O "bom dia" do tenor

Postado em 25 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Certas pessoas são um mix de parada militar com show de fogos de artifício. Valem como uma bateria de escola de samba, uma fanfarra de colégio no interior, uma orquestra de arrotos. Elas são grandiloqüentes, contundentes, intensas e geralmente altas, no volume, que fique bem claro.

Jamais acham nada, sempre têm certeza. E são como um aparelho de som com o volume quebrado no máximo. Um simples "oi" que eles dão traz em si mais convicção do que um discurso do Fidel.

São incapazes de dizer o sabor do sorvete preferido sem que aquilo pareça um decreto ou um axioma:

- Menta é o melhor sorvete do mundo! Tenho pena de quem não prefere sorvete de menta. Aliás, pena não, tenho nojo. E aí? Vai pedir de que sabor?

- Errrr...menta?

Se têm dor de cabeça, parece que a dor foi produzida por instrumentos de tortura medieval. Sua fome é a de uns 10 somalis perdidos no deserto. Suas demonstrações de carinho fariam um filhote de cachorro desejar ser um tubarão.


Lógico que a pessoa precisa colocar alguma paixão em qualquer coisa que faça. Coisas como "eu te amo, eu acho" ou "desculpa, mas se vocês não pagarem o resgate eu mato o refém...se vocês estiverem de acordo" são igualmente estranhas. Gente que pede desculpas por tudo, que nunca sabe o que quer, que não reage mesmo quando xingam sua mãe, avó e bisavó ao mesmo tempo enchem o saco do mesmo jeito.

Mas pessoas categóricas demais parecem viver num filme.

Tipo uma dessas comédias românticas em que o cara contrata um quarteto de violinos para o café da manhã, leva a mulher para almoçar no alto do Empire State, à tarde se declara pelo sistema de som de uma ginásio de basquete e já de noite a convida para repetir tudo no dia seguinte durante um salto de pára-quedas.

Tenho uma amiga que namorou um sujeito desses. De vez em quando ele colocava um "n" no final das frases, acho que para dar mais dramaticidade:

- Tudo bem, garotoN? Como você vai? BelezaN?

Aos berros, claro. Isso quando não parava no meio da rua para se declarar:

- Já te disse que te amo muito minha namoradaN?

Acabou muito acertadamente apelidado de Pavarotti.

E pense bem: é curioso assistir um cara assim cantando ópera vestido com roupas bufantes, mas imagine ser acordado todas as manhãs por um "bom dia" daqueles.

O samba do Feng Shui doido

Postado em 20 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Geralmente começa com uma matrícula em aulas de dança do ventre, uma palestra num centro de macrobiótica ou um panfleto de um templo hare krishna.

De repente ela troca o nome pra Julia Fatula ou Sarah Madhava e pronto, é o que basta. Assim, sem mais nem menos, ela vira uma garota "zen". Pára de comer picanhas aos domingos, de beber cervejas às sextas e o sexo das tardes de sábado só rola se for voltado na direção de onde o sol de põe em Calcutá (e com a cama trocada por uma esteira).

Papos cabeça, frases desconexas, cabala-vodu-tarô-zoroastrismo.

Se você diz que está com calor, ouve como resposta algo como "o equiíbrio dos chacras transcedentais precisa estar em harmonia com a existência do arhat". E pensar que você só queria uma cerveja gelada.

Mas o problema é que não foi apenas sua reclamação sobre o tempo que gerou aquele ataque-zen, qualquer coisa que você diga recebe como resposta uma lição, uma moral da história, uma frase sobre aceitação-privação-sublimação-reinvenção de alguma coisa, desde a vontade de comer um chocolate até pisar num cocô de cachorro na rua.


Você passa a viver na companhia de um cruzamento de Paulo Coelho com Baby Consuelo.

Sem contar a transformação da casa dela numa filial do Mundo Verde. Os móveis são arrumados de acordo com o que algum livro de feng shui mandou, o que terminou colocando a mesa de jantar no banheiro social e o sofá na área de serviço, sem contar os incensos, a música indiana, as estátuas de Budas, Ganeshas, os cristais e até um boneco do Batman vestido com roupa de árabe.

