Traduções tenebrosas

Postado em 2 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Outro dia estava vendo TV e a personagem disse algo como "I´m tired of waiting for a ring and decided to give a ring myself", algo como "Cansei de esperar que me ligassem e resolvi eu mesma ligar". O tradutor, obviamente querendo enfeitar o pavão (decorate the peacock), resolveu partir do princípio que "ring" seria um "anel" (de noivado) e colocou assim na legenda "Cansei de esperar pelo príncipe encantado".

Esse tipo de tradução tenebrosa é corriqueira. Certa vez ouvia uma rádio e o locutor anunciou, todo animado, que iria tocar um "grande sucesso de Morrissey, 'Suedehead', cabeça suada".

Na verdade o termo suedehead, traduzido literalmente como "cabeça de veludo", serve para identificar quem corta o cabelo bem baixo, dando a aparência de um veludo. Mas nosso "tradutor" achou que era suor.

É difícil transportar piadas, termos e expressões de um idioma para outro. Eles às vezes são frutos de situações do cotidiano próprias de um lugar e viram algo sem pé nem cabeça se traduzidos. Existe um livro muito engraçado chamado "The Cow Went To The Swamp" (A Vaca Foi Pro Brejo), do Millôr Fernandes, que faz uma brincadeira com essas situações, como dizer que "rodar a baiana" se transformaria numa incompreensível e engraçadíssima tradução como "To whirl the old woman from Bahia".

Mas de certo modo o contrário também acontece. Existem letras de músicas que soam maravilhosas em inglês, mas se traduzidas para o português se tornam verdadeiros monumentos ao horror. Eu acho que rock'n'roll por exemplo foi inventado para ser cantado em inglês, assim como rap. Até gosto de músicas nesses estilos em outros idiomas, algumas até não saem do meu iPod, mas quando compostas e cantadas em inglês parece que "combinam" mais.

Tomemos como exemplo outro grande sucesso de Morrissey, desta vez com os Smiths, "The Boy With The Thorn In His Side", que traduzido literalmente vira um ridículo "O Garoto Com o Espinho em seu Flanco", o que com algum trabalho de interpretação vira "O Garoto Eternamente Atormentado". O sentido fica melhor, agora tente cantar isso...

Imagine o Sting cantando no The Police (A Polícia) um refrão repetitivo como "Mensagem na Garrafa...Mensagem na Garrafa...". Eu acho um desastre.

Conheço algumas músicas de sucesso em outros idiomas que, se traduzidas para o português, só serviriam para serem cantadas por grupos de pagode-cornudo ou por esses artistas que vendem CDs em barraquinhas de rodoviária.

Mas a sonoridade e muitas vezes a benção de não entender o que é dito ali fazem com que nos concentremos na melodia e aí a música cai bem. Só fico na dúvida se nos seus países de origem todo mundo é meio brega, se as referências culturais são tão diferentes a ponto daquilo tudo ser aceitável ou se eles são o equivalente aos "cantores populares" daqui.

Nem vou falar de nomes de filmes, que os distribuidores nacionais parecem ter compromisso em tornar algo totalmente diferente do contexto original. Isso chega a ser assunto para um outro post.

Ainda assim Sebastian é melhor do que Sebastião. Assim como pedir uma t-bone steak é mais simpático do que bisteca (que parece biscate). Outras coisas nem ousamos traduzir como milk-shake, frozen yogurt e mouse.

Nossos primos portugueses não tem tanto pudor e chamam o periférico de "rato" mesmo. Mas eles não são parâmetro já que traduzem até nomes próprios, como o da rainha Elizabeth II, que em Portugal é chamada de "rainha Isabel" e seu filho e herdeiro de "príncipe Carlos".

Creio que o melhor é um meio termo entre o bom gosto e a identidade cultural do país. Não precisamos ser tão radicais a ponto de chamar download de "descarga", mas também não precisamos ser uma Barra da Tijuca, onde as pessoas compram remédio na drugstore, carnes na butchery, tomam café numa bakery e chamam até rosquinha de polvilho de donut.

Porque se for desse jeito eu acabo mudando o nome do blog para Against the Flow.

2 Comentários:

Gabriela postou 2 de junho de 2010 10:21

Olá Marcus, sou sua seguidora no twitter ( gabsmendez ).
Resolvi dar uma passadinha por aqui hoje, já estou te seguindo pelo blogspot, quando der, apareça também no meu blog!

ahahaha que post ótimo! Não me conformo com nomes de filmes traduzidos para o português...chega a ser piada. Isso me lembrou da prova de idioma que farei em setembro para o mestrado, dizem que é super complicado por causa dessas "gírias" mais técnicas que temos que se desdobrar para saber...complicado!

um abraço

Isabel postou 2 de junho de 2010 10:47

Concordo que o melhor do rock é feito em inglês, apesar de ter ótimas músicas do estilo em português e outros idiomas. Acredito que quando se cria um estilo, pensa-se em uma sonoridade agradável para aquela língua. Da mesma forma, acho que espanhol não combina com rock (todos que eu ouvi soaram como uma piada), mas cai bem num tango. Ópera fica muito melhor em italiano do que em qualquer outra língua. Samba já ouvi até em japonês e te garanto que não vale a pena conhecer. E por aí vai. Mas nada contra ousar e misturar estilos e idiomas. Muitas vezes surgem surpresas agradáveis.
Beijos!

 
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