Festa de Arromba

Postado em 11 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Quando somos crianças tudo parece maior. Ao voltar à antiga casa, visitar o primeiro colégio, viajar para onde passávamos férias, percebemos que tudo encolhe depois de lavado pelo tempo.

Digo isso porque já nem sei mais se as minhas festas de aniversário eram as festas de arromba que eu lembro ou se eram apenas festinhas de criança, como qualquer outra que hoje eu levo a minha sobrinha para correr pra lá e pra cá durante algumas horas, se entupir de docinhos e voltar dormindo no banco de trás do meu carro.

Mas aquelas eram minhas festas e tenho direito de lembrar delas como bem entender. Sobra tão pouco lugar para os sonhos quando crescemos, não seria justo invadir até as lembranças de quando os sonhos deixavam pouco lugar para o resto todo.

Naquela época o "ramo de festas infantis" não era um negócio e as mães e avós passavam algum tempo antes da data preparando tudo, cortando, colando, pintando. Depois de escolhido o tema da festa, que variava entre super-heróis, carros, espaço sideral, piratas e outros ícones do imaginário infantil, o trabalho começava.

Lembro da minha avó enrolando brigadeiros e me dizendo que "festa boa sempre oferece água para os convidados, porque nem todo mundo gosta de refrigerante e jamais serve empadinhas, que deixam a pessoa com aqueles farelos espalhados pela cara".

Minha casa virava um ateliê, com isopor, papel camurça, celofane e mais o que você puder imaginar espalhados pra tudo que é lado. E os papéis, colas, purpurinas, tintas íam tomando forma de festa.

No dia, pelo menos que eu me lembre, era uma festa de arromba mesmo. Família, amigos, conhecidos e penetras, sem os quais não existe festa de verdade. Tudo isso em casa, no playground do prédio ou em algum salão de festas alugado em um clube.

Não sei quanto custava, afinal pra quem é criança tudo é de graça e só depende da vontade do pai.

Conto isso porque estava folheando uma revista na sala de espera de um consultório, quando li uma reportagem dizendo para que esquecêssemos os "chapéuzinhos de papelão", pois agora as festas infantis tem "produção de cinema" e podem custar até R$ 100 mil reais, com a média de custo em R$ 20 mil.

Uma das festas relatadas ali chegou a ter convites em formato de claquete de cinema que custaram R$ 5 mil. Imagine, um bom salário mensal só para avisar aos convidados sobre o dia de soprar as velinhas.

Nem quero imaginar o custo dessas velinhas. E assim a breguice dos casamentos emergentes atinge as festas infantis emergentes.

Mas o que me deixa curioso nessa história é que se tudo encolhe com o tempo, se depois de adultos achamos tudo menor do que era na infância, como serão os casamentos desses meninos e meninas que comemoram 1, 2, 3 aninhos em festas de R$20 mil?

Aguardem elefantes, dançarinas do ventre e quem sabe até pirâmides iguais às do Egito.

4 Comentários:

Isabel postou 11 de junho de 2010 11:06

E no fim, todas as festanças acabam ficando muito impessoais. Por isso, faço questão de eu mesma preparar as comidas e decoração da festa da minha filha. Pode não ser uma festa de arromba, mas ninguém vai ter uma igual! ;)
Beijos

Suzana postou 11 de junho de 2010 11:16

Vc tem razão, na minha época tb era tudo mais simples e a simplicidade fazia parte da graça. Hoje é tudo competição - dos pais, nao das criancas - pra ver quem gasta mais / é mais bem sucedido. Triste.
Excelenre o post! Parabéns!!!

Denise postou 11 de junho de 2010 15:21

Eu acho que cada vez mais que o tempo passa, perdemos a simplicidade da vida. Claro que os tempos são outros, e que muita coisa mudou, mas precisamos mesmo de tanta frescura pra uma festa de criança? Eu acho que muito dessas mega-festas são mais pra agradar os próprios pais do que os filhos, pra mostrar ''ó só!! a festa do meu filho foi linda!''...
Sinceramente, às vezes tenho saudades dos tempos em que as coisas eram mais simples...

Lucia Valle postou 11 de junho de 2010 16:36

Pois é, Motta! Fico curiosa em saber como serão os futuros adolescentes de R$20.000,00 por festa! Terão "problemas existenciais" igualmente proporcionais - afinal, "por que papai não me compra a lua?". E os emergentes continuam investindo em seus delírios de consumo...
@LuciaValle

 
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