Mal na Foto

Postado em 28 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Regras existem para pôr ordem em certas coisas e para serem usadas em todo o tipo de inutilidade também. É raro quem não reclame da falta de leis no Brasil, sem saber que temos leis até demais, e que o problema não é a ausência delas e sim a falta de cumprimento e a quantidade de leis inúteis.

Falo isso porque ocorreu um episódio comigo que traduz bem essa tara por regras, ainda que sejam de uma inutilidade digna de um legislador de Brasília. Fui ver uma exposição de fotografias na Caixa Cultural, no Centro do Rio de Janeiro, chamada World Press Photo, com as melhores imagens do fotojornalismo em 2009/2010 escolhidas pelos organizadores.

Como já tinha ido nessa mesma exposição ano passado, e na ocasião observei alguns fotógrafos (não eram contratados do evento, mas frequentadores mesmo) com câmeras profissionais registrando tudo, inclusive as fotografias expostas, retirei a câmera compacta que me faz companhia diária da mochila e fotografei uma moçinha de boina que admirava compenetrada uma das fotos expostas.

Era um desses belos instantes que contam uma história e desejei eternizá-lo. Fiz a fotografia e quase instantâneamente um segurança engravatado veio em minha direção dizer que era "proibido fotografar ali".

Vejam, entendo que não se possa fotografar pinturas, pois a luz do flash causa danos às cores das tintas, entendo que não se possa fotografar algo sigiloso, que possa ser copiado, entendo perfeitamente que não se possa fotografar ou filmar um espetáculo que comercializará sua imagem posteriormente, mas não poder fotografar dentro de uma exposição de fotografias que são inclusive disponibilizadas na internet me parece uma boçalidade digna de um criador randômico de regras inúteis.

Quem iria ali tirar uma foto em close e depois apresentar como se fosse sua? Uma cara-de-pau desse tamanho receberia a justa punição em um tribunal.

E como muito bem disse o fotógrafo Erico Elias "A fotografia revolucionou o panorama das artes justamente por seu potencial de reprodutibilidade(...) porque proibir que se fotografe dentro de exposições de fotografia? Porque tratar fotografias como obras de arte intocáveis e únicas, emparedadas e vigiadas? Alguns fotógrafos já exploraram a relação entre os museus e seus visitantes, caso de Elliott Erwitt e Thomas Struth. Imaginem se fossem proibidos de fotografar!".

Tive que dizer ao tal segurança que achava isso"engraçado", ele nervoso "Qual é a graça?", respondi "Ué, isso de não aceitarem câmeras fotográficas dentro de uma exposição de fotografias".

Ao que ele respondeu "Você está me chamando de engraçado?", e eu "Não, disse que isso é uma coisa engraçada, porque se estes artistas expostos aqui dependenssem da Caixa Cultural para produzir suas obras, eles não poderiam estar na Caixa Cultural expondo, porque a Caixa Cultural não permite câmeras", e ele "É uma ordem da diretoria (porque essa gente acha que a palavra "diretoria" deva assustar alguém?) estou fazendo o meu trabalho", e eu "Sim, eu sei que faz parte do seu trabalho transmitir esse tipo de regra engraçada aos outros".

Dito isto, guardei a câmera de volta na mochila e notei que o segurança chamou outros dois "parceiros" para ficarem me "observando". Incrível, porque não me neguei a guardar a câmera, não o ofendi, não continuei fotografando e, mesmo que fizesse tudo isso, ele dava uns dois de mim e me retiraria dali facilmente, mas como dizem no sul, difícil a valentia que ande sozinha e como eu digo aqui da minha casa mesmo: a ausência de um terno não dimunui um homem em nada, assim como a presença de um terno não transforma um energúmeno em homem.

Mas o despreparo de funcionários de baixo escalão no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro, a terra dos péssimos serviços, não é surpresa, surpresa mesmo continua sendo o banimento do ato de fotografar em uma exposição de fotografias, banimento este que não servirá para guardar nenhuma propriedade intelectual, já que as imagens estão disponíveis na internet (e quem vier me falar em marca d'água, eu apresento o Photoshop CS5 que remove uma em longos 2 segundos), e servirá somente para impedir a captura de novos momentos, como o que coloco abaixo, fruto do meu "crime":


A Caixa Cultural ficou mal na foto.

6 Comentários:

Isabel postou 28 de junho de 2010 05:36

A postura da Caixa Cultural é lamentável, mas o pior de tudo é o despreparo dos seguranças para lidar com o público.
Beijos

Dual postou 28 de junho de 2010 07:08

Sono arrivato qui navigando nel web..Ti lascio un salutino. Anche io amo la fotografia.
Gio'

http://remenberphoto.blogspot.com/

Luís Guilherme postou 28 de junho de 2010 09:19

O MNBA não permite fotografias, exceto das réplicas em gesso, sequer das esculturas em bronze sem flash. É completamente irracional.

A Pinacoteca em SP é muito mais liberal nesse aspecto, meu flickr (linkado) tem um monte de fotos legais de lá, tirada na frente dos seguranças :)

Flaviúska postou 28 de junho de 2010 17:05

O duro que o Brasil inteiro está assim, o que mais me intriga é que a maioria das regras podem muito bem ser modificadas dependendo de quem seja.
Eu sou muito a favor de regras, mas acontece que eu acho que elas deveriam ser iguais para todos.
Por que como dizem "vivemos em um País democrático"
COMÉDIA!!!

André Luís postou 28 de junho de 2010 17:24

A foto ficou legal! Mas será que o segurança é efetivo do local ou contratado? Partiu de quem esta ordem, ou é um caso de excesso de zelo?

Duani Lima postou 28 de junho de 2010 22:04

O há que o que funcione no país? Fotografia sendo banida em uma exposição da própria, vai chega ruma época que não poderei cantar em um show, porquê este será um direto de quem somente está no palco?
Tem tantas regras, e as mais fúteis fazem sentindo, enquanto crimes de verdade acontecem na nossa frente.
Lamentável...
Abraços.

 
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