Ópio do Povo

Postado em 27 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, mora em uma rua de um mal servido subúrbio do Rio de Janeiro, mas que poderia ser de São Paulo, de Salvador ou do Recife. João, que poderia ser José ou Chico, é casado com Joana, que poderia ser Maria ou Josefa e, juntos, eles têm cinco filhos, que poderiam ser quatro, assim como poderiam ser seis ou, quem sabe, dez.

E assim João, que poderia ter qualquer outro nome, acorda de manhã bem cedo para pegar um ônibus lotado, que daria no mesmo se fosse um trem lotado ou uma lotação ilegal e lotada, para chegar na hora no colégio particular onde trabalha como faxineiro, um colégio desses que os filhos dos ricos estudam e os quatro ou cinco ou dez filhos de João, José ou Chico jamais poderiam estudar.

Ele não acha esse o melhor trabalho do mundo, mas o que mais ele poderia fazer? Poderia ser pedreiro, poderia ser servente, poderia ser office-boy, poderia ser frentista de algum posto de gasolina, poderia ser balconista de padaria, lavar carros, aparar grama, porteiro não poderia ser, porque não sabe ler e nem escrever muito bem. Gari também não poderia, porque exige segundo grau completo e João só estudou até a quarta-série.

Só não poderia virar bandido, porque isso ele não queria ser. Não porque se achasse muito melhor do que eles, mas porque sabia que seria preso. Sabia também que no Brasil é gente como ele que acaba morto ou na cadeia e, sabe como é, ele tinha cinco filhos para criar. Não é tanta coisa como dez filhos, mas já dava um trabalho danado, um trabalho quase tão grande quanto se fossem seis.

Aliás, João está preocupado por conta disso. É que Joana, que poderia ser Maria ou Josefa, acha que está grávida outra vez. Não é que não goste de ser pai, pelo contrário, é uma das poucas alegrias verdadeiras que tem na vida, mas é que criar cinco já é uma complicação.

Ainda mais porque o posto de saúde quase nunca tem médico disponível e, quando tem médicos não tem remédios, quando tem remédios não tem enfermeiros, quando tem enfermeiros não tem como fazer exames e, se por algum milagre, um dia tiver médicos, remédios, enfermeiros e exames, estará tão lotado que João terá que esperar tanto que, quando finalmente chegar sua vez de ser atendido, quer dizer, a vez de Joana, alguma coisa já estará em falta de novo.

Essa preocupação está acabando com o dia de João, mas ele não se desespera muito porque sabe que se não fosse a gravidez de Joana, seria a bronquite do filho mais velho ou quem sabe a greve na escola do mais novo, ou então o preço do feijão, da passagem, o vale que terá que pagar no final do mês ou o carnê de prestações que usou para comprar um aparelho de TV, para assistir o futebol no Domingo e para Joana ver as novelas durante a semana.

Vida de João não existe sem preocupação, pensava ele quase rindo da rima criada quase sem querer.

Mas neste mês especialmente João tinha uma outra preocupação, maior do que todas as outras. Este era um mês diferente, porque é um mês que só acontece muito de vez em quando, de quatro em quatro anos. João queria chegar logo em casa, porque junto com os amigos da rua iria enfeitar o lugar onde moravam com bandeirolas verdes e amarelas, pintar o asfalto esburacado com caricaturas de jogadores da Seleção e combinar o churrasco que fariam no dia do jogo de estréia na Copa do Mundo.

Acordar de madrugada naquele mal servido subúrbio, pegar o ônibus lotado para trabalhar como faxineiro numa escola que, se pudesse ter freqüentado, jamais teria que ser faxineiro, a incerteza da chegada de mais um membro da família que ele terá que amparar sozinho, já que ninguém mais parece ligar para eles, os preços, a vida, nada disso tinha importância naquele momento, o que importava agora era enfeitar sua rua, se reunir com os amigos, assistir a Seleção.

O que importava agora era que o técnico não deixasse o craque de fora, escalasse o time com a ofensividade e a arte que se espera do futebol brasileiro e que, no fim daquelas sete partidas de Copa do Mundo, o Brasil pudesse sair campeão mais uma vez.

Aí João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, poderá encher o peito de ar e gritar a plenos pulmões: eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!

Não sei com que orgulho, não sei com que amor.

7 Comentários:

mariana postou 27 de junho de 2010 07:22

e é só por isso que eu ainda torço pra Seleção do Dunga ser campeã... só por isso.

Anônimo postou 27 de junho de 2010 08:32

Não tem nem o que falar, né? É só esperar que não se fechem mais os olhos como se fecham hoje.

Anônimo postou 27 de junho de 2010 14:54

Talvez se as pessoas se preocupassem mais com o dia a dia, como se preocupam com a seleção, não teríamos tantos problemas como temos hoje, principalmente na política . O brasileiro precisa é acordar pra realidade!

Denise postou 27 de junho de 2010 15:50

Esse é o 'patriotismo' da maioria dos brasileiros. Votam em qq um que dê dentaduras, se aproveitam do jeitinho brasileiro pra conseguir vantagem, vivem na merda, mas chega a copa, vira patriota. Mas não é patriota na hora de votar, de reivindicar seus direitos.. É..

Jubarulho postou 27 de junho de 2010 19:05

Eu sempre disse isso (ópio) do Carnaval, mas coube muito bem aqui!

E o dinheiro que se gastará com a Copa aqui? Ou com as Olimpíadas? E o que foi gasto com o Pan?

Ah! Esqueci! Já está tudo resolvido aqui no nosso país... Uma vez cumprida a obrigação, agora é hora de diversão!

André Luís postou 27 de junho de 2010 20:44

Clap, clap, clap... Viva João , ou Zé, ou Chico. Vivem na merda sim, a merda dos burgueses, que os empurrou para o fim do mundo, para o buraco da periferia, para deles se servirem, e a eles olharem com desdem, por cima, com nojo. Eles comem mal, bebem muito, votam mal sim, pois assim foram treinados. Neste admirável mundo de lixo, prepotentes arrogantes, sangue sugas e lesados morais, do João, Zés e Chicos se servem, como varejeiras na carne podre.

Anônimo postou 28 de junho de 2010 08:38

Parabéns pelo texto!
Essa é a realidade de 150 milhões de cabeças-de-gado que integram o grande rebanho brasileiro, guiados pelo berrante de Galvão Bueno!

 
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