Pedir um simples milk shake vira um suplício:

- Vamos tomar um milk-shake?

- Procure a resposta nas vibrações do entorno do seu bodhisattva...

- Tá, baunilha ou Ovomaltine?

- Habib, o seu eu te dirá isso na hora certa.

- Caralho, pelo menos me diz se quer grande, médio ou pequeno?

- Na verdade prefiro um suco de clorofila.

E assim coisas stress, carne vermelha, rock pesado e fast food passam a fazer quase tanta falta quanto o ar que você respira (sem controle de respiração e nem Yoga, porque você está de saco cheio disso).

Não é à toa que namorar uma economista do mercado financeiro ou uma caixa de banco fã do Iron Maiden passou a ser sua obsessão.

Se não der, que seja pelo menos uma gerente do Burger King.

O dia que gritaram "fudeu!" durante um salto de pára-quedas e não foi um acidente

Postado em 18 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

O que aconteceu com a boa e velha ilha deserta? Sério. Porque ultimamente acho que, depois da cama, esse é o lugar mais convencional que as pessoas pensam quando querem trepar ("fazer amor" é coisa de mulherzinha e homem sem pinto).

Outro dia li que um instrutor de vôo livre e ator pornô (vamos fazer de conta que esse currículo heterodoxo não é notícia por si só) foi demitido por fazer sexo com uma recepcionista durante um saldo de para quedas.

Achei que era mais um hoax, esses boatos da internet, mas não, a capa do Meia Hora (jornal de alto nível) do dia seguinte mostrou que era, sim,  true story.

E isso me levou a pensar de novo na ilha deserta e a concordar que realmente é um lugar meio sem graça para realizar conjunções carnais (falo isso mas não falo "fazer amor"). Afinal de contas, um banheiro de rodoviária, o alto de uma estátua eqüestre ou dentro do octogono do UFC (durante uma luta, é claro) é muito mais emocionante.

Não sei mais onde alguém poderia imaginar fazer saliências, mas como tenho mente fértil, pensei em algumas situações que, se analisarmos bem, nem são tão difíceis de acontecer depois que alguém pensou em transar durante um salto de pára-quedas.

No meio de uma cerimônia de casamento, por exemplo. Todo mundo sabe que a cerimônia é o tributo que a gente paga para comer de graça depois. Tirando os noivos (talvez nem eles), ninguém mais curte muito aquilo. Sendo assim, até que seria divertido se alguém resolvesse transar ali e interromper o "sim" dos noivos com um "yesssssss, baby".


Outro lugar maneiro seria no meio de uma reunião corporativa. O Power Point bombando, todo mundo babando em cima da montanha de copinhos de café em cima da mesa e você ali, pensando que a Dr. Cláudia do jurídico até que é bem gostosinha. E bem, uma coisa leva à outra e quando todos menos esperam rola um daqueles diálogos de filmes do Buttman:

- Seu cilindro de fax já está pronto?

- Sim, vou botar tudo na sua xerox.

E já que o negócio é fugir dessa coisa simplória de cama e quatro paredes, pode rolar no meio de uma passeata, durante uma visita a sua avó operada (embaixo da cama da velha), numa aula de pilates, em cima de bicicletas de Spinning, na platéia de um show do Wando (nesse caso o casal corre até o risco de ser contratado como atração fixa), num rodízio de pizzas, na fila do supermercado. Não faltam opções.

Só não pode em lugares batidos, tipo banheiro de avião. Porque convenhamos, né, banheiro de avião é quase tão sem graça quanto o quarto de casa ou uma ilha deserta.

A pantera ligou, pediu o cor-de-rosa de volta

Postado em 13 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Em algum momento, em algum lugar da sua vida, por algum motivo que você não faz a menor idéia, você a conhece.

Ela é fofa, ela é gente fina, ela tem sempre uma mensagem de otimismo para espalhar pelo mundo mesmo nas horas mais graves, está sempre penteada, escovada, empoada, pintada, pronta.

E ela é rosa. Sim, rosa.

