Pequenos Mundos

Postado em 4 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Ele fica ali abandonado na prateleira, mais um dentre tantos livros. Testemunhas silenciosas da nossa preguiça de saber, até que um dia resolvemos pegá-lo e começamos a desvendar aquele enredo que estava alheio à nós, acontecendo sem parar nas suas páginas fechadas.

Um livro só acontece quando é lido? Não. Ele está ali, como a cidade em que vivemos quando crianças, que em nossa ilusão egoísta ficou parada no tempo, nos esperando voltar, mas que para nossa surpresa continuou vivendo sem que tomássemos ciência do que se passava.

Os livros também são assim. Romeu continua amando Julieta, a Segunda Guerra continua sendo travada em suas páginas dia a dia, os microcontos de Carver formam cidades e bairros vivos e enfileirados em nossa estante, os carros passam, casais fazem sexo enquanto o vizinho espiona com uma luneta, as crianças correm nos pátios dos colégios, as tempestades caem, a história acontece. Tudo ali, independente da nossa vontade, num canto da nossa sala, vivo e pulsante.

E quando finalmente abrimos suas páginas, o que fazemos é tão somente pular naquele universo em movimento, tomar parte como observador do que já acontecia. Sentimos os cheiros, nossa boca se enche d'água com os gostos, nos tornamos rivais do protagonista em sua paixão pela bela morena de olhos verdes tão ricamente detalhada, viramos amigos do velho da casa em frente, que narra a história deliciosamente.

As páginas correm depressa, nem vemos o tempo passar. Chega a lembrar a vida nesse ponto. Mas ali somos apenas turistas, observadores convidados pelo autor a viver aquele pedaço de tempo que estava na sua cabeça, secção de um todo que ele resolveu compartilhar.

Quando o fim se aproxima, quando nossa mão direita já tem poucas páginas para segurar, quase sentimos raiva dele por estar sutilmente nos avisando que nosso visto de permanência está expirando. Tentamos segurar as páginas como fazemos com os dias, na eterna luta contra o tempo, e tal qual nesta perdemos no fim e vemos que tudo passa.

Sobra a saudade dos amigos que fizemos em cada linha, da intimidade que conquistamos ali pelo segundo ou terceiro capítulo e a certeza de que tudo vai parar quando finalmente lermos as três letras na última página.

A sensação de abrir outro livro logo em seguida, de entrar em outro mundo, outro continente, cidade ou país é quase de traição. Como trocar de amigos assim tão levianamente? Mas aqueles de antes já não nos esperam, assim como a cidade de nossa infância continuou a crescer e mudar depois de nossa partida. A história continua ali, se repetindo. A vida continua ali, acontecendo.

Sobra para nós a mesma coisa que as experiências da vida nos deixam: conhecimento. A mesma sabedoria que tanto na prateleira quanto na vida, temos estranha preguiça de perseguir.

13 Comentários:

Anônimo postou 4 de junho de 2010 03:51

Parabéns!!!! Muito bacana seu texto, excelente reflexão sobre o que estamos perdendo ao negligenciar os livros.

Rosana, nas alturas... postou 4 de junho de 2010 05:02

Amei o texto; tb me sinto abandonando aquele universo q adentrei qdo comecei a leitura... acho q por isso releio tanto meus livros queridos! Muito bom!

Michele postou 4 de junho de 2010 05:12

Bom dia Marcus Vinicius! Adorei o post.

Kessy postou 4 de junho de 2010 05:16

Gostei muito do texto, você conseguiu colocar em linhas um pouco do que sinto.
Parabéns pelo texto!

Raquel rfc postou 4 de junho de 2010 05:22

Belo texto!
Tenho plena convicção de que cada livro que passa por nossa vida, interfere nela, uns mais, outros menos... Livros são vivências.

Abs
Raquel

Anônimo postou 4 de junho de 2010 05:51

Concordo com tudo o que você disse, me sinto da mesma forma, fico sempre enrolando nos finais dos livros, terminar parece abandonar mesmo.

Zingara postou 4 de junho de 2010 06:10

Lindo mesmo, estou sempre com um mundo, digo, livro na bolsa.

Anna Luiza - Mani postou 4 de junho de 2010 06:11

Amei o texto, me identifico muito... to numa transição de livros no momento e naquela fase em que o livro terminado era tão bom que parece que nenhum outro vai superá-lo, sabe?
Estou encaminhando o texto tb ok?!
Beijos,
Mani

Anônimo postou 4 de junho de 2010 06:11

Ótimo texto. Quando termino de ler um livro que gostei muito sempre espero um pouco para ler outro ou acabo não gostando do próximo porque a estória do anterior ainda está no meu pensamento. Por isso sempre prefiro as séries, da um sensação de que nunca vai acabar.

^Zk^! postou 4 de junho de 2010 06:32

Ler é um exercício, depois que vc lê, sua mente se expande, td se amplia e nunca mais volta a ser como era...Os livros tem a capacidade de nos mudar, sofremos mutações positivas, nosso vocabulário é enriquecido, nossa imaginação se torna mais fértil, assim como nossa sensibilidade...e como você disse, por preguiça as pessoas deixam de vivenciar essa experiencia maravilhosa.
Mas enfim, pro mundo de hj é mais legal ouvir créu e ser um alienado.
Azar de quem não le!
Adorei o post! tenha um bom dia

Eryck Taques postou 4 de junho de 2010 14:09
Este comentário foi removido pelo autor.
merry postou 8 de junho de 2010 11:59

Que maravilha de texto, e não é exagero dizer isso, viajei na imaginação das histórias. O que me faz lembrar que grande parte da população não vê os livros como amigos e sim como vilões, pobre deles, uns porque não tem acesso outros por ignorância mesmo.

merry postou 8 de junho de 2010 11:59
Este comentário foi removido pelo autor.
 
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