A Festa

Postado em 21 de jun de 2010 / Por Marcus Vinicius

Aquele dia começara com o zumbido do ventilador no seu ouvido que nem uma turbina de avião.

Estava no máximo e ainda assim soprava um ar quente que não aliviava em nada aquele calor de início de verão. Como sempre, desfalecera ao invés de dormir. Estendeu a noite enquanto pode até que o sono veio cobrar sua dívida sequestrando-o para mais uma jornada de sonhos, meios-pesadelos e algumas viagens astrais.

Coisas do Rio de Janeiro, afinal, um dia que começara com esse sol saariano estava se transformando numa tempestade dessas quase bíblicas, que não deixava de causar alguma alegria, afinal, traria consigo algum refresco daquele calor quase insuportável. O verão sempre foi algo bem vindo quando passava toda a sua duração sob os auspícios dos ventos cabofrienses, mas agora que por força de sua maturidade(?) precisava ficar no Rio durante quase todo o seu período, entendeu de uma vez por todas que possui um gene de pinguim.

Hoje este espetáculo de cores, cangas, shorts, biquinis, pulseirinhas e badulaques amarrados e expostos nas meninas que desfilam pelas ruas do Rio traz esse sentimento dicotômico de amor pelo que vê e pavor pelo que sente, ou seja, muito calor.

E como não poderia deixar de ser aquela chuva que lavava a Rua Maria Quitéria e obrigava todos a se espremerem no exíguo espaço do Bar Empório devolveu o sorriso ao seu rosto. Mas ao que pese o alívio do clima, aquilo ali estava chato de doer e resolveu, junto com seus amigos, atirarem-se ao difícil trabalho de encontrar, nesta cidade que vive quase exclusivamente do dia, algo que fazer nesta noite de véspera de feriado.


Nem teve muito tempo de pensar e já se encontrava no meio do barulho quase cacofônico das pistas esfumaçadas da Casa da Matriz. Esse lugar aliás é o resumo perfeito de tudo que ama e odeia: musica boa e musica ruim; bebidas transadas e bêbados, e de algumas coisas que venera, como todas aquelas meninas de roupas moderninhas e penteados estranhos(e lindos) ou de vestidinhos pretos diminutos, as patys rockeiras. Não sabe verdadeiramente o que é mais agradável ao olhar e menos ainda o que é mais perfeito de tocar. Só tem a ligeira impressão que umas preferem o amor enquanto outras querem apenas diversão.

Ficou ali encostado, bebendo uma cerveja enquando saboreava aos goles o olhar de uma menina linda(e infelizmente acompanhada) que sabe-se lá porque resolveu dispensar-lhe aquela atenção gostosa, distante e bruxelante.

Mas como não seria a pessoa que é se flashes do passado e do presente não fluíssem em sua cabeça, tal como as notas dos milhares de rockzinhos indie que faziam as caixas de som e os corpos tremerem num ritmo curioso, começou a pensar na vida ali naquela pista onde era difícil ouvir até o próprio pensamento. Talvez a fumaça da maconha da turma do lado tenha ajudado um pouco essa sua viagem, quem sabe.

O fato é que não conseguiu deixar de lembrar o que acontecia 10 anos atrás (ou até talvez mais), quando começou a frequentar este mesmo tipo de lugar, que sempre fez muito mais a sua cabeça do que aquelas boates de mauricinhos e patricinhas engomados, penteados, perfumados, chatos e mal-educados. Tantas boates diferentes que surgiram e sumiram, tantos nomes escolhidos ou não a dedo para soarem "alternativos e mudernos", mas que não deixaram de fazer história, a sua e a de muita gente que pode viver feliz vendo o início e o fim de muita coisa que foi moda, que passou e algumas que até voltaram.

E não é que ali, naquela véspera de feriado na Casa da Matriz, estava mais uma vez vendo aquele monte de gente que curiosamente, e a despeito de a cada ano ele ficar mais velho, parecia que tinham a mesma idade?! Como sentir como se fosse um ancião com apenas 30 e poucos anos? Simples: tente fazer o que fazia aos 20.

Viu que a juventude é algo que deve ser vivido com a urgência e a reverência de um tempo bom que acaba na mesma velocidade com que eles acendem a luz de uma pista às 6, 7 horas da manhã e pedem "gentilmente" que você se retire da boate.

No fundo a vida é isso mesmo, é experimentar mais, estar feliz só de estar em algum lugar e ver pessoas, ouvir sons, experimentar sensações. Falar, ouvir, beijar, amar, gelar e arder. Isso é viver afinal. E isso é o que o tempo tenta tirar enquanto nos presenteia com a experiência.

E aquela música, aquelas pessoas e até o cheiro da fumaça fizeram muito bem a ele. Diversão mesmo é a eterna tarefa de fazer com que a festa nunca termine. Ela pode até mudar de endereço, pode até mudar a lista de convidados, mas desde que você esteja disposto a vivê-la, ela está ali de braços abertos te esperando. Freepass, Open Bar e tudo.

4 Comentários:

HUDSON HENRIQUE SCHMIDT postou 21 de junho de 2010 09:47

Tenso sei como é, tenho quase 26 anos me sinto como um senhor de 40, acabaram-se as festas, não saio mais agora só observo o tempo passar.

zambof5 postou 21 de junho de 2010 09:54

grande evolução palavreada. Tô exatamente nesse ponto da vida, porém com 20epoucos...
Oq é a vida, senão estar rindo bebendo e acordado nas madrugadas? sempre, sempre, quase sempre em busca de prazer e sexo.

Aline Punk Rock postou 21 de junho de 2010 09:58

Esse texto me transportou para as noites em que - apesar da idade, vida atribulada, responsabilidades - ainda fujo para algum barzinho para curtir um rock nas madrugadas, para me sentir viva.

TARDE postou 22 de junho de 2010 04:48

Quack! Pois é... muito bom seu texto. Pedro Nava já dizia que a "experiência é um automóvel com o farol virado para trás".
E se vc quiser que este farol ilumine alguma coisa, trate de viver o agora.

 
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