No início você até achou aquilo meio fofo, uma capa de celular das Meninas Super Poderosas, um toque meio infantil talvez pra te mostrar que ela não deixou a criança que existe nela se perder. O toque com a música da Pantera pareceu meio over, mas pelo menos não era nada dos Los Hermanos e nem havia algo da Barbie à vista.

Até ela mexer na bolsa procurando alguma coisa e tirar um chaveiro da Hello Kitty, o que dá quase no mesmo. E de repente você começa a enxergar coisas.


As unhas são pintadas de rosa, os brincos são rosa, o batom, a sombra nos olhos, a capa do iPad e você não entende como pode não ter percebido isso antes, ela é a Elle Woods, sem ser a Reese Witherspoon, o que não é tão legal.

Mas o pior mesmo é imaginar como deve ser o quarto dela. Bichos de pelúcia, cortinas rosa e roupa de cama que parece que foi roubada do museu da Dona Beija.

Um toque mulherzinha não pega mal, afinal de contas é isso mesmo que ela é, mulher. Mas a mochila da Pucca te deu certeza que ela tem sérios problemas e que precisa de um analista. Morar com os pais aos 30 anos e referir-se ao próprio órgão sexual como "ximbinha" também contribuiram bastante para o seu diagnóstico.

Mas a gota d'água, o que te fez terminar com tudo de uma vez por todas foi aquela calcinha do Mickey.

Ainda mais porque você sempre preferiu o Pernalonga mesmo.

O chato gente boa e o chato gente ruim

Postado em 11 de out. de 2011 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Apesar de parecer tudo a mesma coisa, existem tipos diferentes de chato. Um é o chato gente boa e o outro é o chato gente ruim. Aparentemente são a mesma coisa, afinal, são chatos, mas um é pior do que o outro, acredite.

O chato gente ruim é mais fácil de se lidar, porque sua chatice é unânime. Ele olha pra bunda da sua mulher, pede dinheiro emprestado e não paga, conta piada sobre a tia doente da própria namorada, faz montagem com a foto da mulher do chefe dançando macarena na festa de fim de ano da firma.

Ele é o cara que finge que conhece aquela velhinha de 90 anos só pra furar a fila de idoso no banco, que pára o carro pra ver acidente de trânsito e ainda pergunta "é ketchup?", que constrói frases usando as expressões "sexo oral", "engasgo" e "pentelhos" durante o jantar.

O chato gente ruim chega numa festa de casamento (de penetra), entra na fila dos cumprimentos e oferece o indicador pra noiva dizendo "puxa aqui". É de bom tom não gostar dele,  falar mal dele, chega a dar status social. Você pode odiá-lo à vontade, é até incentivado a isso pelas pessoas numa rodinha de conversa.

O chato gente boa não. Ele é tão chato quanto o outro, mas é de um tipo bem pior, porque ainda por cima você se sente culpado por não gostar dele.

É aquele cara que chega te dando uma porrada nas costas e depois entrega uma lembrança que trouxe da Europa pra sua irmãzinha de 2 anos. E tudo nele é sempre assim, binário: uma encheção de saco, uma gentileza.

Ele sempre tem admiradores. Se você fala que ele é chato, logo aparece alguém pra dizer "que nada, ele é tão bonzinho". É voluntário no escotismo, corre a meia maratona e muita gente acha que ele é um cara muito "animado", o que é só o outro nome pra "chato".

Se vem andando na sua direção e você pensa "porra, detesto esse cara", ele se aproxima te dá a xerox do texto da aula que você faltou, te oferece um gole do que estiver bebendo, e fatalmente te deixando com cara de cu.

Sem contar que ainda adora mandar emails de cachorrinhos, gatinhos e coelhinhos em Power Point. Porra, como alguém vai xingar aqueles bichos filhos da puta que entopem sua caixa postal ao som de "We Are The World" sem ser chamado de insensível?

Por isso mesmo é que se você tiver opção, prefira a companhia da reencarnação de Hitler ou Stalin, do Darth Vader, de vendedores de Herbalife, de uma rodinha de violão inteira e até do chato vacilo, mas fuja do chato gente boa.

Se conseguir, é claro.
 
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