Máquina de escrever

Postado em 7 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Se logo de manhã cedo é a hora do sono, o meio dia a hora da fome, a noite é dos amantes e a madrugada dos insones, o meio da tarde é a hora do tédio. A menos que você esteja de férias e todas as horas sejam de anti-rotina. A pessoa simplesmente de férias é alguém com tempo demais para fazer coisas de menos. Mas aquele que viaja nas férias vai pairar sobre a rotina dos outros achando aquilo tudo divertidíssimo.

Quado viramos adultos, não sentimos saudade do tempo de colégio por causa das aulas de matemática, das explicações do professor de geometria ou de conjugar verbos. Nossa saudade é da hora do recreio e de dois períodos de férias por ano, que batem facilmente a hora do almoço com seus restaurantes a quilo e 15 dias de férias tiradas e outros 15 dias vendidos.

Aliás, deveriam criar uma lei contra vender férias ou então legalizar de uma vez a venda de rins, pulmões e até da alma pro diabo.

Mas voltando ao assunto principal: o tédio vespertino de qualquer escritório que não seja o da National Geographic. Muita gente assiste filmes no computador, outros passam o tempo lendo jornal, enrolam e fingem que estão ocupados e, pasme, existe até quem realmente trabalhe.

Alguns, como eu, começam a procurar coisas para comprar. Seja uma promoção de uma loja virtual qualquer, uma livraria queimando estoque ou os peculiares sites de leilão, o meio da tarde é um molestador de cartões de crédito.



E numa dessas andanças achei uma máquina de escrever Remington, daquelas que viram uma mala, em perfeito estado. A tentação estava incontrolável e na hora pensei: é isso que falta para que eu me torne um bom escritor! Estranha mania de atribuir a objetos uma capacidade de nos conferir qualidades exclusivamente humanas.

Mas quando me preparava para comprar a belezura, um elemento estranho à maioria dos ato de consumo apareceu de surpresa: o raciocínio. Como é que eu iria transferir o que fizesse ali para um arquivo digital? Afinal de contas, até para imprimir algo hoje em dia precisamos do arquivo eletrônico.

Nesses tempos modernos, a porta USB é tão imprescindível para a arte quanto o papel e a caneta, o violão, o piano e até a inspiração.

Eu ficaria cheio de páginas e mais páginas repletas das minhas divagações, loucuras, conjecturas e sarcasmos calculados e não poderia despejá-las praticamente em ninguém. Ficariam ali, presas naquelas folhas, formando uma enchente de idéias no meu quarto e terminariam por me afogar.

Não pude deixar de admirar ainda mais os velhos escritores, que tinham que fazer várias cópias do seu trabalho e entregar em mãos, na arena romana do olho no olho, ou então depender dos correios para que chegassem aos editores e depois depender dos editores para chegar às livrarias e, finalmente, destas para chegar aos leitores. Eram verdadeiros heróis, ainda que só quisessem ser lidos.

Cheio de admiração por eles, desisti de comprar a Remington e continuar escravo da tecnologia. Não quero ser herói, quero apenas que me leiam.

5 Comentários:

Tarcisio postou 7 de junho de 2010 09:00

Eu tive uma Olivetti Lettera 82 que virava maleta. Muito show. Saudade daquela época. Lembro de um texto que falava de uma criança de hoje que descobria nas velharias dos pais uma máquina de escrever "legal, ela imprime enquanto digitamos!", rsrs. Bom texto.

SukaTsu postou 7 de junho de 2010 09:50

Muitas máquinas de escrever passaram pela minha vida e a maioria me deixou de herança memórias afetivas.
Até pouco tempo atrás tentei restaurar a última delas, de uso particular do meu pai, mas morar no interior tem seus percalços: todos os técnicos que eu consultei alegaram não existirem mais as peças necessárias para a reposição.
E é muito interessante ver que nossos filhos se surpreendem com as "velharias tecnológicas" de apenas alguns anos atrás.
Nessas horas me sinto arcaica, mas essa sensação só dura até eu me lembrar da poesia daqueles tempos e tudo se transforma em saudade.
Delícia de texto. Bjks.

Isabel postou 7 de junho de 2010 10:07

Isso me fez lembrar da cara de estranhamento da minha filha ao ver pela primeira vez um disquete. Estava usando no colégio como sucata e nem sabia o que era, até eu explicar. :)

Twittuka postou 7 de junho de 2010 10:47

Um vez levei minha filha, acho que com uns oito anos, ao escritório e na falta de algo melhor para fazer, lhe dei uma folha de papel e uma máquina de escrever. Ela achou a experiência muito divertida até que me perguntou como é que ela fazia para apagar o que tinha feito de errado....

merry postou 8 de junho de 2010 09:31

Como o Tarcisio também tive uma máquina que virava maleta e tempos depois dei de cara com uma que tinha a fita que apagava, imaginem, achei aquilo o máximo.
Mas digam o que for prefiro a modernidade.

 
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