca mais te ver, não é?

- Agora eu que não entendi.

- Deixa pra lá, um abraço!

E assim você acabou de garantir um pedacinho no céu. Ou não.

5 Comentários:

Isabel postou 16 de julho de 2010 11:37

Ótimo!
:)

Lisa postou 16 de julho de 2010 11:39

rsrsrs isso vale para tias chatas tb...? Sempre tem aquelas que só te veem a cada 10 anos..nossa vc como vc ta magrinha era tao fofinha....ou ao contrario ne...fora aqueles comentarios do tipo casou..?? hurgh...naos ei o que é pior..;)

Erik postou 16 de julho de 2010 11:51

Estas frases são tradicionais... e quando você não bebe e ficam te azugrinando... deixa pra lá!

Abraço
Erik Alonso

Tuka Siqueira postou 16 de julho de 2010 11:56

É verdade, chatos de festa e tias chatas são uma categoria de pessoas que surgem do nada e é difícil livrar-se deles.
Como sempre, muito divertido seu texto!!!
Abraços

Pati Georg postou 18 de julho de 2010 10:34

Cara vc é d+..

 
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